OS TEMPOS QUE CORREM. Miguel Vale de Almeida


31.3.07  



Sair de Lisboa por uns dias para descansar e escrever. Depois do Passover e da Páscoa a gente ressuscita...

mva | 10:53|


30.3.07  

Bolonha blues

Já passou quase um ano. É conhecida a minha zanga com o processo de Bolonha. Não é uma zanga fundamentalista, mas sim provocada pela desilusão. É mais parecida com o sentimento de amante traído. Tinha eu pensado ingenuamente que Bolonha seria uma oportunidade dourada. Para quê? Para, nem que fosse lentamente, acabar com o sistema irracional que temos, feito de cursos de licenciatura especializados e geradores de expectativas de empregabilidade imediata. Para, nem que fosse através do incremento de um sistema de majors e minors, e da generalização dos segundo e terceiro ciclos, caminharmos no sentido de uma educação superior generalista, com ciências e humanidades, com concentração no ensino da capacidade de aprender, de raciocinar, de criticar, e de adquirir cultura geral (porque é disto que precisamos, porque a universidade não deve servir para o treino profissional, porque hoje não se treina ninguém para uma só profissão e precisa-se de gente polivalente e adaptável). Para permitir aos alunos "navegarem" por cadeiras de várias áreas científicas, graças ao sistema de créditos, construindo o seu curriculum pessoal.

Percebi que tudo não passava de uma ilusão quando surgiu, logo, a resistência institucional (o diabo, como deus, está nos detalhes....): a burocracia tratou logo de impedir a mobilidade e escolha dos e pelos estudantes - mantendo o sistema de turmas, de anos, de precedências - e da forma de pagamento de propinas, penalizando (contra Bolonha!) os trabalhadores-estudantes. No máximo, alguns departamentos e faculdades introduziram formas pedagógicas que para mim (para nós, no meu departamento) não são sequer novas: sempre usámos syllabus, sempre planeámos e calendarizámos as actividades lectivas, sempre promovemos formas seminariais de ensino, sempre usámos avaliação contínua, por exemplo. Mas o grosso da universidade portuguesa fez simplesmente isto com Bolonha: esmifrou cursos de 4 e 5 anos em cursos de 3 e toca a andar. Leram Bolonha com óculos neoliberais: diplomar mais gente depressa e mal para melhorar os índices. Pudera: não se tendo mexido na carreira docente universitária, nem na cultura administrativa, não se tendo permitido novas contratações, e mantendo-se a mesma pressão sobre os rácios professor/alunos, é como se Bolonha - cidade progressista e liberal - tivesse sido tomada de assalto por Berlusconi.

mva | 11:53|


29.3.07  

De avião para as Desertas

Recapitulando: primeiro foi a lista do PNR em Letras (a democracia é uma bela coisa: obteve 80 votos, contra 800 da outra lista); depois um mural homofóbico da Juventude Nacionalista junto ao ISCTE; em simultâneo, alguns estudantes do ISCTE fizeram uma manif pela segurança no campus; depois Salazar ganha um concurso de TV, vitória que anima, pelo que disse numa entrevista, o líder do PNR; finalmente, a SIC faz uma reportagem sobre a insegurança na zona em que supostamente mete no mesmo saco os engates (gay, of course) nos baldios que servem de estacionamento. Ah, não é tudo: hoje o PNR estreia um outdoor anti-emigração no Marquês de Pombal, sugerindo o expatriamento por via aérea dos imigrantes.

Vamos por partes. Primeiro, a "insegurança". Se há coisa que faz parte da insegurança, é o surgimento de movimentações fascistas. Disso ninguém se lembrou, desde logo os estudantes do ISCTE (os de Letras sim). Se há coisa que não faz parte da insegurança são os engates (a zona nem sequer é de prostituição, o que poderia resultar em insegurança, dada a clandestinidade da profissão). E a poder haver insegurança aí, ela seria sentida por quem, ao engatar, corresse o risco de apanhar com um bandido. Logo, a alusão aos engates é de ordem moralista e estética - algo que começa a caracterizar algum "jornalismo" da SIC. De igual modo, não sei se a estação prestou muita atenção à homofobia mural da zona (a não ser, claro, naquilo em que para ela alegremente contribuiu...).

