... na temática da IVG [a decorrer num debate na SIC-N, onde Aguiar Branco se dedica com energia a argumentar algo em que se percebe que não acredita, na tradição da Escola Marcelista de Retórica e onde acaba de nascer uma nova estrela da comédia nacional, Matilde Sousa Franco]: então, falta muito para nos vermos livres de Carmona em Lisboa? Não se pode acelerar um bocadinho o processo?
é uma expressão que alguns traduziriam como "hipocrisia". Não é. É comum em Portugal e em muitas sociedades de modernidade manca. Os que invocam o fechar de olhos vêem esse comportamento como moral e caridoso. Ele está de acordo com o fundo católico (mais do que cristão) da cultura portuguesa - e de muitas sociedades de modernidade manca. Encontra-se na teoria do pecado e da confissão. Ou na distinção inacabada entre comportamento e identidade (condenar a acção pecaminosa e ter pena da identidade do pecador - pena, nunca respeito ou, em rigor, nenhuma teoria da identidade). Encontra-se nas explicações de senso comum sobre as prioridades morais: por exemplo, se o fechar de olhos for para bem da família, está desculpado o comportamento, mesmo que comporte uma ilegalidade.
Quem defender a superioridade moral (auto-atribuída, claro) do "fechar os olhos" é mais facilmente compreendido pela massa do quem falar quer em termos de cumprimento da legalidade, quer em termos de respeito pelas identidades ou pela decisões pessoais.
O Público decidiu hoje ser neutro em relação ao referendo. Porque entende que esta é uma questão de consciência. Nada mais errado. Questão de consciência é, sem dúvida, aquela com que se confronta cada mulher concreta no momento de decidir abortar ou não e por que razão. Mas o referendo nada tem a ver com isso. Tem a ver com uma questão política, no sentido mais alargado e nobre do termo. Nomeadamente, tem a ver com o direito que o estado tem ou não de interferir nas nossas consciências e de impor uma visão sectária sobre toda a gente.
O Público não percebe isto. Ou não quer perceber. Ou percebe mas reproduz o discurso da "consciência" (um abuso da consciência?), esse grande aliado da abstenão.
Judite de Sousa entrevista o líder católico português e representante do Não, José Policarpo. E anuncia que a seguir entrevistará o cientista Alexandre Quintanilha, pelo lado do Sim. Curioso. Voltámos à oposição religião / ciência? Não. Trata-se simplesmente de duas pessoas capazes de discursos calmos.
A calma e ponderação de José Policarpo parecem quase contradizer os desígnios do Não. A entrevista parecia um recado, como se ele dissesse aos católicos que não senhor, não é um grande problema se votarem Sim.
Ou será que, ao reduzir a intervenção da ICAR à afirmação do princípio da vida, acaba por reforçar esse núcleo de crença / argumento, desvinculando-se assim dos fundamentalistas?
PS - Ainda Marcelo: diz que não se trata de despenalização, mas de liberalização escondida. Mas o que ele defende é, isso sim, liberalização. Ora, a pergunta do referendo estabelece claramente as condições para a prática da IVG, não sendo por isso mesmo liberalizadora. A pergunta é clara: é sobre despenalização - justamente o que Marcelo diz querer. O "argumento" de Marcelo só não será uma trapalhada porque o que ele quer mesmo é provocar trapalhada - confundir as pessoas, aborrecê-las com o assunto do referendo, partidarizar o assunto, contaminá-lo com a chicana política que elas detestam. Em suma, promover a abstenção.
