1) Metade das universidades iam ao ar 2) Metade dos politécnicos iam ao ar 3) Metade dos cursos iam ao ar 4) Transformava os politécnicos em verdadeiros... politécnicos 5) Acabava com cursos unidisciplinares no 1º ciclo 6) Proibia conversas sobre "empregabilidade" 7) Cada universidade seleccionava os seus alunos 8) Profissionalizava a gestão das universidades 9) Reduzia Bolonha a um sistema de equivalências europeias 10) Garantia concursos regulares e verdadeiramente independentes para lugares de docentes e investigadores e avaliações sérias destes
Parece que Ratzinger manifestou apoio à entrada da Turquia na UE. Nunca esperei vir a dizer isto: bravo. Talvez certa classe política europeia comece a deixar de usar o argumento religioso que referia no post abaixo?
A Europa, que se orgulha de ser laica, usa o argumento de ser "cristã" para hesitar quanto à acessão da Turquia à UE; Turquia que é assumidamente um estado laico, pelo que o "argumento" religioso europeu se dirige à população turca, de maioria islâmica - como os 20 milhões de europeus muçulmanos que devem ficar pasmados ao ouvir os dislates cristocêntricos dos seus governantes supostamente laicos. A Europa pode ser maioritariamente cristã. No plano negativo, não foi isso que impediu que fosse o lugar do mais cruel e instituído antisemitismo. No positivo, que seja hoje um continente com 20 milhões de muçulmanos e uma grande percentagem de cidadãos agnósticos e ateus.
Quanto ao estado da democracia, dos direitos humanos ou da liberdade religiosa na Turquia, que dizer então das xenofobias, exclusões sociais graves, hegemonias religiosas ou homofobia institucionalizada de recém-integrados como a Polónia ou a Letónia, e de países que vão entrar como a Roménia?
Assumam que a questão é outra - económica, demográfica. E/ou que o que nos têm vendido como espírito europeu é mero verniz.
PS: Cara RTP, decorar o estúdio da emissão da visita de Ratzinger à Turquia com as bandeiras turca e da UE é um abuso intolerável. Ratzinger não representa a UE. Colocassem a bandeira do estado laico, democrático e com liberdade religiosa chamado Santa Sé. É esse estado que Ratzinger representa.
O antropólogo Michael Taussig escreveu há uns anos um livro chamado The Magic of the State, (entrevista interessante aqui) sobre a relação entre ritos mágicos tradicionais, rituais de possessão por espíritos e o funcionamento do estado-nação moderno. O seu trabalho versava uma "montanha mágica" na Venezuela, Maria Lionza. A iconografia do estado, tal como transmitida através dos manuais escolares, penetrava o panteão de espíritos. Simon Bolívar lá tinha o seu lugar, tranformando-se assim o herói nacional em espírito venerado/venerável - e possuível, supõe-se. Posto de forma simplista: os heróis nacionais tornam-se em "deuses"; a narrativa do estado-nação surge como uma mitologia; o culto do sagrado e o culto do estado vão-se equivalendo. Ora bem, será que o boneco Chavecito é um sinal de que o mesmo está a acontecer ou vai acontecer com Chávez? Quantos anos até que ele entre no panteão? Depois da sua morte, quanto tempo até que alguém seja possuído por ele? O processo já começou, graças à intervenção de outro factor - o mercado; com aprodução em massa de milhares e milhares de bonecas de Chávez, quais ícones, santinhos ou orixás. À magia do sagrado e à magia do estado, junta-se a magia do mercado. Deve ser uma nova via para o socialismo...
Cidadãos, não esqueçam que as mulheres são mais emotivas
«As mulheres sentem as emoções com maior intensidade do que os homens, revela um estudo científico inédito realizado em Portugal. Denominado Construção psicológica das emoções: o efeito do movimento dos músculos da face. Estudo empírico com portugueses, o trabalho foi realizado pelo Laboratório de Expressão Facial da Emoção e pretendeu perceber de que forma os músculos faciais podem exibir as emoções básicas (...)» (Público)
OK. Tudo bem. Admitamos, por hipótese, que até pode estar bem feito, certinho, etc. Mas a questão é esta: porquê a notícia? Num jornal diário? Que fazer com esta "informação"? Para que serve? Que ilações se pretende tirar?
