OS TEMPOS QUE CORREM. Miguel Vale de Almeida


31.8.06  

Coisas que acontecem na nossa azinhaga

Ninguém vem para Portugal porque quer. A não ser que seja um certo tipo de reformado inglês em busca de campos de golfe e cerveja barata. A esmagadora maioria das pessoas vem para trabalhar. É difícil perceber isto? Vêm trabalhar nos trabalhos que mais ninguém quer, a troco de salários baixos (mas altos, quando comparados com o que aufeririam - ou não, de todo - nos locais de origem), em grande medida em consequência quer da expoliação colonial (há outro nome? Não creio) quer da economia do sistema-mundo, quer da cleptocracia de muitos regimes pós-coloniais. Instalam-se nos únicos locais disponíveis, quer em termos económicos, quer em termos de aceitação social. Cria-se assim uma geografia social da exclusão, em que a imigração, a "raça" e a classe são factores predominantes. De repente, uma câmara, ou lá o que for, resolve cumprir à risca disposições legais - quando não as cumpre de todo noutras áreas - e vai de demolir as casas. As casas que as pessoas conseguiram construir ou manter com os recursos auferidos em trabalhos nas obras, na limpeza doméstica. Com o dinheiro que conseguiram poupar, mesmo assim remetendo divisas para apoiar as famílias nos países de onde vieram. Chega a câmara, chega a polícia, e vai de demolir. Sem alternativas de alojamento claras e prontas. Sem assistência social decente e universal (hoje ouvi que na Azinhaga dos Besouros - e é disso que estou a falar - os homens não terão direito a subsídio de renda para dois meses, ao contrário das mulheres). A seguir, já se sabe: terrenos disponíveis para construir apartamentos que ninguém vai comprar ou, se comprar, não vai habitar. Pelo caminho, a polícia não só proíbe a comunicação social de estar presente, como detem para interrogação activistas da solidariedade com os imigrantes.

No terreno, na Azinhaga dos Besouros, destaca-se, além de Helena Pinto do BE, Helena Roseta (aquela que deveria ser a secretária-geral dum Partido Socialista digno desse nome). Parabéns: alguém do mundo "irreal" em que vivemos (o mundo das pessoas que recusam ver que a maioria das nossas empregadas domésticas são africanas e/ou imigrantes, que a maioria dos nossos operários da construção civil são africanos e/ou imigrantes, e que recusam saber onde e como vivem) apareceu, deu a cara, fez alguma coisa pela democracia.

mva | 10:59|


30.8.06  



As coisas tal qual elas são

O taxista pergunta-me, com pronúnica eslava, se eu sei onde é a Praça de Londres para onde pedi que me levasse, desde Sete Rios. Instintivamente respondi que sim, sabia. Ele é que não. Como não sabia que podia usar as faixas "bus"; ou que para contornar Entre Campos e seguir pela Av dos EUA convinha não se chegar à esquerda na rotunda. Ocorreu-me um documentário sobre os taxistas de Londres, cidade ainda menos racional do que Lisboa no seu desenho, em que se mostrava como estes têm que fazer um complicadíssimo exame para demonstrar o conhecimento do mapa (os clandestinos que apanham pessoas às portas das discotecas londrinas nem inglês falam, mas isso é outra coisa. Ou será?). Um pouco depois - ia a uma consulta - vejo a médica sair do prédio, que ia só ali num instantinho já voltava que estava ali há horas sem comer e já tinha um buraquinho no estômago volto já. Seguiu-se a loja da TAP, para resolver um problemazeco e à saída das escadas do metro está uma pedinte septuagenária. O seu letreiro diz o seguinte: "Ajudem-me, por favor. Sou portuguesa". (No comments, impõe-se). Na loja dos Tamancos Aéreos Portugueses, como lhes chamavam no Brasil, um senhor falando português do Brasil grita e urra que a TAP está tirando o corpo para fora, que é assim como a fugir com o rabo à seringa, por causa duma falcatrua qualquer que lhe fizeram (versão com a qual as funcionárias naturalmente não concordam). Bate a porta com fúria à saída gritando "Que inferno!". (Indeed, impõe-se. L'enfer c'est les autres.) Três falsas deficientes e grávidas depois sou atendido, tudo corre bem, OK, respira fundo, segue tranquilito para o metro, vai à tua vida. Um rapaz que na ida se havia sentado à minha frente - distinguível pelas dreadlocks - à minha frente estava agora sentado à vinda. Simetria de small place. Mas um homem aparece aos urros e aos gritos, falando português de Portugal, com insultos ao 25 de Abril e - paradoxalmente? - aos ricos (talvez tivesse ouvido Manuel Monteiro na noite anterior). No meio da loucura (seria?) um delicioso lapsus linguae: falava a torto e a direito de "rendimento mínimo obrigatório". (Cool, impõe-se). Quase tropeça numa cega perdão invisual que talvez viva do rendimento mínimo obrigatório perdão garantido. Debaixo de chão lá segui até ao Colombo (onde a classe média que na rentrée se queixa do preço dos manuais escolares dá largas a outros desvarios de consumo) para umas compritas (cá em casa não há manuais escolares; basta nós os dois) e resolução de pequenos problemas avulsos. Um deles só será resolúvel um dia em Alfragide, que nem sei bem onde fica e o outro era um serviço cujos cartazes anunciavam começar em Setembro mas que os empregados corrigiram, com algo remotamente similar a um sorriso, só começar em Outubro. E prontoS, como diz f.