Esta é uma boa época para ler ou reler A Handmaid's Tale de Margaret Atwood, uma distopia sobre o controlo dos úteros. Estará publicado em português? Aqui fica um resumo, para aguçar o apetite:
«The narrator is a fertile woman living in the late twentieth century in Cambridge, Massachusetts. A religious group called the Sons of Jacob has recently overthrown the United States government. Our narrator has been arrested for being married to a divorced man, which is heretical. She and her husband, Luke, were arrested while trying to escape the country on fake passports. Their daughter was taken away from them, and given to an elite, childless family. Our narrator was sent to the Rachael and Leah Re-Education Center, which is known as the Red Center, to be trained for her new role in The Republic of Gilead. All Handmaids are trained at the Red Center, where they are brainwashed into submission to their new role by a group of women called Aunts. A Handmaid's role is to bear children for elite, childless families of The Republic. They must be pure, which means they cannot read or write or associate with other men or have desires of any kind. Their names are taken from them and they are tattooed with a number. They are taught to believe that the previous ills of society were their fault and that men are blameless. Our narrator is given the name Offred when she arrives at the home of her Commander, Fred. She spends much of her time waiting in her designated room. She wears the outfit of a Handmaid, which is modest and entirely red except for a white, winged bonnet. She discovers a message from the previous Handmaid carved into her closet, "Don't let the bastards grind you down."» (continua aqui)
da Casa do Sagrado Coração de Jesus de Évora foram constituídas arguidas por suspeitas de maus tratos a crianças que vivem nessa instituição particular de solidariedade social (IPSS), que só acolhe meninas. O motorista da mesma instituição da Igreja Católica - subsidiada pela Segurança Social - foi também constituído arguido, mas por alegados abusos sexuais contra menores». (DN)
Só pode ser mentira. Não apenas porque se é inocente até prova em contrário, mas porque toda a gente sabe que estas instituições existem para proteger as crianças - nomeadamente as que nasceram graças ao apoio às mulheres grávidas em circunstâncias difíceis - e para preparar as crianças para a adopção célere por parte de casais heterossexuais idoneamente seleccionados. Já não há respeito pela Inocência.
PS menor, ou irritação de estimação: quando é que as TVs e os jornais tiram de uma vez por todas a expressão "menina" dos seus livros de estilo?Qualquer dia as crianças, sobretudo as raparigas, passam a "princesas" nos telejornais.
A figura pública (não está aqui em causa a pessoa) de Marcelo Rebelo de Sousa é uma das criações de marca mais estrategicamente inteligentes dos últimos tempos. Para ter influência, a marca Marcelo® não poderia ter-se mantido apenas no universo da autoridade jurídica. Pela simples razão de que a sociedade já não obedece bovinamente ao autoritarismo formalista, tecnicista e de estética patriarcal que ainda caracteriza em grande medida esse universo. Tudo isso está demasiado associado ao antigo regime. É claro que dá jeito dar a entender que ainda se tem esse capital - é mesmo fundamental dá-lo a entender - mas essa alusão só resulta graças ao novo embrulho: o de um modernismo um tudo nada mais liberal. O corte não tem que ser radical: basta mudar o tom da conversa em família da prédica e da admoestação para o convencimento e o brilhantismo de salão. "O senhor doutor fala muito bem", em suma. Saraiva - o da telehistória nacionalista - já o tinha percebido. Mas a primavera marcelista não se aguentaria tão-pouco se não fosse ter-se apropriado da forma de comunicação em que o povo entrou, o audiovisual. O povo foi catapultado para a TV vindo directamente do adro da igreja e sem passar pelos bancos das escolas. A marca Marcelo® percebeu-o. A conversa em família gera intimidade na frieza plana do ecrã. E é esta intimidade - uma referência a um jogo de futebol, seguida da referência a um livro - que permite que qualquer afirmação propriamente política, até mesmo um assaSIMnato político, passe como mera expressão de bom-senso - óbvia, natural, evidente. A marca Marcelo® - e marca é, tendo mesmo conseguido tornar-se n' "O Professor", à semelhança das máquinas fotográficas que já foram "as kodaks" - entrou agora na Net e no YouTube, e fê-lo por via da questão do referendo sobre a IVG, num gesto de cândida interrupção voluntária da gravidade. Porque à semelhança daquelas marcas que de repente decidem fazer uma mercadoria que nada tem a ver com a que tradicionalmente produzem, Marcelo envereda por uma trapalhada argumentativa sem precedentes. Guterres - ao contrário da marca Marcelo, um flop comercial histórico, e co-responsável pelo calvário referendário a que fomos condenados - não teria conseguido pior. É caso para dizer "assim não". Caramba, temos direito ao nosso Marcelo em garrafa de vidro. Lata é que não.
