OS TEMPOS QUE CORREM. Miguel Vale de Almeida


30.6.06  

Eles vivem

Alguém alguma vez acreditou em Maria José Nogueira Pinto? A direita portuguesa gostava de voltar aos tempos da boa e velha separação de classes e origens, ritualmente apaziguada com actos de caridade e platitudes católicas sobre a tolerância. Mas não está só. Hoje Júdice escrevia um artigo de opinião no Público que parecia ter sido escrito nos anos quarenta, usando, sem ironia, linguagem bélica e nacionaleira para falar do jogo Portugal-Holanda. E Carmona Rodrigues (sabem, o presidente da CML?) também descansa tranquilo sobre o nojo que é Lisboa nos dias de hoje, porque tudo isso é mais genuíno, sei lá, mais nacional, sei lá, "somos assim" e não sei quê. Ser "conservador" quer dizer isso mesmo: "conservar" (neste caso, a porcaria e a injustiça); ser "reaccionário" quer dizer isso mesmo: "reagir" contra a mudança. Alberto JOão Jardim é um palerma. Perigoso, mas palerma. Mas a direita que manda mesmo é esta: a que aposta em passar ideologia da desigualdade por senso comum e bom senso.

mva | 19:52|
 

Vá lá, George, manda umas flores aos rapazes

Lá vai Freitas do Amaral. Lá vem Luís Amado: Instituto de Defesa Nacional e Georgetown, curiosamente a universidade de Durão Barroso. Hummm. Nuno Severiano Teixeira: humm. Se Portugal tivesse alguma importância, Bush estaria contente.

mva | 19:25|


29.6.06  

:-(

Nem dá tempo para postar. Andamos, os universitários, demasiado ocupados com a burocracia europeia de Bolonha e seus efeitos. Os nossos dias são dedicados à alegre actividade de cavar a nossa própria cova: diminuição da qualidade do ensino universitário, mercantilização das pós-graduações, proletarização do pessoal docente, cedência às resistências burocrátricas, transferência da investigação para os centros subsididados em paralelo e, em última instância, a perda da oportunidade de Bolonha (que, sim, tinha virtualidades). A não ser, é claro, que Bolonha fosse à partida ideologia e o propósito fosse mesmo os efeitos que - espero estar errado - prevejo.

mva | 20:10|
 

Trans

@s transexuais são uma minoria dentro duma minoria? São. Sofrem de discriminação na sociedade e também, veladamente, no movimento LGBT? Sim. Têm direito, independentemente do que se ache sobre a forma como as questões de género são ou não tratadas de forma crítica pela maioria d@s transexuais, a todos os direitos de identidade de género que desejem e da forma que desejam? Sim. Devemos defender essa reivindicação como parte integrante duma luta geral contra o heterossexismo? Sim. O caso Gisberta trouxe à luz, de forma chocante, tudo isto? Sim.

Mas há mais. Precisamos de mais movimento trans organizado, que crie energias próprias face a um movimento LGBT que, naturalmente, é mais focado nas duas primeiras letras. Precisamos de mais diálogo e abertura entre segmentos do movimento. Precisamos de propostas concretas no plano da educação, prevenção, legislação e combate à discriminação nas questões trans.

O inimigo não é um segmento do movimento LGBT. O inimigo é a homofobia, que é um corolário do sexismo. E a transfobia é uma forma específica de homofobia - neste sentido geral, que não tem apenas a ver com homens gay - que acentua a raiz sexista dos problemas que nos afectam a tod@s.

É por isso que o documentário feito na sequência do assassinato de Gisberta, na perspectiva dum activista (o público geral talvez, admito, tenha outra perspectiva) peca pelo enfoque, num dos seus segmentos, na culpabilização dos desentendimentos dento do movimento LGBT, transformado em "poder" - quando o poder verdadeiro está alhures.

Sr. Miguel Vale de Almeida

PS: Quanto à "violência" da minha opinião, não me custa reconhecer que às vezes "me passo". Mas também me espanta sempre a forma como na cultura portuguesa toda a gente passa a vida a dizer que é muito sincera e directa mas chocando-se sempre quando alguém emite uma opinião franca. Para mim o Sérgio Vitorino continua a ser um compagnon de route imprescindível na luta contra a homofobia.

mva | 20:09|


27.6.06  

Notícias de lá longe

«Espanha assiste ao primeiro divórcio gay (...) No último ano realizaram-se, em Espanha, 1300 casamentos entre pessoas do mesmo sexo..» (Público, inacessível)

«Um pedido de divórcio em mais de 4500 casamentos. (...) E já se celebraram mais de 4500 casamentos homossexuais, de acordo com estimativas do Ministério da Justiça. Um dado impossível à luz da actual legislação portuguesa, que não permite o casamento homossexual. (Jornal de Notícias, que deixa aceder)

Ainda ontem se explicava, no programa 59'' da TVE que a discrepância 1300/4500 se deve ao registo informático insuficiente. Seja como for - e já para não falar do curto período de um ano e do facto de gays e lésbicas serem uma minoria - o que interessa é o diferente tratamento dado por estes jornais ao assunto. Desde logo, nos números. E depois na referência a Portugal. (Infelizmente ambos se deliciam com os pormenores sobre a riqueza e futilidade do casal)

Entretanto, não consta que tenha havido algum descalabro social em Espanha ao longo deste ano. Apenas se casaram cerca de 9000 pessoas e divorciaram-se (e com certeza fizeram muito bem) 2.