(Regresso subterrâneo a casa. Quase poderia jurar que o rapaz das dreadlocks - mind you, de tez clara, como soi dizer-se - estava colado ao assento à minha frente. Será?

mva | 18:35|
 

No way

Ahmadinejad, do Irão, desafia Bush, dos EUA, para um debate televisivo sobre questões internacionais. A coisa, é claro, não vai acontecer. Não apenas por o iraniano saber à partida que o desafio é pura propaganda; não porque Bush nunca poderia dar essa importância ao iraniano; nem sequer porque ninguém teria paciência para ver um "debate" entre dois expoentes da cretinice política moderna. O debate nunca acontecerá porque, opondo em directo e para todo o mundo dois dirigentes nacionais, seria o princípio da verdadeira globalização, o fim simbólico da soberania dos estados-nação.

mva | 10:30|


29.8.06  





South American Way, 2

O meu colega e amigo João Pina Cabral visitou há pouco o terreiro de Mãe Hilsa em Ilhéus. É o "meu" terreiro. Foi com a colaboração dos seus membros, vizinhos, familiares, etc., que fiz a minha pesquisa em Ilhéus. Na época o terreiro não tinha actividade ritual pública. Agora, pelos vistos, está de novo em pleno. Quando o meu colega me enviou estas fotos, tiradas por Monica Chan, senti... saudades do Brasil.

mva | 12:54|
 



South American Way, 1

Anda por aí uma moda de tango. Só para que não haja mais uma lavagem histórica, convém lembrar que o tango era inicialmente dançado por homens. As razões podem ter sido várias, a mais provável das quais uma afirmação hipermasculinista mais do que alguma atitude proto-gay. E daí, quem sabe? Seja como for, just for the record...

mva | 12:49|


28.8.06  

A tristeza de Manuel Monteiro

«"Fazer uma revolução à direita é, antes de mais, libertar a direita e combater o estigma que ainda existe no nosso país 32 anos depois [da Revolução do 25 de Abril] que ser de direita é ser do antigamente ou ser dos ricos", declarou Manuel Monteiro na intervenção que fez naquele que foi o primeiro comício da história do PND. (...) Monteiro disparou em todas as direcções, incluindo Marcelo Rebelo de Sousa. Colocou-o, indirectamente, nas fileiras dos herdeiros do último presidente do Conselho do Estado Novo» (Público)

Sempre que vejo Manuel Monteiro fico triste. Há qualquer coisa nele que inpira tristeza. Parte disso vem dessa impressão que transmite de ser órfão daquilo que gosta e admira. A direita "rica" não o quer. Ele próprio o diz: "Há muita gente que me ataca porque não sou da direita das tias, nem dos clubes, nem do cerco social, eu sou do povo e estou aqui para vos dizer que a esquerda não tem o monopólio de tratar da pobreza". Acontece, porém, que o papel de populista pró-pobres tão-pouco lhe assenta bem.

Mas numa coisa tem razão: Marcelo Rebelo de Sousa está para a política como o historiador televisivo Saraiva está para a História. O pior é que muitas pessoas gostam deles, da autoridade patriarcal de sala. São, nesse sentido, organicamente de direita; o tipo de personagem que olha para Manuel Monteiro (mas nunca o diriam, claro) como o filho do caseiro. Os senhores doutores que fascinam com a sua conversa - e os filhos dos caseiros que espreitam pela porta dos fundos - fazem sistema. O filho do caseiro sente revolta, intui que há injustiça. Mas quer mudar as coisas ocupando o lugar do contador de histórias na saleta. O contador de histórias na saleta acha graça ao filho do caseiro e assiste uma vez por ano às festas populares em que este participa - o que dá sempre mais uma história para a saleta. Mas o filho do caseiro apenas pode ouvir os risos da saleta a partir da cozinha. Na saleta não entra. A História continua, lenta.

mva | 11:13|
 



Rentrée

mva | 11:11|


24.8.06  

Nunca digas desta água...

Parado por uns dias, pois...

mva | 11:05|


20.8.06  



Os super-heróis não casam

O destaque da capa do Público de domingo vai para o casamento, reportando-se ao estudo de Sofia Aboim sobre a conjugalidade no Portugal contemporâneo. O destaque da capa da Pública de domingo vai para "Os novos heróis gay". O primeiro refere-se a um universo que a jornalista Kathleen Gomes tem o cuidado de definir como "estritamente heterossexual". O segundo refere-se à ficção, quer na banda desenhada, quer no cinema ou TV.