Segundo, o "crescimento" da extrema-direita. O líder do PNR foi entrevistado por causa do cartaz. Diz o dirigente fascista (posso chamá-lo assim, não se zanga? Suponho que não) que não tem nada contra os imigrantes, apenas contra os "maus imigrantes". E que a linguagem dos cartazes obriga à simplificação. Ficamos a saber que os fascistas portugueses não têm os pommodori para assumirem as suas ideias. Talvez por isto o PNR não assuste muito, a não ser o sabermos que as ideias estúpidas têm uma extraordinária capacidade de disseminação. O PNR vive na ilusão de que é possível (já não falemos de "desejável") viver numa "nação", com uma estirpe genética absolutamente conservada e endogâmica. Há de facto uma maneira de fazer isso: fretar um avião para colocar os militantes do PNR numa ilha, sei lá, as Desertas (ali à Madeira) e deixá-los reproduzir-se, lá uns com os outros, na "terra deles", "lá com a cultura deles". O único senão é que me cheira que o PNR é esmagadoramente masculino.

mva | 15:09|


27.3.07  



A poeira debaixo do tapete


Não, a "vitória" de Salazar num concurso televisivo nada tem a ver com a suposta falta, no ensino da História, da promoção de figuras nacionais heróicas. Disso já tivemos que bastasse. Tiveram-no nomeadamente muitas das pessoas que votaram Salazar. Aquilo de que temos falta é de algo que todas as narrativas nacionais precisam: de uma estória sobre um período obscuro do qual o presente nos tirou. O pós-25 de Abril não ligou nenhuma a Salazar, ao Estado Novo, à ditadura, à guerra colonial... Não fez um museu - a la museu do holocausto - por exemplo. Não definiu o período salazarista como um período de vergonha nacional - nos manuais de História, por exemplo. Salazar "ganha" porque se falou pouco dele - e pouco mal.

Varrer a poeria para debaixo dos tapetes sempre foi o traço mais marcante do "carácter" nacional. Nas casas e na política -no privado e no público.

mva | 11:47|


25.3.07  

Finalmente!

«O proletariado que Marx e Engels definiram como a classe que se opunha à burguesia está a dar lugar ao... precariado. No próximo 1.º de Maio, além dos trabalhadores que têm horário de trabalho, salário mínimo e segurança social, vão desfilar também os que têm trabalho precário, sem qualquer contrato nem direito a subsídio de desemprego.A exemplo do que se tem verificado, nos últimos anos, nas principais cidades europeias, um grupo de associações decidiu promover em Lisboa o MayDay, parada de "operadores de call center, imigrantes, bolseiros, intermitentes do espectáculo e do audiovisual, estagiários, desempregados e contratados a prazo", além dos "já/ainda/quase" estudantes-trabalhadores (...)» (DN)

mva | 12:56|


24.3.07  

A propósito do post anterior...

...reproduzo um comunicado do S.O.S. Racismo:

«Extrema-direita ameaça Universidade. Skins tentam tornar Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa num "palco" para a difusão do racismo e da violência

