OS TEMPOS QUE CORREM. Miguel Vale de Almeida


26.5.03  

Ironia pós-colonial
A "Operação Triunfo" consagrou, no serviço público de TV, uma denominação inaugurada pela TVI aquando do Big Brother: tratar os telespectadores por "Os Portugueses". Já o cientista social Benedict Anderson havia referido que as nações são em grande medida "comunidades imaginadas", sobretudo desde o surgimento da imprensa escrita numa língua normativizada, gerando assim a sensação de se partilhar algo com pessoas que nunca conheceremos na vida, apenas porque o universo-alvo do jornal é o país e este é endereçado no mesmo código linguístico. Mas esta coisa de tratar as pessoas por "portugueses" vai mais longe, porque imagina uma comunidade onde toda a gente se sente portuguesa e parte do princípio de que essa é a definição mais importante da sua identidade (na realidade, o que une as pessoas que vêem um programa de TV é verem um programa de TV...). A RTP decidiu alienar todos os não-portugueses (e são centenas de milhar) que vivem neste Estado. Bravo! Mas ontem houve uma curiosa e paradoxal vingança. Como já se previa que a concorrente de origem assumidamente caboverdiana iria ficar no podium, a RTP tratou de garantir uma ligação à Praia. Lá, tanto a repórter local, como os seus entrevistados, deram incessantemente os parabéns à Sofia (a concorrente de origem caboverdiana) e ao Filipe (outro dos vencedore, juntamente com Joana). Falta de educação à parte (a branca e loira Joana foi totalmente excluída dos comentários caboverdianos), acontece que um curioso caso de "racialização" aconteceu ali. É que Filipe é fenotipicamente (i.e., na aparência exterior, cor da pele, etc) alguém que dá a entender ter alguma origem negra. É um facto: é filho de um senhor de pele escura, de origem moçambicana, e de uma senhora de pele branca, portuguesa. Quanto a Cabo Verde na história da família...népia, como sói dizer-se. Esta inversão pós-colonial das categorias coloniais de classificação "racial" mostra como estamos todos prisioneiros do mesmo sistema idiota. Em Cabo Verde partiram do princípio que também o Filipe seria caboverdiano. Na "vingança" do abuso da expressão "Os Portugueses", os Caboverdianos abusaram ao contrário. (Outra história seria dissertar sobre as questões de poder em causa, isto é, a "vingança" do emigrante que se vê a ganhar aos do país de acolhimento - o mesmo que foi potência colonial e que "acolheu" os caboverdianos nos anos 70 como perigosos violadores armados de facas...)

mva | 18:28|