OS TEMPOS QUE CORREM. Miguel Vale de Almeida


31.5.06  

Aplauso

«A presidente da Comissão para a Igualdade e para os Direitos das Mulheres (CIDM), Elza Pais, criticou ontem a recém-aprovada lei da reprodução medicamente assistida (RMA) (...) A responsável ... afirmou ... discordar do acesso exclusivo à técnica por parte de casais (casados ou unidos de facto), o que se traduz, concretizou, na exclusão de todos os que não cabem na designação de casal heterossexual. Na sessão de encerramento do seminário estava também o ministro dos Assuntos Parlamentares, Augusto Santos Silva, que abanou a cabeça em discordância com as afirmações de Elza Pais, mas que não tocou no assunto durante a sua posterior intervenção.» (Público)

PS: Interpretar um abanar de cabeça não será um exemplo de grande jornalismo. Mas abanar "que não" com a cabeça e depois desprezar o assunto tão-pouco é um grande exemplo de político; e ministro; sociólogo, para mais.

mva | 14:11|


30.5.06  

Alô, Dona Rosa, alô?

Hoje apercebi-me, assim de repente, que Cavaco Silva é presidente da República Portuguesa. Parece que também é um Ouvidor. E preocupa-se com uma coisa chamada "exclusão social", que é assim uma maneira de não falar de pobreza, exploração, classes e essas coisas desagradáveis. O governo agradece e nós ficamos descansados.

mva | 14:34|
 

Energúmeno, energúmeno, energúmeno

«O Tribunal Criminal do Porto condenou um crítico do PÚBLICO, Augusto M. Seabra, por difamação, devido ao uso de um epíteto ("energúmeno") aplicado ao presidente da Câmara do Porto, Rui Rio, que se sentiu ofendido na sua honra (ainda que não fosse explicitamente nomeado) e decidiu processar o autor da peça de opinião.» (J. V.Malheiros, Público)

O que eu proponho é o seguinte: vamos todos - nos blogs, nos jornais, etc - começar a usar "energúmeno" quando nos referirmos`aos representantes dessa autêntica sub-classe de políticos que controla grande parte das nossas cidades .

mva | 14:20|
 

Receita...

...para um fim de semana em Nova Iorque: não ir a um cinema, a um teatro, a um museu, a um restaurante, a uma galeria, a um local turístico. Em rigor, nem sair de casa. Ficar na cozinha conversando com uma pessoa amiga que não se vê há 20 anos. Ou nas escadas do prédio, dando para a rua e o desfile de novaiorquinos. Quando muito ir ao lugar da esquina comprar víveres para voltar à cozinha e preparar um jantar. Conversar: sobre mortes e nascimentos, casamentos e divórcios, paixões e despaixões, amigos comuns e livros comuns, filmes incomuns e viagens inesperadas, e filhos e pais e mudanças e continuidades e semelhanças e diferenças. Um fim de semana 5 estrelas, sem sair dum quarteirão. É a receita para voltar a "casa" um bocadinho mais humano.

mva | 03:14|


26.5.06  



NYC

Fds em NYC. Os tempos tornam a correr lá para segunda à noite.

mva | 03:47|
 

A política sexual do governo

Um bocadinhozinho de melhoria nas leis de acesso à nacionalidade pelos imigrantes. Um bocadinhozinho de legislação sobre reprodução medicamente assistida, considerando que não havia nenhuma legislação. Um bocadinhozinho de "talvez, mas não agora" sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Um bocadinhozinho de "entusiasmo" sobre a despenalização do aborto, num referendo a acontecer este ano (talvez). Bocadinhozinhos. Imediatamente "compensados" por incentivos à maternidade; definições inconstitucionais dum tipo de família modelo; exclusão inconstitucional de mulheres sós, lésbicas e gays; insistência no referendo do aborto em vez de legislação no parlamento; punições na segurança social para quem não reproduza; lançamento de um clima demagógico de medo em relação à quebra demográfica, como se houvesse alguma mais valia em ter crianças portuguesas-mesmo, como dizia o outro que está em Belém. Não admira que uma histeria maternal-nacional tenha surgido em torno do fecho de algumas maternidades ou do "horror" por haver crianças a nascer em Badajoz. Como pode, pois, admirar que a JSD surja com uma campanha a favor da rápida e patriótica inseminação das raparigas? A oposição limita-se a exigir apenas um pouco mais do que aquilo que o governo "socialista" propõe. Fá-lo a JSD, como o fazem os promotores dum referendo contra a reprodução medicamente assistida, por supostamente ser demasiado liberal.

