OS TEMPOS QUE CORREM. Miguel Vale de Almeida


6.1.05  

Teoria Tété.

Pacheco Pereira, no Público de hoje, argumenta sobre a pertinência ou não de voltar a valorizar o Ocidente enquanto civilização, criticando um tipo de relativismo e de autoculpabilização que tem vindo a fazer escola desde, pelo menos, o último quartel do século vinte. Tal movimento seria necessário pelo facto de o novo tipo de terrorismo global ser um terrorismo contra a civilização (ocidental) e não contra regimes ou situações concretas. O relativismo teria, de certo modo, aberto o caminho a estas manifestações extremas - depreende-se.

Não deitaria fora estes argumentos e preocupações. Há, de facto, aspectos errados (alguns até caricatos) naquilo que difusamente se chama a crítica do eurocentrismo, o elogio do multiculturalismo ou, simplesmente, o "relativismo". Mas, como em tudo, há graus. Os estudantes de antropologia que tenham "apanhado" com um professor sério, sabem a distinção entre relativismo cultural e relativismo moral. O primeiro é de cariz metodológico apenas, e o segundo não decorre do primeiro. Além disso, é perfeitamente possível - e desejável - fazer a crítica da expansão capitalista e colonial euro-americana, ter uma postura de relativismo cultural e combater os fundamentalismos, quer os que redundam em terrorismo, quer os que se mascaram de "regresso aos valores ocidentais".

Por uma estranha coincidência, ao lado do artigo de Pacheco Pereira foi publicado um de Alexandra Tété. A ilustre militante da "vida" mete num mesmo saco todas as questões de política sexual, da família, etc., que não lhe agradam e acusa a esquerda dos pecados da "desconstrução" e, subentende-se, do relativismo moral. "Argumentos" à Tété podem ser a consequência de um discurso de "recuperação" do(s) valor(es) "Ocidentais". Se as ideias de Tété se tornassem política (algumas, infelizmente, não precisam tornar-se, pois já são) as nossas liberdades estariam tão postas em causa quanto se vivessemos debaixo de um regime fundamentalista de outra confissão religiosa.

Mesmo que discorde, o argumento de Pacheco Pereira é sério e ele não navega em águas maniqueístas. Mas quando se popularizar o anti-relativismo e o pró-ocidentalismo, a consequência pode ser (como se percebe estar proposto no texto de Tété), o retrocesso nas conquistas sociais e políticas da própria modernidade (que, tendo começado na "civilização ocidental", não é apanágio dela).

Depois da teoria crítica, da teoria da prática, da teoria queer e de tantas outras, ainda vamos ter como alternativa a teoria tété?

mva | 11:54|