Este blog vai estar praticamente de férias até ao Ano Novo. No regresso serão anunciadas novidades - de site e blog - que espero venham a ser interessantes para @s leitores/as. O processo "em construção" está a ser bastante entusiasmante para mim e para os webmasters extraordinaires que me acompanham. É só mais um bocadinho...
Cada vez mais em Portugal se dá a ver a pluralidade religiosa, para lá da hegemonia do catolicismo. Ainda bem. Provavelmente será esse o melhor caminho para relativizar culturalmente as crenças e práticas religiosas. Mas os relatos que aparecem, nos media por exemplo, nunca incluem a vivência do Natal (ou das "Festas") por parte daqueles que não pertencendo a uma religião minoritária em Portugal, tão-pouco se sentem ligados ao catolicismo. Na minha família estrita (aqui em casa) não celebramos nada, a não ser trocar presentes ao chegar a casa da festa familiar alargada de 24. Na minha família de origem, do lado materno, juntamo-nos na noite de 24. A celebração consiste num jantar e na distribuição de prendas, tudo antes da meia-noite. O símbolo presente é a árvore de Natal. Não há presépio (muito menos Missa do Galo, claro); quando muito há uma figura de Pai Natal, por exemplo no imaginário infantil, mas não me lembro de alguma vez se ter referido um Menino Jesus. No dia 25 não acontece absolutamente nada.
Rápido? Banal? Sem "tradição"? Sim e não. Esta é a tradição construída na prática, sem decisões dogmáticas, e que fala da vontade de fazer uma festa familiar, de satisfazer os desejos das crianças, de estar em sintonia com a comunidade maior à volta, mas sem ter que enveredar pelo lado confessional. Quantas mais tradições familiares deste tipo ou próximo dele existirão? Muitas, com certeza, tantas quantas as variadas formas tradicionais de celebrar o Natal (já assisti a várias, do Nordeste Transmontano à Serra Algarvia, que seriam completamente inesperadas para a maioria dos lisboetas de classe média) por essa "província" fora e que ficaram de fora do modelo "nacional" (e mesmo do católico) transmitido pelos media e pelo mercado.
«Quando o leitor do PÚBLICO estiver perante estas linhas, pode ser que já se encontre na terra com a família, nesta antevéspera de Natal. Ou pode ser que ainda não tenha acabado de colocar os presentes no carro para sair da grande cidade em direcção à auto-estrada. Nesse caso, viaje com muito cuidado. Não tanto por causa dos engarrafamentos ou dos acidentes que todos os anos, por esta altura, são causa de ansiedade e sofrimento. Mas antes porque já devem andar por aí as brigadas do laicismo tentando impedi-lo de comemorar o Natal (...)» (continuar a ler no Público)
A Igreja Católica queixa-se da banalização e secularização do Natal. Em suma, e simplificando, queixa-se do triunfo do Pai Natal e das renas sobre Jesus-criança e o presépio. Os sectores mais militantes da laicidade queixam-se da atenção dada ao Natal pelas instituições públicas, quer seja "com Pai Natal" ou com "Menino Jesus". As religiões que não a católica gostariam de ver respeitadas as suas festas coincidentes com o Natal. Os mais positivistas querem transmitir a "verdade" sobre o fundo "pagão" (solstício de inverno, festas em torno de "luzes" para combater a escuridão do inverno, etc) comum a todas.
Mas as pessoas - nós... - vão alegremente celebrando (ou resignadamente acatando...) festas cujo sentido está para lá das codificações confessionais, das explicações antropológicas, ou do que resta do projecto iluminista (outras luzes...). A nossa capacidade para resignificar símbolos, para os canibalizar, amalgamar e recompor (e para criar automatismos e obediências), ultrapassa qualquer discussão confessional, normativa ou política sobre a matéria. E ainda bem.
Já repararam com certeza como os media, as universidades, as associações, os clubes de ideias, etc., chamam sempre a ICAR, na pessoa de um dos seus sacerdotes, para participar de debates quando estes versam assuntos "fracturantes". Quando se lhes pergunta porque convidam a ICAR, sempre dizem que tem peso social. Ora bem: não será antes que esse peso lhe é dado pelo próprio acto de a convidar, numa espécie de automatismo cultural irreflectido? Porque os pesos medem-se, acho. E para medir é preciso algum parâmetro. Qual será o que se aplica à ICAR? O número de batizados? Impossível, pois trata-se de uma forma de violência burocrática sobre as pessoas, já que no catolicismo elas raramente escolhem baptizar-se. Ou será antes a percentagem da população que se declara praticante daquela religião? A julgar pelo números respectivos, duvido que a ICAR gostasse desse critério.
