OS TEMPOS QUE CORREM. Miguel Vale de Almeida


27.1.05  

A tensão.

A tensão a que Pacheco Pereira se refere hoje é bem ilustrada pelas bolas vermelhas que alguém anda a colocar sobre o nariz nas fotos dos candidatos. Ou pelas notícias que vão chegando de pessoas que estão a ponto de votar nulo (supostamente como forma de expressar descrédito no sistema, sem desistir da democracia). Ou, ainda, nos números ontem avançados no Público, referindo que mais de 80% dos jovens não tem qualquer participação cívica ou associativa.

Não se trata, entre nós, de um doce abandono democrático, supostamente típico de países avançados e com democracias sólidas (aliás, nesses países, como os escandinavos, a participação cívica é bem maior...). Nem, obviamente, de uma situação de ditadura, onde a participação eleitoral e cívica é reprimida. Trata-se, uma vez mais, de uma situação de democratização manca, e de modernização manca.

Num contexto destes, não há provavelmente estratégia pior do que a da pequena revolta secreta e íntima, feita do discurso do "eles são todos iguais" ou de decisões de abstenção e mesmo voto nulo. É preciso separar vários trigos de vários joios e, sobretudo, identificar responsabilidades directas. É preciso não esquecer que há o quadro geral (Portugal como democracia e modernidade mancas) e o contexto próximo. Quanto ao primeiro, o trabalho de mudança é necessariamente lento; quanto ao segundo, não custa muito identificar as responsabilidades: meses atrás estávamos muitos e muitas exigindo eleições face à indigitação de Santana Lopes para primeiro-ministro e à sua dependência de Paulo Portas.

O primeiro gesto de revolta e de saneamento do sistema é votar claramente contra aquela dupla (agora bicho com duas cabeças; mas adivinha-se-lhes o corpo comum), identificando os responsáveis directos pela desgraça próxima. O sistema, esse, muda mais lentamente.

mva | 11:00|