Desengane-se quem aceita a teoria de que os partidos do centro são hoje iguais na política económica e tentam diferenciar-se pelos "valores civilizacionais". Pelo menos em Portugal não parece aplicar-se. O governo assume tudo para si: liberal(érrimo) na economia, anti-liberal nos costumes (espera: mas não é essa a definição dum governo conservador?) Partindo do princípio que se consideram socialistas ou social-democratas, que imagem do país têm para governarem desta maneira? Quem lhes anda a dar "informação" sobre os valores dos portugueses? Quem a interpreta? Como a interpreta o governo? E mesmo que a informação e a interpretação batam certo, porque acham que devem governar no passado? Em suma: de que é que têm medo?

Ou será (oh, assustadora hipótese!) que estão apenas a defender aquilo em que acreditam?

mva | 03:22|
 

Matadouro 5

Os pais dos alunos duma escola secundária aqui perto estão a decidir sobre a hipótese de banir vários livros da lista de leitruras. Entre eles encontra-se Beloved, de Toni Morison, provavelmente um dos mais importantes livros sobre a experiência africano-americana; e Slaughterhouse 5, de Kurt Vonnegut (esta irritou-me mesmo: sou fã incondicional), o escritor que apresentou uma das suas novelas, Cat's Cradle, como tese de antropologia aqui no departamento. Dizem alguns pais que estas e outras novelas não defendem os valores da família. Pergunta: quão boooooooooooooooooooooooring será uma novela sobre os "valores da família" (no sentido, é claro, que eles dão à expressão)?

mva | 03:13|


25.5.06  



Bushismo do dia (última entrada: 5 de Maio)

«"The point now is how do we work together to achieve important goals. And one such goal is a democracy in Germany."?Washington, D.C., May 5, 2006» (daqui)

É mais divertido do que ler a extraordinária quantidade de coisas nos jornais e nos blogs portugueses sobre Carrilho. Ainda se houvesse Carrilhismos. Ou Barbarismos.

Os bushismos podem encontrar-se aqui, na Slate.

mva | 04:54|


24.5.06  

Começa amanhã (aí já é hoje):

O blog Arrastão, do Daniel Oliveira. Logo no dia em que acabei de escrever um texto para um livro a propósito do dito (o "arrastão", não o daniel...)

mva | 00:09|


22.5.06  



Nota colonial

Parece que alguém comentou a minha conferência aqui dizendo: "Foi bastante bom. Ele deve ter passado muito tempo em Inglaterra, não?" Tradução: "com certeza não aprendeu o que sabe num sítio improvável como Portugal". Ou: "Com certeza passou pela coisa-mais-parecida-com-os-EUA na Europa". Às vezes não há, de facto, pachorra para o anglocentrismo. É nestes momentos que uma pessoa percebe que é "colonizada": recompensada quando mima bem o colonizador; mas demonstrando também, desse modo, que não é exactamente a mesma coisa que ele.

mva | 19:12|
 

A César o que é de César

É certo que, num país com ensino superior de qualidade, as capacidades argumentativas, de raciocínio e de lógica de César das Neves seriam com certeza superiores às demonstradas no seu texto de hoje no DN (linko? não linko? Não linko.). Como estamos onde estamos, não só chegou ao topo como ainda tem um jornal onde pode divulgar comparações entre racismo e homossexualidade (não, claro, entre racismo e homofobia...). OK. Tudo bem (enfim...).

Mas - e até por causa deste efeito de divulgação do cesarismo nevista - isto não quer dizer que se deva ignorar César das Neves. O seu texto de hoje diz, entre outras coisas, que a definição da homossexualidade (e supõe-se que da heterossexualidade também?) como "genética" não a torna em coisa aceitável. E que as decisões sobre o bem ou o mal relativos de certas práticas, identidades, etc., são decisões "morais". Agora pasmem-se: "lá no fundo", concordo com ele.