Não li o trabalho de Sofia Aboim e parto do princípio que seja bom e rigoroso. Mas não deixa de me preocupar que seja "estritamente heterossexual" o seu universo. Provavelmente tal deve-se a questões metodológicas: não existindo casamento entre pessoas do mesmo sexo entre nós, nem uniões de facto registadas, a conjugalidade homossexual fica fora do olhar sociológico e do seu alicerce estatístico. Uma tese interia poderia ser escrita sobre esta ligação entre sexualidade, lei e ciência e a reprodução da invisibilidade... Preocupante também é que a jornalista não tenha procurado abordar o assunto junto da investigadora.

(Uma pessoa fica enjoada com tanta conversa sobre as diferentes opções, as diferentes escolhas, dilemas, decisões e contra-decisões que os entrevistados enfrentam (esta parte é da jornalista, não da investigadora). Uma pessoa que não pode escolher fica chocada com os dilemas dos que têm muito por onde escolher)

É de visibilidade que "Os novos heróis gay" pretende falar. Território pantanoso, é claro: a fronteira entre o efeito positivo de visibilização e representação na ficção nos media populares, e o efeito simplesmente voyeurista, é estreita e porosa. Mas repare-se: grande parte do salivar voyeurista depende da invisibilização legal dos gays e lésbicas. É por, entre outras coisas, o estado os dicriminar, que gays e lésbicas são remetidos para territórios obscuros e carregados de sexualidade, que depois a ficção é suposta desvendar e desvelar.

Na economia e na política sexuais, gays e lésbicas podem ser personagens, heróis, até super-heróis. Estão para lá de. Vestem fatiotas deslumbrantes. Escondem-se em cavernas. Podem sucumbir a um ataque de kriptonite. Têm duplas vidas - na "civil" vestem fatos enfadonhos e usam óculos pesadões. E não podem casar. É tudo ficção, não é?

PS. Já agora: uma secção desta peça na Pública é dedicada aos livros infantis em que a temática LGBT (especialmente parentalidade e família) é abordada. As referências são todas estrangeiras. Ora acontece que há pouquíssimo tempo foi editado pela Médicos do Mundo um livro de contos infantis portugueses em que um deles é (também) sobre esse tema. Por acaso fui eu que o escrevi. E por acaso foi o Público que distribuiu esse livro numa das suas edições...

mva | 12:18|


19.8.06  

:)

O Rui Tavares tem toda a razão: comece-se a trabalhar para a adesão de Israel, Palestina e Líbano à União Europeia. A única chatice é que é preciso suprir as ofertas de dinheiro do Irão ao Hizbollah...

Idem para o Daniel Oliveira: antes de falar sobre Grass, Fernandes deveria falar sobre Fernandes. Desproporção à parte, se a questão é moral, então ou há moralidade ou...

Excelente site de História LGBT: People with a History

mva | 13:00|


18.8.06  

Boas companhias

Não há como encontrar soul mates. Melhor mesmo só reencontrá-los. Este verão tenho estado, nos livros, com Paul Gilroy e Against Race, com Kwame Anthony Appiah e Cosmopolitanism, e com Salman Rushdie e Shalimar o Palhaço.

O anglo-caribenho Gilroy faz o libelo final contra a ideia de raça à luz do potencial dos conhecimentos genéticos de hoje; o anglo-ganense (e americano) Appiah explora o potencial da ideia cosmopolita; e o anglo-indo-paquistanês Rushdie demole o inferno do nacionalismo de estado e dos fundamentalismos com o exemplo de Caxemira.

Gente assim é precisa com carácter de urgência. Para lá dos bushistas, para lá dos fundamentalistas, e até para lá do folclorismo alterglobalização.

[PS. Chênu, quando as coisas são menos entusiasmantes, o pessoal gosta é de voltar-se para o passado. O primeiro passo é a lavagem, mesmo que o processo resulte num forte pivete a creolina. Fizeram-no agora com o Marcelo Caetano. Há coisas para que não há paciência: Caetano era um nhurro fascizante armado em bonzo liberalizante graças ao respeitinho parolo que se dá às universidades e aos doutores (mais numas áreas do que outras, e ele estava na certa). E não fosse o zelo dos lobbies, perdão, dos media, e ninguém se teria lembrado de que "se fosse vivo" (?!) "completava 100 anos" (!?)]

mva | 19:37|


16.8.06  

O empate

A revelação de que o governo israelense tinha preparado a guerra só pode surpreender os ingénuos. Já se sabe que vai dar pano para mangas para o pensamento futeboleiro (quem perdeu, quem ganhou, quem teve culpa, quem cometeu falta, and so on). Achar, como muitos "conservadores", que o governo de Israel apenas reage (que não tem uma estratégia, por muito má ou iníqua que seja) é uma tolice. Como o é achar, como o fazem agora muitos "progressistas", que o Hizbollah, o Partido de Deus (!), apenas defende os seus e, como tal, é "o que há" e (como tal, again) o que se deve apoiar tacitamente. O "fim" da guerra vai confirmar, em Portugal por exemplo, a obscenidade de assistir à guerra como espectadores de um torneio - esgrimindo ideologias por procuração de mísseis e mortos. É só espreitar blogues e jornais.

