JCD, do blog Blasfémias, responde ao meu post "Triste, muito triste" (abaixo). Não sei bem que dizer: ele está a falar duma pessoa que eu não conheço...
[Há qualquer coisa de perverso nesta coisa de ao mesmo tempo se estar em modo de férias, sol e praia, e estar atento a uma guerra na outra ponta do nosso mar do meio. Mas é assim a condição humana, claro. Sempre se riu e se amou em tempo de guerra, mesmo entre quem está lá, debaixo das bombas. Só que ontem, como se não bastasse isto, uma amiga relatava estórias de trabalhadores (sobretudo trabalhadorAs) com quem tem contactado profissionalmente: estórias da mais incrível exploração, ausência de direitos (melhor: do seu conhecimento, por parte das trabalhadoras; da sua aplicação por parte de empresários), resignação, interiorização do discurso da "crise" como legitimação dessa situação (há dezenas de anos que oiço falar de crise: não haverá algo de propaganda na coisa?), e uma impressionante resistência do classismo, do paternalismo, do clientelismo, e da aceitação disto tudo como uma inevitabilidade. Numa ponta do mar do meio, chovem bombas debaixo do sol; na outra ponta, o sol aquece o pântano.]
Triste, muito triste. Que tal tomar partido pelas pessoas que morrem e pelas que vivem aterrorizadas, no Líbano e em Israel? Pelas que em Israel são contra a política do governo e pelas que no Líbano não querem ser reféns do Hizbollah?
Conflitos armados em 2006 (e data de começo) Israel vs. Hizbollah, 2006 EUA etc. vs Iraque, 2003 Israel vs. Palestina, 1948 Afghanistan: EUA etc. vs. al-Qaeda e Taliban, 2001 India vs. separatistas de Caxemira /Paquistão, 1948 India vs. insurreição em Assam, 1979 Indonésia vs. Cristãos e Muçulmanos nas Molucas, 1977 Indonésia vs. Papua (Irian Jaya), 1969 Nepal vs. rebeldes Maoístas, 1995 Filipinas vs. separatistas de Mindanau (MILF/ASG), 1971 Argélia vs. Grupo Armado Islâmico (GIA), 1991 Costa do Marfim vs. rebeldes, 2002 R. D. Congo e aliados vs. Ruanda, Uganda, e rebeldes locais, 1997 Somália vs. clãs rivais e grupos islamitas, 1991 Sudão vs. grupos rebeldes no Darfur, 2003 Uganda vs. Lord's Resistance Army (LRA), 1986 Rússia vs. separatistas Chechenos, 1994 Colômbia vs. Exército de Libertação Nacional (ELN), 1978 Colômbia vs. FARC, 1978 Colômbia vs. Autodefensas Unidas de Colombia (AUC), 1990
Para os maluquinhos (como eu) que gostam de países inventados, "micronações"e quejandos (influenciados em tenra idade pela Sildávia do Tintin ou vitimados por ataques crónicos de fuga à realidade); e para quem se angustia com as geografias (e as geoestratégias) reais, demasiado reais, dum verão de guerra - agora há a possibilidade de visitar a Molvania ("a land untouched by modern dentistry") ou o Phaic Tan, aqui. Até há um trailer da telenovela mais popular em Phaic Tan.
...o binarismo simplista na abordagem da guerra não ajuda a pensar, não esclarece e muito menos ajuda a agir. Um exemplo caricato da complexidade das coisas: uma vez pedi a uma pessoa, activa no espaço público e político dos "intelectuais engajados", que assinasse a petição pelo casamento entre pessoas do mesmo sexo. Apanhei com uma recusa liminar, com argumentos supostamente libertários mas com o que me pareceu ter um aroma, digamos, "católico profundo" (mas, pronto, isso são manias minhas). A mesma pessoa envia-me agora um abaixo-assinado contra os ataques israelitas, escrito na linguagem binária a que me referi. Não assinei.
