OS TEMPOS QUE CORREM. Miguel Vale de Almeida


28.9.03  

Marcha branca

Não estive cá quando foi a marcha branca. Mas não teria ido. Vejo agora nos jornais que não se referiu a presença de várias organizações lgbt. Concordo que os meus amigos e amigas tenham ido marcar presença e posição. Mas eu não conseguiria engolir uma manifestação daquelas, pois tremo com tudo o que envolva um possível (note-se: possível) justiceirismo em torno de crianças. Sobretudo quando há décadas que as crianças são abusadas em famílias e instituições, sem qualquer intervenção real das mesmas ou das autoridades. O abuso sexual de menores é um nojo. Mas igualmente nojenta é a hipocrisia dominante, o jogo político-judiciário-mediático que se está a fazer e o moralismo descabido e prossecutório contra pessoas e identidades que não estão necessariamente ligadas ao abuso sexual. A angelização dá sempre em demonização de alguém. Protestar contra o abuso sexual, neste momento e em Portugal, só faz sentido se for também um protesto contra aqueles aspectos. E participar ou não numa marcha destas não é nem pode ser o padrão de medida da atitude ética e política sobre o assunto.

mva | 18:50|