OS TEMPOS QUE CORREM. Miguel Vale de Almeida


31.3.06  

Gulp!

A GALP já respondeu à Sara e resolveu alterar a letra do "hino". É assim mesmo. Agora quero ver os autores da letra reconhecendo publicamente a asneira.

mva | 23:33|
 



Paneleiros

Espero que venha mesmo a haver um "caso" com a estória do hino da Galp. Parece que estou mesmo a ver o que se passou: produtores, letristas, cantores, músicos, acharam que estavam a "brincar", citando o estilo dos grupos de apoiantes de equipas de futebol, conseguindo assim chegar a uma identificação com o povo (ou o que julgam ser o povo, uma entidade que com certeza não inclui gays, como normalmente não inclui mulheres). É claro que deveriam saber que esse tipo de tiro sai frequentemente pela culatra. Num spot de TV (grandes audiências), duma das maiores empresas nacionais (responsabilidade social acrescida? Yeah, right...), referente a uma selecção nacional (repetir o parênteses anterior), só mesmo muito descuido pode "justificar" a letra. Mas é isso que é terrível: o descuido, a desatenção, o estar-se nas tintas. Descuido que será desculpado pela onda neocónica de anti-correcção política que grassa pelos jornais - uma versão mais "académica" do oh, deixa lá, isso são coisas de rapazes....

mva | 16:45|


30.3.06  

Engenharia

«Mas a questão substantiva é que a lei padece de um dos grandes pecados políticos do século XX: o de tentar mudar a sociedade por via de actos legislativos. A tal chama-se "engenharia social", um mal que pode assumir formas mais benignas como a presente, mas que nas suas formas mais radicais conduz ao totalitarismo, sendo bom recordar os esforços dos regimes comunistas, da URSS de Estaline ao Camboja de Pol Pot, para criar o ideal utópico de um "homem novo".» (José Manuel Fernandes, no Público de hoje, comentando a lei da paridade).

Exacto. É assim como aquela horrível tentativa de engenharia social conhecida como Constituição americana ou, para falarmos mesmo de legislação, a concessão de direito de voto às mulheres. E pelos vistos o mal já é anterior ao século XX...

mva | 19:53|
 



Emergir

Odeio: luzes de tecto (comprar urgentemente candeeiros); call centers, em que às tantas é o fulano em Miami que me dá o recado que eu transmito ao cicrano em Madrid que não recebe informação do beltrano em Chicago); perda de bagagem em companhias aéreas ibérico-incompetentes (ver ódio anterior); frigoríficos no meio de salas; pessoas porcas que, para lá de qualquer relativismo cultural, deixam os apartamentos em estado de histeria bacteriológica para o inquilino seguinte; burocracia, do Velho ou do Novo Mundo, pouco importa, sobretudo desde que o Novo está mais velho que o Velho.

Gosto: dos blues da saudade do mais-que-tudo e do seu espírito perdulário telefonante, mesmo antes de termos rede para usar o Skype na casa de Chicago; de patrícios solidários que se prestam a coisas tão básicas como ajudar a ir ao supermercado; de bagels, reencontrados com gusto; de ver adiante um mundo de possibilidades intelectuais, porque o intelecto é uma zona erógena; de voltar a esta também minha terra e sentir o que se sente pela terra que é nossa - ambiguidade.

(Podia ter postado sobre um episódio - relatado já por n pessoas - com densidade sociológica (e agora vou mesmo falar disso, recorrendo assim ao mais velho truque retórico): ao registar-me nos serviços internacionais da universidade, o formulário pergunta-me a "raça". A senhora que me atende é "negra". O senhor que me acompanha é "branco". Brinco (e provoco) dizendo que não respondo porque não faço ideia qual será a resposta certa (se é que deve sequer haver resposta); por uns segundos parece-me que a senhora compreende a minha piada e que aceita a minha atitude. Que nada: diz que tenho que responder assinalando uma das hipóteses, não importa qual. O senhor que me acompanha contém uma risada, encolhe os ombros e diz «ponha "branco"» (aspas minhas, of course). Adeus, boa tarde, saímos para a rua e durante uns bons cinco quarteirões eu e o meu acompanhante falamos sobre "raça", as categorias da [mal]dita e as variações nacionais de tão colorido assunto.)