Mas junto com o antisemitismo de águas profundas, temos uma corrente de preconceitos anti-árabes e anti-islâmicos, bem descrita e analisada no clássico Orientalismo de Edward Saïd. Isto nota-se em muitos posicionamentos na discussão portuguesa sobre a actual guerra, assim como se nota o antisemitismo de águas profundas referido no último post. Com o crescimento do fundamentalismo e de alguns grupos terroristas, aquela corrente engrossou, arrastando com ela, no imaginário de muita gente, a maioria dos árabes e muçulmanos absolutamente "normais" (à falta de melhor expressão e por economia de texto...). O antisemitismo ainda vai sendo contido pela memória das tragédias históricas recentes. A existência de Israel (não confundir com as políticas dos respectivos governos) é, de certo modo, a nossa garantia civilizacional de que nos posicionamos contra o antisemitismo. Mas que projecto positivo temos para contrariar o preconceito anti-árabe e anti-islâmico? Durante décadas a causa palestiniana pareceu cumprir essa função nos imaginários. Ainda cumpre?
A discussão portuguesa sobre o conflito entre Israel e o Hizbollah já derivou para as acusações de antisemitismo. Eu também acho que existe uma corrente profunda e difusa de antisemitismo na cultura portuguesa. Não admira: perseguição, expulsão e esquecimento da nossa parte judaica fazem parte dessa cultura. Isto torna tudo mais complicado. Porquê? Porque, rigorosamente, para haver um ódio activo é preciso haver um objecto de ódio presente. Ora, o que aconteceu em Portugal foi a obliteração desse objecto. Poderia dizer-se, por isso, que não há condições de possibilidade para o antisemitismo; que é difícil, honestamente, dizer que a pessoa x ou y é antisemita, que pratica o antisemistismo. Mas é justamente isso que torna tudo mais complicado: o antisemitismo português funciona como um recalcamento, algo no "inconsciente", que regressa sorrateiro quando menos se espera.
Israel, a Palestina, o Médio Oriente, enfim, funcionam como ventríloquos e catalizadores de muitas coisas: da oposição binária e simplista entre esquerda e direita, por exemplo. Mas nada de racional - ou sequer de afectivo - nos permite dizer, sem crítica ou autocrítica, que "apoiar" a Palestina é de "esquerda" e "progressista" e que "apoiar" Israel é de "direita" e "conservador". Muito menos quando estas categorias derivam para os seus extremos - os Hamas e Hizbollahs fundamentalistas e/ou terroristas, ou certos governos mais belicistas de Israel.
Parar, com intervenção internacional, os ataques de Israel no Líbano e os ataques do Hizbollah em Israel? É urgente. Um estado palestiniano independente? Sem dúvida. Pôr em causa o estado de Israel? Nem pensar.
Há uma data de anos escrevi uma crónica - sobre nudismo - com este título. Mas hoje regresso a ele apenas pela palavra. Desceu sobre mim outra vez. Acho-a a mais linda da língua portuguesa. Desde logo porque é económica: uma consoante, uma vogal e zás. Depois, pela semântica, obviamente: não só a nudez do corpo, mas a nudez metafórica. Despojada, integral, exposta, primeva. (E o frisson que a palavra provoca). Mas isto de regressar a coisas antigas tem o seu quê: descobri-lhe (duh...) agora outra característica. Se escrita em minúsculas, eis que as letras (já de si belíssimas nas suas curvas) são a inversão uma da outra ? nu é, afinal, uma variante grafada de 69.
