OS TEMPOS QUE CORREM. Miguel Vale de Almeida


17.5.03  

Parece que Francisco Assis foi corrido de Felgueiras a murro e pontapé. Não quero parecer o Pulido Valente, mas de facto estes incidentes mostram como nada mudou. Não desde a adesão à UE, ou desde o 25 de Abril. Desde o século 19! Fátima Felgueiras foge à Justiça e o "Povo" aclama. É acusada de crimes graves e o "povo" acha que foram cometidos em nome dele. Mas este é o mesmo "povo" que desdenha a classe política e a própria política. O mesmo que é capaz de dizer sem vergonha que preferiria ter um ditador. Acontece que são as Fátimas Felgueiras que criam, com os seus actos, as condições para que, depois, o "povo" ache que a política é uma coisa desprezível. É este o mecanismo perverso do populismo e do caciquismo: incitar as massas contra um poder que o próprio incitador está a exercer, só que (supostamente) de forma "abnegada", como "um bom pai (ou mãe...)", e não como os "outros". Trinta anos de democracia, não-sei-quantos de fundos comunitários, e não se conseguiu criar neste país uma massa educada e com consciência cívica. Reproduziu-se apenas, num outro plano, o regionalismo caciquista, o paternalismo e as relações de clientela. Disto tudo, só espero raivosamente três coisas: que Fátima Felgueiras seja apanhada e julgada, que os agressores de Assis (e quem os incitou) sejam indiciados e punidos, e que o PS, já agora, reflicta sobre tudo o que aconteceu em Felgueiras nos últimos anos e não apenas nos últimos dias.

mva | 13:57|