PS. Em Culture and Practical Reason, de Sahlins (nos idos dos seventies), conta-se como a introdução do futebol numa sociedade da Nova Guiné levou a um fenómeno curioso: por vezes os jogos duravam dias a fio, de modo a se poder chegar a... um empate. Vendo-se como desiguais, os contendores ritualizaram o jogo, tornando-o numa forma de atingir o equilíbrio... Mas entre "nós", quando há empate nas finais, segue-se o prolongamento...

mva | 12:33|


14.8.06  



Reframing

Não sei porquê, mas nestes dias (e a seguir ao último post) veio-me à memória a velhinha questão colocada por Watzlawick a propósito da solução do problema da união de nove pontos com quatro linhas apenas e sem levantar o lápis do papel, e que ele usou para ilustrar o reframing:

«Almost everybody who first tries to solve this problem introduces as part of his problem-solving an assumption which makes the solution impossible. The assumption is that the dots compose a square and that the solution must be found within that square, a self-imposed condition which the instructions do not contain. His failure, therefore, does not lie in the impossibility of the task, but in his attempted solution. Having now created the problem, it does not matter in the least which combination of four lines he now tries, and in what order, he always finishes with at least one unconnected dot. This means that he can run through the totality of the first-order change possibilities existing within the square but will never solve the task. The solution is a second-order change which consists in leaving the field . . . » (Watzlawick et al 1974: 25)

PS: a solução - que implica sair do campo - está aqui.

mva | 12:07|
 

Os termos do debate (ou os debates sem termos)

Isabel do Carmo e Esther Mucznik estão em polémica no Público sobre a guerra no Líbano e Israel. A discussão descambou rapidamente para questões de primazia territorial histórica (quem "lá estava", quem "chegou primeiro" etc), para questões "raciais" e "étnicas" (ai...), para a valoração moral dos acontecimentos históricos como fornecedores de mais ou menos "legitimidade", "culpa", e inspiração de várias penas, solidariedades ou admoestações. Este é justamente o tipo de discussão que não interessa. Porque, a interessar, deve ser aplicado a TODA a gente. E, aplicando-se a toda a gente, percebe-se depressa que não se chega a lado nenhum.

Na África do Sul praticamente toda a gente percebeu que, do ponto de vista pragmático (mas não só, ético também), a partir de um certo momento (que nem importa definir - é o hoje) TODA a gente pertence, TODA a gente que está, é de lá. Recusou-se a loucura ideológica do primordialismo, da genealogia, do quem chegou primeiro. Há quem em Israel, na Palestina, no Líbano, etc, também pense assim. Mas perdem sistematicamente. E a sua derrota é alegremente apoiada no exterior por debates como aquele. Pelos termos de debates como aquele.

(No mesmo dia e noutro jornal, o curioso César das Neves fala da "naturalidade" da "família" e dos ataques contra ela por parte das "ideologias". Numa alusão à imagem da árvore genealógica, torna explícita a lenha com que se ateiam os fogos em que a Isabel e a Esther se metem)

mva | 11:34|


13.8.06  

Mientras tanto, na Polónia...

Uma amiga finlandesa que trabalha na Polónia como jornalista desfiou-me ontem o rol de barbaridades que a extrema direita polaca no poder anda a fazer. Não vos aborreço com os pormenores, mas quando um ministério da educação proíbe isto (um Manual para a educação em direitos humanos, produzido pelo Conselho da Europa, e sobretudo porque fala de equivalência entre orientações sexuais) qualquer coisa de muito esquisito se passa. Aliás, todas as ONGs de todos os tipos estão proíbidas de se aproximarem das escolas polacas. Enquanto a nova cadeira de Educação Patriótica foi introduzida. Aparentemente a sociedade polaca está a ser internamente colonizada pelos sectores fundamentalistas católicos. Como estas tomadas do poder precisam sempre duma retórica mobilizadora (o perigo judeu; o embargo americano; os imigrantes muçulmanos...), e como a censura social e internacional ao antisemitismo (o combustível polaco por excelência) é forte, o elemento "na moda" parece ser a homofobia. Não deve espantar: se há figuras de "párias" parecidas são o homossexual e o judeu - ambos fazem coisas "esquisitas", ambos têm códigos "secretos", e ambos são difíceis de "identificar" pelo corpo.