«-E o que acha do casamento de homossexuais ? -Aceito os contratos de partenariado, sim. Já o casamento é uma instituição própria de uma relação heterossexual. Não tem para mim sentido recusar-se um determinado tipo de relação, legitimamente, porque faz parte da tal liberdade. Mas para mim o instituto tem de ser diferente. -Isso não é discriminatório? -Não. Para ser discriminatório era preciso que as questões fossem em tudo iguais. Podem ser iguais nos afectos, mas não são materialmente iguais e requerem respostas diferentes. Muitos sistemas jurídicos têm dado essas respostas. O casamentos mantém-se para as uniões heterossexuais e os contratos de partenariado para as relações homossexuais. -Espanha não entendeu assim... -Com certeza que não. Agora eu já nem entendo que essa questão seja uma fracturante. Já não é na minha geração e menos ainda na dos meus filhos.» (Paula Teixeira da Cruz, no Público)
PTC é das poucas pessoas que, no PSD (e até no PS, já agora...) se assume como liberal. Nesta mesma entrevista toma posições claras sobre aborto, ou drogas, por exemplo. Porquê então esta hesitação neste tema? Porquê o recurso ao argumento "não são materialmente iguais"? A que "matéria" se refere? À genitalia? PTC não acha que esta seja uma questão fracturante. É bom sinal. Mas então porque introduz ela mesma a fractura no seu raciocínio? Trata-se, bem à portuguesa, duma questão hesitante.
«As the Tikkun Community has outlined in the past, the terms of that settlement should include:
1. Permanent boundaries for both states that roughly resemble the pre-67 borders, with some border adjustments mutually agreed to along lines developed in the Geneva Accord (Israel incorporating some of the border settlements into Israel, in exchange for Israel giving equal amounts and quality of land to the Palestinian State).
2. Sharing of Jerusalem and its holy sites, with each side entitled to establish their national capital in Jerusalem, Israel to have control over the Jewish and Armenian quarters plus the Wall and adjacent territory, and Palestine to have control over the Temple Mount with its mosques.
3. All states participating in the International Conference would dedicate at least .1% of their GDP toward an international fund for reparations for Palestinians who lost property, employment or homes in the period 1947-1967, and to Jews who fled from Arab states in the same period (however, reparations will not be paid to any Arab or Jewish family with current gross assets of more than $5 million dollars).
4. A joint Israel/Palestine/International Community police force will be set up to enforce border security for both sides. The U.S. and Nato will enter into a mutual security pact for both parties guaranteeing that each side will be protected by the U.S. and Nato from any assault by the other or by any assault from any other country in the world.
5. Creation of an Atonement and Reconciliation Commission which will unveil all records of both sides, bring to light all violations of human rights on both sides, bring formal charges against those who do not confess their involvement in those violations and testify to the details, and supervise a newly created peace curriculum for all schools and universities aimed at teaching reconciliation and non-violence in action and communication. The explicit goal of this Commission will be to foster the conditions for a reconciliation of the heart and a new understanding on the part of both peoples that each side has been cruel and insensitive, and need to repent, and that both sides have a legitimate natrrative that needs to be understood and accepted as a legitimate viewpoint by the other side.» (daqui)
(Isto - uma espécie de limpeza do Hizbollah através de uma espécie de jornalismo - é que não ajuda mesmo nada)
Não devo ser o único a sentir uma enorme dificuldade em escrever sobre (nem sei como lhe chamar) o que se passa no Líbano, na Palestina, em Israel. Tomar partido por um dos "lados", de forma clara, parece-me irresponsável. Identificar quem espoletou o quê (e, portanto, é "responsável") parece-me leviano. Proceder a longas análises contextualizadoras parece-me uma forma elegante, na melhor das hipóteses, de domesticar o espanto. Clamar pela paz, em absoluto, parece-me uma forma pueril de demissão. Não sei o que dizer. O assunto escalda e juntar letras para formar palavras sobre o assunto é caminhar sobre um campo de minas. Refugiam-se, as pessoas que sentem o mesmo, na afirmação dum princípio: nada começará sequer a resolver-se enquanto não houver um estado palestiniano de pleno direito ao lado dum estado de Israel seguro. Ou na listagem dos seus des-gostos: o fundamentalismo islâmico, o terrorismo, o terrorismo de estado, a ilegitimidade das ditaduras àrabes da região, o crédito excessivo dado à democraticidade da política israelense, etc
Posto isto - que é bom mas não chega, porque os princípios pouco mais do que aconchegam - regressa a mesma impotência. Será para ultrapassá-la que tanta gente avança tolamente para a tomada de posições, para o apoio a um "lado" ou outro, para o aproveitamento da tragédia para esgrimir as guerrinhas ideológicas domésticas? Seria bom não esquecer, pelo menos, que a primeira coisa que a guerra nos deve provocar é o espanto absoluto. Que ele se manifesta na impotência. Só depois disso é que se pode perguntar: e a seguir? Que faço? Que fazemos? Que exigimos que se faça?