mva | 21:21|


26.6.06  




33 parágrafos depois da marcha e do arraial

1. Movimento LGBT organizado, só o temos há uma dezena de anos.
2. Temos sete anos de marcha e dez de Arraial Pride.
3. A primeira foi crescendo e este ano decresceu um pouco.
4. O segundo tem vindo a crescer.
5. No caso da marcha, o decréscimo deste ano poderá dever-se à falta de publicidade motivada pela ausência de recursos do movimento (NÃO há lobby gay...).
6. No caso do arraial, foi um sucesso e uma vitória ter conseguido regressar ao centro da cidade.
7. Já se sabe que para muita gente, uma coisa é dar a cara na marcha, em pleno dia e avenida, e outra estar no meio de uma multidão numa festa nocturna.
8. E já se sabe que uma coisa é manifestar-se, outra divertir-se.
9. Começa a ser uma originalidade portuguesa: ter uma marcha política (e não um corso, como noutras cidades), seguida duma festa.
10. Cresceria a marcha se fosse comercializada e "carnavalizada"? Talvez.
11. Seria bom ou mau? Não sei.
12. Ganharíamos se o Arraial Pride fosse mais politizado? Talvez. (E há maneiras de o fazer sem ser chato e sem alimentar o novo apoliticismo).
13. Seja como for: a coisa boa é que o movimento apareceu, cresceu, ganhou raizes e hoje a sociedade portuguesa não escapa à política da orientação sexual.
14. E não basta a mediatização globalizada. Sem movimento local não haveria nada.
15. O movimento não cresceu tanto ou tão depressa quanto desejável? Ainda faltam uns anos para ver isso, embora convenha levar a sério essa suspeita. Mas marcámos agenda. A política institucional sente-se obrigada a prestar atenção. Os media sensibilizaram-se. A a pedagogia (a tal "mudança de mentalidades") está sendo feita. Muito mudou.
16. E uma nova geração de activistas surge. Poucos? Talvez. Mas isso é apenas proporcional à escala do movimento.
17. Os problemas do movimento (e da dificuldade de "movimentação") não são diferentes dos problemas sentidos por outras causas.
18. A não ser num importante "pormenor": a invisibilidade por causa da homofobia. Esta é a especificidade do "problema" LGBT. (Quem não percebe isto não percebe o porquê da expressão "Orgulho"; nem a marcha).
19. Isto à parte, os movimentos sofrem todos dos mesmos problemas nacionais.
20. Uns são históricos: será preciso repetir que este é um país marginal, pequeno (não falo da demografia apenas), pouco letrado, pouco cosmopolita, familista?
21. Outros são novos, ou foram recentemente intensificados: um país de precaridade em tanta coisa, um país de dependentes (da família, do apreço dos outros, da imagem).
22. Outros juntam as duas coisas: o salto brusco duma quase pré-modernidade para o mundo de hoje, sem a sedimentação do que noutras paragens mediou ambos - a educação, a literacia, a internacionalização, a interiorização dos direitos...
23. Tudo isto exponencia o parágrafo 18.
24. Tudo isto faz com que as vidas da maioria dos e das LGBTs seja de adaptação: uns interiorizam a hegemonia, outros "safam-se" manipulando os mecanismos mesmos que os oprimem.
25. Nos dias de hoje (ver parágrafo 21), paradoxalmente (porque supostamente as "mentalidades abriram-se") isto ainda é mais eficaz. É a Era do Esquema.
26. O movimento surge para atacar os problemas de um milhão de pessoas que desde crianças aprendem que devem ter vergonha, que não prestam, que fizeram algo de mal, que vão perder muito.
27. Mas surge, como é natural num contexto como o nosso, como "sucursal" (não tenho má intenção no uso desta palavra; também o telefone não foi inventado em Portugal), como aplicação local do "lá fora".
28. Falta-nos talvez saber melhor como funciona isto aqui. Perceber - e este é um exemplo entre mil - o que leva mesmo (isto é, a mistura entre factores sociais e inclinações emocionais) as pessoas a não se voluntariarem, a irem mais ao arraial do que à marcha, a defenderem o status quo.
29. A irracionalidade não pode ser a explicação. Precisamos perceber qual a racionalidade em jogo. Precisamos - e puxo a brasa a uma das minhas sardinhas - de gente das ciências sociais trabalhando nisto.
30. Trabalhando para lá da (necessária) identificação dos valores (tanto inquérito já, meus deuses...). Precisamos de perceber como eles são vividos, postos em acção, negociados. Precisamos de etnografia.
31. Teoria até já temos. Sobre a homofobia e o patriarcado. E funcionamos "por instinto" - político e a partir das nossas experiências de vida. E em condições de desprezo quase absoluto por parte de estado, privados, e cidadãos em relação ao trabalho de quem luta por direitos e pela transformação das mentalidades que sempre nos dizem ser precondição para a mudança...
32. Mas a coisa vai. Alguns de nós apostam em mudanças políticas e legais que tenham efeito multiplicador; outros apostam na revolta permanente contra os actos homofóbicos; outros apostam na cultura e na representação; outros ainda em formas mais íntimas de apoio mútuo. E todos, de certo modo, em tudo isto ao mesmo tempo. Face às várias repressões homofóbicas e face ao efeito de hegemonia sobre tantos LGBT.
33. Há dez anos que meia dúzia de nós saímos do armário, manifestando e festejando. Vivemos numa das regiões mais pobres, reprimidas e isoladas das Espanhas, é certo. Mas isso não é desculpa. Há sempre buracos no sistema. Há sempre efeitos paradoxais. Há sempre filões a explorar. A coisa vai devagar? "Depende": a coisa vai. A coisa tem de ir. Pela parte que me toca, não estou disposto a morrer em estado de vergonha e menoridade.