Agora descansem: por razões diferentes. Acreditar que a designação de algo como "genético" torna esse algo mais compreensível e aceitável social e politicamente é uma perigosa ilusão cientifista. As discussões e decisões sobre questões como a dimensão social e política da sexualidade (os direitos e deveres das pessoas, o que podem ou não podem fazer, etc) devem ser morais, éticas e políticas. A diferença é que as decisões morais com base na fé religiosa devem ter um âmbito estritamente pessoal. Já as decisões éticas e políticas devem guiar-se por princípios de liberdade e igualdade.

Um movimento (neste caso de defesa dos direitos das pessoas LGBT) que abrace as "explicações genéticas", abraça um monstro que o devorará em dois tempos. A crença na legitimação "científica" é simétrica da crença de César das Neves na depravação moral do comportamento homossexual. Não há nenhuma janela de liberdade e igualdade em ambas as posições.

A César o que é de César: a genética à genética, a religião aos religiosos. E a sociedade aos cidadãos. A divisão nunca será simples nem completa. Ela nem sequer descreve bem o emaranhado de interdependências entre as três. Mas é um princípio, no duplo sentido: sem ele não conseguimos começar a pensar; e se abdicamos dele está aberto o caminho a toda a espécie de totalitarismo e fundamentalismos.

mva | 14:46|


20.5.06  

A embriónica Pegado strikes again

«Parece-nos que ganhámos já em dois tabuleiros, a proibição das mulheres sozinhas poderem recorrer, assim como a questão dos homossexuais, que não é contemplada, bem como a barriga de aluguer, cuja solução, na prática, é que não existirá.... A questão que se mantém é a do uso dos embriões.» - diz, no Público, a inenarrável (no português e nas ideias) Isilda Pegado, promotora da petição para um referendo sobre a lei da reprodução medicamente assistida.

Não teria sido mais simples enviar uma carta de agradecimento a José Sócrates e ao PS?

mva | 17:47|
 



Lisbon, Illinois

248 habitantes, na área metropolitana de Chicago. Origem da população: Alemã, 26%; Norueguesa,20%; Irlandesa, 13%; Italiana, 7%; Polaca, 5%; Francesa, 3%; Inglesa, 3%; Escocesa-Irlandesa, 3%; Sueca, 2%; Lituana, 2%; Mexicana, 2%; Eslovaca, 1%; Checa, 1%; Croata, 1%; Russa, 1%; "Escandinava", 1%; Galesa, 1%.

mva | 03:11|
 



Fortalezas

Depois das manifestações de imigrantes, Bush anunciou ao país novas leis da imigração. Surpreendeu à direita e à esquerda por ter tomado o caminho do meio, supostamente. Mas terá sido mesmo "do meio"? Na realidade, apenas recusou fazer aquilo que só mesmo um louco muito louco faria hoje em dia - impedir totalmente novas entradas e expulsar os "ilegais". O que de facto fez foi decidir que a Guarda Nacional irá reforçar a fronteira com o México, militarizando-a definitivamente. Dias depois, os conservadores do Senado vieram de novo propor a declaração do inglês como língua oficial do país.

É caso para perguntar: onde está o mirífico melting pot de que os neo-cons portugueses e europeus gostam tanto de falar, nas suas comparações constantes entre a Europa e os EUA? Foi pelo cano - o pot estava roto, afinal (pot = tacho; delicioso se usado para Portugal...). Mas a questão nem é essa - e as comparações são, neste caso, praticamente inúteis (a militarização da fronteira do México tem o seu equivalente europeu nos massacres nas fortalezas espanholas em Marrocos; e, simetricamente, a Europa tem uma história - só que mais antiga - de melting pot, assim como os EUA têm uma história de segregação absoluta por raça, e por aí fora até ao fim, perdão princípio, dos tempos...).

O que está em causa é praticamente o mesmo para os EUA e a Europa, e para qualquer parte do mundo incluíndo Portugal: as deslocações transnacionais de pessoas aumentaram exponencialmente, nos números e no ritmo. A famosa globalização não se coaduna bem com o estado-nação. E é flagrante a discrepância entre a circulação de mercadorias e capitais e a contenção da circulação de pessoas.

