OS TEMPOS QUE CORREM. Miguel Vale de Almeida


26.11.04  

O "poder".

Tenho, como milhões de pessoas, um problema de toxicodependência. A substância de que sou dependente chama-se nicotina. A grande diferença em relação a outras drogas é que consumo nicotina através de um produto chamado tabaco. Por um lado, trata-se duma droga legal. Por outro, o método de toma - o cigarro - é perigoso para a saúde também devido a um conjunto de ingredientes não relacionados com a substância que provoca a dependência (é assim como injectar com uma agulha usada). Não é muito inteligente da minha parte (não é nada inteligente...) continuar a consumir tabaco. Mas a dependência é muito difícil de ultrapassar - e mesmo se um dia conseguir fazê-lo, direi para sempre, qual frequentador da AA, que "sou fumador mas não fumo há x dias".

Nas suas tentativas toscas e hipócritas de diminuir o consumo de tabaco, decidiram os governos europeus transformar os maços de tabaco em autênticos obituários avant la lettre. A questão que se coloca é se os avisos são cientificamente correctos - e, portanto, socialmente justos. Sempre me pareceu que dizer "Fumar mata" cai na categoria de publicidade enganosa. Sempre me pareceu que seria mais rigoroso dizer "Fumar pode matar". O argumento contrário a esta posição diz que, se assim fosse, ninguém se assustaria. Eis senão quando ontem, num jantar com uma amiga vinda de Barcelona, os nossos maços ficam casual e ibericamente lado a lado:



Portanto: quem tem uma relação mais honesta com os cidadãos-consumidores-potenciais toxicodependentes?

PS: Curiosa foi a histeria recente em torno da presença de pesticidas nalgumas marcas de cigarros. Os pesticidas foram apresentados como "cancerígenos". As autoridades trataram logo de retirar o produto do mercado. Denunciar, como quem descobre a pólvora, um produto cancerígeno num produto que já é cancerígeno é um interessante exemplo dos complicados mecanismos da mente humana...

mva | 10:26|