mva | 22:04|
 

The Man

Peço desculpa pelo silêncio: The Man (a.k.a. O Sistema, ou mesmo A Bolonha) condenou-me a Alienação Burocrática Forçada. A ver se arranjo uma liberdadezita condicional.

mva | 18:58|


24.6.06  

Marchar, dançar, mudar

Desde o princípio dos tempos que ou há rua ou nada muda. Que tal hoje marchar pela plena igualdade e contra a homofobia? Terminando com uma festa na Praça da Figueira?

É já hoje:


mva | 00:08|


23.6.06  

Mensagem

«Caras/os companheiras/os e amigas/os:

O aborto em Portugal continua ilegal, trazendo para as mulheres e suas famílias consequências muito graves em todos os aspectos das suas vidas. Devido aos corredores da clandestinidade, muitas vêm a sofrer duras consequências na saúde e algumas acabam por nos deixar. Foi o caso de Lisete que faleceu a 8 de Março de 1997, no dia em que uma proposta de lei sobre o aborto foi chumbada na Assembleia da República por um voto. Este ano queremos homenagear a Lisete e lembrar que está nas nossas mãos que mais nenhuma mulher sofra pela clandestinidade do aborto. A família da Lisete foi solicitada a transferir os ossos para um gavetão e não tem condições financeiras para o fazer. São 400,00?. Se cada um/a de nós der 1,00?, poderemos contribuir para que a Lisete mantenha uma morada que a família e nós possamos visitar. Apelamos, por isso, ao vosso contributo. Poderão fazê-lo no dia 28, ou pela transferência bancária para a conta NIB: 0036 0046 99100201857 18. Sabemos que 1,00? não justifica a transferência, mas podem sempre juntar-se com outras pessoas e transferir colectivamente.
É claro que também podem oferecer um pouco mais. A entrega do dinheiro será efectuada no próprio dia, à família. Escolhemos o dia 28 de Junho porque foi, em 1998, a data do referendo sobre o aborto que não foi vinculativo. Faremos uma Conferência de Imprensa no Piolho, pelas 14h e depois partiremos do Santo António até ao Cemitério de Aldoar. EM MEMÓRIA DE LISETE MOREIRA, PELO ABORTO LEGAL E SEGURO.»

mva | 12:29|


22.6.06  



Ódio de estimação

A bandeira "Pace" (a da esquerda) usada nas manifs contra a guerra do Iraque, e que encontrei em tudo o que era janela em Roma (essa cidade onde é impossível encontrar um sítio gay que não seja escondido, certamente por influência do Vatikano). Não podiam ter inventado outra coisa? Inverteram (!) a bandeira do arco-íris (a da direita) e acrescentaram o azul bebé (celestial, considerando a origem para-católica do movimento?). Caramba, não bastam décadas de "usurpação" das invenções gay (do uso das jeans nos anos 60 aos piercings bem mais recentemente, passando pela música e por mil e uma coisas)? Tinham que ir directo ao símbolo? (Por estas e por outras é que gosto mais do triângulo rosa do que do arco-íris). Hoje mesmo vi uma igreja com a bandeira da "Pace" por trás do altar e não, não celebram casamentos entre pessoas do mesmo sexo naquele sítio...

mva | 19:12|
 

Receita para o desastre

Timor: pobreza, petróleo, duas potências regionais, Igreja Católica, diversidade étnica pronta a ser politizada (ou diversidade política pronta a ser etnicizada?), cliques do poder com origem em países de exílio diferentes, o grosso da população alienada pela idiota decisão de ter o português como língua oficial, um presidente cheio de si, e uma constituição à portuguesa. Receita para o desastre.

mva | 18:02|


21.6.06  

Post completamente fútil e snob

Depois dum dia de trabalho excessivo, 10 minutos a zapar a TV em silêncio. A roupa da esmagadora maioria dos apresentadores (e doras) das TVs portuguesas - bem como dos políticos (e íticas), dos desportistas, das vedetas, etc - é absolutamente horrenda. Pensei que estava numa telenovela venezuelana ou no portugal dos anos 70. Depois uma pessoa chega à TV5 francesa e vê a simplicidade elegante duma camisa com uma só cor, atrevida e sem padrões (e sem gravata, bien sûr) e um casaquito unicolor por cima. Et voilá. De Caracas a Paris, dos anos 70 aos 00. Conclusão? Nenhuma.

mva | 19:32|


20.6.06  

:-)

Pedro Mexia e Rui Tavares num programa de livros na televisão, conversando. Boas cabeças, praticando exercícios de liberdade. Em ambos os casos, preocupação em serem críticos em relação às "ca(u)sas próprias" (a "direita" e a "esquerda") tanto ou mais do que em relação às "ca(u)sas alheias".