Pronto. Postei. Estou em Chicago, no amoródio do entusiasmo da descoberta, do poder brincar ao académico não burocrático com síndrome de Bolonha, e da persistente pergunta: por que raio se sai de casa, lá onde o coração está? (Resposta possível: também para se dizer que o coração está lá).

mva | 16:21|


26.3.06  



E.U.A.

A partir de amanhã - e por pouco mais de um par de meses - este blog muda o quartel-general para Chicago. É de esperar condições de subpostagem nos primeiros dias, chuvas e trovoadas, seguido de postança, perdão, bonança.

mva | 16:34|
 



Os amigos de Rajoy

Acho que não é só impressão minha. Cresce a olhos vistos uma atitude anti-espanhola de baixa intensidade. Não admira: o caldo de cultura existe, já que a Espanha é de há muito apresentada aos portugueses como a nemesis de Portugal. Junte-se a isto a "penetração" económica, a inveja por um nível de vida superior, e tem-se o discurso da "invasão". Um elitista diria que enquanto isso for coisa do "homem da rua" não há que ligar grande importância. Acontece que é importante o que diz e sente o "homem da rua"; e acontece que mais grave é quando as elites exprimem igual opinião. Quando a estimulam.

A atitude abrange gente de direita e esquerda. Em ambos os casos há muita ignorância, daquela mais básica, feita de nem sequer conhecerem a(s) Espanha(s) e, pior, de não quererem conhecer. Mas no caso da opinião neoconservadora, há uma curiosa contradição. Não é só Zapatero que os irrita. É também toda a manifestação de nacionalismo intra-Espanha. Nas suas posições acabam por subscrever as posições da direita espanhola, centralista - reforçando assim o papão da "ameaça" espanhola que tanto os preocupa (já para não falar de outra contradição: quem defende o mercado livre não pode depois queixar-se da "invasão" por um vizinho único e mais poderoso...).

O caso catalão é exemplar. Como não podem acusar os nacionalismos (porque de vários matizes ideológicos) catalães da mesma violência do basco, usam argumentos simplistas - e curiosamente esquerdistas - contra a noção de nacionalismo em si. Não percebem que o nacionalismo é um modo, que pode assumir os contornos de projecto político fascizante ou, no extremo oposto, de projecto de proximidade democrática. "Depende", como se costuma dizer. Ontem Helena Matos escrevia um artigo "antinacionalista" que começava com uma citação do projecto do Estatut da Catalunha. E cita-o em... castelhano (se o propósito é facilitar a comunicação, porque não o traduziu para português?).

As elites portuguesas (e o "povo" por arrasto) não desenvolveram simpatia pela pluralidade nacional, cultural, linguística do Estado Espanhol. "Compraram" a visão centralista espanhola e acham que sim, que por lá há umas pessoas que falam uns "dialectos", mas que são uns egoístas regionais a la Jardim. Tão-pouco desenvolveram uma simpatia especial pelas outras nacionalidades ibéricas, recusando a simpatia que elas sentem por Portugal.

As elites portuguesas precisam duma Espanha una para que a sua representação de Portugal como "coisa diferente" não seja ameaçada; para que Portugal não possa ser pensado como uma das nacionalidades ibéricas; e para que possa medrar o papão da ameaça espanhola.

mva | 12:02|


25.3.06  



Aproximação

(Major Tom to ground control...)

mva | 14:25|


22.3.06  



Sobre a presença de bebés nos parlamentos, ou o fim da revolução francesa

Uma reportagem num canal francês sobre a transparência política. Exemplo: a Suécia. Com aquela expressão de boi mirando palácio que fica bem a qualquer um que acha estar no centro exemplar da democracia e de repente descobre que não, uma ex-ministra francesa e o jornalista comentavam deliciados as imagens. E que mostravam as imagens? Mostravam o conselho de ministros comendo na cantina da sede do governo o almoço correspondente a uns cupões distribuídos mensalmente, e sem consumirem um tostão além do previsto; mostrava uma jornalista fazendo a sua ronda diária dos ministérios onde consulta os arquivos com todas as facturas de despesas dos ministros, todas, pois a lei obriga a sua disponibilização, sem perguntas sobre os propósitos da consulta por parte dos funcionários, que tão-pouco são supostos demonstrar "mau humor" (!); mostrava como, embora pagando 50% do valor de mercado, o primeiro-ministro tem que pagar renda pela casa oficial - digna, mas sem cozinheiro ou sequer pessoal doméstico permanente.