Consta que a marcha do Não vai ter como motivo visual bandeiras de várias cores, de modo a provocar o efeito de um arco-íris. Não sei se não haverá mesmo bandeiras arco-íris. Bem-vind@s, pois, ao movimento lésbico, gay, bissexual e transgénero!
«[A comediante queer canadiana Lea] DeLaria recounts the tale of getting stuck in a hotel lobby with some right-wing right-to-lifers, who are also in town for a convention; when one of them asks her if she agrees that life begins at conception, she replies, "No, I think it begins when you mind your own fucking business!"» (Montreal Mirror)
Ou, em bom - e suave - português:
-Não acha que a vida começa com a concepção? -Não, acho que começa quando você não se mete na minha vida!
Novecentos candidatos à nacionalidade portuguesa fizeram uma prova de língua portuguesa. Um dos candidatos dizia, e com razão, que «aquele que sabe a gramática da sua própria língua de origem não tem dificuldade em aprender outra língua estrangeira». Sobretudo se for moldavo e falante de romeno. Mas sobretudo se for alfabetizado. Um exemplo de prova de português está aqui e a pergunta que se impõe perante esta prova escrita é: pode-se ser português e analfabeto mas não se pode passar a ser português se se for analfabeto?
(Ou: como é que mais de trinta anos depois do 25 de Abril, 11,5% das portuguesas e 6,3% dos portugueses são analfabet@s?)
Quando uma criança que viveu toda a sua curta vida com os pais adoptivos é forçada a viver com o pai biológico; quando os processos de adopção, antes de concluídos, podem ficar estragados pela reivindicação de um parente "de sangue" da criança; quando imensas crianças nascem de pais biológicos sem que estes tenham qualquer preparação ou inclinação para a parentalidade, enquanto os adoptantes passam por um crivo apertadíssimo - então percebemos que há qualquer coisa de errado no nosso sistema cultural e na sua transcrição para a lei.
Estamos mais críticos em relação ao nosso sistema provavelmente porque conseguimos agora planear e desejar crianças muito para lá da sorte, do azar e do "destino" da biologia - graças à contracepção, graças às técnicas de PMA, graças ao alargamento (em alguns países...) do leque de adoptantes, graças a uma vigilância maior sobre as competências (ou falta delas) dos pais biológicos - uma vigilância motivada pela ideia de direitos das crianças.
"Isto" - a cultura, e a sua inscrição na lei - está a mudar. Se não estivesse, ninguém prestaria atenção ao pai adoptivo agora preso. Que o processo de adopção nem sequer existisse, do ponto de vista legal, neste caso, não importa a ninguém, justamente porque o sinal de mudança está na atenção que todos prestamos à relação e à sua qualidade.
As pessoas do Não têm os seus valores e têm a liberdade para viverem de acordo com eles. Se a lei mudar continuarão a poder fazê-lo. Mas uma percentagem muitíssimo alta de portugueses e portuguesas não tem, neste momento, a mesma liberdade. Na situação actual, o estado português protege os valores específicos dos defensores do Não e não garante a liberdade de escolha aos e às restantes portugueses e portuguesas. O Sim é um voto pela liberdade de escolha de toda a gente - incluindo os defensores do Não. O voto no Não é, pelo contrário, um voto que pretende tomar decisões pelas outras pessoas, impondo uma visão específica (e não apenas defendendo a sua, já que essa continuará salvaguardada. O Sim acrescenta. O Não continua a subtrair.
Até se comeu bastante bem. O menu referia o "couvet", oferecia "cogumelos no sauté, servidos no bairro", "gambas à Guilho" como entradas, seguindo-se pratos como "bife ao mostarda" ou "bitoque guarneçido" e a pièce de résistance "bife a marrar".
Graças à tenacidade de Sá Fernandes, torna-se cada vez mais claro que uma empresa de construção tentou mesmo corromper o vereador. Graças à tenacidade de Ana Sá Gomes, a questão dos voos da CIA não desapareceu no limbo bocejante em que os governos gostam de colocar estas coisas. Graças à tenacidade com que cada vez mais pessoas abraçam a liberdade, as sondagens relativas ao referendo são promissoras. Graças a um bom trabalho cultural, a exposição de Amadeo tem sido visitada por dezenas de milhar de pessoas.