(Os nazis, na sua propaganda anti-semita, além de falarem da "conspiração judaica" - ou seja, do lobby... - lançavam o papão de velhos judeus abusando sexualmente de jovenzinh@s arian@s; hoje, a homofobia usa o tema do lobby gay como complemento da confusão promovida entre pedofilia e homossexualidade).

mva | 12:52|
 

É oficial: está mesmo tudo maluco

«"Oramos pelo homem que continua inspirando a América Latina a buscar uma alternativa ao capitalismo, que é um instrumento de morte", sustentou o reverendo Raúl Suárez, diretor do Centro Memorial Dr. Martin Luther King Jr. e repetiu que os crentes jamais aceitarão uma intervenção militar. O pastor presbiteriano Sergio Arce concluiu o rito com uma bênção a Fidel.» (artigo "Culto de oração por Fidel" no jornal oficial cubano Gramma. Leiam o resto, que vale a pena...)

mva | 12:45|


11.8.06  

Banho maria

Está tudo a banhos. Ou a fogos. Ou a banho maria, a mistura dos dois. Ou a ler, pela segunda vez, os editoriais de numerologia política de José Manuel Fernandes (espera-se, na rentrée, o uso do método astrológico ou a aplicação do código davintxi à política). Não se encontra (quase) um blog de jeito que poste regularmente em Agosto (na minha lista, excepções dignas são Glória Fácil, Kontratempos, Da Literatura; Boss, honey, where art thou?). Serão as férias incompatíveis com a blogagem? Não há cibercafés por esse mato fora? Ou, hipótese terrível, estará a blogosfera portuguesa em deflação? O tamagotchi foi substituído pela play station ou whatever está a dar? O mais provável é que seja eu que esteja parado na lista de blogs que descobri há já muito tempo. A melhor primeira resposta a uma dúvida é o mea culpa. Sendo assim: alguém pode sff sugerir blogs interessantes, visualmente giros, vivos, críticos, pessoais, bem pensados (bem pensantes, não, por favor)? A casa - também a banhos mas wired - agradece. Podem deixar as sugestões na parede de grafitti aka caixa de comentários.

mva | 12:44|


10.8.06  

(Not so) silly season

Carla Machado no Público de hoje, diz que os publicitários da playbock e wonder beer e quejandos poderão sofrer de um problema de obsessão mamária, facilmente curável. Boa!

Não sei se o problema é meu, mas há meses que na página de abertura do Público na net, Lisboa regista 6 graus de temperatura. I wish!

Continua a polémica do anúncio da prevenção rodoviária que usa um avião cheio de crianças para representar o número das mesmas mortas nas estradas portuguesas num ano. Coisas esquisitas à parte - o modelo de avião em que as crianças entram é totalmente diferente, e muito mais pequeno, do que o modelo que descola no fim do anúncio - só sei que ontem tive que explicar à minha sobrinha mais nova que as crianças que entram em aviões não acompanhadas pelos pais não estão destinadas a morrer.

mva | 12:26|
 

Ceasefirecampaign

Esta eu assino: «The world cannot allow the bloodshed in the Middle East to continue. Thousands of innocent civilians have been killed and wounded, almost 1 million made homeless, and a catastrophic larger conflict is possible. We call on US President Bush, UK Prime Minister Blair and the UN Security Council to support UN Secretary-General Kofi Annan's call for an immediate ceasefire and an international force to stabilize the situation.» Ir a ceasefirecampaign.org.

mva | 12:06|


9.8.06  



Hipótese

É ou não o heterossexismo uma estrutura de privilégio? É. Porque é tão difícil admiti-lo? Porque a categoria desprivilegiada surge demograficamente como uma minoria; ao contrário das mulheres, dos pobres, dos não "brancos". Mas este é justamente the crux of the matter: o heterossexismo é tão bem sucedido como estrutura de privilégio que impede o próprio "crescimento demográfico" da categoria desprivilegiada. O heterossexismo e a homofobia funcionam na base da exclusão da possibilidade mesma de se poder vir a ser gay ou lésbica - através da estrutura familiar, da educação, das representações, dos rituais e performances de reconhecimento e instituição da conjugalidade, etc (para não falar na prática directa da violência, mesmo da simbólica).

É por isso que entristece quando tanta gente supostamente esclarecida, progressista ou mesmo sexualmente não-hegemónica encolhe os ombros perante a questão do casamento. Não percebem que o mainstream hetero reage contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo porque sente que isso conspurcaria a sacralidade do seu privilégio, geraria um efeito de igualdade nas representações e, em última instância, acabaria com o privilégio. Seria um golpe no alicerce da estrutura. E não por ser uma "revolução", mas precisamente por ser uma transformação do sentido (meaning) do que já existe.

mva | 12:03|
 

Homossexuais espanhóis podem casar em Portugal

Ia escrever sobre o assunto, mas já está. O título "Homossexuais portugueses podem casar em Espanha" tem o mesmo rigor que dizer "Todas as pessoas podem ser felizes" ou "Não há provas de que não exista vida depois da morte" (ou até mesmo que a deliciosa cambalhota jesuítica, já ouvida por cá: "Os homossexuais não estão impedidos de casar; não podem é fazê-lo com pessoas do seu sexo"). O pior é que, neste caso, é também irresponsável.

mva | 11:48|


8.8.06  

Pensar em tempo de guerra

Não percam o último post do Kontratempos: é um excelente texto.

mva | 12:36|


7.8.06  

Soberania

Regressando ao post anterior, aparentemente a lei portuguesa é mesmo assim. A capacitação para casar não é "pessoal" mas sim "relacional", isto é, o estado declara que x tem capacidade para casar com um indivíduo específico. O vice-cônsul teria, então, aplicado a lei; e em princípio não terá havido instruções especiais de Lisboa.