Mas mais do que as regras de transparência e accountability, ou a interiorização do espírito igualitário pelos suecos, é a "apresentação de si" que acaba transmitindo o significado mais forte: a Directora de Comunicação do primeiro-ministro é uma jovem vestindo jeans puídas, umbigo à mostra, uma t-shirt. Está a falar ao telemóvel, no qual deve introduzir um código sempre que a chamada é de trabalho, paga pelo estado. Quando não, paga ela.

Por um mero acaso, zapo para outro canal, onde tropeço em políticos franceses no parlamento local (podia ser S. Bento) falando aquele dialecto "republicano" e cheio-de-si carregado de elitismo e cinismo. Nas tintas para os efeitos a longo prazo da nova lei laboral para jovens, como já haviam estado nas tintas para a violência suburbana de há meses atrás. O governo francês (cujos ministros dispõem de chef pessoal e não disponibilizam facturas a ninguém), como tantos outros, precisa do afastamento aristocrático para destruir o estado social e lançar as bases da precarização e empobrecimento gerais (as duas vão juntas - e essa é a grande diferença em relação, por exemplo, à precarização à americana, que não tem uma relação necessária com o empobrecimento).

A comparação poderia perfeitamente ter sido entre a Suécia e Portugal. Mais que tudo, a "cultura" política portuguesa é um subproduto da "cultura" política francesa - o que não abona a favor nem duma nem de outra. Na reportagem anterior, a ex-ministra francesa contava como tinha ficado impressionada com a presença de bébés em alcofas no parlamento sueco. Parlamento que, de qualquer modo, acaba os seus trabalhos a meio da tarde para deixar os seus membros viver como gente comum - e assim, suponho, ganhar vergonha de fazer políticas contra o bem comum.

mva | 10:04|


21.3.06  



Da desfiliação

Dois artigos - um no DN, outro no Público - noticiam hoje a minha desfiliação do Bloco. É bem provável que, a julgar pelos telefonemas, outros jornais se sigam. Os dois artigos são decentes. Não pediram "sangue". Embora eu saiba que cada vez mais a política é vendida e consumida como uma telenovela. "Filiação" (curiosa expressão...) e "desfiliação" tendem a ser interpretadas, hoje, da mesma maneira que as paixões, casamentos, divórcios, brigas, infidelidades, traições, reconciliações - enfim, toda a panóplia do pequeno romantismo. Por um lado, é bom: dessacraliza a "coisa", mostra quão deliciosamente banais somos todos. Por outro, é mau: atribui um estatuto identitário à filiação partidária que ela não deve ter. É um pouco como se ainda estivessemos em 1974-75, quando quem se era e não era se jogava na filiação e/ou na simpatia partidárias.

Remeto os e as prospectivos jornalistas para o post que escrevi sobre o assunto. Porque a memória tende a ser curta, mesmo ao fim duma semana. Está lá o que tem que estar. Não há agenda escondida. Provavelmente acham-me um freak ou, na pior das hipóteses, um caso crónico e patético de individualismo ingénuo ou ingenuidade individualista. Oh, well. Uma coisa garanto: continuarei como cidadão activo, em várias frentes e modos. E, perante a minha consciência, a minha responsabilidade cívica face a determinadas convicções e causas permanece intacta. Só não o farei nas orgânicas partidárias - e não vou deitar o Bloco para o caixote do lixo da memória. A partir do meu "caso", todas as ilações tiradas sobre o Bloco, o seu passado, estado actual e futuro, são da exclusiva responsabilidade de quem possa vir a tirá-las. Não minhas. No meu "acto" poderá ler-se tudo o que se quiser. Mas a minha versão autorizada, tenho-a eu.

