"Quando for grande quero ser como o Sahlins". Ontem, num seminário sobre questões de disciplinaridade, fez uma das suas performances: muito realismo, uma pitada de cinismo, humor a rodos e, sobretudo, a capacidade de acertar na mouche. Falava sobre a lógica do mercado na universidade e sobre como a importação rápida de autores e conceitos de outras disciplinas e/ou países faz parte dos mecanismos de concorrência entre professores/investigadores. Sahlins é conhecido por torcer um nariz crítico à perda de atenção à "cultura" por parte da antropologia americana contemporânea, e pelo uso desbragado de noções alternativas retiradas da "filosofia continental". Mas é o seu estilo o que mais cativa. Já referi isto antes, mas nunca é demais: Waiting for Foucault, still, é uma peça - um panfleto, assim se assume - deliciosa e brilhante. Descarregável de graça. Como dizia, por outras palavras, um aluno aqui (não sei se ele quer ser referido....) : "quando começo a perder-me, vou ler o Sahlins".
(Uma das graças de ontem: ao falar de "public intellectuals", escreveu no quadro a sua definição: «Public intellectual, n.: propheteer»). Humm, uma opinião um bocado abrupta, é certo.
A feira de arte Nova alugou um hotel inteirinho. Cada quarto foi cedido a uma galeria de arte, para expor a sua mercadoria. O resultado é a curiosa deambulação de gente pelos corredores e quartos, como se duma grande festa se tratasse, numa exposição de arte que se transforma ela mesma em instalação.
Uma instalação na universidade: em vários corredores e halls e escadarias, entradas de índices remissivos de livros.
«[Helen] Mirra's project, Instance the determination, takes the form of 30 brief segments of text, each painted directly on the wall in locations dispersed throughout the academic buildings (...) These texts are derived from indexes that Mirra has created from two books by authors closely connected to the histories of the University of Chicago and the City of Chicago: John Dewey's Experience and Nature (1925) and Jane Addams' Newer Ideals of Peace (1907) (...)»
Um passarinho alfacinha chamou-me a atenção para isto:
«A quarta medida é dirigida às famílias e inclui o incentivo à natalidade, através da alteração da taxa contributiva das famílias tendo em conta o número de filhos.» (Público) Mais uns meses e Sócrates está a propor o regresso das mulheres a casa?
Não é preciso. Basta manter abertos os canais de comunicação com o CDS e a espantosa actividade sexual (reprodutiva...) do seu grupo parlamentar: «A bancada popular, através do deputado António Pires de Lima, saudou em especial a ideia de condicionar a taxa contributiva ao número de filhos do trabalhador, a fim de promover a natalidade. "O nosso grupo parlamentar é muito sensível a esse tema. Um grupo tão pequeno, apenas 12 deputados, teve três filhos no último mês. Não só pregamos com o somos os primeiros a dar o exemplo", sublinhou Pires de Lima.»
Genial,genial, é isto. Talvez o CDS ganhasse coerência se aprendesse umas coisas sobre como esperar pelo casamento para ter sexo.
«Lisboa vai ser "capital mundial dos direitos humanos" em 2007, ao albergar o congresso trienal da Federação Internacional dos Direitos Humanos (FIDH). O anúncio foi confirmado ontem em conferência de imprensa por responsáveis da organização mundial e da filiada portuguesa Civitas.» (Público)
«Por lapso, na página 21 de ontem titulou-se "Imigrantes criticam regras de emissão de passaportes", quando se deveria ter escrito, como se depreende do texto, "Emigrantes criticam regras de emissão de passaportes".» (Público)
A série de tv que mais parece dar que falar é Big Love. Retrata uma família Mormon moderna mas (?) poligínica. A complicada relação é mantida mais ou menos em segredo dos vizinhos, vivendo cada esposa na sua casa. A polémica é inevitável: até que ponto não serve para dizer que isto é o que vem a seguir ao casamento entre pessoas do mesmo sexo?
O político aqui do/no estado que mais parece dar que falar é Barack Obama. Embora haja queixas relativas ao seu "desvio para o centro", é bastante evidente que ele tem, hummm, qualidades para ser o centro das atenções...
O jornalista-que-não-é-jornalista-mas-acaba-por-ser que mais parece dar que falar é Stephen Colbert. Em Portugal estamos habituados a vê-lo como rubrica do The Daily Show de John Stewart. Mas agora está cada vez mais autónomo, tal o seu sucesso. Há quem veja o seu programa em vez de ver os telejornais. Basta interpretar as piadas e fica-se mais bem informado...