Os dois últimos posts remetem para a corrupção. Quando Maria José Morgado for forçada a desistir da tarefa que agora iniciou, será porque terá descoberto quem não devia na teia da corrupção. Dá imenso jeito isolar o "mundo do futebol" como centro da corrupção: permite que os esquemas corram tranquilos, e feitos por gente mais "culta", noutros "centros". É assim como em certos países africanos, onde há sempre uma elite que precisa, para a prossecução dos seus interesses, de transmitir para fora a imagem de que não é tão corrupta assim, de que gostaria de promover a mudança e a limpeza. A questão está toda no assim, é claro. Lá como cá.
À semelhança dos anos 60 e inícios de 70, em pleno colonialismo, guerra colonial e ditadura, dizia-se que o futuro estava em Angola. Agora, passou o colonialismo, passou a guerra colonial e acabou a ditadura. Excepto em Angola, claro, onde, terminada a segunda guerra, a ditadura prospera alegremente. Hoje mesmo os jornais noticiavam, com branda e normalíssima platitude, que o ditador angolano não achava conveniente haver eleições antes de 2008.
Entrementes, meio Portugal vira-se para Angola. Que para o fazer tenha que pactuar com a ditadura e os esquemas - que não senhor, não têm que ser uma fatalidade africana e muito menos se podem justificar com relativismos apressados - abona muito pouco a favor da noção de "futuro".
Um homem ao meu lado no barbeiro. Diz que não se pode acreditar em Carolina Salgado por ser o tipo de mulher que é. E que Pinto da Costa foi ilibado em todas as instâncias. Ela é uma "gaja", ele é um "senhor". "E o que é que ela queria? Ele apanhou-a na cama com outro....". Para corroborar esta "análise" - em que ao pecado de ser mulher acresce o pecado de estar tingida por um passado em casa de alterne - diz que ouviu na TV um senhor dizer que não leu o livro de Carolina, pois considerava-se uma pessoa culta, que só lia livros mesmo-mesmo, como os de Agustina. Ao narrar este episódio, o homem - colocando-se através da citação do lado da "cultura" e contra o "alterne" - não consegue lembrar-se do nome da escritora que o personagem visto na TV referira.
«Uma vez casados, fiéis. E antes do casamento, a abstinência. São estas as armas para combater a sida, de acordo com o cardeal Javier Lozano Barragan, que preparou um estudo sobre o uso do preservativo feito a pedido do Papa Bento XVI. » (Público)
É provável que o estudo continue com sugestões de algumas técnicas de bruxaria: «1) equipe-se com uma avestruz; 2) dirija-se a um terreno com solo arenoso; 3) escave um orifício no solo; 4) coloque a cabeça do animal no orifício e cubra-a com areia; 5) reze (muito)»
«(...) É verdade que há (felizmente poucos) licenciados em Medicina que também são favoráveis à liberalização do aborto e a votar "sim" no futuro referendo de 11 de Fevereiro. Esses ou não fizeram no fim do curso o juramento de Hipócrates, ou já o esqueceram! Fica assim explicada a posição de um economista, que, apesar de ministro da Saúde, defende a morte dos fetos, até às dez semanas, sem outra razão que não seja a vontade da mulher. Na verdade, só aqueles que respeitam a sua ética profissional se poderão considerar verdadeiramente médicos. E esses não deverão manter-se alheios ao referendo. Não basta que votem "não": importa que esclareçam todos aqueles com quem contactam, dando-lhes a conhecer a evidência científica e quais os valores civilizacionais em causa. (...)» (Gentil Martins, no Público)
Dito por este senhor, desta maneira, e considerando o país onde estamos, isto poderia querer dizer: "Os senhores médicos que apelam ao voto no Sim não esperem grande coisa em termos de carreira na nossa corporação".