O meu colega antropólogo José Ignácio Pichardo Galán recebeu há pouco tempo o prémio Caja Madrid pelo seu trabalho sobre homofobia no sistema educativo. Dias depois descia as escadas do metro em Madrid, de braço dado com o namorado. Foi agredido com uma garrafa, a soco e a pontapés. Reagindo, José Ignacio disse que a educação é uma arma importante contra a homofobia: «(...) La asignatura de Educación para la Ciudadanía se presenta como el mejor espacio para que cualquier estudiante de este país aprenda que existe una diversidad de formas de amar y una gran diversidad de familias y que todas deben ser respetadas. Parte de la jerarquía de la Iglesia Católica no comparte esta idea y parece que el gobierno socialista está cediendo a sus presiones y no incluirá este tema en el diseño final [de la] asignatura (...).» (continua aqui)
PS: Espero que por cá, neste Fórum de iniciativa governamental em que aceitei participar, se leve a sério este tema. PPS: E a propósito de educação anti-homofóbica (e pró-família...) veja-se o site do Érase Una Vez.
Ontem às onze fumaste um cigarro encontrei-te sentado ficámos para perder todos os teus eléctricos os meus estavam perdidos por natureza própria Andámos dez quilómetros a pé ninguém nos viu passar excepto claro os porteiros é da natureza das coisas ser-se visto pelos porteiros Olha como só tu sabes olhar a rua os costumes O Público o vinco das tuas calças está cheio de frio e há quatro mil pessoas interessadas nisso Não faz mal abracem-me os teus olhos de extremo a extremo azuis vai ser assim durante muito tempo decorrerão muitos séculos antes de nós mas não te importes não te importes muito nós só temos a ver com o presente perfeito corsários de olhos de gato intransponível maravilhados maravilhosos únicos nem pretérito nem futuro tem o estranho verbo nosso
Das redes, da tribo dos antropólogos e da pequenez do mundo
A, antropóloga em Chicago, telefona a B, este vosso escravo, em Portugal e diz-lhe que C é uma amiga sua, antropóloga como A e B. C vem passar uns tempos em Portugal e A gostaria que B e C se conhecesssem. Semanas depois, D, amiga de B (mas que não conhece A, nem é antropóloga), telefona a B para lhe dizer que ele talvez gostasse de conhecer uma antropóloga americana, mãe de uma colega da sua filha. Trata-se, é claro, de B. Mais ao menos ao mesmo tempo, E, amigo de B mas não antropólogo, diz-lhe que conheceu um escritor americano, através de D, também sua amiga; e que o dito escritor é casado com uma antropóloga interessante, C. Semanas depois, F, antropóloga amiga quer de B, quer de E, faz uma festa de anos. C escreve um mail a B, dizendo-lhe que se apercebeu que vão estar na mesma festa. F e C com certeza conheceram-se no meio antropológico, pressupõe B. No dia da festa, todavia, G, outro antropológo, telefona a B para dizer que também vai à festa de F e que leva uma vizinha, antropóloga americana, que com certeza B gostaria de conhecer (juntando a informação de que a filha de C vai mudar de escola, da da filha de D para a da filha de G). É provável que G tenha conhecido C através de H, antropólogo na faculdade onde C está de passagem (H não conhece D nem muito menos E, no entanto).
Infelizmente A só chegará a Lisboa em Dezembro, pelo que não se poderá fechar o círculo na festa de F.
Graças ao último relatório da ONUSida, alguns jornais portugueses referiram o aumento de infecções por HIV em Portugal. A referência explícita aos "homossexuais" regressou em força. Num caso ou outro, a expressão "homens que têm sexo com homens" (não totalmente, mas ainda assim eufemística) é usada. E, como não podia deixar de ser, o barebacking surge como titilante (e "exótico", e "desviante") indício ou mesmo explicação (a "sociedade", preocupa-se com os homossexuais neste tema na proporção inversa da preocupação com a sua igualdade cívica e legal....).
Sejamos claros: há gente que pratica, de forma "identitária" e consentida, o barebacking. É a sua visão do sexo e da vida (e da doença, e da morte) - estúpida, a meu ver, mas é a sua. Mas há mais, muito mais: há gente que pratica sexo sem protecção por confiança n@ parceir@. É a sua ilusão romântica - ternamente perigosa, a meu ver, mas é a sua. Há gente que pratica sexo sem protecção porque paga mais por isso, normalmente a trabalhadoras sexuais que o "aceitam" porque o seu trabalho é a epítome da sobreexploração. E há gente que pratica sexo sem protecção porque está convencida que a sida "já era".
