OS TEMPOS QUE CORREM. Miguel Vale de Almeida


27.12.03  

Yes, massa.



O meu amigo Rui tinha-me avisado que não valia a pena ver "Master and Commander". Aparentemente era aborrecido, as personagens não teriam profundidade psicológica, etc. Talvez por "ir preparado para não gostar", o filme surpreendeu-me positivamente. Não oferece nada de fabuloso, mas o que oferece fá-lo bem e honestamente: mais uma instância da metáfora do barco como microcosmo social. A minha relação com os filmes é muito pouco cinéfila, e mais "social" (ossos do ofício). Por isso gostei de ver aquela representação (sem preocupações quer de aceitação quer de denúncia) das relações sociais hierarquizadas - sobretudo entre Estados (Inglaterra contra França, guerra, patriotismo), entre classes (os marinheiros de baixa extracção e os oficiais das elites), entre profissões (o militar contra o cientista). Mas o mais interessante são as que invertem expectativas, ou as mais ocultas, ou mesmo as invisíveis. Em primeiro lugar, a idade: o filme retrata bem como o critério etário é coisa recente. Naquela época a classe sobrepunha-se à idade, o que permite que um miúdo adolescente tenha ascendência sobre homens feitos (e diz-nos muito sobre as sacralização das crianças nos nossos dias...). Em segundo lugar, a criação de bodes expiatórios, na figura do jovem oficial inseguro da sua autoridade e que, por isso, é construído pela tripulação como tendo malapata e sendo a origem de todos os males. Em terceiro lugar, a ausência completa de mulheres. Neste caso, o filme tem uma ambiguidade que faz pensar: por um lado, não podemos (não posso) deixar de pensar na invisibilidade da homossexualidade neste retrato; mas, por outro, o filme mostra bem como as ditas regras hierárquicas, no barco como na sociedade (sobretudo naquela época) são masculinizadas. Este princípio é deliciosamente quebrado em momentos de pontuação da história: quando o comandante e o médico se dedicam a tocar música: aí suspendem a guerra, a competição, o rank, o patriotismo, e entram no mundo da emoção. A não ser, é claro, que a música os transportasse para um salão da aristocracia da época.

mva | 17:51|