Nos dias optimistas uma pessoa até pensa que se calhar isto até vai.
Litmus test refere-se àquele teste em que a tirinha fica vermelha nas soluções ácidas e azul nas alcalinas. A expressão tem também um sentido idiomático em inglês: aquilo que estabelece a divisão de águas, o tira-teimas, o revelador do campo em que alguém se encontra numa discussão ou opção.
Para mim, as posições sobre a IVG são o litmus test sobre o verdadeiro respeito pela igualdade de género. Assim como as posições sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo são o litmus test sobre homofobia. Ambas são o litmus test sobre a interiorização ou não de valores fundamentalmente liberais.
No referendo sobre a IVG, o campo do Não quer impor os seus valores a todas as pessoas. O campo do Sim acha que são as pessoas que tomam decisões sobre as suas vidas. A importância simbólica do referendo reside aqui: divide as águas quanto à noção de liberdade e fá-lo de maneira radical justamente por remeter para o universo do corpo, da sexualidade, da reprodução, do género - aquele onde é mais viva a batalha entre a prisão (da "natureza" e da tradição) e a liberdade (da cultura e da invenção).
«É uma das contradições dos resultados ao [sic] questionário. Embora a maioria defenda o "sim" no referendo, são mais (45%) os que dizem não dever ser autorizada a IVG "quando a mãe não deseja ter um filho" do que os que acham que deveria ser autorizada (43%)» (Público)
Uma explicação possível para isto seria a falta de informação relativamente à pergunta do referendo: muitas pessoas continuariam a pensar que se está ainda a discutir a possibilidade do aborto legal tout court. E têm uma certa razão em pensar assim: é que a lei actual, semelhante à espanhola, não tem sido aplicada em toda a sua extensão, levando muita gente a pensar - de novo, com uma boa dose de razão - que a proibição da IVG é praticamente total.
Esperemos é que a explicação para aquela contradição não resida no carácter anti-liberal de grande parte da nossa sociedade: "As mulheres (irracionais, tontas, incapazes, menores, etc...) decidirem sobre o que acontece no seu corpo por capricho? Deus nos livre!"
Baghdad Burning, um blog desde Bagdade, foi publicado em livro, (já com sequela), com o título Baghdad Burning: Girl Blog from Iraq. Outros blogs de Bagdade: A Family in Baghdad, Tell Me a Secret, Me Versus Myself, e uma grande lista de links no Healing Iraq. Felizmente nenhum destes autores está entre os 100 iraquianos que morrem todos os dias em consequência da guerra civil gerada pela invasão americana.
Do lado do invasor, Bush reconhece que mentiu antes da guerra e que usou a estratégia errada durante a mesma. Para reparar estes tropeços menores resolveu... enviar mais tropas. Não fosse a comparação cruel, poderia dizer-se que é como aquelas pessoas que se endividam para pagar as dívidas que contrairam para pagar dívidas ainda mais antigas. A criatura é como a sarça ardente: não se consome mesmo.
«Socialiste Ségolène Royal lève toute ambiguïté sur sa position concernant le mariage et l'adoption par les couples homosexuels en s'engageant à "procéder à cette importante réforme par la voie d'un projet de loi" si elle est élue en mai. » (Le Monde Diplomatique)
Agora só falta que esta atitude apanhe depressa o Sud Express...
Dois novos movimentos pelo Não foram legalizados: "Norte pela vida" e "Minho com vida" (ou será com maiúscula?). O jogo é óbvio: apanhar boleia de representações mais ou menos antigas e mais ou menos novas sobre a diferença regional: o Norte como país católico versus o Sul anticlerical; o Minho "berço da nacionalidade" versus o Sul "conquistado aos Mouros"; o Norte, trabalhador e produtivo, preterido pela capital a Sul, preguiçosa e parasita. Junte-se uma pitada de provincianismo futeboleiro, a distribuição regional dos votos no último referendo, e ala que a receita é boa.