Pedro Silva Pereira: «Estou apenas a dizer que não devemos transmitir uma imagem errada de que o PS tem uma obsessão por uma qualquer agenda fracturante. Nesse caso, trata-se de uma proposta da JS que não consta sequer do compromisso eleitoral do PS e muito menos do Governo quanto a alterações nessa matéria, mas que o PS certamente discutirá, internamente, na altura própria. Jornalista: «Mas a sua opinião pessoal qual é?» Pedro Silva Pereira: «É que o PS deve discutir na altura própria.» Jornalista: «Espanha é o modelo a seguir?» Pedro Silva Pereira: «Eu acho que devemos estar disponíveis para corrigir as situações de discriminações que possam existir na sociedade portuguesa e devemos avaliar as soluções. O que o PS preconiza é que se faça um debate que permita identificar a melhor solução. Há vários cenários possíveis. O da JS é apenas um.» ("Diga Lá, Excelência», in Público)
Dedicado às pessoas que se assumem como de segunda, a.k.a. tétés
1. Na questão do aborto há duas realidades com vida: o feto nas suas primeiras semanas, e a mulher. Não custa nada concordar com isso, já que a definição de vida é, neste caso, absolutamente genérica. Tão genérica que é inútil.
2. Dado o certíssimo valor da defesa da vida humana (que, mas isso é outra história, deveria aplicar-se também às guerras...), somos obrigados a comparar e estabelecer hierarquia entre estas duas formas de vida.
3. E a comparação leva-nos a isto: em primeiro lugar, que o feto e a mulher que o carrega não são duas entidades autónomas - o primeiro é algo que aconteceu ao corpo da segunda.
4. Em segundo lugar, que a mulher é uma pessoa que já existe na vida social, e sujeito pleno de direitos, ao passo que o feto nas suas primeiras semanas é apenas um potencial de pessoa, uma hipótese de sujeito.
5. Qualquer argumento supostamente "pró-vida" só consegue, em rigor, ultrapassar este flagrante desequilíbrio assumindo que considera as mulheres uma categoria subordinada de pessoa, um sujeito manqué(e).
(Tudo o resto, à esquerda e à direita, da questão dos julgamentos à "obra feita" de apoio às "mães", são argumentos tácticos - nada de mal nisso, mas enfim... - para ganhar no referendo que aí vem)
Explicando a um colega estrangeiro por que está a sinagoga de Lisboa numas traseiras...
Há aquelas sociedades onde democracia é uma palavra absolutamente vazia. E há aquelas onde essa palavra é tão banal e necessária como água ou ar. Nas primeiras tudo é por defeito proibição; nas segundas, quando se aplica a democracia aplica-se a democracia e pronto. Mas sociedades há - e se calhar são a maioria - onde a democracia é aplicada de forma castrada. Portugal tem uma longa história disso, por exemplo. "Dar com uma mão e tirar com a outra" é, aliás, uma expressão corrente no dialecto local.