É por estas e por outras que detesto a expressão "direito à diferença" quase tanto como "tolerância", por permitir que certas mentes deslizem da "diferença" para a desigualdade com irresponsável ligeireza:
«Segundo julgo, as associações homossexuais estribam muito da sua luta num direito à diferença, que indubitavelmente lhes assiste e é, aliás, elemento definitório de qualquer modelo de democracia liberal. Ora, é precisamente essa diferença, esse direito à diferença, que explica que não haja discriminação alguma na actual redacção do crime de maus-tratos. E, note-se, que não me refiro a qualquer diferença no plano dos factos. Refiro-me muito simplesmente à evidência jurídica de que os homossexuais não se casam entre nós, porque a lei (aliás, ao que parece, com amplo apoio popular) não o permite. E de qualquer modo não deixa de ser estranhamente paradoxal que se pretenda fazer valer aquele direito à diferença precisamente através de instrumentos jurídicos equalizadores. Segundo creio, é essa obsessão igualitária que constitui pano de fundo da alteração proposta.» (Pedro Soares de Albergaria)
«...Certificando que "foram preocupações da revisão do Código Penal a consagração da igualdade na prática, no que respeita à orientação sexual, de acordo com a norma constitucional" Rui Pereira refuta a imputação de intuitos "promocionais": "As lutas contra discriminações são lutas de todos nós. Não é conversa retórica nem bandeira ideológica nenhuma. A igualdade é um valor jurídico em que todos nos reconhecemos como seres humanos." (...)» (todo o artigo do DN aqui).
Rui Pereira dirigiu uma proposta de revisão do código penal com base em valores e princípios que, desde logo, estão na nossa constituição. Tal bastou para que os pré-modernos tremessem. Desta feita, a reacção veio da Associação Sindical dos Juízes.
Hoje tropecei, pela enésima vez, na expressão "calabouços da Polícia Judiciária" num artigo qualquer de jornal. Não há artigo sobre matéria criminal ou policial que não recorra a esta expressão. É um daqueles vícios de linguagem que denotam inércia cultural. Será que a prisão, ou as celas, ou a zona de detenção, da PJ é mesmo um calabouço - com tudo o que a palavra invoca de paredes escorrendo humidade, grilhetas, palha no chão, ratos, um fio de luz entrando por uma fresta, vindo de lá fora, em plena Idade Média?
Pois é, graças ao Boss, temos a honra do convento (salvo seja) salva: quando os eurobarómetros focam nos jovens, o caso muda de figura. Veja-se também o comentário que ele faz dos dados de vários inquéritos nos últimos tempos.
O Eurobarómetro de hoje inclui perguntas sobre atitudes face à homossexualidade (página 46). 32% dos europeus acham que os casais do mesmo sexo ("homossexuais" na pergunta) devem poder adoptar. 44% são a favor do casamento. Altos níveis de aceitação encontram-se nos Países Baixos (88% casamento, 64% adopção), seguidos - e aqui refiro apenas a questão do casamento - da Suécia, Dinamarca, Bélgica, Luxemburgo, Espanha, República Checa. Ainda acima da média europeia, na mesma questão, a Áustria, a França, o Reino Unido, a Finlândia. A oposição ao casamento e à adopção é mais forte na Grécia e na Letónia (84% e 89% contra, respectivamente) e na Polónia (76% e 89% contra, respectivamente). Ainda abaixo da média europeia - regresso apenas ao casamento - estão a Irlanda, a Itália, a Eslovénia, seguidos de Portugal, que só está acima da Estónia, Eslováquia, Hungria, Malta, Lituânia, Polónia, Grécia, Chipre e Letónia.
Dados específicos para Portugal: 29% a favor do casamento (contra 56% em Espanha) e 19% a favor da adopção (contra 43% em Espanha).
Notas várias: 1) Ao dizer que os casamentos são permitidos na Suécia e no Reino Unido o Eurobarómetro comete um erro crasso. 2) Portugal é o segundo país (66%) que mais acha ser importante a contribuição dos imigrantes. 3) E se houvesse uma pergunta, como há uns anos, sobre "discriminação" em geral? Os portugueses provavelmente seriam esmagadoramente contra a dita... 4) Seria interessante saber se é a primeira vez que há perguntas sobre casamento e adopção no Eurobarómetro. Se assim for, o facto é em si mesmo é revelador e encorajador.
Conclusão: se o estado e o governo fizessem a pedagogia da igualdade perante a lei e da luta contra a discriminação, certamente os resultados seriam diferentes. Assim, só ajudam a promover a lenga-lenga das "mentalidades".
1. Filas de carros entupindo Lisboa à noite. Diz que é para visitar uma "árvore" de natal no Terreiro do Paço. Não sei. A única coisa empiricamente verificável é uma data de gente fechada em carros.
2. Discussão interessante sobre uso público do "véu" islâmico decorre há semanas no Cinco Dias. A mim parece-me duma evidência transparente que ninguém tem nada a ver com isso (usar o "véu"). E parece-me estranhíssimo que imensa gente - desde logo Estados democráticos inteiros... - ache que não.
