Ontem fui ouvir Khady Koita, a senegalense que preside à Rede Europeia contra a Mutilação Genital (e que, com toda a razão, prefere dizer mutilação sexual ). O simples facto de haver uma mulher que, "pertencendo" a uma sociedade onde é "tradicional" a prática da mutilação, se rebela contra ela, deveria bastar para se perceber o que não se deve entender por tradição. Qualquer prática ou crença, ou seja o que for, não existe em absoluto e fora das relações sociais - que são sempre arranjos, mais ou menos temporários, de desequilíbrios de poder. Neste caso, claramente de género. E isto já para não falar no arranjo mais ou menos temporário que é a "pertença" a uma sociedade ou a um universo de referências culturais (e a questão não é só de hoje, da "globalização" - os africanos, sobretudo da África Ocidental, que o digam, habituados que estão a sociedades plurilinguísticas, plurireligiosas e à dança das tutelas políticas).
A disputa em certas partes do mundo entre quem é a favor e quem é contra a mutilação sexual feminina é semelhante à disputa noutras partes do mundo - desde logo esta de onde escrevo - sobre o aborto, a "vida", os direitos das mulheres, o estatuto dos fetos, etc. É por isto também que o tema da MGF (ou MSF...) não nos pode deixar cair na armadilha do "confronto de civilizações" (Koita foi, aliás, clara ao dizer que a prática de MSF não se restringe às populações islâmicas; assim como sabemos que não se restringe a contextos africanos).
Agora permitam-me um salto no argumento: quando José Saramago propõe, do alto duma "autoridade" de intelectual público à século XX, um pacto de não agressão entre religiões (poderia ter dito "civilizações"), onde cabem no esquema dele as Koitas deste mundo? Em qual das "civilizações"? É evidente que o problema de Saramago é simétrico do problema de Huntington com o seu pueril "choque das civilizações". Ambos fazem um serviço aos Bush e bin Ladens deste mundo, verdadeiros arautos da ideia de "civilizações", suas fronteiras bem definidas e seu conflito até à vitória de uma das partes.
Marques Mendes, líder da oposição e do Partido Social-Democrata (joke of the year...), acaba de dizer perante Judite de Sousa, na RTP (desta vez não era propaganda ao Sol. Ou era?), uma de duas coisas: (1) que a Lei não é para ser respeitada; ou (2) que polícias, ministério público ou juízes devem sacudi-la dos respectivos capotes como água da chuva.
Disse que é contra a despenalização do aborto, e que acha mal que as mulheres que abortam sejam julgadas e presas.
(hipótese (3): Mendes descobriu como defender uma coisa e o seu contrário)
Quem, há anos atrás, achava que a eleição de Lula significava o princípio do fim do capitalismo no Brasil (que é como quem diz o princípio do socialismo), não vai votar nele nas eleições de domingo. Vai, com certeza, votar em alguém como Heloísa Helena.
Acontece que a alguns de nós nunca ocorreu que Lula pudesse ou quisesse instaurar o socialismo no Brasil. Nem que ele conseguisse escapar ao polvo do sistema de corrupção política em Brasília e nos estados (lembro-me perfeitamente de achar irreal a onda de fascínio burguês-revolucionário pela ascensão do operário e sindicalista ao poder). Por outro lado, e pela mesma ordem de suspeita (uns diriam "cínica", outros "realista"), a alguns de nós nunca ocorreu que Lula pudesse introduzir no Brasil, apesar de tudo, um clima de normalidade do desejo e exigência de justiça social.
Foi pouco? Foi. Desiludiu em muito? Desiludiu. Mas eu no domingo votari nele all things considered.
Numa peça jornalística de TV portuguesa, Cavaco é citado como tendo dito ao El País que "não podemos ter prejuízos". É claro que se tratava da palavra espanhola prejuicios, que significa preconceitos. Todo um programa.