Se desse muita importância à retórica das "gerações", diria que os próximos anos estão bem entregues. Como não dou (muita...), fico contente por ter estes contemporâneos.

mva | 21:08|
 

:-)

Sobre o namoro neo-"liberal" com a ditadura "comunista" chinesa, ou de como os "crentes" se entendem bem entre si.

mva | 11:19|


19.6.06  

Um duro galp

O meu coração chora por Pedro Bidarra. Neste país, empresário sofre. E não sofre só com sindicalista, sofre com fufa e paneleiro. No suplemento do Público dedicado à transformação do mundo empresarial em coisa light e de moda (em suma: em objecto de desejo), o Dia D, Pedro Bidarra é entrevistado. A polémica do hino da GALP é trazida à baila. Ele diz:

«Foi uma canção que eu, o Nuno Jerónimo e o Marco Pacheco escrevemos, como se escreve qualquer canção hip hop. E, portanto, tinha um palavrão no meio. Desde o princípio que a Galp concordou com o hino, mas pediu para tirarmos a palavra da letra. E nós substuirmo-la (sic) por um "pi...". Mas depois, por lapso, a música foi impressa com o palavrão lá. Pediu-se desculpa pelo erro e tirou-se a palavra da letra. Não tenho mais nada a dizer sobre um erro.»

Sobre a iniciativa da Sara Martinho e a movimentação na blogayesfera, ele diz:

«Não sei quem essa senhora é e sinceramente também não quero saber. Só sei que se você me mandar um mail e eu lhe mandar um mail de volta, não pode publicá-lo sem o meu consentimento. Foi uma conversa pessoal entre duas pessoas, que acabou publicada na net, que ela resolveu tornar pública, sem me pedir autorização. Mas não quero saber. A blogosfera é um sítio que não frequento. Tem coisas muito interessantes, mas também tem muitas outras que soam mais a comentários de casa de banho. É um sítio meio anónimo, de gente meio cobarde, que tem medo de dar a cara. Aprendi uma grande lição, que é não responder a mails de quem não conheço.»

Registamos o pedido de desculpas e a tentativa de emendar o erro. Continuamos é sem saber se os autores da letra acham normal o insulto às pessoas homossexuais num contexto que não é nem de humor (e mesmo assim...) nem interpessoal. Também ficamos a saber que Pedro Bidarra tem uma relação complicada com as modernas tecnologias: não sabe que o mail para onde a Sara escreveu era o da sua empresa, e não pessoal; e não sabe verificar via Google, em dois segundos, quem é Sara Martinho, activista da rede ex-aequo e blogueira (e é boa pessoa, é inteligente e dá o litro para um mundo melhor).

(Eu agora senti a tentação de rematar assim com uma brincadeira usando um insulto para os heterossexuais. Mas sabem que mais? Não há. Mas sobretudo porque tenho respeito: muitos deles são pessoas muito próximas - na família, no trabalho, entre os amigos, em todo o lado. Não ia recorrer a um galp baixo).

mva | 19:20|
 

:-)
Excepções ao anterior: os livros da Cotovia (limpos, sóbrios, pequenos); e os da Tinta da China, pelo tamanho e as capas duras.

:-(

Desde que voltei à mátria há uma semana já fui a 3 livrarias em busca de ficção. Ainda não comprei nada. Não por falta de qualidade. Mas porque constatei uma vez mais que é impossível comprar estes livros que se editam entre nós: coisas enormes, pesadíssimas e com capas horrendas. A maioria dos meus compatriotas leitores deve habitar palacetes com divisões destinadas a bibliotecas com paredes recheadas de infinitas estantes. Não consigo comprar os mastronços.

mva | 14:57|
 

Da candura neo-liberal

Uma das coisas boas do novo pensamento único é a sua ocasional transparência ingénua. Nisso replica lindamente o velho pensamento único nas suas variações estalinistas (acreditam mesmo; acham que as coisas são mesmo assim). Há 2 dias tinha este vosso servo da bloga postado sobre a campanha de privatização e mercadorização do ensino superior e da ciência; hoje o Público trata de dizer que sim senhor. Pulido Valente refere mesmo a privatização de algumas universidades (e extinção de outras); e o director do jornal (num curioso artigo em que mistura níveis de ensino e ministérios correspondentes - mas isso pouco importa) sanciona as opiniões do seu articulista transformado temporariamente em entrevistado.

PS1. Uma peça sobre o estudo do "copianço" (!) e corrupção era apresentada num noticiário do seguinte modo: "este estudo foi realizado junto de estudantes de economia e gestão, porque serão os futuros líderes económicos e políticos". OK: mais uma transparente candura.

mva | 14:45|


18.6.06  

:-)
[Coisas Boas]

A Quinta das Conchas e dos Liláses, que só hoje descobri. No meio dum bairro de empreiteiros dos anos setenta (a verdadeira Lisboa, com bem mais gente que Castelos e Alfamas), um parque com escala e dignidade.

mva | 17:54|
 

Rectificação

Pouco depois de publicar o post anterior, li a notícia do DN sobre o mesmo assunto. Nesta, o aspecto negativo realçado pelo Público não aparece. Assim como no Público não aparecia o aspecto mais positivo, que o DN realça. Assim não dá para acreditar em ninguém, chuiff...

mva | 17:47|
 

Temos homem

«O ministro dos Assuntos Parlamentares, Augusto Santos Silva, mostrou-se ontem favorável à igualdade de género, mas considerou que esta questão está a ser "deslegitimada por causa de algum "politicamente correcto" algo radical", que classificou mesmo como "fundamentalismo do feminismo". E avisou que "o politicamente correcto é um preconceito perigoso de entre todos os que existem na vida pública sobre a igualdade do género"(...) Para o governante, a política tem beneficiado do "olhar feminino"...»