Nos últimos dias, as mensagens de ódio racista proliferaram nas paredes da Faculdade de Letras. "Portugal aos portugueses" ou "Fascismo é solução" são algumas das frases escolhidas pela extrema-direita para a sua propaganda e ameaça. Também não faltaram as "chamas" do Partido Nacional Renovador (PNR). Pelo caminho, foram destruídos todos os murais ou outro tipo de comunicação (das mais diversas organizações) entendida como "comunista" – o facto era assinalado pelos próprios censores, ao lado das "emendas" efectuadas. Ora, hoje alguns estudantes da faculdade, em conjunto com a União dos Resistentes Antifascistas Portugueses (URAP), decidiram-se por uma acção pública: pintar um mural contra a ameaça do racismo e da violência. A verdade é que o mural não foi terminado, porque a polícia não o permitiu. Ainda mais preocupante é o facto de hoje se terem juntado, numa atitude claramente ameaçadora, com todo o à-vontade, várias dezenas de skins na faculdade de Letras. A mensagem era clara: ameaçar, condicionar, amordaçar; impôr a cultura do medo, à custa da impunidade – basta dizer que se deram ao luxo de tirar fotografias a todas as pessoas envolvidas na pintura do mural! E isto, "nas barbas" da polícia, que esteve sempre mais ocupada a impedir que o mural chegasse ao fim! Tendo em conta estes preocupantes acontecimentos, o SOS Racismo gostaria de deixar claro que:
1 – Este novo "palco" para os skins representa uma importante ameaça, que deve preocupar toda a comunidade escolar. Não é possível aceitar que esta realidade se torne "normal" ou "aceitável".
2 – Infelizmente, as respostas de quem tem responsabilidades deixam muito a desejar. Já no ano passado, quando o SOS Racismo alertou o Conselho Directivo, em reunião a nosso pedido, para o crescimento da extrema-direita dentro da faculdade e o perigo que isso representa, este órgão não revelou nenhum interesse pelo assunto. E hoje, o Conselho Directivo da Faculdade de Letras apenas se mobilizou para proibir a pintura do mural de hoje, mas nunca demonstrou preocupação com as mensagens de ódio dos skins. Esperamos não ter de ouvir este órgão, no futuro, lamentar a violência e o ódio na faculdade, quando podia e devia ter-se interessado a tempo!
3 – A impunidade com que foi possível hoje, na presença da polícia, várias dezenas de skins fazerem a sua demonstração de força é um sinal muito inquietante. Não parece normal que a PSP tenha "convidado" a retirar-se quem pintava o mural, mas tenha deixado cerca de 50 skins no interior e nas imediações da faculdade, em pose ameaçadora, bebendo cerveja, fazendo uma
espécie de "guarda" a um dos bares da faculdade, enquanto ia distribuindo panfletos.
4 – Fica, mais uma vez, clara a ligação entre o movimento skinhead e o PNR!
5 – O SOS Racismo vem há muito alertando para o perigo e a impunidade que caracterizam o crescimento da extrema-direita em Portugal. Para estas pessoas, a violência e o ódio são a dimensão essencial da política. Quantas mais vítimas serão necessárias para que se desenhe finalmente um combate a esta triste realidade?
6 – Em pleno "Ano Europeu da Igualdade de Oportunidades para Todos", em que vão abundando os discursos de circunstância sobre igualdade e a necessidade de combater as discriminações, seria mais útil ver quem tem responsabilidades empenhar-se no desmantelamento desta rede criminosa – tráfico de armas, de droga, "cobranças difíceis", violência frequente, etc. – de ameaça, ódio e morte.

15/03/2007
Pelo SOS Racismo,
José Falcão»

mva | 19:04|


23.3.07  

Notícias do campus

Um grupo de estudantes do ISCTE manifestou-se contra a insegurança nas imediações. Têm toda a razão em fazê-lo pois a segurança é um direito básico. Gostaria no entanto de ver a mesma energia dirigir-se contra um mural, pintado numa zona "sem jurisdição" (assim me foi dito, pois já me queixei daquilo que é um incitamento ao ódio e não mera expressão de ideias) entre o ISCTE e a velha Faculdade de Farmácia. Assinado por uma tal de Juventude Nacionalista, apresenta frases "contra o lobbie (sic) gay" e sinais de proibição sobre representações de sexo anal e oral (algo que deve ocupar bastante espaço mental, e mesmo genital, na rapaziada nacionaleira). Aqui mesmo ao lado, na Faculdade de Letras, concorre à Associação de Estudantes, uma lista do PNR.

mva | 13:28|
 

Pendurados

Por falta de tempo ficaram pendurados posts sobre....

a) a forma como a blogosfera é tratada na investigação do Público sobre as credenciais universitárias de Sócrates. De repente é como se toda a blogosfera fosse um submundo de anonimato e boatos...
b) o facto de a Polónia estar na UE quando o seu governo faz tudo para destruir as noções básicas de direitos humanos. Talvez a pergunta devesse ser: estará a UE na Polónia?
c) uma notícia no Público, com foto e tudo, sobre um padre que se gaba de conduzir a 200 km/h. Aparece como fait divers curioso e simpático. Mas não serve como confissão de uma ilegalidade?
d) como os governos de Angola e Portugal estão feitos um para o outro na questão das cartas de condução. Quando se lambe as botas a uma ditadura, a coisa pega...