O verdadeiro drama está em casos como osdois últimos - os casos de exploração e os casos de ignorância. É aqui que o estado e a "sociedade civil" devem atacar: na gente que tem sexo com gente de forma desprotegida, por pressão ou ignorância. O resto são outras conversas e bom seria que a infecção não fosse ventríloqua para elas.
Sampaio Nóvoa, reitor da Universidade de Lisboa, tem toda a razão: o corte orçamental de 15%, o maior de sempre nas universidades, contradiz a propaganda governamental sobre a "excepção" da área da ciência e ensino superior. Segundo o reitor, na SIC-N, 30 milhões de euros seriam suficientes para manter as universidades acima da linha de água; 120 milhões foram canalizados para os acordos (desejáveis, não é isso que está em causa) com o MIT e a Carnegie Mellon.
Ao mesmo tempo que Bolonha - que deveria ser uma mera adequação para permitir o trânsito e as equivalências no espaço europeu - se está a tornar num cavalo de Tróia para outras coisas (massificação, mercadorização, proletarização...), o governo não moveu um milímetro no sentido de fazer 3 reformas fundamentais: a do modelo de gestão das universidades; a do estatuto da carreira docente universitária; e a da rede universitária nacional.
Não tarda é altura de começar a pensar, pela primeira vez em mais de 10 anos, numa longa e dura greve no ensino superior. Uma greve que assuste, por exemplo, o MIT e a Carnegie Mellon...
Os media não ligaram muito ao casamento na África do Sul. Vergonha nacional? Racismozito subtil? Enfim... Em compensação, ligaram um pouco mais à petição internacional pela descriminalização universal da homossexualidade. Elenco de luxo.
Já agora, the tuga list (até agora): António Vitorino, José Saramago, Paula Teixeira da Cruz, Ana Gomes, Miguel Portas, Alexandre Quintanilha, Helena Pinto, Ana Zanatti, Lara Li. Para mais info, a associação ilga-portugal.
Uma coisa leva a outra, numa manhã de domingo. Um jornal continua a relatar o doutoramento de Eanes na Universidade de Navarra. OK, vamos lá ver o site da dita. Excelente, aliás. O site, claro, o resto não sei. Como "Opus Dei" é a expressão a que se associa em Espanha a expressão "Universidade de Navarra", a página da Capelania da universidade pode ser interessante. E é. Fornece imensos textos de reflexão, um dos quais este, do psiquiatra Ricardo Zapata, intitulado Los Errores de la Homosexualidad:
«(...) los tres errores básicos que caracterizan el comportamiento homosexual. En primer lugar, la conducta homosexual es, desde el punto de vista biológico, un error estéril y adictivo. (...) En segundo lugar, la conducta homosexual es un autoengaño psicológico. El "amor" homosexual es, en el mejor de los casos (en el peor, es una obsesión compulsiva), un engaño sensual-afectivo que coarta la realización personal de los "amantes". (...) En tercer lugar, desde el punto de vista social, el comportamiento homosexual es una consumición interpersonal (no hay posibilidad de consumar el amor, personificándolo), socialmente inoperante (...)»
Tentando contrariar as "justificações" normalmente apresentadas para este "erro", Zapata remata:
«Por una parte se aduce un supuesto origen genético-congénito de la homosexualidad como fundamento del "derecho natural a realizarse" homosexualmente como si de "otra opción sexual normal" se tratara. (...) Por otra parte se etiqueta de homofobia a aquellas personas que no aceptan como normal el comportamiento homosexual y rechazan la "integración" social de la desorientación homosexual.(...)»
Curioso é não se tratar de um texto assumidamente doutrinário, daquela confissão religiosa específica. É um texto dum psiquiatra da Universidade de Navarra. Infelizmente não diz se recomenda ou não o internamento forçado e a terapia com electrochoques.
Entre nós é muito apreciado que se fale "do coração", como oposto emocional da racional "cabeça". Se não estou em erro, a função simbólica do coração é ocupada, no mundo chinês, pela "barriga". Em inglês, também se pode falar from the heart, e isto distingue-se muito de falar from the guts. Guts é tripas, que em português se encontra na expressão "fazer das tripas coração". Em suma: "falar das tripas" é uma impossibilidade portuguesa?
