OS TEMPOS QUE CORREM. Miguel Vale de Almeida


15.5.03  

Politicamente correcto

Segundo o "Público" de hoje, a Nova Democracia de Manuel Monteiro posiciona-se contra o pensamento "politicamente correcto". Chegou, pois, aos estatutos de um partido, a atitude bizarra de denegrimento do "pc". Não há criatura hoje em dia em Portugal que não diga "agora vou ser politicamente incorrecto" ou "não tenho paciência para o politicamente correcto". Como se vivessemos num país fantástico, cheio de liberdades cívicas e igualdade de direitos, onde já se pudesse começar a manifestar algum enfado com exigências antigas em torno dos mesmos. Por outro lado, a expressão "pc" está a ser usada entre nós para querer dizer "moralista", "puritano", "subserviente ao pensamento dominante". Convém explicar a coisa: a expressão nasceu nos EUA há uma data de anos para descrever propostas de alteração na linguagem oficial (e do quotidiano, por arrasto), de modo a promover o reconhecimento de identidades marginalizadas, excluídas ou minoritárias. Esta postura reconhecia a importância da linguagem na formatação do mundo. Pense-se, por exemplo, em como é positivo que as crianças sejam ensinadas a achar feio chamar "maricas" ou "escarumba" a um gay ou a um preto/negro (consoante o termo que os próprios queiram atribuir-se). É claro que a militância em torno de propostas novas leva a algum cansaço, típico dos períodos de habituação. Por isso, auto-ironicamente, se publicaram os famosos contos de fadas politicamente correctos, em que a Branca de Neve era a "jovem mulher desafiada em melanina". Mas com que direito (e lata!) as pessoas de um país retrógrado como o nosso imitam a gozação com uma coisa que não chegou sequer a instalar-se entre nós? É que ao fazerem-no estão a abortar qualquer hipótese de se alterarem os nossos hábitos linguísticos - que são, de facto, parte constituinte da criação de representações e categorias. São "discurso". Por tudo isto não admira que seja na Nova Direita (perdão, democracia) que a coisa ganha foros de letra de lei (já agora, também lá diz que são contra o "pensamento único". Meus caros novos democratas: "pensamento único" usa-se para descrever a cartilha neo-liberal. A direita é óptima a canibalizar as ideias da esquerda, regurgitando-as como o seu contrário...).

mva | 17:20|