Mais: o estado-nação mostra as suas contradições e impotências: entre, por um lado, os direitos civis liberais, reservados aos cidadãos e nacionais e, por outro, os direitos humanos, definidos ao nível universal. Entre os dois estão as fronteiras que dividem cidadãos de não-cidadãos. Fronteiras que podem ser físicas e militarizadas e lugares de massacre, mas que também podem ser simbólicas, verificadas no momento em que o imigrante "ilegal", por não ser cidadão ou não ter "papéis", não pode aceder aos serviços sociais, aos direitos ou à voz na decisão sobre os destinos da comunidade onde está/é (ou das comunidades onde está/é).

Mas há mais. Hoje mesmo alguém dizia num orgão de informação aqui do burgo que "We're very heavily into the symbolic area in politics now". Really? Não estivemos sempre? E acrescentava: "não vai ser só a língua, mas também por exemplo o casamento gay". Quase em simultâneo, tinha lido no Público como os gurus da direita portuguesa sugerem a concentração da mesma nas questões "morais e de costumes" (é a versão salazarista da coisa; aqui deste lado chamam-lhe values), elecando... a imigração e o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Vamos a isso. Vamos discutir fronteiras, simbólicas ou não (Jesus!: as fronteiras são o exemplo acabado de simbolismo, a não ser quando os loucos querem concretizá-las, como no Muro de Berlim, no Muro de Israel, ou no arame farpado da fronteira americana com o México). Não esqueçamos, porém, que "simbólico" não quer dizer "irreal" (há sofrimentos concretos na situação de migração ou na homofobia), e que "material" (vulgo "económico") não quer dizer não-simbólico - o dinheiro, o valor, a mercadorização (sobretudo de pessoas e do trabalho) são verdadeiros processos de significação, com verdadeiros efeitos sobre as vidas. É da mistura dos dois domínios (o "simbólico" e o "material", se, por conveniência, os aceitarmos como separados) que a imigração "fala".

mva | 00:27|


19.5.06  

Humm...

«Como já tenho dito numerosas vezes, não vejo blogues. Às vezes, pessoas mais solícitas enviam-me endereços por e-mail. Têm o destino marcado: o lixo imediato. Mas não deixo de ver a transcrição que vem nos jornais de algumas coisas que por lá se passam.» (Eduardo Prado Coelho, na sua crónica de hoje no Público)

Não resisti a transcrever, porque há qualquer coisa de fascinante no facto de fazer um post referindo alguém que se sabe de antemão não vir a lê-lo. Nem se alguém lhe enviar o link, pois o destino será a poubelle. Mais curioso ainda: as crónicas diárias de EPC são o que mais se aproxima da prática dos blogs na imprensa remunerada. A mesma que depois cita os blogs. Permitindo que EPC, finalmente, os leia.

mva | 15:09|
 

Incubadoras

«New federal guidelines ask all females capable of conceiving a baby to treat themselves -- and to be treated by the health care system -- as pre-pregnant, regardless of whether they plan to get pregnant anytime soon.
Among other things, this means all women between first menstrual period and menopause should take folic acid supplements, refrain from smoking, maintain a healthy weight and keep chronic conditions such as asthma and diabetes under control (...)» (Washington Post)

Já terá chegado a Portugal?

mva | 03:38|
 



South Park (South Side?)

Hoje recebi dda Sara esta versão South Park de mim (ou South Side, a zona de Chicago onde me encontro?). Toda a gente pode criar os seus personagens aqui

mva | 03:23|


18.5.06  

Quem caça quem?

É um programa - embora mais um pugrama - de TV em canal aberto e em prime time. Chama-se To Catch a Predator (A Caça ao Predador?). Com o apoio da polícia - e, sem dúvida, de uma bateria de advogados - umas raparigas e uns rapazes são contratados para conversar online com "pedófilos". As conversas são do pior: os homens lá propõem umas coisas de sexo, e os iscos lá propõem pior ainda, que é para apimentar a coisa. Os iscos sugerem então o encontro, na casa onde supostamente estão sozinh@s, na ausência dos pais. Quando os "predadores" entram na casa, aparece o apresentador do programa em vez do ou da adolescente. Começa o julgamento moral perante as câmaras, ao melhor estilo das bruxas de Salem. Para requintar a coisa, só no fim é que é dito ao predador que está na TV, sendo então mandado embora - apenas para ser apanhado pela polícia à saída, de modo a podermos ainda ver os senhores algemados, nos seus fatos cor-de-laranja de penitenciária.