Felizmente o Norte (e o Minho) estão cheios de gente que não vai nisto.
PS: Certo é que não vai aparecer um movimento "Sul pela despenalização" ou "Lisboa com escolha" (é claro que, para que resultasse a simetria com a falácia da "vida", teriam que chamar-se "Sul pela liberalização" e "Lisboa com o aborto"...). E para não entrar na mesma teia de parolice, espero que não surja nenhum "Norte pelo sim".
Já por várias vezes referi o curioso fenómeno que consiste na inversão de posição que o neo-conservadorismo promove: as propostas conservadoras - ou mesmo reaccionárias - são apresentadas como as verdadeiramente inovadoras, modernas, radicais, transformadoras, face ao que se representa como um status quo de esquerda, imobilista, avesso à mudança. Tudo isto se faz a partir do uso adequado da retórica, claro, mas não se sustenta sem a falsa premissa de que o status quo é de "esquerda". E mesmo havendo algum real imobilismo de alguma esquerda, ele não pode ser despachado sem qualificação: quando, por exemplo, os sindicatos falam de conquistas adquiridas podem estar a usar uma linguagem que não pega - de tão gasta - mas estão a referir-se, de facto, a conquistas históricas. Conquistas obtidas contra o mundo que os "revolucionários" neo-conservadores querem reinstituir. A inversão de posição depende da ideia falaciosa de que o regresso ao passado possa constituir um avanço, pelo simples facto de ser definicionalmente uma mudança.
Chegou agora a vez das universidades. Baseando-se na real "endogamia" e no real nepotismo que ainda vigora nalguns meios académicos (curiosamente aqueles que mais produzem neo-conservadores - e não-neo...), ou em experiências universitárias vividas há 20 ou mais anos, depressa se generalizou a ideia de que o mundo universitário é feito de elitistas partidários do imobilismo e de supostos privilégios. Vender esta ideia é a coisa mais fácil do mundo - quanto mais não seja porque carrega no botão da inveja social. Aos promotores desta ideia não interessa distinguir entre casos; nem analisar a realidade; nem verificar a validade das suas hipóteses. O que interessa é estabelecer um clima. Propiciador do quê? A resposta começará a surgir quando identificarmos quem promove esta visão...
Grande inovação portuguesa: o julgamento e a prisão como formas de poupança do estado
«A Plataforma Não Obrigada prevê que, caso o "sim" vença no referendo sobre despenalização do aborto, os gastos anuais do Estado sejam entre 20 e 30 milhões de euros.» (Público)
Quando Matilde Sousa Franco diz "nós é que somos modernos", referindo-se aos partidários do Não, é todo um programa que fica transparente: o dos sectores conservadores que se apresentam como inovadores face ao sector liberal que representam como "velho". O truque retórico é que é, esse sim, velho. E convinha que Sousa Franco fosse ler meia dúzia de coisas sobre a modernidade e de como nela encaixa a igualdade de género e a liberdade de escolha, entre outras coisas "velhas".
Em 3 anos e meio este blog recebeu centenas de comentários anónimos. Nestes incluo os pseudónimos que não remetam para sites, blogs e endereços (quem tenha um blog com pseudónimo, por exemplo, está apenas a criar uma persona e de qualquer modo é sempre identificável, por exemplo para efeitos judiciais). Creio não estar enganado se disser que só 2 ou 3 desses comentários foram "normais". Todos os outros resvalam para o insultuoso. Têm sempre qualquer coisa de histriónico, às vezes mesmo de histérico. Os seus autores atrapalham-se e tropeçam na própria escrita, tal a intensidade da motivação emocional. Mas são fascinantes porque nos levam a perguntar quem serão aquelas pessoas. Nunca o saberemos. Mas podemos imaginar o "quadro" por trás da revolta mal canalizada: pessoas - ou momentos na vida das pessoas - que ejaculam apressadamente a sua raiva (um pouco à semelhança das pessoas que confundem sexo com violência) e a seguir vão carneirosamente à sua vida, sem revoltas, sem poder, sem poder poder. Elas prosseguem uma velha tradição de inveja social e agigantamento do ego (pois imaginam-se como únicas e eleitas vítimas de tremendas injustiças feitas por pessoas concretas, numa espécie de ausência absoluta de consciência social). Ter uma colecção de anónimos deste tipo é ter uma pequena galeria dos horrores, um gabinete de curiosidades onde cada gaveta contém um insecto esperneante mais inesperado que a anterior. Mas é também ter uma amostra da incapacidade de diálogo e mobilização criada por uma sociedade que passou da ditadura para a revolução e desta para o neo-liberalismo do galo de barcelos. O anónimo dos blogs é uma criatura contraditória, uma contraditura: para gritar mais alto a sua extrema individualidade recorre à omissão da identidade - real ou imaginária. Seria isso o que sentiam os informadores da pide, doidos por ouvirem eventuais comentários contra a situação, por trás de um exemplar d' A Bola e esfregando imaginariamente as mãos, já-te-apanhei-meu-sacana?