Depois do congresso em Bristol, uma ida rápida no fim-de-.semana a Barcelona ao concerto do George Michael (sim, não consigo evitar que o meu blog tenha também um tonzinho intimista...), hoje foi o regresso ao Processo de Nápoles; leio tão poucas notícias que só me ficaram ecos de algumas coisas curiosas...:
1. «A Associação Portuguesa de Famílias Numerosas (APFN) pediu a demissão do ministro da Saúde, acusando-o de "falta de senso" por defender a despenalização do aborto e querer incentivar os hospitais a aumentar a sua prática.» (Público online). Ou seja: muita gente na APFN deve confundir o Governo da República Portuguesa com a administração dum seminário ou, sei lá, duma Oficina de S. José...
2. Afinal o serviço público de TV não serve apenas para promover o Sol. Serve também para promover produtos ditos literários, como uma coisa que vai sair sobre o suposto assassinato dum papa. O autor do produto (o produtor...) diz que o seu livro se baseia em documentos verdadeiros sobre João Paulo I, para logo a seguir dizer que "se fala" de Jennifer Conelly e Clive Owen para protagonistas na adaptação cinematográfica. De resto, a RTP propagandeia alegremente o livro como tendo edição garantida em 22 países. Eu agora era jornalista e ia ali a umas empresas perguntar se queriam que fizesse uma notícia... Ou eu agora sabia escrever em português e ia ali a uma editora saber se queriam um bom negócio na sequência do Dan Brown.
3. Parece que um quarto dos portugueses não se importavam que Portugal fosse parte do Estado Espanhol. A mim não me choca nada, desde um ponto de vista nacionalista - um ponto que não tenho. O que me choca é que haja tanta gente que pensa que para ter uma sociedade (mais) decente é preciso imaginar a pertença a outro estado, em vez de mudar o estado das coisas no sítio onde acontece viver-se.
4. Há uma série de homens de fato que se reunem para congeminar um país mais parecido com o que vêem quando vão à Wall Street ou à City de Londres por dois dias. Findos os quais regressam ao Portugalete com subsídios do estado, empregadas e esposas que cozinham o jantar e tratam dos putos, serviços e repartições onde os tratam por "senhor doutor", e almoços e telefonemas onde se negoceia com os amigos enquanto se diz que o país é muito corrupto.
5. O inenarrável Un Año Sin Amor ganhou o Festival de Cinema Gay e Lésbico de Lisboa. É bem provável que para o ano eu ganhe o Prémio Nobel da Física.
«When we go on about the big things, the political situation, global warming, world poverty, it all looks really terrible, with nothing getting better, nothing to look forward to. But when I think small, closer in - you know, a girl I've just met, or this song we're going to do with Chas, or snowboarding next month, then it looks great. So this is going to be my motto - think small» (Ian McEwan, Saturday)
Quem o diz é o rapaz de 18 anos, músico de blues, filho do personagem principal, um cirurgião de quarenta e muitos, boa pessoa mas basicamente overwhelmed pelo excesso de trabalho. O rapaz não está alienado das "grandes coisas"; não é "fútil". Simplesmente sabe que ficaria maluco se carregasse o peso e o lastro das grandes coisas. Sobretudo sabe que as "pequenas coisas" que faz têm uma grandeza muito particular. Os blues que compõe colocam-no em sintonia; o esmagamento a que o pai está sujeito, pelo contrário, faz da sua vida ruído estático.