Resta, é claro, o absurdo da lei. A discriminação dos gays e lésbicas - a sua definição como cidadãos de segunda categoria - estende-se ao estrangeiro. Só mudando de nacionalidade é que poderão usufruir dos direitos concedidos pelas leis de outros países da UE que deixaram de estabelecer duas categorias de cidadãos. Pessoas como a mulher referida na notícia serão, na prática, discriminadas por serem portuguesas. Não por o estado espanhol as discriminar, mas por serem súbditas (há quem diga cidadãs...) de Portugal...

mva | 10:28|


6.8.06  

Junto devolvo o meu passaporte português...

E nós que pensávamos que o governo queria era um "grande debate nacional"; ou esperar pela "mudança de mentalidades". Afinal conseguem passar à acção...:

«Consulado português em Madrid não dá papéis para casamentos gay

Pode uma portuguesa casar com uma espanhola em Madrid, onde o casamento homossexual é legal há mais de um ano? O Consulado de Portugal tem instruções para não tratar dos documentos de capacitação quando a meta é um casamento entre pessoas do mesmo sexo. A história foi ontem revelada pelo El País. Quando o matrimónio homossexual se tornou legal em Espanha, A.G.F., portuguesa de 36 anos, e a companheira espanhola, com quem vive há seis anos em Mejorada del Campo, deslocaram-se a uma conservatória. Queriam saber quais os papéis necessários para o enlace. Com a lista (que inclui documentos como certidão de nascimento e certificado de estado civil), a cozinheira empregada num restaurante de Madrid foi ao consulado português. "Tudo correu bem até o funcionário perguntar para que queria a certidão de nascimento", relatou ao diário espanhol. "Disse-lhe que era para me casar. Ele respondeu que, para além de pagar, tinha de me apresentar no consulado com ele. "Com ele como? Eu quero casar-me com a minha mulher", retorqui. Então o homem levantou-se, meteu-se no escritório e quando saiu disse que não podia ser." O funcionário ter-lhe-á mostrado uma folha na qual constaria não haver permissão para realizar qualquer trâmite para aquele fim. "Far-me-ei espanhola. Celebrarei a boda dentro de dois anos, quando tiver a nacionalidade", decidiu a lisboeta. Um cidadão português residente no estrangeiro pode solicitar aos serviços consulares da sua área de residência que celebre ou registe o seu casamento. Neste caso, é obrigatório organizar um processo de publicitação, o que requer diversos documentos de cada um dos nubentes. Mas A.G.F não manifestou intenção de registar o seu casamento em Portugal. "Já sabemos que o matrimónio [entre pessoas do mesmo sexo] não é válido em Portugal, mas onde vivemos e queremos casar é em Espanha". O Consulado de Portugal em Madrid admite ter instruções para não tratar de certificados de capacitação matrimonial quando o objectivo é realizar um casamento homossexual. Tais instruções emanam da Direcção Geral de Registos e Notariado, que se refugia na nulidade do acto no sistema português. Que se saiba, este é o primeiro caso envolvendo cidadãos portugueses residentes no estrangeiro.» (Ana Cristina Pereira, Público)

«No El País de ontem fica ainda mais claro quem diz o quê: «El consulado de Portugal en Madrid confirma que hay instrucciones de no tramitar los papeles de sus ciudadanos si son para una boda gay. "Este Consulado General se ve en la imposibilidad de emitir un certificado de capacidad matrimonial a favor de una ciudadana portuguesa que pretenda celebrar matrimonio civil en España con una persona de su mismo sexo. Esta imposibilidad, de acuerdo con instrucciones y parecer emanados de la Dirección General de los Registros y Notariado portuguesa, se debe a que tal certificado de capacidad matrimonial se destinaría, en el caso que nos ocupa, a matrimonio entre personas del mismo sexo, contrato que no es considerado válido y plenamente eficaz en el ordenamiento jurídico portugués", afirma el vicecónsul en una nota remitida a este periódico. Esta prohibición se basa en dos artículos del Código Civil portugués. El 1.577º, que dice que "el matrimonio es el contrato celebrado entre personas de sexo diferente que pretendan constituir familia mediante plena comunión de vida", y el 1.628º: "Es jurídicamente inexistente [...] el matrimonio contraído por dos personas del mismo sexo", explica Ferreira.»