mva | 13:22|
 

Fundamentalismo

«Em Maio de 2006, uma alemã de origem marroquina apresentou queixa num tribunal de Frankfurt contra o marido por violência doméstica. Mas como, cinco anos antes, casara segundo a lei islâmica, uma juíza alemã decidiu não lhe conceder o divórcio alegando que o Alcorão permite esse comportamento.» (DN)

Não, não se trata de mais um exemplo dos "horrores" do "politicamente correcto", como alguns diriam. Não se trata tão-pouco de relativismo cultural (que deve ser um método de análise cultural, não confundível com o relativismo moral) . Trata-se, antes do mais, de estupidez e ignorância - desde logo em relação ao Islão, a Marrocos, etc. Trata-se, depois, de um entendimento cristalizado do que é "uma cultura" e da relação entre ela e as pessoas que supostamente a "veiculam". Trata-se, por fim, de algo muito parecido com o separate but equal do antigo racismo institucional do sul dos EUA ou com as justificações do apartheid. A ideia de culturas monolíticas, separadas, sem dinâmica de transformação, não tradutíveis entre si, sem mistura possível, e que funcionam como normativas para os seus "membros" (e a própria ideia absurda de que as pessoas - sobretudo algumas... - se definem primeiro como "membros de culturas"...) é uma ideia profundamente conservadora e já designada em antropologia como fundamentalismo cultural.

mva | 08:45|


21.3.07  

Rastejante

Provavelmente toda a gente já sabe, mas a poucos dias da final de Grandes Portugueses, é sempre bom lembrar: J. K. Rowlings, a criadora de Harry Potter, viveu em Portugal. Em virtude dessa experiência didática, inspirou-se em Salazar para criar a personagem de Slytherin Salazar.

mva | 10:05|
 

Direita mesmo

Hesitei em escrever sobre os "acontecimentos" no CDS. Pensava que se tratava de um fait divers que deixaria de ser mencionado no dia seguinte. Porquê? Porque absolutamente nada na discussão naquele partido tem a ver com ideias, projectos políticos, posições ideológicas. O fulanismo mais absoluto não me parecia ser merecedor de muita atenção. Enganei-me. O fulanismo é a política por aquelas bandas. E no mesmo momento em que Portas regressa, usando as técnicas de assalto próprias da extrema direita, Santana Lopes também regressa - outra personagem sem sombra de ideias ou projecto político que não seja... o fulanismo. Nunca as crenças profundas da direita - pessoas providenciais, disputas de honra, o poder como um fim em si mesmo - foram tão bem representadas como por esta dupla terrível.

mva | 09:52|
 

Uma conversa...

...no Kontraste.

mva | 09:34|


19.3.07  

Fim-de-semana pós-colonial

A minha ida a Manchester tinha como propósito apresentar uma comunicação (a versão inglesa do posfácio/comentário ao livro 'Portugal não é um país pequeno'. Contar o 'Império' na pós-colonialidade, organizado por Manuela Ribeiro Sanches) num encontro sobre pós-colonialismo "em português". Como foi necessário acordar a uma hora bárbara para apanhar o avião, dei por mim a passar por uma estação lisboeta onde convergem comboios quer da linha de Sintra, quer da margem Sul, quer ainda da linha da Azambuja. Resultado? Ver um mundo novo para mim. Às 6 da manhã a maioria das pessoas que desce dos comboios é negra. E mulheres, mulheres negras. Aquela é com certeza a massa humana que alimenta as limpezas de escritórios e lojas. A mesma massa que depois desaparece por magia na invisibilidade social e no silêncio. Uma daquelas mulheres é com certeza a senhora que todas as manhãs despeja o caixote do lixo do meu gabinete, onde, num gesto de menor consciência ecológica, pode ter ido parar uma versão inicial da comunicação que apresentei em Manchester.

Já em Manchester uma jovem angolana agora a viver em Inglaterra diz que um dia telefonou à família em Luanda anunciando que passaria a viver no Reino Unido. Tinha tido uma péssima experiência de imigração em Portugal, com sucessivas situações de racismo. No meio da discussão familiar, ao telefone com Luanda, terá dito: "Fico aqui, porque aqui até os cães têm direitos".