[Uma colega minha, Catarina Fróis (texto disponível em breve), tem vindo a fazer pesquisa muito interessante sobre anonimato. Não sei todavia se tem alguma parte sobre o anonimato dos comentários nos blogs; suponho que a sociografia da coisa seja quase impossível de fazer. Mas a análise de conteúdo dos textos, essa seria um óptimo "terreno". Mas, é claro: quem tem pachorra para cutucar feridas?]
Que fazes? Acabei o relatório, agora vou fazer o planeamento
Se tivesse oferecido prenda de natal aos ministros responsáveis pela ciência, ensino superior e educação, ter-lhes-ia oferecido Audit Cultures: anthropological studies in accountability, ethics and the academy, de Marilyn Strathern. Leiam as primeiras páginas no Google Books e perceberão porquê. Aquilo que é sem dúvida um princípio saudável (e mais que necessário em Portugal) - auditoria, controlo, avaliação, etc - rapidamente se transforma num monstro burocrático que se alimenta a si próprio e, sobretudo, das energias, capacidades e competências de quem foi treinado para outras coisas. Cada vez se passa mais tempo a fazer relatórios e contas do que se fez e a preparar relatórios e planos para o que supostamente se irá fazer. Aquilo a que ambos dizem respeito - a investigação, o ensino, etc - desaparecem para as traseiras. O resultado de todo este processo é que quem sabe fazer certo tipo de coisas deixa de as fazer para se dedicar a coisas que não sabe fazer bem e que são supostas ter como objectivo a avaliação do quão bem ou mal se faz a coisa que se deixou de poder fazer! Toda a gente perde.
O mais triste é que pouca gente se revolta contra isto (não me refiro ao princípio da coisa, que é justo, mas ao descontrolo do crescimento do monstro). A minha suspeita é que há sempre uma considerável percentagen de pessoas que, não conseguindo produzir conhecimento, dedica-se alegremente à burocracia e ao tipo de sensação perversa de poder que ela propicia.
«O ministro anunciou também que os indicadores de desemprego entre os licenciados vão passar a incluir os cursos e as instituições que os formaram, a fim de se responsabilizar o sector universitário.» (in Público). Portanto: a função social da universidade é mesmo treinar as pessoas para empregos e, além disso, para os empregos possíveis. OK. Vou ali e já venho.
O ano acabou da pior maneira possível: as democracias modernas ocidentais aceitaram tranquilamente que Saddam Hussein fosse enforcado. Isto é, aceitaram tranquilamente a pena de morte. Encolheram os ombros, demitiram-se de si mesmas. E mesmo nos casos (Diário de Notícias, Le Monde...) em que houve manifestações de revolta com o caso, sentiu-se a necessidade de salvaguardar que o ditador era um monstro que merecia castigo. Quando a recusa da pena de morte não precisa, justamente, de nenhum "mas" desse tipo.
A última página do Público de hoje é dedicada a uma manifestação em França contra o ano novo. A ideia é sem dúvida engraçada e provocatória, logo merecedora de destaque. Acontece apenas que isto já foi feito nos finais dos 80 e inícios dos 90 pelos Felizes da Fé, aqui mesmo em Lisboa...