Lá comprei o tal de Sol. Não sem preconceito: um jornal dirigido pelo ex-director do Expresso e que tem Felícia Cabrita como redactora principal não augura nada de bom. Mas lá comprei. O primeiro choque foi o logotipo. O Pedro Proença - que é um excelente artista plástico - que me perdoe: o logotipo é uma pobre e desconchavada imitação da moda barcelonesa "a la Miró". O tosco genial das "mironadas" é aqui simplesmente tosco. Parece um sub-produto. Como o jornal, aliás. Uma complicação hipercolorida, recheada de mais do mesmo, desde as pessoas que nele escrevem até aos erros de português. Mas a pièce de resistance (resistance à inteligência, é claro) é o artigo de capa da revista, assinado por Felícia Cabrita. Intitulado «Vidas perdidas», é sobre «uma mãe negra [que] trocou o seu bebé, no berçário, pelo filho de uma mulher branca. As crianças viveram em famílias erradas. O Sol conta a dor de 34 anos de mentira». Nas páginas interiores, já se fala em «um é branco outro é preto» (assim, sem vírgula; e com "preto"). «Uma das famílias recusa admitir a verdade enquanto a outra luta há 34 anos por 'recuperar' o filho biológico». Não vale muito a pena avançar pelo artigo dentro. Nestas coisas de jornais tablóides o que conta é o efeito publicitário, imediato, que carrega no botão do subliminar e das representações sociais em automático. Verdade, mentira, preto, branco, biológico, certo e errado - expressões que convocam noções de adequação (legal e moral) entre "raça", parentesco biológico e relações familiares.
Portanto, lá comprei o tal de Sol. Pela primeira e certamente pela última vez. Nada de novo debaixo do sol do Lusistão.
PS: Do Estatuto Editorial do Sol: «Devem ser eviadas referências à raça [sem aspas], cor, orientação sexual ou a qualquer doença ou incapacidade física ou mental de um indivíduo. Exceptuam-se os casos em que essa identificação seja um elemento essencial e constitutivo da própria notícia»
Ontem abriu o Festival de Cinema Gay e Lésbico de Lisboa. Abriu a sua 10ª edição; fê-lo no Cinema S. Jorge - grande, na Av. da Liberdade, simbolicamente importante; e a sala encheu. Tudo isto são excelentes sinais, completados com os quase-compromissos de grande apoio futuro por parte do município.
Pena é que, nos discursos iniciais, a presidente do júri da competição, Ana Zanatti, não tenha conseguido (querido) ir mais além de um discurso nebuloso em que usava justamente a expressão "nebuloso" para referir as consciências ainda preconceituosas que por aí andam. Esta incapacidade de usar as palavras certas ("gay", "lésbica"), de falar directamente de "homofobia", de expressar claramente a reivindicação de "direitos" - em suma, esta incapacidade (ou não vontade) de assumir orgulhosa e frontalmente onde se está, porque se está, e com quem se está, é simbólica do baixo tecto da consciência cívica nacional e da incapacidade/falta de vontade de intervenção das figuras mediáticas.
Pena maior: o filme inaugural, Un año sin amor, premiado com o Teddy em Berlim (como, não sei), é uma enjoativa, aborrecida, lamecha, infantil a nada original peça de decadentismo parapornográfico. Saí a menos de meio.
Estas penas à parte, parabéns a nós tod@s pelo festival!
Ratzinger quebra a regra beatífica do ecumenismo e faz umas críticas de fundo ao islão. Sectores islâmicos reagem indignados. A gente fica a ver e, não fosse eles estarem a brincar com o fogo, apetece encolher os ombros e dizer: "feitos uns para os outros..."
A crónica de Rui Tavares ( no Público de hoje) sobre a rapariga austríaca é um precioso pedaço de análise cultural. Se todos os dias os jornais publicassem textos assim, a nossa vida colectiva aumentava exponencialmente de qualidade.
«O ministro da Justiça, Alberto Costa, assinou anteontem os despachos de radicação das comunidades judaica e islâmica em Portugal, dando aplicação à Lei da Liberdade Religiosa aprovada em 2001. A partir de agora, passam a usufruir de direitos equivalentes aos da Igreja Católica (embora esta dependa da aplicação da Concordata, nas suas relações com o Estado) e da Aliança Evangélica Portuguesa.» (Público)
Uns 1000 anos, muitas expulsões e fogueiras depois. Deve ser o Simplex.