Entretanto, há no ar uma certa histeria com o aumento do preço da gasolina. Bush (se não homem de lata, pelo menos homem com muita) aparece a falar do problema numa reunião duma organização de combustíveis renováveis. É assim como dizer que a invasão do Iraque é para acabar de vez com a produção de petróleo.
Mais estrutural é o medo do fim da América, provocado ora por perigos internos ora externos. A "guerra contra o terror" continua (infindável e lá longe, à semelhança da "guerra contra os terroristas" do Portugal pré-25 de Abril), mas no território americano cresce o medo da "ameaça hispânica" ou "latina". O Espada, perdão, o Huntington, já tratou de legitimar o assunto. O que não esperavam era que face às propostas de lei relativas à imigração, milhões de pessoas saissem à rua, como fizeram recentemente. No dia 1 de Maio poderá haver um boicote latino...
A melhor maneira de celebrar o 25 de Abril é identificar quem anda a conseguir contrariar o discurso cada vez mais hegemónico dos neo-conservadores, sem cair no simplismo de opiniões baseadas nas cartilhas "teóricas" de alguma esquerda. Três exemplos:
«Ideólogos são sempre os outros! Como se ideologia não fosse o que Espada faz em cada artigo que escreve. E ideologia de serviço, para usar os seus termos, a uma causa bem identificável: a do neoconservadorismo que tem nele o principal porta-voz em Portugal. (...) dispõe de recursos de propaganda abundantes e eficazes. Tem sido capaz de influenciar, directamente ou através das alianças que estabeleceu nos média, a agenda comunicacional no país. E, agora, integra um dos centros do poder político institucional: a Presidência da República.De início, nos EUA, todos se riram também com o aparente ridículo das tiradas dos neoconservadores que levariam Bush filho ao poder?»
Madalena Barbosa diz (no inlinkável Público):
«Para quem não se tenha dado conta, falar de quotas contrapondo mérito é partir do princípio do desmérito das mulheres. Isto é discriminação. Dizer que só lá estão as mulheres de, filhas de, sobrinhas de, é discriminação. Foi o argumento usado contra as sufragistas: por que dar o voto às mulheres? Vão votar no que os maridos, os pais, os irmãos dizem, é inútil e fútil. Este discurso humilhante não parece humilhar as mulheres. O que as humilha são as quotas. Porque elas nunca foram discriminadas, embora admitam que têm de ser duas ou três vezes melhores que os homens para chegar a qualquer lugar na carreira, na política, seja onde for. Mas se não existe discriminação...»
«E Israel, o que é? "Para mim, representa uma data. Foi há 45 anos, a 29 de Novembro de 47, quando as Nações Unidas decidiram dividir a terra entre israelitas e árabes. Só havia um rádio na zona. Eram 2 da manhã e estavam 2000 pessoas na rua para ouvir a transmissão, em silêncio. Devia ter visto a alegria. Não era o Carnaval do Rio. As pessoas choravam como crianças. As lojas abriram-se, distribuiram-se bebidas. Às 4 da manhã, o meu pai meteu-me na cama e deitou-se ao meu lado. Percebi que ele estava a chorar. E disse-me: 'Filho, quando eu tinha a tua idade, na Rússia, apanhava na escola por ser judeu. E o meu pai, e o meu avô. Tu podes apanhar na escola, mas não por seres judeu.' Até hoje, estas palavras são para mim a raison d'être do estado de Israel."»
A soccer mom é já uma figura típica da paisagem social americana. O futebol não-americano foi adoptado como coisa de prestígio, um tanto ou quanto elitista*. Mas a amiga referida no post anterior dizia-me há dias que consta que as soccer moms estão a largar o soccer. A alternativa é inscrever as criancinhas em... aulas de chinês.
*Estará a mudar? Vêem-se cada vez mais miúdos jogando soccer. Um deles, outro dia, tinha uma camisola vermelha e preta riscada, com a palavra "Rui Costa" nas costas (que, na minha ignirância futeboleira, me soa quand même a jogador português....)
Esta velha fábrica é provavelmente o oposto da escola de business do post abaixo. A fábrica grandalhona, de tijolo, perdida algures no meio de caminhos de ferro e canais de águas escuras. A fábrica da "acumulação primitiva" (sem rigor no termo, claro) , não o palácio de cristal da finança virtual. Mas esse mundo desapareceu - ou pelo menos desapareceu nos países desenvolvidos (noutros, as pessoas, mulheres sobretudo, estão encafuadas em caves costurando 12 horas por dia, a maior parte das vezes em sítios onde nem sequer são cidadãs).