A capa da revista Caras: «Muito apaixonados e cúmplices, Catarina Flores e Nuno Melo assistem ao concerto de Rui Veloso»; «Apresentadora assume início de relação com Pedro Soares»; «Merche Romero: Não vivo sem amor»; «Cristina Mohler e Paulo Sousa desmentem crise no casamento»; «Depois de ter sido detido em França, noivo de Diana Cadaval regressa a Lisboa».
No interior da mesma revista: «João Grosso revela: "Sou a favor dos casamentos entre homossexuais e se pudesse casava-me imediatamente"»
Não se percebe com clareza o que Ségolene Royal pensa sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Já lhe ouvi coisas assustadoras, como relatado, por exemplo, aqui. E agora aparecem coisas vagamente promissoras, mas totalmente ambíguas, por exemplo aqui. É que @s polític@s podem pensar o que quiserem, claro, mas convem que tenham propostas claras. Et alors, Socratès, perdão, Ségolene?
Se você pensa que lá por chegar aos 40 e muitos anos sem ter passado por uma situação de homofobia daquelas-evidentes-mesmo está safo disso para sempre, bem, tire as lantejoulas da chuva. É que um belo dia senta-se num directo de tv com um cantor que não hesita em dizer "vou vomitar" quando você fala de casamento entre pessoas do mesmo sexo; e depois de alarvidades várias esmaga um pastel de nata com o punho em sinal de protesto. Felizmente fá-lo por cima do próprio CD que foi ali promover.
Já andava toda a gente muito auto-satisfeita com a ideia de Portugal ter passado de país de emigração a país de imigração (sim, porque não há nada tão bom para o ego como ver outros a passar um mau bocado e a desejar um pedaço do nosso fabuloso bem-estar) quando uns portugueses queixinhas na Holanda mostram que a emigração - aquela pura e dura, da necessidade crua, mais body drain que brain drain - continua. Consta até que aumentou. E é protagonizada por uma geração intocada, em 30 anos, pela "democracia", a "educação", o "empowerment", a "cidadania", a "europa", etc., etc....
Há umas boas décadas atrás era ainda possível encontrar nos jornais de província (antes disso, também nos "nacionais") noíticias do género: "Chegou hoje de Paris, no Sud Express, o Doutor Tal-e-Tal" ou "Parte para Coimbra o jovem Tal-e-Tal para prosseguir os seus estudos de Direito" e coisas do género. Hoje podemos ver isto num jornal. Os mais benévolos dirão que se trata de uma figura da política nacional, merecedora deste tipo de notícia; e que a matéria da tese é também ela política. Sem dúvida. Aliás, isso fica bem expresso no ranço das palavras do júri: «Eanes, disse [um membro do júri], "dá lições nesta tese da arte de governar, válidas para directores de organizações em qualquer parte do mundo" e rematou: "Grande há-de ser Portugal para gerar pessoas como ele". Elogio só ultrapassado por Jorge Miranda, que antes da bateria de perguntas e críticas, não hesitara em afirmar: "O general Ramalho Eanes é alguém que merece o título de herói de Portugal"».
«Parliament on Tuesday approved the controversial Civil Unions Bill, which provides for same-sex marriage, making South Africa the first African country to do so and one of only a few in the world.» (ler mais aqui)
A notícia é fantástica não só por dar conta de mais um país que caminha para a igualdade na lei (Portugal atrás da África do Sul? Pois é...). É-o também por ser uma bofetada nas teorias de muitos ditadores africanos (e não só... a coisa é mais ou menos partilhada pelo senso comum), como o do Zimbabué, que dizem ser a homossexualidade uma "perversão importada do Ocidente". Já agora: uma bofetada também para os PALOP, onde a homossexualidade ainda é crime. Sim, crime
Há dias um professor de gestão, José Pinto dos Santos, foi entrevistado na RTP. Às tantas dizia que as empresas, sobretudo multinacionais, deveriam empregar pessoas das humanidades. O primeiro exemplo que deu foi o dos antropólogos. Para quê? Para ajudarem a perceber as diferenças culturais quer dos parceiros de negócios, quer dos consumidores. Isto já se faz, sobretudo no universo norteamericano. Que parece bom, parece, sobretudo nestes tempos em que se pensa na universidade em termos de "saídas profissionais" e não, como deveria ser, em termos de formação educativa avançada. Mas Pinto dos Santos introduziu um "mas": "desde que não tragam certas ideologias que grassam muito nesses cursos..." (por outras palavras).