Obrigado, Augusto. Ficamos tod@s mais sossegad@s. É sempre bom saber que existe no governo alguém equilibrado, sensato, favorável à igualdade de género mas sem radicalismos politicamente correctos. Enfim, alguém com um "olhar masculino" em quem a gente possa confiar.

mva | 11:18|
 

Jornalismo de bitaites

O jornalista Nuno Sá Lourenço (Público) critica o livro do meu colega António Medeiros dizendo, entre outras coisas, isto: «O verdadeiro interesse deste livro residia na possibilidade da autópsia científica daquilo a que José Mattoso chama de "perfil português", confirmando ou não a hipotética afinidade desse perfil com o do galego. Sendo um antropólogo, António Medeiros estava especialmente capacitado para a tarefa. Há até já algum trabalho feito por outro antropólogo, Jorge Dias.Curiosamente, há mais de oito anos que José Mattoso desafiou os cientistas sociais no terreno a "estudos mais atentos" sobre a matéria. Para perceber se, afinal, é mesmo verdade que os portugueses têm mesmo uma fatal tendência para a saudade, se se confirma a "reduzida capacidade de planeamento aliada à tendência para a improvisação". Como Mattoso escreve, isso é cientificamente verificável.»

Se é isto que esperam da antropologia, bem podem tirar os cavalinhos da chuva. E se Nuno Sá Lourenço fosse estudar umas coisas antes de mandar bitaites baseados em Jorge Dias (!!!) ou numa infeliz passagem de Mattoso? Se levasse a sério aquilo que diz ter lido em Hobsbawm (e mesmo na maior parte de Mattoso), não pedia o que pede.

mva | 11:09|
 

Jornalismo pré-histórico

«Checos não resistem ao lado negro da força», é o título dum artigo no Público sobre a vitória do Gana contra a República Checa no Mundial de Futebol. Mais à frente, diz o jornalista Hugo Beleza:«... o futebol em estado puro, que trouxe do continente negro, passou pelos detectores do aeroporto sem aviso. Frente à Itália, os "contrabandistas" africanos caíram por 2-0...»; «... o instinto estava do outro lado. Mesmo se canalizado numa expressão cheia de ingenuidade quase infantil». O tratado de estereótipos termina assim: «a expulsão de Ujfalusi abriu mais espaços para a dança ganesa, que intensificou o seu assédio ao guarda-redes checo. Os remates, porém, foram quase sempre de forma naïf à figura de Cech, com excepção do de Muntari, que aos 82" deu o golpe final numa República Checa desnorteada, já sem o loiro Nedved, e sem a espontânea força negra que sobrava aos africanos.»

mva | 10:47|


17.6.06  



Universidade e ciência à Bolonhesa

1. Quando se começou a falar do Processo de Bolonha, tentei reagir cautelosamente. Não aderi a uma espécie de rejeição automática que via nele mais uma conspiração neo-liberal. No caso português, convém ter este tipo de cautelas: o nosso ensino universitário é tão antiquado que quase todas as mudanças têm alguma coisa de bem-vindo.

2. Mas entretanto a coisa começou a ser "implementada", como se diz por aí. Rapidamente os aspectos virtuosos (por exemplo, a contagem do tempo de trabalho efectivo dos estudantes) foram tratados como regras burocráticas e meramente formais às quais é preciso adaptar a realidade. Melhor, o seu planeamento, na construção de cursos e cadeiras. O resultado vai ser rapidamente visível: a velha manipulação das regras formais, lançando às urtigas os conteúdos.

3. Isto ainda é "o menos". Torna-se cada vez mais evidente que as licenciaturas de 3 anos vão ser encaradas como uma "treta". E que a bitola vai baixar consideravelmente. O que passa a interessar é os mestrados, a que um número cada vez maior de autoridades académicas se refere como "os produtos" (não, a linguagem nunca é neutra).

4. A própria distinção entre os cursos que passam a funcionar no novo modelo e os que continuam a funcionar "à antiga", para todos os efeitos, revela uma outra característica deste processo: os primeiros conhecimentos a descartar serão os das humanidades e ciências sociais. Não há nisto qualquer inocência: só sem pensamento e pesquisa críticos e reflexivos é que se pode verdadeiramente "implementar" os "produtos", isto é, fazer de todo o sistema universitário uma máquina de MBAs...

5. E é claríssimo como água que as vaguérrimas promessas de financiamento dos mestrados não vão resultar em nada. Estes terão que ser pagos e bem pagos, tornando-se fulcrais no fnanciamento das universidades e na sobrevivência dos docentes em muitos departamentos.