Desapareceu e deu lugar a actividades artísticas, à semelhança do que acontece noutros locais, desde logo Lisboa. Esta velha fábrica na zona de Bridgeport em Chicago chama-se agora (outra vez, ainda?) Iron Studios e alberga, este mês, o festival Versions. Jovens artistas expõem, fazem instalações, apresentam ready mades, etc. Vale a pena navegar pelo site.
(E, já agora, pelo da minha cicerone nestas andanças, a artista Rose DiSalvo; acompanhados também pelo representante do Uindissiti...)
O edifício da Graduate School of Business da Universidade de Chicago é uma belíssima peça de arquitectura. Contrasta com os restantes edifícios que, de tão góticos e cinzentos, acabam por reforçar a sensação de peso e densidade que Chicago transmite (não, não estamos na terra das casinhas de madeira coloridas...). Mas o átrio central, com a sua enorme cúpula envidraçada, faz lembrar hóteis e aeroportos. Talvez faça parte do treino dos estudantes habituarem-se ao trânsito e ao movimento, fundamentais na "poética" do capitalismo financeiro actual (ao invés das casas sólidas - góticas e cinzentas... - do capitalismo de outrora, de Rockefeller, "autor" da Universidade de Chicago).
Business. Isto é, negócio (em rigor, "estar ocupado", busy). É curioso que em português tenhamos optado pela designação vaga e aparentemente neutra de "gestão". Ninguém se lembrou de designar as escolas de gestão como "escolas de negócios". Não se consegue deixar de pensar que tal designação não seria muito consonante com a raiz católica... Já imaginaram: Escola de Negócios da Universidade Católica?
Desde que há internet, e blogs, e netc (raios, já alguém inventou...) que a mais valia da deslocalização quase desapareceu. Isto é, uma criatura que, como eu, escreve em português para uma audiência sobretudo portuguesa, já não tem grande coisa a dizer sobre o que se passa no país estrangeiro onde se encontra temporariamente. Qualquer um de nós na blogosfera tem acesso aos jornais e TVs e sites onde está o grosso da informação política sobre, neste caso, os EUA. Só resta mesmo uma alternativa: reportar o quotidiano, os episódios que não transparecem nas notícias. Regressava ontem de New Jersey, onde tinha ido dar uma conferência sobre as velhas questões da 'raça' no espaço lusófono. A velha dificuldade em navegar entre a "denúncia" (terrível palavra) da ideologia colonial-lusotropical e a constatação de especificidades nas sociabilidades criadas naquele espaço quando comparado com outros espaços coloniais. Uma trabalheira, como imaginam. Uma ginástica. Sobretudo face às expectativas americanas nestas coisas, considerando a forma como a 'raça' é aqui construída.
Eis senão quando, no comboio do aeroporto de Chicago para a cidade, a Blue Line, assisto à conversa entre uma mulher, 'branca', e um rapaz 'latino'. Em 40 minutos ela mostrou-lhe as fotos de família, das suas filhas mixed; falou dos problemas de relação com os dois companheiros african-american que teve; e fez um inquérito cerrado ao rapaz que, por sinal, também se apresentou como mixed. Coincidentemente, ou não, ambos os passageiros tinham também passado por grandes dificuldades económicas e, no caso do rapaz, por problemas com a lei. A conversa tinha algo de irreal. Havia qualquer coisa de não exactamente equilibrado emocionalmente com a mulher (não admira: ela estava a falar de filhas que já não via há anos). Tanto ela como o rapaz sabiam, obviamente, que estavam a ser ouvidos. E que o tema da conversa é um tema com profundas raizes de conflito social e expectativas negativas (até há não muito tempo era proibido pessoas de 'raça' diferente casarem-se, em vários estados da união). Uma performance, portanto, como diriam os mais teoricamente inclinados (anglicismo, bem sei).
Desapareceram numa estação qualquer. Eu desapareci em direcção ao campus e a aulas sobre estas coisas.