Devia haver uma entrevista de José António Saraiva a Judite de Sousa todos os dias. Alternada, talvez, por entrevistas de José António Saraiva a Judite de Sousa. (OK, ocasionalmente o rei Otokkar poderia entrevistar o Coronel Tapioca). É que além de se ficar a saber um ror de coisas - que no próximo sábado sai um novo semanário; que a imprensa é super-livre em relação aos interesses económicos e políticos; ou que a redacção do referido semanário será composta por "homens livres", embora 64% seja constituída por mulheres (o que resulta numa redacção com 36% de pessoas livres) - uma pessoa diverte-se. Judite pergunta se António é narcísico e António responde a sério. Pergunta se aquela coisa de pensar que vai ganhar um Nobel é a sério e ele a sério responde. António diz que fala sempre "do coração" e Judite fica séria. O Lusistão é um país cada vez mais giro. Agora, em vez de um Expresso, vai ter dois (sem contar com as entrevistas de Judite). Não trocava isto por nada. Nem pela Sildávia. A Bordúria então nem se fala.
Pacheco Pereira e Mário Soares debatendo o pós-11 de Setembro na TV. Pacheco é especialista em desmontar argumentos de adversários e descobrir-lhes contradições. Soares é especialista em denunciar as tentativas de desmontagem do seu discurso pelos adversários. Pacheco não tem uma ideia original para lá da vulgata oficial da nova direita "esclarecida", embora apresente os seus pontos de vista com uma corporalidade que inspira o respeitinho dos mais subservientes: chama tontos aos outros. Soares não tem uma ideia original para lá da vulgata da esquerda "internacional", embora apresente os seus pontos de vista com uma corporalidade que inspira a adesão dos mais crédulos: chama tontos aos outros.
Face a estas twin towers das velhas classes dirigentes do país, uma apresentadora em azul eléctrico e que está um bocadinho enganada quanto ao conceito de descontracção em directo: fala alto e treinou expressões e ares de representante da "voz do povo". Uma bata assentar-lhe-ia bem.
Um programa não sobre o mundo pós-11 de Setembro mas sobre o Portugal de sempre.
PS: momento delicioso da noite, todavia: Soares, às tantas, referindo um artigo de César das Neves, diz algo como "aquele senhor..., hã..., Neves: que é universitário católico..." (adicionar a voz e os trejeitos displicentes de MS)
Não se passa um dia em que não me defronte com meia dúzia de pessoas cuja frase preliminar a qualquer proclamação é algo como "eu sou muito sincero", "eu sou muito frontal", "eu digo o que penso", "eu cá sou pãopãoqueijoqueijo" e similares do sul.
Isto acontece sempre em situação propensas ao secretismo, conluio, coscuvilhice e outras virtudes humanas. Por exemplo - e se calhar sobretudo - no estaminé laboral.
Se aqueles preliminares correspondessem à "verdade", o mundo seria de uma enternecedora transparência...
«...os muitos erros e excessos cometidos na luta antiterrorismo não autorizam que se escreva, como ontem fazia a bloquista Joana Amaral Dias, "que o Ocidente se aproxima do fundamentalismo que pretende combater". Quanto mais não seja porque no Ocidente continua a ter a liberdade de escrever e intervir, o que faz toda a diferença (...) Mas tocar a reunir é fundamental, se ainda nem sequer sabemos qual a real dimensão das ameaças (sobretudo na Europa), se duvidamos da possibilidade de a democratização do Médio Oriente ajudar a isolar os extremistas e se discutimos a melhor forma de levarmos os nossos próprios muçulmanos (os que nasceram entre nós e têm passaportes europeus) a afastarem-se dos extremistas e a fazerem rimar islão com liberdade e democracia...»
Estas citações são do editorial de José Manuel Fernandes no Público de hoje. Não foi o seu conteúdo explícito que me chamou a atenção (por exemplo, não acho que a frase da Joana ajude a pensar eficazmente sobre os dias de hoje), mas sim dois "implícitos" que hoje proliferam e que se transformam na verdadeira mensagem: "Ocidente" e "Nós". O discurso sobre o terrorismo de inspiração fundamentalista islâmica produz cada vez mais um fetiche chamado "Ocidente", uma dicotomia "Nós/Eles", e um "Nós" que elide todas as desigualdades e contradições internas. Se eu fosse um muçulmano laico e democrático e lesse estas coisas, começaria a ter dúvidas sobre a minha laicidade e sobre a democracia...