Espero não ter que escrever muito mais sobre este "assunto". Sorry pela seca aos visitantes deste blog...

mva | 18:33|


20.3.06  

Os hiperpolíticos

Saddam Hussein (o Saddam no poder, não o Saddam na prisão) podia ser uma personagem de banda desenhada. George W Bush também. A banda desenhada mais cómica - assim como os filmes de série B - inspiram-se na realidade para criar personagens cujos traços - de ridículo, de tirania, de falso puritanismo, ou do que seja - são acentuados.

O que parece acontecer hoje é que há personagens na vida "real" (ainda se pode falar de vida "real" depois dos pós-modernismos?) que imitam as imitações da banda desenhada e da série B. O Saddam Hussein das estátuas, dos murais, das paradas militares e dos bigodes era uma hiper-personagem (ele já conhecia, de certo modo, o modelo do ditador árabe). O George W Bush do falso moralismo, do rancho no Texas, do eixo do Mal e das beatices é uma hiper-personagem (ele já conhece - mais por habitus do que por reflexão, reconheçamos - o que é o modelo do idiota útil).

Percebe-se porquê: eles existem nos media. A única coisa que não podemos esquecer é que este espectáculo tem como efeito colateral vastas quantidades de sangue. Do verdadeiro.

PS: E chez nous, quem são os hiperpolíticos?

mva | 12:00|


18.3.06  

A evasão do Iraque

A invasão do Iraque pelo governo dos EUA faz por estes dias três anos. Entretanto deu-se também uma evasão do Iraque: não dei por um só artigo de opinião escrito pelos mesmos que há 3 anos acharam que sim senhor. Que sim senhor havia armas de destruição em massa; que sim senhor se iria estabelecer a democracia no Iraque; que sim senhor se impediriam os conflitos étnicos no país; que sim senhor se começaria a estabilização do Médio Oriente; que sim senhor o mundo iria ser mais seguro e os terroristas derrotados.

Três anos depois da invasão só conhecemos meia dúzia de factozinhos: milhares de mortos, sobretudo iraquianos, mas também muitos soldados das forças de invasão; conflitos religiosos e étnicos fortíssimos e violentíssimos; a desestabilização ainda maior da região; o upgrade dos terroristas em principal adversário dos EUA (para não falar da criação mesma da noção de "terrorista" bem para lá dos verdadeiros e genuínos); o retrocesso nas liberdades e garantias das pessoas no ocidente, desde logo nos EUA de Bush.

Bonito aniversário, sim senhor. Mas, repito, onde estão hoje os artigos dos opinadores lusos que tanto apoiaram a invasão?

mva | 13:58|


17.3.06  



O ar dos tempos

Os opinadores mais direitosos adoram dizer que o Rousseau e as ciências da educação e a caridade sociológica, e mais não sei quê, são responsáveis por criar gerações de irresponsáveis. Os opinadores mais esquerditas adoram dizer que o neo-liberalismo e o neo-conservadorismo e mais não sei quê são responsáveis por criar gerações de alienados. (Lembram-se do debate geração rasca / geração à rasca?)

Eu acho que a geração rasca/à rasca (que não é só feita de jovens, nem necessariamente pior que os seus equivalentes "no passado") é não só as duas coisas, como é produto de ambos aqueles factores. Vivemos rodeados pela mistura de paternalismo utópico com ideologia de mercado.

mva | 15:56|
 



Claramente em subpostagem. Em vez de words, words, words, é work, work, work.

mva | 09:36|


15.3.06  



Ayahuasca do povo

Quando morava em Olivença, perto de Ilhéus (Bahia), passava todos os dias em frente a um centro da União do Vegetal. Ao longo dos anos fui sabendo do interesse de vários colegas pelo culto da hoasca - e ouvindo vários boatos sobre como facilmente "se passaram" (pardon my French). A UDV constitui um culto religioso que inclui o consumo de hoasca ou ayahuasca, a folha da Psychotria viridis, que contem DMT (dimetiltriptamina). A UDV tem vindo a expandir-se, sem dúvida à boleia do crescente new ageismo, e implantou-se nos EUA. O problema é que agora, como noticia o Anthropology News (disponível para sócios), o Supremo Tribunal dos EUA tem em mãos uma questão de liberdade religiosa: é que a lei americana inclui a hoasca na categoria dos alucinógenos (no Brasil é legal desde 1986); e a UDV constituiu-se como igreja nos EUA. O antropólogo Matthew Meyer tem escrito sobre o caso aqui.