Conhecia George Lakoff, linguista e cognitivista, como co-autor de Metaphors We Live By, um livro fundamental para antropólogos. Fui agora redescobri-lo num contexto bem diferente. Numa livraria gay (mas não só) na Boystown de Chicago, encontro um livro-panfleto, de 2004, intitulado Don?t Think of an Elephant. Know Your Values and Frame the Debate (sampler disponível aqui). Está escrito no modo livro de auto-ajuda? Está. Só que em vez de isso ser uma desvantagem, é um benefício. Porque ajuda a aligeirar o peso académico e por vezes pomposo com que se "pensa à esquerda". Lakoff parte do facto histórico de os conservadores americanos terem conseguido dominar o frame do pensamento e linguagem políticas, graças a um enorme e bem financiado esforço de criação de think tanks. Aprenderam as lições da linguística e das ciências cognitivas e aplicaram esses conhecimentos à sua tarefa de domínio "das mentes", isto é, criaram senso comum ou, como diriam os mais sofisticados, hegemonia.
O primeiro capítulo, "Framing 101: How to Take Back Public Discourse" é o melhor. Não só explica como funciona o nosso pensamento através da adequação das mensagens a frames e associações metafóricas (tax relief, na linguagem de Bush, faz com que se associe a diminuição dos impostos a uma salvação ou alívio ? relief -, quando se trata de facto de acabar com os serviços públicos e a assistência), como desconstroi o trabalinho feito nos últimos anos pelos neocons de várias subespécies.
Duas frames fundamentais existem para Lakoff e baseiam-se em metáforas da família, extensíveis ao campo do político: a do strict father e a dos nurturing parents. Embora todas as pessoas possuam as duas, em contextos de vida diferentes e mais ou menos activadas ou dormentes, a primeira preside ao pensamento conservador e a segunda ao progressista. Lakoff apela a que os progressistas façam como os conservadores fizeram: aceitar que há diferenças entre si e partir para um ponto de encontro que não pode ser conseguido na base de listas de políticas concretas como é costume, mas sim em valores. As pessoas, ao contrário do que diz a teoria da escolha racional, votam mais de forma identitária do que com base na consideração do seu auto-interesse. E os progressistas não têm oferecido valores, isto é, bases para uma identificação. Bases que afirmem o valor do modelo nurturing parents (como raio se diz parents em português sem recorrer a uma expressão com género?!)
Não cabe num post ir muito fundo. Mas uma visita ao Rockridge Institute - provavelmente o primeiro think tank progressista - vale a pena. Só falta mesmo que saia o Rockridge Manual for Progressives, que deverá estar disponível no verão. E da nossa parte, portuguesa, pensar se isto faz ou não sentido. Muita coisa não fará. Mas a parte pragmática (capº 10) de Don?t Think of an Elephant fará ? tem tudo a ver com a transformação da forma de discutir, agir, reagir, pensar e comunicar dos progres nacionais. Seria excelente se em Portugal emulássemos o Rockridge Institute (sim, isto é um desafio)
Já sabíamos que muitos deputados faltam muito. E de certo modo era de esperar que, no caso da falta de quorum no parlamento, várias águas fossem sacudidas de vários capotes. Mas - será efeito da distância? - o que mais me impressionou foi a incapacidade de pedir desculpa. Mesmo podendo esse acto - de forma calculista, é certo - beneficiar a imagem do infractor. Não ficávamos todos melhor se os deputados ou líderes de bancadas pedissem desculpa aos cidadãos e prometessem que a coisa não se repetirá?
A história do acórdão que legitima a imposição de castigos físicos às crianças - porque é disso que se trata - faz-me recordar a conferência de Slavoj Zizek a que assisti ontem. Dizia ele às tantas que o que intriga nas imagens das torturas em Abu Ghaibr não é o facto de ficarmos a saber que o estado tortura pessoas ou que a guerra dá azo àquelas formas de crueldade. Isso estamos fartos de saber. O que intriga é porque quer o estado que se saiba; porque mostra (quando estávamos bem mais habituados à censura)? Ele vê nisso um sinal de mudança nos valores éticos, uma crescente afirmação de que não há que ter vergonha, as coisas são mesmo assim, e precisam de ser mesmo assim. Uma espécie de "ética" neoliberal. Estarão os nossos velhinhos juízes (e os jovens envelhecidos entre eles) a enveredar pelo mesmo caminho? Toda a gente está morta de saber que as crianças sofrem maus tratos. A maior parte das vezes ao abrigo da "privacidade" das famílias e instituições. O que não tínhamos ouvido ainda era a defesa dessa realidade pelos administradores máximos da justiça.