Reparem: quando a "liberdade" religiosa foi reinstituída, o estado deixou construir a sinagoga de Lisboa mas exigiu que esta não tivesse fachada para a rua, que ficasse nas traseiras, no logradouro. É uma forma de dizer: vocês são iguais a nós, mas mesmo assim queremos marcar uma diferença simbólica. Não aceder à frente da rua é a nossa forma de dizer que vos toleramos mas não vos consideramos dignos da igualdade plena. Antes que vocês marquem a vossa diferença, marcamo-la "nós". E marcamo-la como desigualdade.
Os casos semelhantes são n: sim, você pode aceder à nacionalidade, mas se não falar bem a língua (pior: se não souber a letra do hino) pode não merecer aceder a ela. Não merece a tolerância que tão misericordiosamente decidimos ter para consigo. Sim, você pode abortar num hospital do estado, mas só o pode fazer em circunstâncias que nós definimos como sendo as verdadeiramente graves para si. Sim, você pode ser homossexual e até pode viver com uma pessoa do mesmo sexo, mas não pode casar-se, porque esse símbolo é só nosso. E por aí fora.
A visão "tolerante" da democracia, em vez da visão igualitária, é paternalista, patrimonial e, em última instância, discricionária: "nós" (mas quem, senhores?) atribuímos a tolerância, definimos o seu âmbito e marcamos claramente as fronteiras simbólicas que vos definem como toleráveis, nunca como iguais. E esta visão "tolerante" tem um efeito cultural curioso: as pessoas acreditarem que na sua "natureza" (ou no seu "carácter nacional", outra idiocia) são "mais" tolerantes que outros povos (vide "os portugueses não são racistas").
É que, ao contrário do que pensa o senso comum político local - que é também o da tradição da filosofia política católica - a tolerância faz sistema com a discriminação. Ambas se baseiam na discricionaridade autoritária sem consciência de o ser (porque invoca a "tradição" e/ou a "natureza" e nunca nenhum argumento racional).
Milhares de mulheres e crianças maltratadas gritam: "Quero uma família biolóóóógica!"
Acabo de ouvir na rádio que Cavaco Silva ficou muito chocado com os relatos de violência doméstica e seus efeitos sobre as crianças. Ainda bem. Durante uma eternidade foi primeiro-ministro e bem que poderia ter ajudado a diminuir esta realidade troglodita da nossa sociedade, mas enfim, não falemos disso. Engraçado mesmo ("engraçado" porque uma pessoa não pode continuar a chocar-se eternamente; agora já nem vejo noticiários porque já não acredito mesmo que a política portuguesa seja a sério) foi ele ter dito que a solução era a promoção da "família biológica" (ninguém sabe o que isto é, mas como ele é El Presidente e deve ter algum assessor para a sociobiologia, deve saber). Referia-se El Presidente a esse terrível flagelo que são as famílias monoparentais.
A gente já tinha percebido que andava por aí uma campanha natalista e de "valores" familiares. Agora ficamos é a perceber melhor outra coisa: o governo vai fazendo; e El Presidente faz de porta-voz ideológico. Os seus assessores perceberam muito bem que este seria o papel ideal para ele face a um governo com o qual não querem e não podem discordar.
...deparo com um anúncio da revista Nova Cidadania. O slogan é: «[não sei quantos anos] politicamente incorrectos». Todo um programa: a direita resgata a palavra "nova", apropria-se da palavra "cidadania" e recorre à "incorrecção" como forma de suposta rebeldia contra um suposto puritanismo. Leram bem o seu Orwellzinho.
...reparo que a única coisa que une os fundamentalistas cristãos, judeus e muçulmanos é a homofobia. Os três pretendem proibir a marcha do orgulha gay de Jerusalém (ver Público). (É mesmo o que os une: tal não acontece com o aborto, uma espécie de obsessão de estimação dos seguidores de Jesus de Nazaré segundo a interpretação do Vaticano).