6. Chego aqui a um exemplo próximo. Exemplo emocionalmente complicado, já que envolve pessoas que admiro e de quem sou amigo, em duas das melhores instituições de ciências sociais, o ISCTE e o ICS. Apenas acho que elas e eu e tantos outros, estamos a ser "levados" pela lógica do capitalismo de estado à portuguesa - em que o Estado vai transformar-se não no regulador mas no promotor da concorrência. O exemplo, então: um departamento duma universidade oferece um mestrado. Ao lado, um centro de investigação também oferece um mestrado na mesma área científica. Tudo bem, dito assim. Que ganhem os melhores é algo que não me assusta. Mas acontece que o primeiro não contrata ninguém há anos porque o estado não deixa; está enquistado; o seu pessoal gasta rores de tempo em tarefas administrativas, lecciona prioritariamente nas licenciaturas, vê atrasada a produção de conhecimento através da investigação que não consegue fazer. O segundo não só não é uma instituição de ensino, como se dedica à investigação e tem fontes de financiamento científico que permitem a renovação do pessoal nem que seja através da contratação de pós-doutorados. Será possível sequer comparar a qualidade entre os dois "produtos"? Há alguma dúvida sobre qual o mestrado que os alunos vão preferir? No entanto, o dono dos meios de produção é o mesmo: o estado.

7. Já se percebe o futuro: umas universidades mixurucas com meia dúzia de docentes (os outros vão para a rua) ensinando umas coisas liceais à pressa para produzir bacharéis, numa espécie de continuação do secundário (não aproveitando, pelo menos, esta oportunidade de mudança para insituir um sistema de college, de formação geral assumidamente pré-especializada). E meia-dúzia de instituições de elite, criadas a partir dos financiamentos para a ciência e não a partir da universidade, fornecendo estudos graduados caros. Face a este espectro, tudo o resto - as virtualidades de Bolonha, as boas intenções e as por vezes boas políticas da universidade e da ciência, vão por água abaixo. É o que acontece quando o estado faz mercado, em vez de simplesmente o regular e garantir o máximo de igualdade de oportunidades para todos.

PS. Qual seria o "meu ideal"? Pois bem: college, com formação científica e humanista para todos, produzindo mais licenciados; cursos de graduação especializados oferecidos pelas instituições de ensino - as universidades; bons e fortes centros de investigação cujos cientistas podem, como já acontece, exercer docência nos cursos de graduação universitários, e onde os docentes universitários podem "residir" temporariamente durante os períodos de licença para investigação.

mva | 12:54|


16.6.06  

O santinho do zé eduardo

Hoje deram-me a descobrir isto. E, no entanto, o próximo Congresso Luso-Afro-Brasileiro de Ciências Sociais vai ter lugar em Luanda. Eu não ponho lá os pés e não percebo o que passou pela cabeça dos meus colegas.

mva | 18:30|


15.6.06  

Mais uma coisa cheia de nada

Não tenho energia para "falar" sobre os juízes que recusaram a nacionalidade a uma pessoa que não sabia a letra do hino e, suponho, nada percebia de futebol e cantores pimba. A estupidez é sempre uma coisa muito difícil de contra-argumentar. E não me atrevo a começar sequer a dissecar a luta entre sindicatos de professores e ministra da educação (neste caso a estupidez, propositada, é minha...). Em vez disso, reparei como em França parece ter nascido o fenómeno Segolene Royal, possível candidata do PS local a presidente. Nos EUA excitam-se muito com ela, e por cá tropecei num editorial de José Manuel Fernandes idem idem aspas aspas.

Acontece que há tempos, ao procurar materiais sobre o debate em torno dos casamentos entre pessoas do mesmo sexo, e sobre a PaCS em França, passava a vida a encontrar barbaridades, cobardiazinhas e tontices ditas pela referida senhora - bem como por Jospin, homófobo sem consciência de sê-lo (normalmente o pior caso). Agora que está lançada como presidenciável, sentiu necessidade de dourar a pílula. Pior a emenda que o soneto. Leia-se esta tranche barroca de reaccionarismo disfarçado de tolerância:

«Je me suis toujours refusée à instrumentaliser les questions de société pour faire "dans le coup". Il faut donc procéder avec tact et doigté. Plusieurs pays ont avancé. À l'heure actuelle, ma réflexion est celle d'une mère : quel parent pourrait, quelles que soient ses convictions religieuses, s'opposer au bonheur de son enfant si c'est son choix ? La loi doit pouvoir créer cette union en mairie pour permettre à chacun de construire librement sa vie, à égalité de droits et devoirs.» Avant d'expliquer qu'elle préfère «le mot union à celui de mariage pour ne pas bousculer les repères traditionnels, la famille c'est un père et une mère. Mais le débat aura lieu.» (Tetu)

Definitivamente, há muito que nada de interessante politicamente nos chega de França.

mva | 11:50|


13.6.06  

Vamos a isso, então

Primeiro passo: a Marcha LGBT do próximo dia 24.

mva | 22:01|


12.6.06  

Peço desculpa, mas o feeling não é bom

Confesso que estou em estado de semi-choque. Não por comparação com os EUA, que têm q.b. de terceiro-mundismo e barbaridades (e para onde não voltaria agora, a questão não é essa). Não por ter estado fora muito tempo - que não estive tanto assim. Mas a verdade é que, ao andar hoje por Lisboa, não encontrei nada que me agradasse ou fizesse sentir em casa. Desde logo, a sujidade. Depois, o caos urbanístico. Por fim, a desorganização completa. Como extra, o clima político e social.