3. Escaparates de livrarias carregados de livros tipo Código Da Vinci. Até há um dum locutor de tugavisão. Acho que vou fazer um também: é coisa para se fazer numa semana, desde que usada correctamente a receita.
4. Braga da Cruz, sociólogo, dizia na tugavisão que deveria haver uma outra figura, que não a adesão, para as relações Turquia-UE. E que se houvesse adesão amanhã seríamos confrontados com, sei lá, pedidos do Egipto, da Tunísia... Humm, foi roubar o argumento às opiniões aflitas da classe política portuguesa sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo?
A Tribo Seminole da Florida comprou o negócio dos Hard Rock Cafés. Isto é: um pedaço dos Restauradores, em Lisboa, é agora propriedade "dos índios". Haverá algum Hard Rock nalguma avenida ou praça Colombo nalguma cidade espanhola?
PS: A minha colega Jessica Cattelino tem feito pesquisa com os Seminole e os seus casinos.
É óbvio que um feto e mesmo um embrião são "vida". É óbvio inclusive que são vida da espécie humana. É por isto ser tão óbvio que tanto os apoiantes do "sim" como os apoiantes do "não" concordam que a decisão quanto a abortar é um problema moral e ético que se coloca a quem tem que decidir. E é por isto ser tão óbvio que há qualquer coisa de ridículo nas discussões sobre o "começo" da vida - feitas por qualquer dos lados da "barricada".
O que isto significa é que a questão se põe noutro plano. E esse plano é o da comparação entre a vida humana duma Pessoa individual e social, feita e com biografia e projectos - a mulher que engravida - e a vida no sentido lato que o embrião é. A primeira tem que pesar prós e contras da consequência de ter um/a filh@; a segunda "existe" num plano potencial e passivo. É por isto que o referendo não é sobre a vida. Como não é sobre a educação sexual, a contracepção ou os apoios às mulheres grávidas.
Mas será o referendo sobre os direitos das Pessoas, neste caso especificamente das mulheres? Em rigor, não. O referendo é sobre a despenalização, o que não invalida a punição do aborto depois das 10 semanas (tem que haver sempre uma fronteira, por arbitrária que possa parecer nos casos limite -10 semanas e 1 dia -, exactamente como na idade do consentimento, por exemplo - x anos e um dia). Não invalida tão-pouco que continue a existir o problema moral e ético referido acima. Problema ético e moral que deve ser resolvido pela consciência de cada uma das Pessoas autónomas que se vejam confrontadas com o problema. Incluindo as mulheres que, ganhando o sim, nunca serão obrigadas a interromper a gravidez (mas é mesmo preciso explicar isto?) se forem radicalmente contra o aborto.
Posto isto, o que me faz impressão é a facilidade com que toda a gente, de um lado e outro, parece abandonar o discurso sobre o corpo feminino e a soberania de cada mulher sobre ele. Faz-me impressão que o lado do "não" consiga passar a mensagem de que esse discurso é "feminista", logo "extremista". Que o outro lado aceite estes termos, como geralmente aceita através do silêncio, é sinal do atraso cívico do país. É que o discurso sobre a soberania da Pessoa sobre o seu corpo nada tem de extremista - é pura e simplesmente o resultado de uma visão moderna e liberal sobre a autonomia dos indivíduos. Extremista e ultrapassado é o discurso sobre a maternidade forçada como fado e destino.
O sector do "sim" tem que ultrapassar estes complexos e não ficar totalmente prisioneiro da lógica centrista do convencimento das "massas". Não pode fazer como o PS que a cada semana dá novos sinais de hesitar em fazer campanha: agora já o governo não vai participar nela, ao contrário do que foi dito; e hoje soube-se que hesita em fazer cartazes de campanha. Do outro lado, não há hesitações de espécie nenhuma: a ICAR, por exemplo, promove um concurso de arte infantil sobre a vida intra-uterina denominado "A minha primeira morada". Reparem bem: morada. A metáfora imobiliária é claríssima: o útero não é da mulher, o útero é do inquilino (o feto) e/ou do propietário - o estado, a Igreja, a sociedade.
Pela parte que me toca não cedo um milímetro. Continuo feminista - isto é, alguém que acredita que a igualdade plena entre os sexos é uma questão de civilização; e continuo radicalmente liberal - alguém que acredita que, apesar do determinismo social, devemos pugnar pela autonomia e dignidade plenas das Pessoas.