...noto que Cavaco Silva vai fazer um "roteiro de inclusão" pelo Norte, incluíndo o Porto. Noto que vai visitar uma associação anti-aborto, perdão, "pró-Vida" e muitas coisas patrocinadas pela Igreja Católica. É claro que o roteiro não incluirá nenhuma referência à hiper-exclusão representada pelo caso do assassinato de Gisberta por jovens duma instituição daquelas que El Presidente gosta de visitar.
...e ainda tropeço nisto. Deve estar para nascer ainda a primeira polícia secreta que não seja constituída por profundos ignorantes convencidos de que sabem mais do que toda a gente.
«O Presidente da República promulgou ontem a Lei da Procriação Medicamente Assistida (PMA) com algumas recomendações ao legislador. Cavaco Silva mostrou estar preocupado sobretudo com a investigação em embriões excedentários e considera que a legislação complementar deve definir muito bem os seus limites. (...) o chefe de Estado afirma não ter "encontrado especiais razões de mérito que [o] levassem a solicitar uma reapreciação do diploma".» (Público)
Pode-se portanto dizer que o PR age dentro do grande consenso heterocêntrico nacional (que inclui o governo e a esquerda): mulheres autónomas e lésbicas não são coisas para levar a sério; e os fundamentalistas cristãos nem se devem preocupar muito porque as suas preocupações já estão no espírito desta lei e os comentários de Belém contemplam-nas.
«O porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), D. Carlos Azevedo, afirmou que a "desvalorização" do conceito de família em Portugal é resultado do aumento das uniões de facto e das relações homossexuais. Em declarações à agência Lusa, D. Carlos Azevedo lamentou que a sociedade portuguesa "misture o conceito de família com outros conceitos de vida gregária", como são as uniões entre homossexuais ou as uniões de facto."Não se trata de defender um conceito tradicional", mas sim o único "modelo de família que existe", sustentou Carlos Azevedo, na véspera do V Encontro Mundial de Famílias, que hoje e amanhã decorre em Valência (Espanha), com a presença do Papa Bento XVI.» (Público)
O senhor Carlos Azevedo ("Dom"? Era o que faltava...) tem todo o direito às suas ideias e a torná-las públicas, como é óbvio. E tem todo o direito à sua religião e a praticá-la, como é também óbvio. O que o senhor Carlos Azevedo e o senhor Ratzinger não podem esperar é que milhões de cidadãos e cidadãs dos muitos países onde a sua igreja está implantada não fiquem insultados pela forma como são tratados pela ICAR. E estes cidadãos esperam que os seus estados os protejam das afirmações de pessoas mal-formadas e raivosas que explicitamente propõem impedimentos à igualdade e à liberdade, aplicáveis a quem não pertence à sua seita. Como? Não perseguindo os Carlos Azevedos e Ratzingers, é claro, mas dignificando as vidas daqueles cidadãos e cidadãs sistematicamente insultados. Como? Dando-lhes acesso aos mesmos direitos. Tão simples como isso.
PS: Concordo com Rui Tavares no Público de hoje - a esquerda portuguesa é uma porcaria na forma como trata a questão do aborto PPS: E com Helena Matos numa parte substancial (eu concordo com a paridade): os argumentos de Alberto Martins a favor da paridade são, em suma, sexistas. A paridade não se defende com "saudades de mãe" e elogios de supostas sensibilidades femininas - uma tendência tipicamente machista. Defende-se com simples noções de promoção da igualdade entre pessoas iniquamente tratadas como pertencendo a duas categorias distintas e hierarquizadas. E a paridade, como as quotas e as discriminações positivas, são isso mesmo: reconhecer as linhas por que se cose a desigualdade, evidenciá-las na política pela igualdade e, assim, caminhar para a abolição das próprias categorias.
1) Condenações por aborto em Aveiro com policiamento do interior do corpo das pessoas 2) Assassínio de Gisberta: Passarão os tribunais a mensagem de que uma transexual não é uma pessoa como as outras e que boys will be boys? 3) Cavaco não quer verificar constitucionalidade da lei da procriação medicamente assistida 4) Há um jogo de futebol importante. (Não é preciso link...)