A sujidade sente-se nas ruas e passeios, no próprio ar, com um vago cheiro a lixo, acompanhado por muito barulho. O caos urbanístico sente-se com os olhos e a caminhar, dos monturos de terras aos matagais que crescem por toda a parte, à feiura da arquitectura. A desorganização completa vive-se assim que se regressa ao local de trabalho e se começa a entrar numa aterrador limbo burocrático, na dificuldade em encontrar com quem falar numa semana de três feriados, e na sensação de que anda toda a gente a tactear no escuro. O clima político e social, curiosamente, partilha todas as características dos outros três problemas, as reais e as metafóricas...

Dentro das quatro paredes de casa ou na companhia de pessoas queridas, maravilha. Mesmo. "Lá fora" - que afinal não é o estrangeiro, mas sim a rua, o trabalho, as notícias - é que não. Terceiro mundo quase puro (isto é: até em ser terceiro mundo falha?).

Agora peço um favor a quem eventualmente já tenha sentido a mesma coisa: como é que se dá a volta?

mva | 17:12|


9.6.06  



Going heart

Amanhã termina a minha estadia breve em Chicago. Já só devo postar em Lisboa, quando o jetelégue passar. Conheci este país há 432 anos atrás, mais exactamente em 1977-78 quando vivi em Baltimore como estudante de intercâmbio, frequentando o 12º ano. Voltei muitas vezes desde então até que fiquei dois anos em Binghamton, Nova Iorque, entre 1984 e 1986. Tornei a voltar muitas vezes. Em 2001 "frequentei" Boston - mais exactamente Cambridge - onde o meu companheiro (não é marido porque o estado português não deixa que escolhamos se queremos ou não ser maridos) acabava o doutoramento. E agora esta estadia como visitante na Universidade de Chicago. Os EUA fazem parte da minha vida e construiram-me quase tanto (mas menos, evidentemente) quanto Portugal. Já disse noutro sítio que me sinto em casa em Portugal, nos EUA, no Brasil e cada vez mais em Espanha e na Catalunha. Sentir-se em casa é como estar numa relação: há irritações, às vezes até odiozinhos de estimação, mas a "estrutura profunda" sobrevive. Gostar ou odiar completamente um sítio é próprio do turismo; quando se vive o sítio, necessariamente gosta-se e odeia-se, gosta-se de odiar e odeia-se gostar. É assim que me sinto em relação a todas as minhas pátrias e mátrias.
Mas, feitas as contas, já se sabe (eu pelo menos sei...): home is where the heart is (ah!, a cultura popular) E estou a horas de going heart.

mva | 02:43|


7.6.06  

Continuamos à espera

O Governo português considera que o relatório do Conselho da Europa que coloca Portugal na lista dos 14 países europeus que permitiram escalas de voos operados pela CIA baseia-se em alegações e convicções sem apontar provas, não merecendo, por isso, qualquer "comentário especial".

Pois é, caro governo. O problemazito é que, tratando-se duma questão política, nós queremos provas do governo em como tal não aconteceu. O governo não é uma pessoa, e o caso dos aviões da CIA não é o mesmo que um boato lançado por alguém contra outrém.

mva | 16:26|
 

Ups

"Deixem-me trabalhar", pede Xanana emocionado. (DN)

mva | 16:25|
 

O dia seguinte

A prisão dum neo-nazi resulta da reportagem da RTP? Sim. Isso justifica os termos da reportagem? Não.

mva | 16:18|
 



Os colaboracionistas

Estava a fazer um exercício de irritação: a elencar todas as peças de um telejornal da RTP (online) para me aperceber, masoquisticamente, do descalabro total de uma hora e vinte (!!) de quase coisa nenhuma na televisão pública. Mas abandonei o exercício quando uma das peças - um teaser sobre uma reportagem a passar a seguir ao telejornal - me muda as prioridades. A dita focava os neo-nazis portugueses. E era abjecta: "reportava" os neo-nazis como quem reporta qualquer outro grupo ou opinião. A peça legitima os neo-nazis, colocando-os no mesmo nível que qualquer outra tendência, opinião, estilo de vida, opção política. Mas não é: quando as pessoas defendem o mesmo ideário daqueles que cometeram crimes contra a humanidade (nem sequer por erro ou desvio, mas assumidamente), estamos noutra dimensão. (é por isso, eventuais certos comentadores, que não se trata duma questão de liberdade de expressão)

Alguém vai colocar em causa o responsável por isto - o Director de Informação da RTP?

mva | 02:06|


6.6.06  

Latin@

Quando um canal como a ABC transmite os prémios "Alma" relativos a música, cinema, teatro, etc, latinos, percebe-se que se concluiu o processo de criação duma entidade/identidade étnica. Os prémios, patrocinados pelo National Council of La Raza (bem sei, o nome é assustador na última parte, mas o sentido não é bem "esse" originalmente (ainda que igualmente problemático, e de que maneira), não só dão relevo às estrelas latinas; eles confirmam a latinidade, que junta pessoas originárias ou descendentes de todos os países de língua espanhola nas Américas. Fizeram o que nem o Lusotropicalismo nem a Lusofonia (essas versões de La Raza) conseguiram. Mas o processo é obviamente problemático e ambíguo: no sistema estadunidense de classificação etno-racial, latino está a transformar-se numa categoria equiparada a "negro" e a "branco".