Já saiu o relatório da OCDE que vai servir de base para as mudanças no ensino superior (depois do ENQA). Por enquanto está disponível através dum link do Público (espero que acessível). Em breve, com certeza, na página da OCDE ou do MCTES. De qualquer modo, já é notícia.
(Ando nisto há vinte anos. Ainda não houve dois anos seguidos sem mudanças, reestruturações, renovações, revoluções, recomeços do zero, transições. Nunca nenhum modelo foi experimentado, vivido, testado pelo tempo. Com tantas análise, relatórios, recomendações, linhas de orientação, etc., já deveríamos ter um dos melhores sistemas de ensino superior do mundo. Not.)
Para as pessoas da minha idade, que ainda gritaram a frase chilena el pueblo unido jamás será vencido, Pinochet não era "apenas" um ditador. Era a encarnação duma forma muito concreta de Mal. A encarnação morreu. Mas o mal que ele personificou não foi devidamente julgado.
Segunda Circular, Lisboa. Pelo menos três grandes outdoors do movimento "Não Obrigada", contra a despenalização do aborto. Tudo bem: quem tem dinheiro pode. Mas podiam ter arranjado um copywriter um pouquinho mais inteligente, tipo com o cérebro completamente formado. É que "Não obrigada" sem vírgula entre as duas palavras mais parece slogan a favor da despenalização: "Grávida? Não obrigada (apenas se quiser...)". Fugiu-lhes a boca para a verdade, para a obrigação da gravidez pelo estado, dono dos úteros das fêmeas, propriedade colectiva.
Quanto mais uma pessoa entra na engrenagem universitária mais percebe que há dois modelos de referências e práticas em funcionamento hoje: o da empresa e o da repartição pública. Acontece que a universidade não é - não deve ser - nenhuma destas coisas. Pode e deve ter uma gestão tão eficiente como a duma empresa, mas não tem nem deve ter os propósitos duma empresa; pode e deve ter o desígnio do serviço público, mas não é nem deve ser uma máquina de aplicação de normas burocráticas. O mais caricato - e o mais trágico - é que aqueles dois modelos coexistem, atropelam-se, contradizem-se e simplesmente impedem o desenvolvimento do ensino e da investigação - afinal de contas os desígnios da "coisa".
«(...) Por tudo isto votarei sim a 11 de Fevereiro. Mas não considero que o caso fique aqui encerrado. Em política como na vida as responsabilidades devem ser pedidas a quem de direito. E esta situação aberrante em que nos encontramos tem responsáveis. São eles António Guterres e Marcelo Rebelo de Sousa. Sobrepondo-se à Assembleia da República, estes dois líderes acordaram na realização dum referendo que não só não resolveu problema algum, como criou vários. Algum dia quer um, quer outro terão de ser confrontados com isto.»
Guterres é aquele senhor que agora é vendido como grande humanitário. Rebelo de Sousa é aquele senhor que agora é vendido como o único "Professor" português. Andam por aí a assobiar para o ar, tranquilíssimos e autosatisfeitos.
PS: O movimento Cidadania e Responsabilidade pelo Sim já tem um blog.
Na reportagem referida abaixo usa-se o género feminino para referir Gisberta. Como deve ser. A jornalista cumpriu. Quem fez os separadores anunciando a reportagem, não. E a reportagem humaniza Gisberta e denuncia as condições do sistema que seria suposto apoiar e educar os jovens que acabaram assassinando. Mas fica a outra questão por explorar: tudo o que falta fazer para a igualdade, dignidade e cidadania plena d@s transexuais,
Ainda falta quase uma hora para começar a reportagem da RTP sobre o caso Gisberta e o sangue já ferve: os anúncios da reportagem referem-se a Gisberta no masculino. Ignorância? Maldade? "Objectividade"? Talvez um pouco de tudo. Mas sobretudo incompetência. Sim, porque se há coisa que os jornalistas são supostos partilhar com os antropólogos é levar a sério o ponto de vista dos outros. A autoidentificação duma transexual como mulher sobrepõe-se eticamente à heteroidentificação supostamente objectiva, mas que mais não é do que essencialismo crasso. Gisberta era uma mulher porque se apresentava como tal, ponto final. No dia a dia tão-pouco vamos verificar os genitais das pessoas que se nos apresentam como mulheres. Tratar Gisberta no masculino é dizer-lhe "tu não podes ser, tu não és - tu não eras - mulher". Percebe o RTP o insulto?