Uma outra pessoa, portuguesa, dizia-me que assistira a uma apresentação do Observatório Europeu do Racismo e Xenofobia. Apresentavam-se os dados oficiais dos países da UE relativamente ao racismo. Quando chegou a vez de Portugal não havia dados oficiais para apresentar. Off the record, o responsável do Observatório terá dito que um/a funcionário/a em Lisboa teria afirmado que "aqui não há racismo, sabe?"

O recepcionista do hotel em Manchester pergunta-me se a pessoa a quem quero deixar uma mensagem pertence "a esse grupo de espanhóis que está cá". Digo-lhe que não, espanhóis não. "Italianos?", acrescenta ele. "Portugueses", digo eu. "Yeah, something like that", conclui ele.

No avião de regresso, Air France. Anuncia-se a necessidade de os cidadãos não europeus preencherem formulários de entrada no espaço Schengen. Como praticamente ninguém solicita os papéis, a hospedeira, de traços orientais, dirige-se apenas aos passageiros ao meu lado, perguntando-lhes se não terão que preencher os ditos formulários. Eles, envergonhados, dizem que não. Explicam em voz baixa que são cidadãos britânicos. Eram um casal, com uma criança de colo; a mãe envergava um "véu".

mva | 12:09|


14.3.07  

Offline

A caminho de Manchester amanhã. Provavelmente offline até domingo. Só espero que no regresso não tenha atravessado um time warp e dê de caras com Santana Lopes e Paulo Portas na cena política.

PS: Ups! Parece que o time warp já aconteceu.

mva | 15:35|


12.3.07  




Leia-se este post no 5dias. O post não é homofóbico, e é bem intencionado. Mas é um post prisioneiro, digamos, "do sistema homofóbico". Porquê? Porque as discussões sobre "as origens" ou as "causas" da homossexualidade são discussões próprias da reprodução da homofobia - quer por parte de simpatizantes, quer por parte de antipatizantes. Não há aqui lugar para "ciência pura". Fosse a discussão sobre as origens da orientação sexual - homo ou hetero - e talvez a coisa fosse diferente. Assim, não. Basta ler a discussão na caixa de comentários para perceber a confusão que por ali vai. A incapacidade quase absoluta de as pessoas - não, não estou a falar de homófobos militantes, e é isso que perturba - se colocarem por um segundo na pele de um gay ou uma lésbica e perguntarem-se se faz sentido discutir naqueles termos, deixa-me apreensivo. Para não falar do discurso latente sobre ciência, que mistura Ciência, com C grande, com para-ciência, que é o que temos quando se discute as "origens" ou "causas" da homossexualidade - exactamente como quando se discutia as origens ou causas da inferioridade racial. A pergunta está, à partida, contaminada. Pouco importa que alguns cientistas que se dedicam à investigação das "origens e causas da homossexualidade" o façam com intuitos homófilos. Isso apenas demonstra como estão prisioneiros de desejos de legitimação "científica" para algo que nada tem a ver com ciência, mas com uma questão social e política de estruturas de desigualdade (e não, como o texto dá a entender, "opção", ou "escolha" - a estruturação da homossexualidade é como a da heterossexaulidade, bio-psico-social, processual, e sem causalidade definida e unívoca). Algumas pessoas são hetero, outras são homo, etc. E por razões que têm a ver com o sistema de sexo e género em que temos vivido, hetero e homossexualidade são construídas assimétrica e hierarquicamente. Que os hetero sejam a maioria não indica nenhuma normalidade acrescida - isso seria uma interpretação da estatística sociológica e politicamente abusiva (havendo mais pobres que ricos, será a pobreza "normal"?). A curiosidade e o desejo de saber "as origens e causas" da homossexualidade assenta numa premissa: a de que necessita de explicação, dada a sua pressuposta anomalia (quando não mesmo anormalidade...). É aí que a porca torce, perversamente, o rabo.

mva | 19:47|


10.3.07  


Seminário

De vez em quando a gente junta-se, apresenta ideias e discute. Um oásis na fábrica de chouriços académica.

mva | 11:43|


9.3.07  

Dia Internacional do Homem

«O Governo decidiu estender às mulheres o carácter obrigatório do recenseamento militar a partir deste ano, anunciou ontem o ministro da Defesa."Está na hora de acabar com essa discriminação" relativamente aos homens, afirmou Nuno Severiano Teixeira, no final do almoço com que as Forças Armadas assinalaram, na messe de oficiais de Caxias, Lisboa, o Dia Internacional da Mulher.» (DN)