Não é preciso ser muito inteligente para perceber que se há "predadores" nesta história, são os iscos, o apresentador, o programa de TV, a estação de TV - e, claro, os "espectadores". E que se trata, em rigor, dum programa de titilação sexual dos "espectadores", mascarado de justiceirismo moral (há gente para quem não há "pica" sem haver "transgressão", percebi isso em Portugal ao fim de muitos anos...) Mas o mais interessante - e o mais assustador - é como este exercício representa o estado das coisas no nosso mundo bushiano. Nos conteúdos - o policiamento moral; nos agentes - a TV em conluio com a polícia; e nos métodos - mais sofisticados que os da Inquisição, pois o que se faz é gerar o crime e justificar a sua suposta existência com um what if ("e se em vez de mim estivesse aqui a rapariga/o rapaz a quem você disse que ia fazer x?" é a frase típica do apresentador confrontado com o predador).

(Segue-se com certeza um programa em que um empregador-isco contrata um guatemalteco ilegal para vir para os EUA, apenas para deparar-se com um apresentador de TV que lhe pergunta se não tem vergonha por vir tirar empregos a americanos e por não querer aprender a falar inglês)

mva | 16:42|


17.5.06  



Dia Internacional contra a Homofobia

mva | 15:52|
 

Boas novas

É com MUITO prazer que publicito o Colectivo Feminista. Nem tudo é caverna (nem tudo é sombra, nem tudo é Platão).

mva | 02:13|


16.5.06  

Mentes inférteis

Pediu-me a Associação Portuguesa de Infertilidade que publicitasse a sua "Carta Aberta à Assembleia da República". Infelizmente a Carta é demasiado longa parta ser reproduzida num post. Fica aqui um extracto:

"... Não bastava às pessoas inférteis a infelicidade da doença, não bastava o desprezo institucional a que vinham sendo votadas, agora perspectiva-se um diploma que definitivamente legitima a segregação oficial das pessoas inférteis: discrimina-se entre as que têm ou não gâmetas próprios; entre os homens (com direito ao estatuto de dador de sémen) e as mulheres (sem direito ao estatuto de dadoras de ovócitos); entre as pessoas que têm mais ou menos dinheiro para aceder imediatamente às clínicas privadas no estrangeiro; discrimina-se ainda, no ano de 2006!, entre as mulheres casadas (ou em união de facto) e as que vivem sozinhas. Consideramos estas formas de discriminação absolutamente inaceitáveis num Estado de Direito...."

Têm toda a razão. (Seria útil uma página web própria, onde a Carta estivesse disponível. Fica, no entanto, o e-mail:assoc.portuguesa.infertilidade@gmail.com. Mas eu ainda iria mais longe (ou mais perto: mais perto do mundo real, das pessoas e da decência, acho): para lá da infertilidade como doença ou condição, há as mulheres, lésbicas ou hetero, que pura e simplesmente não querem reproduzir através do sexo com um homem. Achar, como acha o governo (e não só) que isso é um capricho, uma bizarria ou um perigo (para quem? Para As Crianças, claro...) é apenas mais uma instância da aflição cavernícola que caracteriza as mentes inférteis que gerem o nosso país.

mva | 20:12|
 

Procura-se

Como já o Boss tinha chamado a atenção, isto é absolutamente absurdo. E nada nas nossas leis diz que o casamento é preferível para efeitos de procriação (já para não falar de que aquilo que se estava a pedir era, justamente, o casamento; e que a procriação, bem, a prociração já tinha acontecido). Mais que absurdo: é como uma estalada na cara, que nos faz regressar à dura realidade de sermos geridos por trogloditas.

("Procurador": pessoa que, quer queiramos ou não, nos encontra)

mva | 04:13|


14.5.06  



Pub

Não deixar de visitar o sítio do IDAHO (não, não é o estado das batatas), International Day Against Homophobia.

