26.11.04
O "poder".
Tenho, como milhões de pessoas, um problema de toxicodependência. A substância de que sou dependente chama-se nicotina. A grande diferença em relação a outras drogas é que consumo nicotina através de um produto chamado tabaco. Por um lado, trata-se duma droga legal. Por outro, o método de toma - o cigarro - é perigoso para a saúde também devido a um conjunto de ingredientes não relacionados com a substância que provoca a dependência (é assim como injectar com uma agulha usada). Não é muito inteligente da minha parte (não é nada inteligente...) continuar a consumir tabaco. Mas a dependência é muito difícil de ultrapassar - e mesmo se um dia conseguir fazê-lo, direi para sempre, qual frequentador da AA, que "sou fumador mas não fumo há x dias".
Nas suas tentativas toscas e hipócritas de diminuir o consumo de tabaco, decidiram os governos europeus transformar os maços de tabaco em autênticos obituários avant la lettre. A questão que se coloca é se os avisos são cientificamente correctos - e, portanto, socialmente justos. Sempre me pareceu que dizer "Fumar mata" cai na categoria de publicidade enganosa. Sempre me pareceu que seria mais rigoroso dizer "Fumar pode matar". O argumento contrário a esta posição diz que, se assim fosse, ninguém se assustaria. Eis senão quando ontem, num jantar com uma amiga vinda de Barcelona, os nossos maços ficam casual e ibericamente lado a lado:
Portanto: quem tem uma relação mais honesta com os cidadãos-consumidores-potenciais toxicodependentes?
PS: Curiosa foi a histeria recente em torno da presença de pesticidas nalgumas marcas de cigarros. Os pesticidas foram apresentados como "cancerígenos". As autoridades trataram logo de retirar o produto do mercado. Denunciar, como quem descobre a pólvora, um produto cancerígeno num produto que já é cancerígeno é um interessante exemplo dos complicados mecanismos da mente humana...
mva |
10:26| 
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