Mas há o outro lado: a cerimónia acontece num momento de grande contestação das políticas anti-imigração. George Lopez, actor, apresenta-se dizendo "Olá, estou muito contente por ainda estar aqui". Mas foi a "hospedeira", Eva Longoria de Desperate Housewives, quem rematou melhor as coisas. Disse que o seu papel é histórico por representar pela primeira vez uma dona de casa latina que tem um jardineiro... branco. E ironizou com a política de imigração dizendo que não se pode deixar de reenviar para casa todos esses canadianos que todos os dias atravessam impunemente a fronteira. Ao dizer isto, acabou por explicar grande parte do que está em causa com esta entidade/identidade latina (e o crescente medo dos EUA mainstream em relação a ela). Uma categoria nascida, curiosamente, na imigração e na imigração para os EUA.

mva | 03:23|


4.6.06  

Economia e moral

A moça da caixa do supermercado americano pede que seja eu a passar a garrafa de vinho pelo scanner. Ela não pode fazê-lo porque não tem idade para beber. Logo, não tem idade para vender álcool. Logo, não pode tocar na garrafa. Na coisa que polui.

Economia e magia

Ouvi dizer que o BES tem um produto em que o rendimento varia (ou algo assim) consoante os resultados da selecção portuguesa no Mundial. A isto costuma chamar-se pensamento mágico, com um pouco de bruxaria à mistura.

mva | 23:11|


3.6.06  

Mai' nada!

«(...) Ora, a luta de classes, sob novas formas, está aí, não por uma guerra declarada por baixo, nem em contestação da ordem estabelecida ou por exigência de mais igualdade, mas agora, precisamente por cima, por determinação das elites, das classes altas, da nova aristocracia da finança. Esta declaração de guerra prepara-se para terminar com a coesão social, com a paz social. O contrato social do pós-guerra está a ser denunciado. E está a ser denunciado por cima. (...)» (São José Almeida, Público inlinkável)

mva | 15:12|
 

Prazos de entrega (e ainda o primeiro episódio da vingançazinha)

Câncio, no DN de hoje: «Trata-se de um regime "sancionador excessivo e desproporcionado". É até, diz o PR, uma "interferência exorbitante" na "liberdade e no pluralismo". Uma liberdade e um pluralismo que, bem entendido, se consubstanciaram, nesta matéria, nas tais "discriminações negativas" que o Presidente diz querer eliminadas. (...) Felizmente, o Presidente está atento: "Mecanismos sancionatórios e proibicionistas" como o da lei vetada "concedem" às mulheres "que assim acedam a cargos públicos um inadmissível estatuto de menoridade". Suspeitar-se-á de que foram lá postas pelos chefões do partido, por simpatia, bairrismo ou até competência, ao contrário do que sucede com os homens.»

Costa Lobo, também no DN de hoje: «E qual a influência efectiva na direita no poder, isto é em Cavaco Silva? Para já podemos dizer que é nula.»

Ups... Costa Lobo deve ter escrito a crónica dias antes de Cãncio...

PS: já viram bem - mas já viram mesmo bem - a vergonha que é ter aquele homem como presidente da república?

mva | 03:36|


2.6.06  

Primeiro episódio da vingançazinha

E pronto. Cavaco vetou a lei da paridade. Um dos argumentos reza assim: « b) a liberdade de cada partido para organizar as suas listas, de acordo com a vontade dos seus órgãos democraticamente eleitos, seria limitada de forma exorbitante» (aqui). Deve ter sido sugerido por um daqueles assessores politicamente perversos (que é assim como o simétrico de politicamente correcto).

Estão agora a ver como não era inócuo votar na criatura? E como não é parceiro tranquilo do governo coisa nenhuma?

mva | 14:32|


1.6.06  



Deixarmo-nos disto

Todos os dias é isto. E "isto" é assim há muito tempo, pelo menos tanto quanto me lembro e tanto quanto a história e a literatura me ajudam a lembrar. N pessoas escreveram já sobre isto. Sobre o excesso identitário e o excesso de pessimismo - dois termos que nem sequer uma dialéctica estabelecem. Criam, isso sim, marasmo. Só que este marasmo - o pessimismo junto com o excesso identitário redundam na figura da pensionista competindo com outra na queixa das suas maleitas - não se ultrapassa com mais do mesmo. Está feita a análise, digamos. Não há mais nada a fazer e não há qualquer interesse ou produtividade em continuar a cutucar essa coisa espantosa chamada "a realidade portuguesa". No entanto, até as gerações mais novas se meteram por aí - é ver a literatura, os filmes... As pessoas - sobretudo os mais novos - precisam de sair. Sair fisicamente, aventurando-se a trabalhar noutros países, e sair mentalmente, deixando de lado o tema tremendo da coisa nacional. Evacuar o país é necessário. Pensar o estar, o ser e o fazer sem o qualificativo nacional. Correr o risco de ser acusado de pedante e estrangeirado e desenquadrado. Desinfectar-se de salazarismo, de inquisição, de catolicismo, de familismo, de messianismo. Pegar na coisa portuguesa e colocá-la numa gaveta igual às gavetas onde se metem a coisa sueca, monagasca ou queniana. Gira, mas nada de especial - nem para o bem nem para o mal. Sair de casa. Sair do país. Ir muito a Espanha. Aprender línguas. Acolher imigrantes. Desinsuflar Portugal. Durante alguns anos pareceu que se tinha aberto as janelas e que estava a entrar ar fresco. Mas rapidamente alguém, interrompendo uma troca de queixas sobre nervos e maçadas, gritou do fundo da sala cheirando a mofo e vasos chineses comprados em Macau: "corrente d'ar!"

mva | 14:50|