Não deixar de ir ao piquenique das famílias alegres em Lesboa...

mva | 18:52|


13.5.06  



Os T3mpos Qu3 Corr3m faz 3 anos a 13 de Maio. Auto-parabéns!

mva | 04:18|


12.5.06  



Da velocidade das águas de bacalhau

A nova lei da reprodução medicamente assistida é um insulto. Reserva o acesso a este cuidado de saúde a casais heterossexuais. Isto é, a lei discrimina com o maior dos à-vontades. «"Acho que é um bom documento, no sentido em que minimiza os danos que algo muito avançado para o país poderia causar", diz Carlos Miranda, o deputado social-democrata que tem feito parte do grupo de trabalho sobre a RMA» (no Público). De fora ficam as mulheres sós, porque como toda a gente sabe as mulheres são incapazes de tomar decisões racionais e responsáveis sozinhas. E assim evitam-se "os danos", que todos sabemos quais são: a possibilidade de um baby boom lésbico como o dos anos 90 nos EUA ou em algumas regiões de Espanha.

Falava eu outro dia da necessidade duma narrativa nova, progressista e inclusiva para o nosso país. Mas como é possível, se é o PS que, quando no governo e com maioria absoluta, mais promove as apropriadamente portuguesas águas de bacalhau? Na mediania burguesóide da nossa classe política, é de bom tom dizer que "tem que se ir devagar", "com cuidado", "dando tempo à reflexão" (é claro que nada disto se aplica quando se sentam ao volante dum carro). A cautela é a versão moderna e hipócrita do reaccionarismo quando já não se pode dizer "mulheres sózinhas com filhos? nem pensar!; lésbicas com filhos? Muito menos!"

mva | 15:20|
 

A traição dos pastéis de nata

Eu não vi o programa, claro. Mas fontes bem informadas (e da minha confiança; vale o que vale, bem sei) contaram-me. No Pastéis de Nata da RTP2, bom sketch sobre adopção etc. Boa atitude por parte do programa em geral. Caso infelizmente cada vez mais típico em Portugal: o tratamento da temática LGBT tende a ser melhor por parte de heteros friendly do que por parte de superficiais e carreiristas gays. Isto porque o desastre absoluto terá sido garantido por um tal Jorge Correia de Campos, aparentemente protagonista do Esquadrão G. O homem lá falou da adopção como algo que gays e lésbicas "não podem usar como bandeira"; por causa daquela coisa toda das crianças (devia escrever com maiúscula?); que "não sabe se há lobby gay mas que se houver é poderoso"; que não sabe se a adopção pela Teresa e a Lena não terá sido bandeira (elas são mães biológicas das respectivas filhas!); e terá dito mal da tentativa de casamento delas. Consigo imaginar o resto, porque esta é a típica história do efeito de hegemonia, da interiorização da opressão. O gay que acha que o casamento não é preciso, que a adopção é perigosa para as crianças, que existe um lobby gay, que, que, que. Faz lembrar as figuras dos negros obedientes que achavam que os senhores brancos é que sabiam as coisas; a figura da criada que acha que os senhores são muito bons para ela e que a consideram parte da família. A figura do trabalhador que diz que a sua política é o trabalho.

Não fosse ser mais apropriada a metáfora do pastel de nata - e houvesse mesmo um lobby gay a que ambos pertencessemos - chamava-lhe traidor. Nos dias de hoje já não há desculpa. Nem sequer a da eventual debilidade intelectual.

mva | 00:40|


11.5.06  



Depois duma conferência de Étienne Balibar

Não deixa de ser curioso que nas universidades americanas se preste uma desmedida atenção a Marx e aos marxismos. Exactamente como não deixa de ser curioso que não se lhes preste praticamente nenhuma atenção em Portugal. E não deixa de ser curioso não saber bem qual das duas é pior.

mva | 01:08|


10.5.06  



Influência

Resolvi entrar numa de batata de sofá (tradução literal de couch potato). O espectáculo televisivo popular era um telefilme, muito anunciado, ficcionando a chegada da gripe das aves aos EUA, já transformada em pandemia com transmissão humano a humano. Muitos avisos, dizendo tratar-se de ficção. Até mesmo, no intervalo, com uma das actrizes avisando que tudo é what if e que por enquanto a gripe não chegou à América (a gripe dos outros...). Na historinha do filme, tudo começa na China: um empresário americano transporta o vírus consigo no regresso a casa. A mesma China que se tornou no mais recente objecto de desejo e receio dos americanos. Depois, bem, depois a história é uma história de terror, de crítica muito velada à tentação totalitária do estado em situações de emergência, de elogio da solidariedade humana perante a adversidade, e de reconciliação final entre cidadãos e estado.