(hiperlink mental exagerado e um bocadinho maldoso: de repente ocorreram-me as frases coloniais sobre trazer os nossos selvagens à civilização cristã e ao progresso)
Uns diazitos sem postar. Regressado dos trópicos de Tavira (só mesmo razões de simbolismo político-cultural, tipo isto-aqui-é-Europa) é que impedem que certas zonas do país sejam classificadas como de clima sub-tropical, acho....), e já remergulhado no processo de transição para Nápoles na universidade, sobra um nico de tempo para espreitar os blogues. E, seguindo posts recentes, concordo inteiramente com o Daniel. Quanto a boas novas, a f voltou. Quanto a novas minhas, nada, além de um dedão de pé cortado selvaticamente por degrau de pastelaria sem aviso (ao qual não se seguiu o devido processo e a almejada indemnização, mas isto não é os eua), e mergulho em alto-mar seguido de maravilhoso passeio pela ria. De resto, andava obcecado com a imagem duma mulher tipo Klimt desenhada pelos veios do mármore do chão do armário da água - vulgo w.c. - cá de casa, mas este fds, noutra casa, descobri um novo: um cachorro, tipo perdigueiro, em pé nas patas traseiras, snifando um traseiro - quiçá de mulher tipo quadro do Klimt.
eu sei, eu sei, o sol fez-me mal.
(Ah, mas também descobri que parte das decisões políticas agora tomam-se em pactos secretos entre o PS e o PSD com o apoio do PR. O parlamento pode ir para casa. Ou transformar-se numa sociedade secreta, sei lá)
O PCP diz que as FARC lutam pela real democracia na Colômbia. O PS/Governo foge com o rabo à seringa no caso dos vôos da CIA de e para Guantánamo. Louçã/BE apelida de mafiosos vários empresários concretos. O que é que se passa com a esquerda portuguesa?
É mais fácil ter uma resposta sobre isto do que sobre os objectivos dos vôos da CIA: queremos saber se as FARC foram convidadas ou não (e a partir daí todos os links para esta movimentação na blogosfera) para a festa do Avante! Se não foram convidadas, queremos saber se vieram representantes seus à boleia da representação do PC da Colômbia ou duma revista da sua área. Os jornais já começaram a perceber que existe um outro domínio de opinião pública que deve ser levado em conta, a blogosfera. O PCP já o terá compreendido?
Os meus queridos amigos italianos que me desculpem (e os napolitanos então!), mas depois de passar dois dias inteiros fechado da dISCTEca (como disse uma vez um taxista, segundo reza a lenda urbana da minha fac) a ver o triunfo da burocracia, da resistência, da entropia, da ministerite e outras doenças tropicais, apetece-me rebaptizar o "processo de transição para Bolonha" como "processo de transição para Nápoles". Ou mesmo Palermo.
Nos últimos tempos quase não se passa um dia sem um artigo a cascar no multiculturalismo. Depois do 11 de Setembro e outros ataques terroristas e do "despertar" dos integristas muçulmanos adormecidos nas sociedades ocidentais (bem como depois dos eventos de Paris no ano passado), o multiculturalismo é o bombo da festa. Poucos são os autores que procedem a uma verdadeira crítica do multiculturalismo. Amartya Sen fá-lo. Kwame Appiah também, transcendendo o problema com a ideia de cosmopolitismo. Entre nós, Rui Pena Pires faz a crítica mais articulada e sustentada. Mas o grosso dos ataques não são deste tipo. Não são críticas. Vêm de sectores conservadores cuja preocupação não é com a construção de sociedades plurais, mas sim com a defesa de uniculturalismos nacionalistas. A sua "crítica" ao multiculturalismo é apenas um "eu bem vos avisei" e um apelo velado (?) à unicidade - algo que é sempre o resultado de enormes violências simbólicas, quando não físicas.