mva | 14:01|
 



Tentativa frustrada (hoje, às 10:59)

mva | 11:03|


14.3.06  


Comunicado

Um "comunicado" necessário, para evitar a distorção dos rumores:

Passei a estar desvinculado da política partidária. Digo a coisa assim porque considero isso mais relevante do que dizer "deixei de ser aderente do Bloco de Esquerda". O afastamento não se deveu a nenhum conflito declarado, quer ideológico, quer pessoal. A minha saída é o resultado lógico dum processo que vem de há já algum tempo.

Não são decisões fáceis de tomar, estas. E apesar de serem, em última instância, decisões pessoais, há sempre outros que são afectados. Sei-o bem, e isso pesa. Mas, pesados os prós e os contras, tomei a decisão que considero acertada. No plano das ideias e convicções (e das dúvidas...), no plano do pensamento, no plano da intervenção pública e cidadã, preciso desta nova fase marcada por mais independência e mais liberdade. Palavras ambíguas, é certo, mas importantes como projecto.

Orgulho-me de ter estado presente na criação do Bloco de Esquerda. Ao longo de 7 anos experimentei a militância partidária como forma de exercício da cidadania. Continuo a achar os partidos políticos fundamentais, nem que seja para contrabalançar as tentações populistas. E não tenho em relação ao Bloco qualquer antagonismo. Tão-pouco pretendo aproximar-me de qualquer outro partido. E não deixarei de colaborar, caso a caso, causa a causa, com as pessoas, movimentos e partidos, quando achar que se justifica.

Aqui no blog, em situações públicas e mediáticas, na interacção com os outros, em movimentos sociais e causas várias, continuarei a intervir como democrata radical.

mva | 16:51|


12.3.06  



A última a morrer

É uma pequena aldeia, com uns 900 habitantes, a cerca de 150 km de Lisboa. Em tempos a mão de obra local trabalhava numa indústria regional. Parte republicanismo, parte movimento operário ajudaram a construir um clube desportivo/associação local. Desde então que se deve ter instalado a tradição do teatro, entre outras. Hoje, na "pós-modernidade", a associação continua. Pelas mãos sobretudo de jovens. Sim, a aldeia não está despovoada. Os jovens, licenciados, resolveram ficar por lá, encontrando oportunidades de trabalho em diversas sedes de concelho à distância de 20 minutos de automóvel (sim, têm automóvel). Dinamizam a associação com eventos culturais, construiram um auditório, fornecem refeições às crianças da escola contribuindo para que muitos pais prefiram ficar a residir ali em vez de se mudarem para a cidade mais próxima. Ontem fui lá. Era um debate sobre cidadania. Focada na relação entre os cidadãos e a política. Deputados à AR, eu, e um antigo professor do liceu da zona, verdadeira figura de intelectual local - no bom sentido do termo. Na sala deviam estar umas cem pessoas, da aldeia e arredores e o evento foi transmitido ao vivo por uma rádio local, não afiliada a grandes grupos.

Eu não tinha nada a dizer sobre cidadania. Cidadania é o que aconteceu ali.

PS: Ao mesmo tempo decorreu no Centro Comunitário Gay e Lésbico de Lisboa um debate sobre parentalidade. Estiveram presentes pais e mães, casais ou não, de gays e lésbicas com filhos - "biológicos" ou adoptados. Os miúdos também lá estavam, segundo me constou felizes, irrequietos, encantadores e insuportáveis como todos os miúdos. Consta que foi um desses momentos que ficam na memória das pessoas: we're here, we're parents, get used to it. Cidadania também, pois claro.

mva | 20:14|


10.3.06  



Introdução às ciências sociais

Pode a pessoa que usa tratamento diferencial e V.Exa. e distingue "tu" de "você" ser a mesma que conduz como um assassino e se acha a única no mundo? Pode a pessoa que se queixa da destruição da paisagem pela má arquitectura ser a mesma cuja riqueza tem origem, em última instância, na especulação imobiliária? Pode a pessoa que exige todos os direitos e participa em todas as greves ser a mesma que não quer descontar para a segurança social da empregada?