PS. Um telejornal americano acaba com a peça de fait-divers. Mostra como os soldados americanos no Iraque estão a aprender a respeitar a cultura iraquiana através de um jogo de computador. Como tirar os óculos de sol ao falar com alguém, como não apontar o dedo a ninguém, e por aí fora. "Uma questão de boa educação", conclui a jornalista, com um sorriso pacificador ("vá, vão dormir e não se preocupem"). Curioso que nunca tenha dito que não é lá muito bem educado invadir outros países...
Também me associo ao apelo d' A Rua da Judiaria, de que tomei conhecimento através do Renas. Ainda há dias, numa aula aqui na Universidade de Chicago, um aluno português falava deste assunto, numa conversa sobre os mitos da suposta tolerância racial e étnica portuguesa. E há meses o Jeff Cohen, pianista agora a viver em Portugal, desafiava-me para congeminarmos alguma coisa para este Abril. O Teatro Nacional D. Maria II é que deveria "mexer-se", ele que está instalado lá mesmo no local do terror. Teatro, performance, ritual: nunca terão sido levados tão longe como naqueles "espectáculos" de "purificação" nacional e religiosa. Pouco importa, nestes casos, a contextualização e relativização históricas. Lembrar, hoje, a perseguição aos judeus, é dizer que quem nós somos hoje nada tem a ver com aquilo. Isto é: que não nos queremos ver como tendo algo a ver com aquilo. Esse sim, é o teatro, a performance, o ritual que importam.
PS. A culpa é do próprio, claro. Sobretudo em tempos de internet (ainda me lembro como nos finais dos anos 70 os meus pais me enviavam o Expresso - naquela época lia-se - por correio, chegando aos EUA ao fim de semanas). De que falo? Duma espécie de alheamento em relação às notícias provocado pela mudança de local. Fica-se alheado das notícias do país de origem, mas também das do novo local e das internacionais. Como se a vida passasse a ser uma atenção constante a pormenores pessoais de adaptação e resolução de pequenos problemas. Não impede que, pelo "canto do olho", se vá vendo e ouvindo isto e aquilo: as eleições italianas, as marchas enormes pelos direitos dos imigrantes nos EUA... Este estado de auto-centramento deverá desaparecer dentro de dias. Assim o espero - e assim têm o direito de esperar os leitores dos TQC.
Um breve intervalo de fim de semana em Boston hibernou este blog momentaneamente. Sair um bocadinho da planura agreste do Midwest para o ambiente "colonial" da Nova Inglaterra é assim como fazer meio caminho de volta ao Velho Mundo. Amanhã os tempos já correrão outra vez como a carroça dum pioneiro (não sei o que isto quer dizer, mas alguma coisa há-de ser).
«[...]A sua avidez afectiva pode tomar um carácter agressivo em relação ao meio envolvente. Não é de afastar em D. Sebastião um conteúdo homossexual, o que constituiria uma perturbação profunda vinculada ao ideal do eu narcísico. O esforço que D. Sebastião faz para corresponder às expectativas do reino, esforço físico e moral que o leva a usar da caça e dos exercícios de campanha desmesuradamente, chega a ser comovente. É um jovem bem constituído mas cujo conflito interior está na base duma tristeza que iria ser-lhe fatal. Nada há que o possa salvar; e ao país, com ele.[...]»
É um extracto de um texto de Agustina Bessa-Luís publicado no Abrupto. Uma perturbação profunda vinculada ao ideal do eu narcísico. Não é de afastar um conteúdo heterossexual.
«No ano passado saíram coercivamente do país 784 imigrantes ilegais, mais 270 do que em 2004, o que representa um aumento de 53 por cento, segundo os dados do Serviço Estrangeiros e Fronteiras (SEF).» (Público)
Meu deus, será que Portugal está a ficar parecido com o Canadá? Que mais vem aí? Desenvolvimento? Protecção do ambiente? Casamento gay?
A resposta de Pedro Bidarra a Sara Martinho denota bem o que é viver num mundo tão "normal", tão "sem problemas", tão... "no centro", que todas as queixas dos outros são tratadas como ridículas (em tempos foram tratadas como "histéricas"; hoje como "politicamente correctas"; e agora até dá jeito falar de "defesa da liberdade de expressão").
Talvez fosse bom fazer notar a Pedro Bidarra que na longa lista de palavrões que cita não há um só dirigido a homens heterossexuais qua homens heterossexuais. A razão é simples: não existem. E não existem porque o centro neutro não é alvo de insulto. A inventar-se um insulto (usando, por exempo, a palavra "machão"), não resultaria como tal.