O governo acaba assim com uma das maiores fontes de humilhação e desigualdade dos homens, respondendo ao anseio do movimento masculinista. Somos agora uma sociedade mais decente. A igualdade de deveres é reconhecidamente mais importante que a igualdade de direitos. Tem sido uma longa luta de séculos e os homens vêem agora a luz ao fundo do túnel. Felizmente temos um governo corajoso e determinado no combate à discriminação. Bem-vindos ao século XXI.

mva | 09:14|


8.3.07  

Armários e mais armários

Hoje na TSF falava-se de Barros Basto. Ele foi, na primeira metade do século XX, responsável pelo renascimento judaico em Portugal, país hoje conhecido internacionalmente como um centro de anusim. Ajudou centenas de marranos a sair do armário religioso. O processo continua hoje, em muitas cidades e aldeias de Portugal e na diáspora. Barros Basto foi claramente perseguido pelo antisemitismo reinante. Mas uma das "acusações" que mais circulou contra ele foi a de ser homossexual, por presidir às circuncisões. Não, não é piada. E, sim, uma acusação de homossexualidade era uma acusação de crime. Duas identidades de pária recairam sobre ele - a de judeu e a de homossexual. O deslize de uma categoria para a outra diz-nos muito sobre os processos discriminatórios. Pouco importa que a última nem correspondesse à verdade - afinal de contas a homofobia não ataca apenas os homossexuais, ataca toda a gente. Mas a acusação seria também levada a sério pela tropa, que o afastou da dita em 1937.

PS: No fim do programa da TSF, a referência do entrevistador a um "homem perseguido por discriminação religiosa e política". Mas não foi também homofóbica a discriminação? Não para o entrevistador, que não vê isso e, assim, mesmo que inconscientemente, reproduz a ideia da homossexualidade como insulto. É justamente aí que a homofobia age sobre toda a gente. Desde logo sobre os milhares e milhares de armariados, autênticos anusim sexuais.

mva | 16:47|
 

O modo português de estar no mundo

Numa só edição de um jornal, todo um programa. Um título do Público de hoje diz-nos que em Timor Leste "um juiz português dá lição de democracia a ex-ministro Lobato". É sempre bom saber que um bocadinho do velho espírito colonial continua vivo (e que afinal até há juizes portugueses que dão lições de democracia). Também ficámos a saber por estes dias que "António Costa não reconhece legitimidade do relatório dos EUA sobre direitos humanos" em Portugal. É que é sempre bom saber que um bocadinho do velho espírito anti-imperialista ainda sobrevive no nosso governo, que não se verga por dá cá aquela palha (violência policial, estado das cadeias e amendoins do género) ao Departamento de Estado dos EUA. A chatice, claro, é outro título referir que é um tribunal espanhol quem "pede a Portugal dados sobre voos da CIA no espaço aéreo ibérico". Esperemos para amanhã um título revelador da sobrevivência de algum anti-espanholismo no nosso governo. Uma "lição de democracia", sei lá: Espanha saiu do Iraque na sequência de eleições, zangada com a subserviência de Aznar a Bush, e tomando uma posição política internacional; Portugal finalmente aje, já que, segundo outro título, "desactiva embaixada portuguesa em Bagdad" por falta de segurança e custos elevados. Tudo isto deve ser o "modo português de estar no mundo".

mva | 09:41|


6.3.07  

Para o museuléu de Salazar

Há muito, mas mesmo muito, tempo, que o estado português deveria ter criado um museu do Estado Novo. Um museu que colocasse o dito no mesmo plano em que estão, noutros países, ditaduras, regimes totalitários, eventos terríveis como genocídios, etc. Tivesse-o feito "atempadamente" (finalmente usei esta delícia do português contemporâneo) e talvez não houvesse tanta asneira circulante sobre Salazar. Se calhar agora é tarde. Se calhar agora não há forma de escapar a um mausoléu da criatura, feito por uma qualquer iniciativa semi-privada ou semi-pública. O regime democrático - não me refiro ao PREC - não soube arrumar Salazar e o Estado Novo. O resultado é que Salazar e o Estado Novo ainda arrumam o regime democrático. Pelo menos nas cabeças dos pobres de espírito, para quem os mitos de "ordem" e "pacatez" são como orquestras de anjos no meio da acelerada confusão.

