OS TEMPOS QUE CORREM. Miguel Vale de Almeida


17.9.04  



«Arrogância moral»: um dos tópicos do discurso da contemporânea direita é acusar a esquerda (sobretudo a que assusta, como o Bloco, ou algum movimento social identitário) de "arrogância moral". Significa isto que eles acham que os esquerdistas são uns moralistas, que exigem dos outros o que não exigem de si, etc. Não está muito longe da diabolização do "politicamente correcto". É uma forma de dizer que não é preciso haver regras nem estatutos que protejam os direitos, porque as pessoas resolvem os problemas na base da boa educação, do bom senso, da boa vontade, da tolerância e, eventualmente, da misericórdia/caridade. Mas, no fundo, no fundo, é uma belíssima maneira de dizer que se quer manter o status quo: fazer o contrário do que se diz e defende, manter o "charme discreto da burguesia", recodificar a hipocrisia como defesa da vida privada, mostrar-se mais "solto" do que aqueles que nos acusam de sermos demasiado straight (no outro sentido da palavra...). Obedecer aos preceitos rituais de um qualquer código oriundo da igreja, de classe ou dos bons costumes não é considerado "arrogância moral", mas puro e simples realismo e espírito prático.

Última ocorrência: No Parlamento, um deputado do CDS acusou a esquerda, a propósito das posições sobre o aborto, de "arrogância moral".

PS: Este é o primeiro de uma série (espero...) de posts sobre o discurso da nebulosa a que se convenciona chamar "a direita". A sua linguagem tem recursos retóricos muito interessantes de descodificar. Um deles é justamente o que a expressão acima contém: usar uma expressão de acusação aparentemente liberal/radical ("arrogância moral", algo que se diria a um padre empedernido) para acusar os outros da coisa mesma que nós praticamos.

mva | 19:13|