Pois é. Às vezes essas "ideologias" são simplesmente o pensamento crítico. E a negligência do mesmo pode levar a uma "aplicação" da antropologia que, neste caso, redundaria numa negação da antropologia. Porque o conceito de cultura a utilizar seria necessariamente essencialista e arcaico, resultando, curiosamente, na sua absoluta inutilidade para os propósitos da empresa. Ou seja, a questão nem sequer é de deontologia profissional, mas sim de expectativas erradas por parte dos empresários.
(Mais curioso todavia, é o não-dito implícito na afirmação de Pinto dos Santos: a ideia de que o trabalho de gestão e o normal funcionamento dos negócios é puramente pragmático e não ideológico...)
E agora para algo de ligeiramente diferente:
Este meu post pode parecer pessimista para muitos estudantes de antropologia. Admito-o. Mas o problema é outro: sempre defendi que não deveria haver ensino superior disciplinar, mas sim um modelo próximo do college à americana, de formação complementar e avançada da educação geral, com disciplinas de várias áreas, majors e minors, habilitando as pessoas enquanto pessoas e cidadãos para a aprendizagem flexível de várias profissões - aprendizagem cuja responsabilidade deveria competir sobretudo aos empregadores e não às universidades ou ao estado. Bolonha quase que possibilitava isso. Mas tratou-se rapidamente de matar essa promessa. É um absurdo, ao nível da licenciatura, haver um curso de antropologia, como de qualquer outra disciplina. O ensino superior português é absurdo na sua reprodução de campos disciplinares estanques e é absurdo na sua criação de expectativas - directas - de emprego.
...no lado oposto dos crentes do post abaixo, os delegados do PS reuniram-se num congresso em que não aconteceu nada. Nadica de nada. Zero. Rien de rien. Zilch. Uma pessoa até fica impressionada: é que é preciso toda uma arte para juntar centenas de pessoas dispostas a não pensarem, a reunirem-se para um não-evento e ainda por cima sairem de lá satisfeitas. Uma espécie de versão moderna, reformista (i.e., sem ídolos, santos, celibato dos padres e rituais complicados) das conversas em família de Chávez na TV venezuelana; ou dos discursos de seis horas de Fidel; ou da tropa em passo de ganso na Coreia do Norte.
É claro que há uma certa "maldade" no facto de terem entrevistado o sr. Blanco Cabrera do Partido dos Comunistas do México. Mas a entrevista é um delicioso exemplo de como se pode viver no delírio da crença; e de como esta pecha se reproduz na esquerda como uma doença genética que nos condena a estados crónicos. Em relação a Cuba diz que «o que encontramos é uma forma de democracia directa muito superior à democracia ocidental»; em relação à Venezuela diz que Chávez «[r]ecuperou para o seu país não só a soberania económica como o projecto histórico que são as ideias de Bolívar» (esta última parte é particularmente deliciosa); e a pièce de résistance é sobre a Coreia do Norte: «Conhecemos a experiência da construção da sociedade não capitalista na Coreia do Norte. Sabemos que é um caminho que conta com a aceitação do povo», algo que ele sabe porque «[r]ecebemos a informação que nos é dada pelos companheiros do partido coreano e houve uma ocasião em que uma delegação do nosso partido visitou a república. Efectivamente, é pouco o que se sabe, mas nós confiamos que...» E como na parte referente a Lula nos diz que «(...)o significativo é que não está a tomar medidas que alterem a natureza do regime. Não vemos nenhuma mudança profunda que o destaque de presidências anteriores», ficamos com a impressão de que o saldo norte-coreano - a "construção da sociedade não-capitalista" é melhor que o brasileiro, onde a sociedade continua a ser capitalista.
Bela ideia. Vamos a isso. De facto, "anti-escolha" não pega em Portugal. Assim como não se consegue falar em direito ao corpo, nem mesmo no campo do "Sim", onde se foge como o diabo da cruz duma frase como "na minha barriga mando eu".
(Pequeno exercício: coloque-se - homem ou mulher - em frente ao espelho; levante a camisa; olhe para a sua barriga e diga "na minha barriga mando eu". É assim tão estranho?)