Pode. E provavelmente é.

mva | 19:46|
 



Ouvi dizer que há um novo presidente da república. Coisas estranhíssimas acontecem quando a gente acorda.

mva | 10:49|


9.3.06  

Youman Rights

O Relatório de Direitos Humanos do US Department of State agora saído diz sobre Portugal:

«The government generally respected the human rights of its citizens; however, the following human rights problems were reported: police and prison guards beat and abused detainees;
poor prison conditions; lengthy pretrial and preventive detention; trafficking in persons, foreign laborers and women»

Tem toda a razão. A situação portuguesa é, naqueles aspectos, vergonhosa. Mas não sobra uma sombra de autoridade moral ao governo dos EUA para falar de sistemas prisionais. Do seu, domestic - uma espécie de sistema de gestão das classes "perigosas", pobres e/ou negros. Ou do que implantam fora - em Guantánamo ou Abu Ghraib.

De qualquer modo, o Relatório não inclui os EUA...

mva | 21:33|
 



Política do gosto

Daqui a cinco anos (esperemos que não seja daqui a dez), alguém terá que fazer o retrato de Cavaco Silva. Paula Rego se calhar até nem se importava - Cavaco dava um belo mordomo circunspecto, assim em pé por trás duma figura de burguesa anafada sobre chaise longue, panejamentos carmins e, ao fundo, uma criada rurícola esventrando um coelho. Mas Cavaco não iria gostar e uma pessoa compreende. Mas a questão é bem outra: que pintor/a tem Cavaco (já) em mente? Que pintor/a representa Cavaco?Alguém tem sugestões maldosas? (OK, acordei mal disposto - com sinusite e classismo).

mva | 11:02|
 

Ainda última hora


Urso

mva | 10:34|


8.3.06  



OPA-TV

Na TV então nota-se como tudo (mas num artigo de jornal tem-se um vislumbre): a guerra entre a Sonae e a PT parece uma telenovela. Belmiro e Horta e Costa parecem cotadíssimas estrelas da Globo. Aos espectadores é passada a ideia de que há uma entusiasmante disputa emotiva nesta coisa. A economia (com "e" pequeno), os negócios, a finança, conseguiram agora atingir o patamar da popularidade mediática. Não tarda nada as "massas" não querem mais saber de traições amorosas e namorados que afinal são irmãos. Já tínhamos percebido como a "economia" ocupa cada vez mais espaço mediático. Só lhe faltava mesmo o que agora conseguiu, graças aos trejeitos e ao camp dos capitalistas (posso dizer a palavra?). Começou a era da OPA-TV.

mva | 10:00|
 

Já agora o Policarpo

«João Carlos Espada (na foto), professor da Universidade Católica e colunista no Expresso, que será consultor de assuntos políticos» (Público, sobre assessores de Cavaco)

Não sei como comentar. Acho mesmo que basta informar (insira aqui espasmos grotescos ou risadas histéricas consoante a sua personalidade)

mva | 09:54|
 

Tomada de posse

«...na Tribuna A, a Senhora de Jorge Sampaio, a Senhora de Jaime Gama, a Senhora de Cavaco Silva, o Cardeal Patriarca de Lisboa, os anteriores Presidentes da República - General Ramalho Eanes e Doutor Mário Soares - e respectivas Senhoras, os anteriores Presidentes da Assembleia da República e respectivas Senhoras, os anteriores Primeiros-Ministros e respectivas Senhoras;(...)» (Glória Fácil)