PS: para muitos leitores o link para 2) não funcionará. Mas com certeza já toda a gente percebeu que se pode pedir a um amigo mais abonado que ceda a password de acesso à edição impressa do Público. Cada um de nós age no mercado como pode...
Os agentes da justiça têm por obrigação aplicar a lei. Certo. Mas no caso do aborto em Aveiro poderiam ter dito "Não concordo com esta lei. Acho-a iníqua. Mas tenho que aplicá-la". Não o fizeram. Alternativamente, e porque há sempre margem de manobra no negócio de equilíbrio de valores e interesses diferentes na sociedade, poderiam ter procurado princípios legais e constitucionais que se sobrepusessem à aplicação da lei anti-aborto. Não o fizeram.
Ao declarar válidos os exames ginecológicos no caso das mulheres condenadas por aborto hoje, em Aveiro, o estado português (através do Tribunal da Relação de Coimbra) penetra nos corpos das pessoas, policia-os por dentro, e diz o que é legítimo ou não elas fazerem a eles.
Para qualquer pessoa civilizada isto é a barbárie.
Alguém na Patagónia ou assim oferece um pedaço de terra para esta gente emigrar e fazer lá o seu estado fundamentalista, sexista e fascista?
Nós, as pessoas que acreditam na liberdade e nos direitos humanos, não podemos ficar quietos na campanha do referendo que aí vem. E muito menos no dia do referendo. Desta vez, temos que garantir que Portugal entra na modernidade e na Europa. Nunca o fascismo social esteve tão vivo entre nós. Agora melífluo, sorridente, legalista, protector do potencial dum punhado de células e não das cidadãs plenas deste país. Temos que mobilizar a nossa revolta, inspirando-nos em lutas antigas: ¡No pasarán!
Leia-se o Público, o DN e o JN de hoje sobre o julgamento dos menores que mataram (achamos nós, o ministério público obviamente não...)a transexual Gisberta. O que nos chega do tribunal é isto: numas coisas os rapazes são absolutamente inconscientes (logo "inocentes") - tudo terá sido "brincadeira", "divertimento"; noutras são absolutamente conscientes - portam-se bem no tribunal, percebem a estratégia da defesa e seguem-na, etc. Uma contradição destas só se resolve migrando a culpa para o exterior dos agentes. Estamos a dois passos de ouvir dizer que a transexualidade de Gisberta foi o que instigou o comportamento dos rapazes. Como há anos a forma de vestir da mulher violada pelo prototípico "macho ibérico" a que o juiz de então se referia. A referida "sensibilidade" do tribunal não se reporta a Gisberta, mas aos rapazes; e os apelos europeus ao rigor e determinação neste caso são vistos como "pressão". A masculinidade agressiva dos rapazes é também uma questão de identidade e indepedência nacionais.
Gisberta foi morta e humilhada e profanada. E os rapazes deste país ficarão autorizados a construir as suas masculinidades na base da humilhação de tudo o que não seja "masculino". Se pelo caminho acontecerem tragédias, a sociedade acha esse preço perfeitamente justo.
Em breve as ciências sociais estarão extintas, para todos os efeitos práticos, em Portugal. Sobrará uma ciência social de encomenda, respondendo aos pedidos de inquérito dos governos. Esta será altamente subsidiada, a outra desaparecerá em caves académicas.
Nunca haverá democracia e cidadania se não forem dadas às pessoas as ferramentas de pensamento e conhecimento que lhes permitam perceber o básico sobre como funcionam a sociedade e a política, e as habilitem para escolhas informadas.
Tudo isto dever-se-á a pura negligência? Talvez. Mas é sempre bom perguntar "a quem serve"? A quem serve que as pessoas não saibam por que linhas se cose a vida em sociedade?