Carros, carros, carros, carros. Fim de tarde na Av das Forças Armadas esperando autocarro é como estar dentro dum carro com uma mangueira ligada ao tubo de escape. E cada carro que passa tem uma criaturinha, uma só, lá dentro. Carros e mais carros e mais carros pode até ser crescimento, mas desenvolvimento não é com certeza. Pelo menos com D grande. Só vi tantos carros em cidades como Caracas e quejandas. E hoje mesmo ouvia não-sei-onde que em Goteburgo, a segunda cidade da Suécia, 50% das deslocações casa-trabalho-casa já são feitas a pé, de bicicleta ou de transportes públicos. Quando chegaremos ao ponto em que a maioria comece a achar que é prestigiante ("desenvolvido", "europeu", "avançado", e outros epítetos para uma apresentação de si positiva) não andar de carro? Sim, porque só pela "consciência" não se chega lá... E quando conseguirão as entidades dos transportes públicos convencer a maioria de que eles já não são o horror que eram há, por exemplo, 10 anos atrás?
aquelas imagens são supostamente enternecedoras. Eu acho os bebés enternecedores, de facto. Já os fetos não tanto. E os embriões, de todo: penso sempre em aliens preparando-se para furar a barriga do hospedeiro. Mas assim como cada qual com a sua moral (daí a necessidade de alterar a lei, caro Incrédulo), cada ética com a sua estética...
Se um embrião é uma Vida = Ser Humano = Pessoa - segundo o divertido (e maiusculizado) non sequitur anti-escolha - então mostrar imagens de embriões em campanhas anti-escolha, para mais sem autorização daquela "pessoa" ou dos seus tutores, e nua, constituirá uma caso de pornografia pedófila (ou, melhor, embrionófila)?
Espero que se lembrem de discutir isto nos seus retiros.
O Ministério dos Negócios Estrangeiros convocou a representação diplomática do Vaticano para comunicar a preocupação do estado português com as afirmações homofóbicas dos responsáveis daquele estado...
O movimento lgbt apela à proibição das concentrações de católicos em Fátima, onde a soberba heterossexista é promovida de forma escandalosa...
«Democrats Take Control of House; Senate Hangs on Virginia and Montana
Democrats seized control of the House of Representatives and defeated at least four Republican senators yesterday, riding a wave of voter discontent with President Bush and the war in Iraq. But the fate of the Senate remained in doubt hours after the polls closed. The Democrats were still short early this morning of the six seats they need to win the Senate, as an extraordinary drama was unfolding over control of that chamber, with the race in Virginia too close to call and the race in Montana still undecided (...)» (Adam Nagourney, NYT)
Cavaco emendou a mão. Tarde, mas emendou. Ainda ontem, tanto ele como Sócrates davam a diplomática desculpa de estarem no Uruguai, noutro "contexto" (seria preciso o quê? Estar no Iraque?) para não comentarem a sentença à morte por enforcamento de Saddam Hussein. Desculpa, é claro, construída a dias das eleições americanas - aí já não há problemas de contexto.... Aliás, Sócrates disse, por outras palavras, serem os EUA uma referência nos direitos humanos na sua política internacional (aqui a gente a modos que ri).
Portugal e a UE são contra a pena de morte. No Iraque ou nos EUA. São-no por valores civilizacionais fundamentais. A presidência finlandesa reafirmou-o sem peias nem complexos. Nem contextos. Sócrates continua calado. Achará ele que a barbárie do novo regime em Bagdade é apenas o resultado da implantação da democracia pelos invasores americanos?
Por um mero acaso tropecei nisto: «(...) Nas aulas do Miguel Vale de Almeida que admiro, mas que como professor fico com a sensação que preferia não ter que dar aulas (...)». Agradeço a sinceridade e a chamada de atenção. Bateu forte, confesso. Mas, querid@ alun@, o que eu gosto mais até é de dar aulas; e quem me dera poder ser mais inspirador. Só que este ano calhou-me um cargo no departamento que, junto com outros compromissos do mesmo género, faz de mim um zombi quando chega a hora tardia das aulas (para quem não saiba, o ISCTE é das poucas escolas públicas - e só lhe fica bem - que tem um turno nocturno). Quando chego às ditas o que você vê é uma criatura cansada - tão simples e patético como isso.