Pois então, caso o museuléu do Salazar abra, tenho um pedacito de história pessoal para oferecer. Era o dia em que a criatura morreu e eu era um puto. No carro dos meus pais, atravessávamos a ponte que tinha o nome da criatura. Na rádio anunciaram a morte da dita. Espontaneamente, os meus pais saltaram nos bancos do carro e festejaram. Apenas para, segundos depois, se comporem meio envergonhados. Não tanto por pudor em celebrar a morte de alguém (mas também, claro). Mais por causa dos outros automobilistas, que com certeza ouviam a mesma notícia. Que pensariam? Que diriam? Que fariam - caso fossem futuros defensores - ou pais de futuros defensores... - de Salazar como Ganda Português?

O resto - as histórias de papéis queimados na banheira perante a hipótese da vinda da polícia política, o parente preso anos a fio, a ameaça psicológica do recrutamento dos rapazes para a guerra colonial, um tio a quem a guerra levou ao suicídio ou a sensação genericamente deprimente de viver nas berças políticas do mundo - tudo isso, reproduzido vezes sem conta pelas famílias e tantas vezes de modos bem mais dramáticos, não se oferece agora a um museuléu. Tudo isso deveria estar há muito arrumado, decidido, estruturado, na cabeça colectiva dos portuguses. Não está. O regime democrático não quis resolver a memória histórica da ditadura; não quis pronunciar-se. Agora lixe-se.

mva | 10:15|


5.3.07  



Abstracção Avuncular

mva | 21:22|
 





Polónia

Foi lançada uma campanha contra a homofobia na Polónia. Podem obter mais informações aqui e aqui.

mva | 17:34|


4.3.07  

Despachos de Lisboa

Vale a pena ler as crónicas - os dispatches - do escritor Philip Graham, actualmente a viver em Lisboa. São em grande medida sobre a dita, mas não só.

«So I can't help myself—I wind up my mantra that this year will end up being an extraordinary experience for her, and Hannah can only stare at me: as far as she's concerned, the jury's still out on Portugal. I shut up and enjoy the ice cream, though I can't help silently wishing that my daughter's task were as easy as catching a bird on the wing, or a cloud across the moon.» (Dispatch 8: The Moon, Come to Earth)

mva | 12:11|


3.3.07  

Desblindados

Eu não faço a mais pálida ideia do que seja uma "desblindagem", mas há dias que leio e ouço essa e outras expressões relativamente a uma OPA (olha, outra que não sei bem o que é). A vida quotidiana do capital passou a ser tratada como uma telenovela. Hoje um jornal até tinha um artigo sobre o que vestiam as personagens. O enredo já substitui em parte os enredos (políticos, sociais, culturais, etc) considerados até há pouco típicos das narrativas nacionais. As grandes empresas nacionais e os seus administradores entraram no palco da história de um país, da representação do mesmo. Tempos "interessantes".... Virá o dia em que votaremos em empresas em vez de partidos e candidatos?

Ah, ao mesmo tempo mais de 100.000 pessoas sairam à rua numa manifestação sindical, protestando contra a política do governo. Mas não será, para mal dos nossos pecados, a manif da CGTP uma telenovela brasileira - e as OPAs os "Morangos com Açúcar"? O trabalhador precário sem reforma à vista, por exemplo, estaria a ver na TV a novela da PT, em vez de se juntar aos 100.000?

mva | 11:12|


2.3.07  

Audibilidade

De 15 em 15 dias, no Rádio Clube Português, pelas 18h30, dois gays e uma lésbica comentam, durante meia-hora, as notícias dos últimos dias. Se ainda vai sendo difícil a visibilidade entre nós, pelo menos vai avançando a audibilidade. A não perder. Um deles fez notar hoje, e com toda a razão, como um ano depois do assassinato de Gisberta o estado português NADA fez no sentido de promover, nem que fosse, uma educação sexual e cívica que incluisse a transexualidade e a transfobia. Já para não falar de uma lei de identidade de género que permita o respeito pela cidadania de mulheres e homens transexuais. Pegando noutros assuntos por eles comentados, trata-se do mesmo estado cujos tribunais continuam a dar justificações irracionais e pré-modernas para recusarem o casamento de duas cidadãs portuguesas; o mesmo estado sob o qual vivem os jornalistas que se referem à mulher de Melissa Etheridge, Oscar para a melhor canção, como "companheira", quando na cerimónia Melissa usou a expressão wife, e não partner.