A gripe é aviária, partilhando o campo semântico com a aviação do outro drama americano. Não há como gerar medo para poder, de seguida, dizer que o estado está aí para nos proteger. E que a única forma de escapar ao medo é depositar plena confiança no estado e nos seus mecanismos de controlo da contaminação em massa por uma entidade desconhecida vinda de fora.

mva | 17:39|


9.5.06  



Guionistas nacionais precisam-se

Notícias dispersas sobre política de natalidade, segurança social, discursos racistas de polícias, retóricas distrorcidas sobre imigração, lamúrias constantes sobre o estado de alma do país, e por aí fora. Tudo coisas que têm a ver com a ausência de uma narrativa minimamente consensual sobre o país. Não por existirem muitas narrativas claramente em confronto (antes houvesse... alguma coisa poderia, dialecticamente, daí resultar...), como seria natural dados os conflitos sociais e diferentes interesses; mas por não existir nenhuma que as elites e o estado consigam (ou queiram) promover e que seja suficientemente popular. O que existe à disposição? Em primeiro lugar, uns restos, mais ou menos requentados, da narrativa revolucionária dos anos setenta. Em segundo lugar, e poque ela conseguiu criar raízes profundas, a narrativa bicéfala do fascismo à portuguesa: rural, católica, paradista, por um lado; colonial, lusotropical, e glórias-do-passadista, por outro.Em terceiro lugar, um aggiornamento mais liberalão desta: a narrativa atlântica e cêpêelpê. Nada disto serve. Tudo isto já mostrou que só consegue inovar na variedade do môfo. Nas últimas duas décadas chegou a parecer que uma outra narrativa, a europeia, poderia ser uma saída. Mas o conservadorismo liberal (ou liberalismo conservador) português - em que ao liberalismo económico se recusa fazer corresponder o liberalismo no campo da decência, dos direitos, das liberdades - tratou de torcer a narrativa europeia em mero desenvolvimentismo (e ainda foi buscar ao baú do passado uma pitada de hispanofobia quando percebeu que a integração europeia era a integração ibérica). E diga-se em abono da verdade que a UE não ajudou a evitar isto.

Vivemos dos restos bafientos e contraditórios das velhas narrativas. Precisamos de ruptura com as velhas narrativas. Precisamos duma narrativa que veja o país (o colectivo, não "A Nação") como um processo de decência em construção. De quebra com os vícios do passado. Imaginar um rectângulo onde se promova a solidariedade e a justiça, os direitos humanos e a diversidade cultural conducente a uma nova mistura. Um lugar onde em vez de se limpar constantemente o passado, se faça a sua reparação através de políticas de futuro. Ninguém em Portugal - no estado e seus aparelhos, nas suas elites políticas e intelectuais - consegue articular uma narrativa progressista. Que tente ultrapassar o problema das narrativas nacionais autorizadas (que, é certo, sempre excluem alguém, definindo quem é o sujeito da estória/história), criando uma que seja plural e inclusiva.

Na ausência desse esforço, toda a gente se socorre dos restos do que existe: passado autoritário, passado colonial, passado revolucionário, miragem dos fundos europeus, hispanofobia... O governo de Sócrates tornou-se mesmo num exímio bricoleur de todas estas estuchas, ora dando uma no cravo (et pour cause...), ora na ferradura. E no campo da literatura ou do cinema ou das humanidades, ainda está para nascer alguém que consiga dar(-se, -nos) ânimo e que não se limite a escarafunchar as feridas - justamente o que fiz aqui...

mva | 23:06|
 



De cuca fundida

«... No estudo foi pedido a um grupo de 36 voluntários - divididos em três grupos, entre os quais 12 lésbicas - que cheirassem substâncias químicas derivadas de hormonas sexuais (feromonas) tanto femininas como masculinas, juntamente com outros aromas, enquanto os seus cérebros eram examinados. Em muitos animais, estas substâncias activam reacções de defesa ou de atracção sexual. Segundo as conclusões do estudo - financiado pelo Conselho de Investigações Médicas do Instituto Karolinska e a Fundação Wallenberg - as mulheres heterossexuais acharam igualmente agradáveis as feromonas masculinas e femininas, enquanto que os homens heterossexuais e as lésbicas preferiram as feromonas femininas às masculinas...»