Mas a criatura pede desculpa e promete tomar uns Red Bull. De resto, não desista do comentário e da crítica. A sério. E que pode fazer também aqui.
...vê-se muito das grandes. Há mais duma semana que a hora mudou mas os relógios públicos do meu local de trabalho (onde, para mais, tudo tem horários) continuam todos na hora antiga.
Todos os anos me queixo disto, bem sei. Como poderia agora quebrar a tradição?
Parte de um mail recebido de um leitor exilado em Londres:
«Voltar a Lisboa-Portugal envolveu uma readaptação violenta da minha parte e ter que regredir para adequar, talvez também por uma certa fraqueza de carácter (admito-o), ou ainda, por uma certa dependência financeira de família que infelizmente acontece a muitos de nós que permanecem na educação mais tempo que o previsto. Há imenso tempo que não me deparava com tanta homofobia, até mesmo em Lisboa, a cidade que nós, os provincianos Portugueses (venho do campo, motivo nem de orgulho, nem de desconforto) crescemos a idealizar como promotora de uma maior liberdade em todos os sentidos.
O primeiro choque quando cheguei a Lisboa, no que toca à questão da fala gay, foi uma visita ao Gaydar Português. Nunca encontrei tantos perfis de homens gay com uma homofobia tão marcada, pelo menos em estratégias de auto-apresentação. 90 por cento dos perfis terminam com alguém a dizer 'não quero Marias nem maricas, procuro homens'. Brilhante cartão de visita. Na rua, no circuito fechado de um Bairro Alto que Lisboa seleccionou cuidadosamente para conter um certo alternativo (que vai desde a 'Brasileira', ou 'café dos rabos', como lhe chamou um taxista na primeira semana que cheguei,entre um cigarro e outro, até às sofisticações do 'Bicaense') encontrei, felizmente, as mais diversas pessoas - algumas delas bem interessantes - numa paleta diversa de orientações. Com algo frequente, não obstante: um certo discurso da 'pessoa' (com laivos do 'amor puro' do Giddens).
Foi-me explicado várias vezes, a título revelatório quase, por classes médias educadas como eu, que estar com alguém do mesmo sexo ou não pouco importa, são tudo rotulos sem sentido: é a 'pessoa' com que se está que importa. Talvez eu próprio esteja a ser limitado e preconceituoso, a esquecer-me da Strathern e do que a antropologia diz sobre o género, mas com trinta anos de idade já amei algumas 'pessoas' e aconteceu-me a mim (que tanto quanto sei me considero pessoa) ter amado uma série de pessoas, todas elas homens. Que faz isto de mim? Tenho por vezes vontade de escrever para uma revista de segunda categoria a colocar a questão, remetê-la para a secção das dívidas sentimentais. Com a frustração de saber que quem me tentou catequizar em relação aos discursos da pessoa não leria publicações do tipo.
Aqui em Londres, num sábado à noite chato, há uns tempos atrás, via o talk-show do 'Parkinson', talvez saiba, uma das maiores instituições do heterosexismo inglês. Um senhor velhinho, cabelo grisalho e meias coloridas (excentricidade à inglesa, apenas um toque), simpático, originalmente do Norte de Inglaterra (ainda com um laivo de sotaque por trás que contraria o elitismo sulista), famoso por um maior interesse nos convidados do que em si próprio. Trata-se de um programa de horário nobre, 9.30, sábado à noite. Elton John e um comediante gay (um dos actores de 'Little Britain'), entre outros, eram alguns dos convidados. Brincava-se com a questão dos sósias do Elton John, que hoje em dia são tantos quantos 'Elvis' à solta. A certa altura, o comediante perguntava: "e já agora, tu és mesmo o Elton ou um sósia?". Ao que Elton respondeu: "pull your trousers down and I'll show you". Parkinson ri-se, público ri-se, nação ri-se, meia volta e seguimos todos em frente, para a próxima piada. Menos eu, que me engasguei na chávena de chá. Talvez tenha passado demasiado tempo em Lisboa, com todas as suas boas qualidades. Talvez me falta entender que no fundo era uma conversa entre 'pessoas' que assisti, e nada mais.»
1. O antropólogo Clifford Geertz morreu há dias. Era - e é - um dos "grandes", e uma inspiração para a grande maioria dos antropólogos da minha "geração". Uma interessante entrevista vídeo pode ser encontrada aqui. A versão integral da mesma aqui. Um texto autobiográfico aqui; e há ainda o HyperGeertzCatalogue.
