24.5.03
Abuso Geral
Será ainda possível dizer "serenamente" (como agora se usa) que se deve confiar na justiça e nas instituições, esperando que "toda a verdade" venha ao de cima, que os "responsáveis" sejam punidos e o país volte a uma qualquer normalidade? Dizê-lo, é possível. Desejá-lo, ainda mais. Mas a sensação desagradável que assalta muita gente é a de que o país está de rastos. Já não se trata apenas do espanto sentido ao descobrir os casos de abuso sexual, a existência de redes e - a meu ver, o maior dos problemas nesta história toda - a irresponsabilidade criminosa das instituições e de quem tutelou e tutela a Casa Pia. Agora é o espanto perante a fragilidade de tudo: da justiça, da ética política, da ética jornalística, das fugas de informação, do clima de caça às bruxas e, sobretudo, perante a confirmação de que a "sociedade" é bem mais hipócrita do que aquilo que tanta gente sempre disse. Duvido muito que o sistema político e judiciário, numa democracia recente e frágil como a nossa, "amparada" por um povo pouco letrado e pouco cívico, sobreviva a isto tudo. Mais do que "mãos limpas", temo que comecem a surgir apelos de desinfecção e desinfestação geral. De quarentena. Não que não seja preciso. O medo é que, quando essa necessidade surge, ela é a situação ideal para todas as tentações totalitárias e purificadoras. A coisa está preta. E nós começamos a sentir-nos como aqueles miúdos abusados que, mais ainda do que a sua autonomia sexual, deverão ter perdido a confiança nos outros e nas instituições. Pela parte que me toca, dou por mim a desconfiar de tudo o que oiço e leio. E essa é uma das piores sensações. Dos miúdos da Casa Pia, ao modelo português de prisão preventiva; do "segredo de justiça" à "obrigação jornalística de informar"; dos apelos à "serenidade" dos bonzos do governo às suspeitas sobre as escutas telefónicas - tudo são sinais de abuso generalizado das gentes.
mva |
11:36| 
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