Etc., etc. Primeiro ouvi isto num telejornal aqui. Depois, na Lusa. Quantas vezes é preciso dizer que não é preciso biologizar a sexualidade para que ela seja legítima socialmente? Quantas vezes é preciso dizer que o facto de a orientação sexual constituir uma estruturação profunda da personalidade não é o mesmo que dizer que é biologicamente determinada? Quantas vezes é preciso dizer que este é o pior argumento contra aqueles que dizem que a homossexualidade é uma escolha e que - considerando-a imoral - pode ser revertida? Quantas vezes é preciso dizer que a biologização da nossa vida social é o pior caminho para as discussões éticas e políticas sobre os direitos e que mais tarde ou mais cedo se vira o feitiço contra o feiticeiro? Lembrem-se da "raça", caramba.

Bolas!

mva | 17:01|


6.5.06  



Triagem

A distância..., bem, distancia. Sobretudo esta coisa da política de todos os dias em Portugal, tal como filtrada por jornais e televisões, e que só se aguenta como tópico válido de discussão porque, quando na mátria, todos os dias se fala com outras pessoas envolvidas no mesmo mundo de referências. É assim como ser parte duma família que todos os dias vê a mesma telenovela. Mas quando se está fora um bocado, e apenas se acede a essa "comunidade imaginada", como diria o outro, através da net, começa-se a perceber o absurdo da coisa. Coisas importantes e coisas triviais misturam-se: umas tricas no CDS, uma birra de Freitas do Amaral - pormenores tontos duma política tonta - misturam-se alegremente com o caso do assassinato de Gisberta, com a irresponsabilidade ideológica (!) da política de natalidade do governo - casos que "falam bem mais fundo" sobre o país que queremos ou não queremos fazer. No meio disto - do panorama merdiático - habituei-me a procurar três jornalistas (e não importa se concordo sempre ou não com o que dizem) que estão atentas, têm o espírito crítico como segunda natureza, e escrevem bem: São José Almeida, Ana Sá Lopes e Fernanda Câncio. Enquanto elas escreverem, a coisa vai, porque haverá alguém que percebe o que é o trigo e o que é o joio. Devagarinho, mas vai.

mva | 16:09|
 



Iraqtile dysfunction II

Faço minhas as palavras do Rui Tavares (acho que foi ele: o Público online não diz...). Não percam a performance de terrorismo cultural do Colbert, bem à frente de Bush.

mva | 15:47|
 



Disfunção Iráquetil

Num ambiente de cabaret, um espectáculo largamente de improviso. Nada do outro mundo, mas o título é deveras engraçado.

mva | 15:33|


5.5.06  

O Bloco em Chicago...

mva | 22:06|


4.5.06  

Quem disse que o Canadá é aborrecido?

Vejam o delicioso sketch Deportation (está na entrada "Week of April 11. Sem tempo para colocar isto online....) sobre a deportação de portugueses do Canadá (no programa Rick Mercer Report da canadiana CBC).

mva | 15:42|


2.5.06  









No human being is illegal

Os números variam: dos 300.000 ao meio milhão. Seja como for, a marcha dos imigrantes ontem foi gigante. O 1º de Maio não é feriado nos EUA, pelo que a maioria dos manifestantes terá faltado ao trabalho, correndo riscos, se se pensar na quase completa ausência de direitos laborais. Em Chicago, a esmagadora maioria dos manifestantes era mexicana. Nos dias anteriores tinha ficado surpreendido com a aparente simpatia das TVs: anunciavam coberturas intensivas da manif e a linguagem era positiva. Na manifestação percebeu-se porquê: o discurso é de integração, de legalização, de apelo à narrativa americana do "país de imigrantes". Uma estratégia inteligente, positiva e - espera-se - eficaz. Não pude deixar de pensar na demanda pelo casamento. Diferenças à parte, ambas as lutas recuperam o espírito das lutas pelos direitos civis e, embora estabeleçam uma ruptura com o status quo, fazem-no através do idioma da integração. Por isso "Deus" aparecia nalguns cartazes; por isso lá estavam uns padres com um pendão com a padroeira do México; por isso havia um grupo "Muslims for the American Dream" - lado a lado com sindicatos, trabalhistas e mesmo grupúsculos revolucionários. Uma manifestação popular, a que não faltaram umas senhoras brancas mais burguesas assistindo e empungando cartazes dizendo "Thanks! Gracias!".

mva | 14:46|