(Todos estes links foram encontrados no blog de antropologia Savage Minds.)
2. Fora da Lei, de Leonor Areal, ganhou uma Menção Especial do Júri para o Prémio de Distribuição no Doclisboa deste ano. Para quem não o viu, passa de novo a 7 de Novembro, terça-feira, às 21h30 na Malaposta.
Contra "automatismos de esquerda", ainda alimentei algumas ilusões sobre o processo de Bolonha e sobre a capacidade de inovação do governo na área universitária. Lamento dizer que as ilusões se foram. Quem anda metido nisto há vinte anos e se meteu a fundo, agora, na reestruturação, não pode deixar de ver que o processo actual conduz a 3 coisas: massificação, mercantilização e proletarização.
Massificar não significa necessariamente democratizar. Portugal precisa, de facto, de um acesso democrático ao ensino superior e precisa - ao contrário do que muitos dizem - de muito mais gente com formação superior. O que está a ser feito não é isso, mas sim tornar o ensino superior, incluíndo o nível pós-graduado, numa fábrica de encher chouriços. Obter mais diplomados não tem que significar obter diplomados da treta.
Mercantilizar não significa necessariamente (e é uma pena) introduzir mecanismos de concorrência que possam trazer mais qualidade. No nosso caso significa simplesmente vender "produtos" aos "clientes" que de qualquer modo os "consomem" - os tais diplomas -, numa lógica semelhante à do consumo de massas.
Por fim, proletarizar significa, neste caso, fazer toda a mudança do sistema (repito: massificadora e mercantilizadora) sem qualquer revisão do estatuto da carreira docente universitária. Isto resulta em sobre-exploração do trabalho dos docentes, na continuação da estagnação do corpo docente, e no surgimento de condições de trabalho que impedem a investigação e o pensamento crítico.
A restruturação actual do ensino universitário é um monumental bluff e uma hábil operação de propaganda. Basta ver como todas as virtudes de Bolonha foram deitadas para o caixote do lixo, quer pela resitência das culturas burocráticas dos serviços administrativos, num extremo da escala, quer pela pressão mercadorizadora exercida pelos órgãos dirigentes e pelo orçamento de estado, no outro extremo.
É verdade que nunca tivemos universidade a sério em Portugal. E a pouca que tivemos - a minha faculdade era disso exemplo - só se aguentava com qualidade enquanto fosse pequena e vocacionada para a excelência. Elitista? Sem dúvida. Mas a alternativa a esse elitismo não tem que ser a transformação da universidade num imenso politécnico, na menos má das hipóteses, ou num prestador de serviços a empresas, na pior.
Já vimos a que conduziram processos anteriores de mercadorização e proletarização: o desastre monumental (salvo raríssimas excepções) do ensino superior privado. O ensino público segue agora o mesmo caminho, acrescentando a "massificação-com-propinas" do corpo discente, perdão, dos "clientes".
Que tudo isto esteja a ser feito com a retórica de Bolonha - que apontaria para um ensino moderno - é no mínimo de um atroz cinismo. Vão a certas faculdades e vejam como os aspectos pedagógicos e científicos de Bolonha foram abortados e se apostou nos seus aspectos mercantilizadores e anti-trabalhistas. Tornou-se no cavalo de Tróia para uma outra coisa bem diferente e cujos contornos assustadores ainda nem nos bateram à porta a sério. (E como eu detesto ter que escrever coisas que soam a pessimismo imobilista à moda da esquerda antiga!)
A universidade acabou. Chamem-lhe, por favor, outra coisa.
Não se percebe muito bem o espanto com a renovada questão da união ibérica. Findo o sistema expansionista, imperial e colonial, que sustentou o afastamento em relação ao estado espanhol, que outra coisa se poderia esperar do "regresso" à Europa que não a reintegração no espaço natural ibérico - para mais com a integração europeia?
Eu queria ficar com os direitos duma nova palavra, usada para substituir o aborrecido "comentários", abaixo. Mas é claro que já foi inventada (malandros). Resta como consolação a teoria das descobertas paralelas:
Blogolália (ou blogolalia, quando os acentos dão problemas...): do internautês blog (por sua vez, de weblog, literalmente "diário na teia [rede]") + lalia, do grego para "fala".