E, é claro, à boa maneira tuga, o vice-cônsul tem uma "solução": «El vicecónsul, sin embargo, sugiere una solución: que las mujeres intenten tramitar el matrimonio sin esos papeles. "Hay portugueses que se casan en España que lo hacen", indica.» Lindo.

mva | 11:00|


5.8.06  

O lado bom da Força

Em Tenerife, Canárias, dão à costa imigrantes clandestinos vindos de África. Exaustos, alguns à beira da morte. Os turistas, em vez de fugirem dum cenário anti-idílico, ou de ficarem de braços cruzados observando depois de terem chamado o 112, ajudam. A imagem dum homem em fato de banho ou duma mulher em biquini - símbolos do lazer e do bem-estar descontraído e privilegiado - com a cabeça dum imigrante no colo, fazendo-lhe festas e animando-o até à chegada da ambulância... é uma imagem de humanidade absolutamente preciosa.

mva | 12:55|
 

(Queixinhas acumuladas no bloco de notas)

1. A piscina que frequento está fechada em Agosto. Ainda fiz uma cara de espanto ao funcionário mas ele não percebeu. Ele acha absolutamente normal que em Agosto uma piscina esteja fechada. Mais me informou que o mesmo acontece com várias outras. Se calhar no Canadá os lagos gelados fecham para a prática de patinagem Janeiro, não sei...

2. Durante anos cá em casa boicotámos a cerveja Sagres por causa dos anúncios sexistas. Por pouco que valham, gestos destes sabem bem. Mas agora a alternativa principal, a Super Bock, alinhou pela mesma rasteirice, "baixou a bitola". As últimas garrafas que consumiremos fenecem no frigorífico com o seu ar vagamente fálico.

3. Há dias um jornal publicava um ranking dos académicos da Economia aqui da pátria. Os critérios dos rankings são infinitamente discutíveis, como a ideia mesma de ranking e os objectivos da sua publicitação num jornal. Mas se aceitarmos que a Economia - uma certa Economia, diga-se - começa a ocupar o lugar social outrora ocupado por Direito (um lugar de definição do código de interpretação da vida em sociedade e uma forma de acesso a prestígio e poder pelos exegetas do código), não tarda nada esta praga chega a todo o lado. A coisa, aliás, já começou: na minha escolinha quase toda a gente se refere agora aos cursos como "produtos"! (Pelo menos parece que já deixaram de usar a horrenda "sinergia").

mva | 12:34|
 

A política por outros meios (por favor)

É bom ver toda a gente, nos media e não só, envolvendo-se com a guerra no Médio Oriente. É bom porque significa que as pessoas não se fecharam no remanso provinciano do extremo ocidental da Europa, para mais em período de férias, e que sentem os problemas do mundo como seus. No entanto... No entanto, na maior parte das discussões já não é (alguma vez foi?) o Líbano, o Hizbollah, Israel ou a Palestina que parecem estar em causa, mas sim os alinhamentos políticos nacionais. O Médio Oriente como boneco de ventríloquo, repito.

Há mal nisso? Pensando bem, não. É apenas mais uma forma de discutir valores, visões do mundo, política, em suma, que se faz tanto na micro como na macro escala. Mas há dois problemas nisto tudo. O primeiro é, digamos, metodológico: é que é muito difícil confiar na informação, nas fontes que cada "lado" - numa qualquer discussão nacional sobre o Médio Oriente - manipula. Assim como é muito difícil acreditar que a complexidade da situação seja atingível pelo mero esgrimir dos "factos" (quantos mortos, quem começou o quê, etc).

O segundo tem a ver com a tentação clubística, digamos, nas discussões sobre conflitos. E aqui as surpresas são constantes. Só um exemplo da complexidade das coisas: o Israel que constrói muros e coloniza terras palestinianas é o Israel da experiência socialista inicial e da construção duma democracia; o Israel que fechou a Faixa de Gaza como um campo de leprosos é o Israel que construiu uma sociedade multicultural, com gente oriunda de todos os cantos do mundo; o Israel da tentação de pureza étnico religiosa teve como antepassado o Israel sonhado como utopia igualitária. Etc. Do outro lado, o universo de palestinianos e refugiados palestinianos, tem todas as características de povo oprimido com direito a uma reparação histórica, com direito a um estado. O martírio da parte da sua população que não conseguiu uma vida melhor noutros países árabes e na diáspora em geral, é inqualificável. Mas o movimento político palestiniano tem vindo a transformar-se numa coisa intolerável, com o fundamentalismo islâmico, os grupos terroristas e o apoio dos estados árabes da região - puras e simples ditaduras e autocracias que oprimem os seus próprios cidadãos - e do regime de Teerão.

A feiura da política do estado israelense e a feiura da política dos Hizbollahs vários equivalem-se, mesmo tendo economias do horror diferentes (a bomba lançada de avião, a bomba do bombista-suicida, por exemplo). Fazer uma constante exegese da génese (do tipo, "sim, mas o fundamentalismo islâmico existe como reacção à política de Israel"; "sim, mas Israel só pode mesmo é defender-se e de todas as maneiras possíveis por causa dos terroristas e das ditaduras à volta"), para poder confortavelmente escolher um lado (e de caminho esquecer as monstruosas contradições do campo escolhido), é no mínimo infantil, para não dizer vagamente imoral. Os alinhamentos clubistas e por atacado nunca fizeram tão pouco sentido. E, no entanto, é a isso que se dedicam a maioria esmagadora dos comentadores e "jornalistas".