Quem acha que o valor duma democracia se mede pela obediência à vontade da maioria não sabe o que é democracia. O valor duma democracia mede-se pela sua capacidade de respeitar e incluir as minorias. Em Portugal isto nunca é dito, afirmado com convicção. Mas não admira: cinquenta anos de ditadura, dois de "revolução" e quase trinta de completa ausência de educação cidadã são razões mais que suficientes.
Porque não gosto da expressão judaico-cristão? Porque é um caso acabado de violência simbólica, em que a segunda parte come a primeira, canibaliza-a. Elide a perseguição cristã ao judaísmo. E, num golpe de mágica evolucionista, remete as culpas daquilo que não se gosta no "judeo-cristianismo" ao judaísmo, à "origem" de todo o problema, desculpabilizando a segunda parte da expressão hifenada. Nas fogueiras da inquisição e em Auschwitz (e hoje, nos vários antisemitismos, incluíndo o português) falava-se ou fala-se em judeo-cristianismo? Nem pensar. Aí distinguem-se bem as duas palavras hifenadas.
«EM PORTUGAL, tem sido travado o radicalismo extremo e a pressa excessiva das minorias vanguardistas que pretendem a aprovação de legislação que "fractura" (a expressão é dessas minorias) a concepção antropológica fundamental da nossa cultura e da nossa civilização, de raízes greco-romanas e judeo-cristãs. (...)Deve pois haver a maior cautela nestes "avanços fracturantes" em matérias que tocam a identidade antropológica, a vida e a dignidade humana, tais como foram secularmente consagradas no fundamento da nossa cultura e da nossa civilização.»
O artigo é de Mário Pinto, no Público. Quando as coisas apertarem, é este tipo de argumento que é perigoso, não os arrazoados de César das Neves. O artigo fala de casamento homossexual, aborto e prociração medicamente assistida. Tem uma noção de história e progresso perfeitamente Evolucionista; usa normativamente expressões como cultura e civilização sem as explicar ou criticar, de modo a que o seu valor de fetiche funcione; e usa "antropológico" na mesma acepção disparatada da teologia católica e do Direito conservador.
O seu tom - a suposta "cautela" - vem do "fundo dos tempos", mais exactamente entre 1926 e 1974, aparentando o "bom senso" que cala fundo nas almas reprimidas e contamina eficazmente o "centrão sociológico" (não é o texto, afinal, uma carta de agradecimento ao PS?). O verdadeiro "inimigo" é deste tipo, mais ainda do que os Césares das Neves ou os neo-nazis. Eles dizem dislates, Mário Pinto tem o "fundamento antropológico" todo: a sintonia com o patriarcado e a sua auto-representação naturalizada, o discurso do "desde o princípio dos tempos", e até a treta do judeo-cristão (expressão detestável, se pensarmos no quanto os Inquisidores deveriam respeitar o hífen quando queimavam judeus...)
Notícias do desporto nacional (não, não é sobre o Mundial)
Pedrito de Portugal, toureiro, numa reportagem dum Telejornal da RTP. Aparentemente a localidade da Moita presta-se a ajudá-lo a pagar a multa de 100.000 euros por ter morto um touro numa arena portuguesa. Ele agradece a solidariedade de todos e a da RTP, pela sua presença no espectáculo de apoio. Pensei que ele estava a armadilhar a jornalista. Qual quê. No fim da reportagem, a dita funcionária do serviço público de TV do estado que proíbe as corridas com morte do touro na arena repete, deliciada, que Pedrito agradeceu a solidariedade da RTP. Na passagem para estúdio, Judite de Sousa (de Portugal?) nem pestaneja. A RTP deita a língua de fora aos tribunais e assim segue o país alegre e contente. Moita-carrasco!
PS: Na faena linguística, Pedrito tem alguns problemas: "De todos os países que têm touros de morte, Portugal é a excepção" (citação aproximada, de memória). Ora aí está uma grande verdade.