OS TEMPOS QUE CORREM. Miguel Vale de Almeida


9.2.05  

Fare il portoghese.

A origem e significado da célebre frase popular italiana estão muito bem explicados no Semiramis. Embora designe os "borlistas" italianos, a referência portuguesa da frase torna-a aplicável a "nós" (detesto este "nós", mas enfim...). Sobretudo no plano da política e da relação dos cidadãos com o sistema político-partidário. Andamos à borla de quem nos dá borlas, os partidos do "arco do governo", PSD, PS e PP (sim, Paulo Portas tem razão mas não pelas razões que ele diz).

Será que entre nós a crise da relação cidadão-política vai dar numa "solução" à italiana, com a reorganização dos partidos? Não creio. Um sistema borlista não se coaduna com esse radicalismo. No sistema borlista vai-se mantendo o mesmo, reciclando quer o pessoal político, quer o tipo de borlas que se promete e o tipo de borlas que se pede. A reciclagem já começou, com a tomada do PSD pelo Berlusconi do burgo. Pode acontecer no PS a todo o momento.

Em Portugal, o sistema borlista definhará lentamente. Os cidadãos que não se reconhecem no sistema votarão cada vez mais nos partidos que consigam demonstrar estar fora do... sistema. Já nestas eleições, o PP subirá, porque conseguiu fingir que não está no sistema; o PCP aguentar-se-á, porque se mostra coerente consigo próprio; o BE subirá, porque vigia e critica atentamente o sistema.

Mas tudo isto será o arrastar penoso para a morte de um sistema moribundo. Até que haja uma clara oferta de partidos alinhados por opções ideológicas (sim, a ideologia não só importa, como não é um bicho de sete cabeças, como não morreu): conservadores, liberais, social-democratas e radicais de esquerda. Em vez da choldra de partidos desideologizados, onde as facções e tendências têm nomes de pessoas e não de ideias, programas ou referências históricas.

Só que um sistema assim dificilmente dará borlas ou viverá delas. Estaremos condenados a fare il portoghese?

mva | 13:08|