E assentam num erro crasso, que partilham com aqueles que atacam (os estados e governos que apostaram em políticas multiculturalistas): partem do princípio de que existem mesmo culturas absolutamente diferentes, incomensuráveis, "propriedade" de populações ("povos"), correspondentes a territórios delimitados, idealmente administrados por um estado. O erro - dos "críticos" conservadores como dos crédulos políticos multiculturalistas - é o mesmo, e em antropologia chamamos-lhe reificação (ou "coisificação") da cultura. Nem os "universalistas" (exemplo máximo: o modelo francês) escapam a esta pecha, pois é o próprio estado que é transformado em nação e os valores daquele em "cultura", com religião civil e tudo.
A "cultura" é um conceito-bomba. Temos que desactivá-lo com pinças. Conservadores nacionalistas, progressistas multiculturalistas, integristas muçulmanos ou não, todos manipulam esta coisa explosiva e reproduzem-na nas suas políticas. Todos parecem ter desconfiança, quando não ódio, a várias noções: mudança cultural; transformação cultural; carácter material e político dos processos culturais; contradições e conflitos entre segmentos da mesma "cultura"; processo; mistura; pluralidade, complexidade e até contradição de identidades; cosmopolitismo. Sem o esclarecimento deste ponto de partida - o que entendemos por cultura(s) - o debate sobre o multiculturalismo é uma palermice. O pior é que é uma palermice perigosa.
Tropecei, na Visão, numa curiosa entrevista a um actor que não conheço (Ricardo Pereira, 26 anos, a estrear apresentação de programa na SIC com Bárbara Guimarães), mas que me pareceu representativa duma atitude que se vai encontrando cada vez mais entre os mediáticos: não se comprometer. Se "antigamente" as figuras "públicas" - que eram sobretudo intelectuais e artistas - se comprometiam, influenciando assumidamente a política e os valores, agora as figuras mediáticas - que são sobretudo da TV, novelas e revistas do social - apostam na "neutralidade" própria de um produto.
O referido actor faz escolhas e demonstra preferências. Mas apenas nas coisas do "estilo de vida": prefere o telemóvel ao iPod; prefere sol a autobronzeador; aviões e carros são muito melhores que comboios; Paris ultrapassa Veneza; e gosta mais da Costa do que de Quarteira. Quando as perguntas têm a ver com opções mais do que com preferências, entra a "neutralidade": a pergunta "Sócrates ou Cavaco?" é respondida com um "Ambos. Sou apologista de consensos. Acho que é a paz que nos pode levar a algum lugar" [oh - my - God!]; A "Papa ou Madonna?" responde "Também ambos. Adoro a irreverência da Madonna e respeito o Papa, os seus seguidores e a religião que representa". (Numa coisa, porém, opta - provavelmente porque não percebe que a sua resposta é política: "Caipirinha ou porto tónico?"; "Porto tónico porque é português").
O exemplo é light. Mas, ao contrário de outros países, em Portugal não se pode contar com os mediáticos para a mudança social. Campanhas de beneficência e luta contra a sida é o máximo que deles se pode esperar. Já eles esperam de nós toda a atenção e todo o dinheiro.
«"A Oficina de S. José é uma instituição sem projecto educativo, com uma liderança retrógrada e obscurantista", afirmou ao DN Cidália Queirós, directora da Qualificar para Incluir, associação de solidariedade social que formou as duas técnicas que foram dispensadas pela Oficina de S. José (OSJ), depois de terem deposto em tribunal no chamado caso Gisberta.» (no DN)
Já tínhamos percebido. Só mesmo a justiça portuguesa é que não.
«O primeiro-ministro polaco, Jaroslaw Kaczynski, foi a Bruxelas tentar afastar a imagem negativa recente do seu país, ao sublinhar que a Polónia é amigável, tolerante e que nada tem contra os gays. Após um encontro com o dirigente polaco, o presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, também se mostrou tranquilizado com as indicações dadas por Kaczynski a desmentirem referências de que o seu país estaria a planear reintroduzir a pena de morte.» (no DN)
A tolerância de Kaczynski e a tranquilidade de Barroso: ficamos todos mais descansados.