mva | 18:56|
 

Personagens previsíveis

1. Paulo Portas. Voltou. Boooooocejo. Modelitos, hairdo e acessórios à parte, vejo-o sempre como um velho chato, um daqueles tios afastados que nas festas de família diz sempre a mesma coisa, a mesma coisa, a mesma coisa...
2. Laurinda Alves. Voltou. Ao Público. Num desenvolto estilo de revista de telenovelas, narra a sua visita ao novo Hospital da Luz (um dos que se recusará a fazer IVG...), acompanhada de vários partidários do Não que administram a casa. Num PS no fim do texto anuncia que já lá nasceu a primeira criança. A subtileza de estilo, a alusão ao aborto, a retórica fina, aaaaah! You can't win them all, right?

mva | 10:41|
 

Ao meu colega Manuel Villaverde Cabral

Uma das funções de comentadores, colunistas, ou especialistas entrevistados pelos media é legitimar ou não a hierarquia de relevância das questões políticas. Uma das formas de fazê-lo (todos o fazemos, é claro) é, advertida ou inadvertidamente, fazer o senso comum passar por bom senso. Confesso que fiquei triste quando li estas declarações de um colega por quem tenho estima:

«(...) Portugal tem bastante mais com que se entreter! (...) O mesmo diria, aliás, acerca dos casamentos gay, que no caso de serem postos a votos seriam certamente recusados. Estou convencido de que nem sequer entre a comunidade gay (se tal existe, o que duvido) há unanimidade a esse respeito? E também não sei se a adopção por homossexuais é uma grande ideia. Já reina a maior das confusões sobre o sistema de adopção em Portugal, como se tem visto pelo caso Esmeralda; não creio que haja grande vantagem em complicar ainda mais as coisas!» (Manuel Villaverde Cabral, na Visão Online)

Triste, porquê? Porque Villaverde Cabral sabe que a retórica e o tom usados têm um efeito ainda mais negativo do que se afirmasse a sua discordância política em relação ao assunto; a retórica e o tom menorizam e desprezam a questão - "mais com que se entreter". Mas também porque sabe que hoje em dia a orientação sexual é uma categoria de discriminação da mesma ordem que a "raça" ou o género e que a desigualdade consagrada na lei é, neste caso, injustificada - não para um integrista católico, é claro, mas certamente para um liberal. Daí que, entre outras coisas, seja absolutamente irrelevante a existência ou não de uma comunidade ou de consenso sobre a matéria entre diferentes associações LGBT. A exigência da igualdade não deve vir apenas do segmento discriminado (que largamente interioriza a hegemonia, aliás, como aconteceu e acontece com as mulheres em relação à discriminação de género). A exigência de igualdade pode e deve vir de toda a sociedade, desde logo dos que a pensam liberalmente, pois a pré-condição para a dignidade é a não humilhação de parte dos seus membros pelo Estado. É também isto que coloca a questão da igualdade no acesso ao casamento num patamar radicalmente diferente do das outras questões ditas fracturantes e fora do cálculo do maior ou menor apoio da sociedade (questão que nem seria invocada caso se estivesse a falar de discriminação racial). A única verdadeira fractura política é a discriminação constante na lei. Por sinal a última - injustificada - que resta no regime democrático.

mva | 09:22|


1.3.07  

A questão peninsular

Enquanto em Espanha, dois anos depois da igualdade no casamento, foi aprovada a Lei de Identidade de Género, até com os votos do PP, em Portugal um Tribunal da Relação continua a dizer - com uma deliciosa argumentação de ilógica iliberal - que duas pessoas do mesmo sexo não têm nada que reivindicar o direito a casar.

mva | 10:55|
 



Gaita, cheguei atrasado. Quem me dera ainda ter (ou alguma vez ter tido...) corpo para isto.

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mva | 09:31|