A outra coisa que (habilmente) Pedro Bidarra evita na longa lista de palavrões são os insultos raciais. Mesmo que não tenha sido consciente, este truque tem um efeito acrescido: retirar "paneleiro" da esfera de equivalência com os insultos raciais, menorizar a nossa alegaçãao de nos sentirmos insultados enquanto categoria social. Pudera: esse é justamente o tipo de operação que o "centro neutro" tem o poder de fazer. E faz.
Time&place warp. O sapateiro onde levei uns sapatos a arranjar é igualzinho ao sapateiro onde levava os sapatos a arranjar. Há muitos anos. Em Lisboa.
Reality&Fiction portal. Uma encomenda no hall de entrada do meu prédio. Endereçada a: Yukio Mishima.
Otorrinolaringologista. A moça da loja pergunta qual é a minha especialidade. "Especialidade?!". "Sim", diz ela; "O quê?", pergunto eu; "No talão do Visa diz Dr."; "Ah...". Seguiu-se explicação sobre como toda a gente é Dr na terrinha.
Neo-Darwinismo. Outra moça de loja, mal entro: "Você esteve a fumar um cigarro?" Tinha estado, de facto. Uma nova espécie de olfacto apurado está a desenvolver-se no Novo Mundo.
Em The Squid and the Whale (excelente filme) há uma cena de sexo entre um rapaz e uma rapariga adolescentes. A cena consiste na concretização do tipo de sexo que combinaram praticar, pressupondo que mais tarde poderão chegar ao que consideram "verdadeiro sexo". A rapariga despe a blusa, mantendo o sutiã; o rapaz não se despe; a rapariga masturba o rapaz enfiando a mão nas calças deste; não há nenhuma indicação de que a rapariga goze, ao contrário do rapaz.
Reconheço esta cena de inúmeras descrições da sexualidade juvenil americana, em outros tantos suportes da cultura popular. O que se faz na first date; first, second e third base; etc. O que parece indicar existir um alto grau de codificação das práticas sexuais. Melhor: comunicação dessa codificação, já que esta existe em todo o lado. Mas é justamente isso que faz pensar no que parece ser uma baixa comunicação desses códigos na cultura portuguesa (não podia deixar de ser este o meu termo de comparação...; e "cultura" vale aqui o que vale....). Posso simplesmente ser ignorante na matéria. Mas desconheço quais sejam os "patamares" (se os há), e em que consistem em termos de práticas, no negócio (se o há) das práticas sexuais juvenis em Portugal (esta há com certeza....).
Até pensava que era a brincar, mas parece que não...
Anúncio num jornal:
«100% JEWISH ASHKENAZI EGG DONOR NEEDE. We are seeking women who have blue-green eyes, are under the age of 29, SAT 1300+, physically fit and maintaining a healthy lifestyle. If you have a desire to help an infertile family and would like more information please contact us. $20,000 (PLUS ALL EXPENSES)»
Só este anúncio dava para começar uma tese de doutoramento em antropologia.
PS: Ashkenazi designa o sub-grupo judeu com origem no leste da Europa (por oposição aos Sefarditas com origem ibérica e norte-africana); SAT são os testes estandardizados feitos no final do liceu e antes do ingresso na universidade nos EUA.
Pelo que tenho percebido da blogosfera que visito, dois curiosos assuntos estão na crista da onda. Por um lado o processo de Margarida Rebelo Pinto contra o "Couves e Alforrecas" de João Pedro George e, por outro, as desventuras de Freitas do Amaral no Canadá. A distância tem esta coisa de, para o bem e para o mal, simplificar: MRP (P?) tem tanta autoridade moral para processar a crítica e as citações (citações, não plágios) de JPG como eu de processar um recenseador dum texto meu que o ache uma porcaria sem pés nem cabeça. Isto é, nenhuma.
E FA (e o governo de que faz parte, convém não esquecer; FA não age como freelance, pelo menos esperemos que não...) tem a mesma autoridade moral para proteger os portugueses à beira da expulsão quanto o governo da Roménia ou da Moldávia para proteger os seus cidadãos de serem expulsos de Portugal. Só que tudo indica que FA age como se Portugal não expulsasse ninguém, e como se as pessoas que expulsa tivessem solicitado, como o fizeram muitos dos portugueses, o estatuto de refugiados (coisa que, no caso de angolanos, moldavos, guineenses e tantos outros, seria quatrocentas mil vezes mais legítima do que no caso de um português no Canadá).