«A ordem de precedência dos convidados que apresentam cumprimentos é a seguinte: Primeiro-Ministro, Presidente do Supremo Tribunal de Justiça e Presidente do Tribunal Constitucional, que, em seguida, se retiram sendo acompanhados à Escadaria Principal pelo Protocolo; Chefes de Estado, Primeiros-Ministros e equiparados estrangeiros convidados; Cardeal Patriarca de Lisboa; Vice-Presidentes da Assembleia da República e Presidentes dos Grupos Parlamentares; Deputados; Titulares dos restantes Órgãos de Soberania; Embaixadores; Altas Individualidades estrangeiras convidadas; Altas Autoridades portuguesas; Outros convidados.» (Glória Fácil)

Desculpem, mas que faz ali Policarpo?

mva | 09:47|
 

8 de Março

«"Senhor Presidente Cavaco Silva, como é que vai conseguir conciliar as responsabilidades deste alto cargo com as suas obrigações familiares?"» (Joaquim Fidalgo, Público)

mva | 09:42|


7.3.06  

Mais última hora


Boss

mva | 10:14|


6.3.06  

Marx Mendes

«Luís Marques Mendes, presidente do PSD, confirmou ontem, em Madrid, que o seu partido votará contra o casamento de homossexuais, se a questão for levantada nesta legislatura. O líder do PSD participou na capital espanhola no encerramento dos trabalhos da Convenção do Partido Popular (...). "Em Portugal achamos que as prioridades são o crescimento económico, pôr em ordem as finanças do Estado e combater o desemprego", disse Mendes."A questão do casamento dos homossexuais não é prioritária, seguramente que o PSD terá uma posição contrária, mas não espero que este tema seja introduzido na ordem política", assinalou. Considerando que este é "um tema da agenda do Bloco de Esquerda", o dirigente laranja insistiu noutra questão que o preocupa: "Estamos muito próximo do meio milhão de desempregados".» (Público)

Marques (Marx?), honey, é justamente no Bloco que o desemprego é uma questão prioritária. Quem definitivamente não é prioritário é o senhor Mendes (poderia, por exemplo, começar a pensar em aderir ao BE). Já agora: será aceitável que Marques Mendes possa casar? Procriar? Adoptar? E as crianças, senhores, as crianças?!

PS: Tomamos nota da parceria PSD Tuga/PP Espanhol. Uma pessoa distraída pensaria que a reaccionarada anti-liberal (e certamente nada social-democrata) do PP Espanhol fizesse parceria com o PP Tuga.

mva | 20:18|
 



Tortura do sono

Sabem aqueles dias em que sentimos que não somos deste mundo? Ou que este mundo não é nosso? Hoje foi um desses dias. Estranhíssimo. Provavelmente atiçado pela falta de sono pós-Oscars. É que hoje ouvi falar, imagine-se, sobre medievalices como a influência da maçonaria (o que é isso? Please, do grow up) na universidade. É que hoje ouvi falar sobre a homofobia caladinha e rasteirinha e fingidinha de gente mui "liberal" que me rodeia (dirigida, por exemplo, ao moi, que devo mas é ser um exemplo vivo de ingenuidade sobre pernas, porque sempre achei que estava num universo cosmopolita e livre). É que hoje ouvi falar de invejas profissionais, de assassinatozinhos (inhos, porque há gente que nem matar sabe) de carácter, de bota-abaixos. É que hoje ouvi falar de como imensa gente investe tempo e energia e emoções no trique-e-truca (não sei o que quer dizer, mas soa bem) da intrigazita e do joguito do poderico. É que hoje ouvi uma pessoa falar-me com o maior dos à-vontades sobre como não deve haver igualdade no casamento, e a pessoa até é da política, e a pessoa até é gay, e a pessoa até nem tem a noção de como me agride quando me diz que não posso ter o mesmo direito que... ela (não, que ela não, obviamente).

OK, vou mas é dormir.

mva | 19:10|
 

Última hora*


Xico Pereira

*O que significa que o concurso - de qualquer modo sem prémio - fica aberto...

mva | 18:43|


5.3.06  

Bandeiras

Aqui estão todas as propostas que chegaram. Alguns defeitos de reprodução são da minha (ir)responsabilidade (sorry).


