OS TEMPOS QUE CORREM. Miguel Vale de Almeida


21.5.03  

Da varanda do Bar Entretanto, no hotel do Chiado, disfruta-se de uma vista fabulosa de Lisboa. Tudo parece bater certo: a harmonia da arquitectura, a cor do rio, a luz, o ar. Dir-se-ia que, ali em baixo na Baixa (!), qualquer coisa de civilizado, cuidadoso e atento se mexe. A certa altura o telemóvel toca e uma amiga diz que está a ver-me. Viro-me e lá está ela, a acenar de umas águas furtadas da Baixa. Até nisto as coisas parecem estar bem: intimidade e comunicação no meio de uma cidade. Mas, afinal, isto é um postal. A razão porque estava naquele bar era para ouvir um amigo contar-me os problemas que tem tido com a realização do Festival de Cinema Gay e Lésbico de Lisboa. A Câmara retirou o apoio financeiro. Lá fora, nas capitais onde festivais congéneres fazem parte indissociável do panorama cultural e turístico, a perplexidade foi total, pois o festival lisboeta já começava a ser falado. Como o racismo no Brasil (e por cá também...) a homofobia em Portugal faz-se de silêncios e silenciamentos, quando não de culpabilizações das vítimas ("para que se mexem vocês, porque falam tanto do assunto, as coisas não estão bem como estão, não se trata de uma questão de vida privada em que ninguém se mete"?). Não, não se trata de uma questão de vida privada. Poder aceder a imagens e representações da alteridade, através do cinema e do audio-visual é, hoje, a forma primeira de ajudar a criar identidades sólidas e de ajudar a sociedade toda a criar, não tolerância, mas gosto genuíno pela diversidade. A imagem de postal de Lisboa que se tem daquela varanda poderia, afinal, ter sido obtida nos anos quarenta, quando as mulheres nem aos cafés podiam ir.

O que os actuais poderes de direita desejam é simplesmente isto: conciliar velhos maus-hábitos de silenciamento de tudo o que não seja a norma, com formas neo-liberais de poder fazer dinheiro fácil sem responsabilidade social. O projecto neo-conservador em Portugal quer modernidade e liberdade absoluta nos negócios, sem modernização nas liberdades ou na justiça social. Se isto se aplica à questão sexual, aplica-se também à questão da imigração e do multiculturalismo, ao trabalho e aos serviços públicos, ao ambiente e à comunicação social. Se não tomamos cuidado, teremos em breve as cidades e o país geridos por homens de cabelo repuxado a gel, assessorados por um batalhão de falsas louras, julgando que vivem numa modernidade que medem pelo telemóvel e pelo jeep quando, de facto, eles são apenas as marionetas de um jogo decidido por empreiteiros, futeboleiros e evasores de impostos. E esta espécie não consegue respirar num ambiente de liberdades, porque o segredo do jogo está na duplicidade e na capacidade de chantagear os outros. Capitalismo sem modernidade, é o lema deles (e delas).

mva | 13:15|