Ainda estou à espera de um ou uma que consiga "falar mal" de ambos os "campos" e que consiga dizer o que é preciso eliminar em cada um deles para que uma solução aconteça. E para que a mortandade (1 ou 1000: quem consegue em consciência estabelecer uma escala de valor nisto?) acabe dum lado e outro da fronteira Israel-Líbano.

mva | 11:55|


4.8.06  



P: Conte-nos o seu percurso político

R: De muito pouco zapatismo e algum zapaterismo.

mva | 17:29|


3.8.06  

Deve ser aquela coisa da "Vida"

«A Liga das Famílias Polacas (LPR), partido da extrema-direita que integra a actual coligação governamental polaca, anunciou recentemente uma campanha na UE favorável ao restabelecimento da pena de morte para assassinos pedófilos.» (Público).

Esta junta-se a uma que li algures outro dia: que na Polónia passava a ser necessário ter um certificado de "limpeza", provando que não se colaborou com o regime comunista, assim um pouco à semelhança da limpeza de sangue (judeu, claro) que vigorou em Portugal.

Ah, como os bons (e velhos) espíritos se encontram...

mva | 11:27|


2.8.06  



Ditadores & quejandos

Fidel Castro anuncia, para todos os efeitos, que passa o poder ao seu irmão. É engraçado como um regime "socialista" institui a monarquia (não é caso único, já tinha acontecido na Coreia do Norte).

Os senhores do regime de Teerão visitam o Líbano. Vestem todos casaco de fato, mas uma camisa branca sem colarinho e sem gravata. É engraçado como as utopias por decreto inventam sempre regras de indumentária (não é caso único, já tinha acontecido na China).

Alberto João Jardim especializou-se na linguagem arruaceira em contexto de romaria. É engraçado como os autocratas (que, por definição, acham que são os únicos que sabem fazer as coisas) precisam de alimentar o pior das "massas" para sobreviverem.

PS: Acho errado achar-se graça e encolher-se os ombros face a Jardim; como é errado achar-se simplesmente que Bush é tonto. Nem um nem outro são burros. São é perigosos. E acho errado apelar-se - mesmo que em tom de brincadeira, claro - à independência da Madeira para "nos" vermos livres de Jardim. Porque o "nos" inclui os madeirenses. Precisamos, isso sim, de nos tornarmos (todos os portugueses) independentes dos Jardins. Ele ganha eleições? Sim. Mas como? E diz ou não diz - e faz ou não faz - coisas que já deveriam ter levado à acção das "instâncias competentes" (a começar pelos presidentes da república)? Rir das suas alarvidades, desculpando-as como tonterias, e alienar os madeirenses brincando com a ideia de independência, é perpetuar o jogo político de Jardim.

mva | 17:34|


1.8.06  



Escrav@s do prontuário?

Não pode ser por falta de informação. Já só pode ser de propósito: por que carga de água tantos meios de comunicação insistem em dizer "o transexual" em vez de "a transexual", ao referirem-se a Gisberta Salce Júnior? Nem essa ponta de respeito pela pessoa têm?

mva | 20:37|
 

O silêncio tenebroso do estado

Escrevo propositadamente antes de ler a sentença do "caso Gisberta". Porque seja qual for o resultado, até hoje não vimos acontecer a única coisa que poderia descansar-nos enquanto cidadãos de uma república democrática: a assunção da responsabilidade última por parte das instituições que, directa ou indirectamenta, tutelam aqueles menores. A saber, a Igreja Católica e o Estado.

E o que é assumir as responsabilidades neste caso? É, desde logo, falar: dizer com toda a clareza que tudo se fará para que nada disto se repita e que a sociedade não admite coisas destas. Mas não basta: é preciso dizer que não se admitem crimes por homofobia e transfobia; que não se admite a homofobia e a transfobia; e que tudo se fará para exercer a pedagogia necessária para a eliminação destes males.

O estado (já não falo da ICAR....) deveria dizer alto e bom som que Gisberta era uma pessoa e uma cidadã; uma pessoa e uma cidadã cujas características identitárias a colocaram numa situação de extrema exclusão e discriminação; e que não é a única.

A assunção de responsabilidade pelo estado não deveria ficar por aí, contudo. À semelhança do que se fez em Espanha, é necessário que o estado garanta, através de legislação adequada, o direito à identidade de género, única forma de as pessoas transgénero poderem usufruir de igualdade de oportunidades - para a vida e, antes mesmo disso, para a cidadania.

No caso específico das pessoas transexuais a situação é pior ainda, dado o hiato em que vivem entre o diagnóstico de disforia de género e a redesignação; durante esse período de inexistência social forçada - desde logo de impossibilidade de encontrar trabalho - as e os transexuais são verdadeiramente não-pessoas. E é o estado que, por negligência, assim as define.

Não me meto em diatribes com as decisões judiciais. Muito menos quero correr o risco de colocar em causa as salvaguardas a que os acusados têm direito. O que me revolta sobremaneira é o desprezo, a inacção e o silêncio do estado. Desprezo, inacção e silêncio que tornam o estado cúmplice da violência que matou Gisberta.

mva | 16:42|