Leonor


João Miguel Amaro Correia


Filipe P. 1


Filipe P. 2


Filipe P. 3


Filipe P. 4


Alexandre Louro 1


Alexandre Louro 2


João Carreira


Miguel Del-Negro


José Franco


Carlos 1


Carlos 2


Carlos 3


Carlos 4


Carlos 5


Carlos 6


Carlos 7


Carlos 8


Carlos 9


Carlos 10


Carlos 11

mva | 11:30|


3.3.06  



Um grupo de pessoas está a organizar uma festa de solidariedade com a Teresa e a Lena, amanhã. É interessante que se trate de um grupo não ligado ao movimento LGBT. Ou de como o "grupo de interesses" que tanto assusta alguns passou de lobby a salão de festas...

mva | 10:40|


2.3.06  



A banana burocrática

Há muitos anos atrás devo ter dado uma de mil e uma conferências algures. Para procederem ao pagamento lembro-me vagamente de ter sido necessário inscrever-me para uma Certidão de Formador ou coisa parecida. Nada aconteceu, esqueci. Hoje, três anos depois, recebo esta curiosa carta da República das Bananas Burocráticas, que merece a pena transcrever (take a deep breath):

«Assunto: Notificação da Decisão de Extinção do Procedimento da Certificação de Aptidão Pedagógica de Formador, por motivos de Deserção. Processo nº 37516. Na sequência da candidatura mencionada em epígrafe, foram solicitados os elementos constantes no Ofício nº 1142/03, de 6/25/2003 (MM-DD-AAAA) não tendo havido por parte de V. Exa. qualquer resposta. Neste sentido, cumpre informar que no exercício das competências pelo Despacho nº 24.299/2005 (2ª série), do Conselho Directivo do Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP), de 3 de Novembro, publicado no Diário da República, nº 227, em 25 de Novembro, fica V. Exa por este meio notificada, de que por despacho do Exmo. Senhor Delegado Regional da Delegação Regional de Lisboa e Vale do Tejo, datado de 20 de Fevereiro de 2006, exarado na Informação nº 86/DL-DAVC/2006, de 2006/02/18, foi declarada a extinção do procedimento, por motivos de deserção, nos termos do artº 111º, compaginado com o artigo 112º, do Código de Procedimento Administratrivo (CPA), aprovado pelo....»
OK! Chega! Basta! Piedade! Confesso tudo! Digo todos os nomes que quiserem! Aaaargh!

PS: Finalmente consegui: sou um desertor! E fica provado como a realidade é infinitamente mais ficcional do que a ficção.

mva | 14:51|


1.3.06  



Caridade e moleza

Há qualquer coisa de errado quando pessoas como Luís Fernandes e Eduardo Prado Coelho, que respeito muito, escrevem artigos como os de hoje no Público. Ambos sobre o assassinato de Gisberta, falam de tudo menos da componente homofóbica e transfóbica do crime. Ambos os autores são pessoas com consciência social e activos na denúncia de discriminações. Como não perceberam? Como podem ser tão moles em relação ao assunto?

Tudo indica que o nojo pela alteridade sexual terá sido a mais forte das motivações para o crime - e será com certeza, nas cabeças dos "jovens", suas famílias, "educadores" e advogados, a mais forte das "desculpas". Não só porque é o menos evitado na pedagogia (da escola, da família, dos media) que, apesar de tudo, se vai fazendo em relação ao racismo ou ao sexismo ou em relação às condições de toxicodependência ou sem-abrigo. Mas sobretudo porque esse nojo encontra (ainda) eco na sociedade.

É nas omissões que se detecta esta "transnegação": já a Fernanda Câncio referiu no Glória Fácil como os media não mostraram nenhuma foto da Gis, recusando-lhe a personalidade e humanidade. E muitos jornalistas e opinadores continuam a recusar-se a falar dela no feminino ou a perceberem o que é a transexualidade do ponto de vista duma transexual. Hoje mesmo, no DN, Pedro Rolo Duarte insiste em "o travesti".

A atenção nacional centra-se na caridade sociológica face aos criminosos. Porque são jovens e ninguém - sobretudo quem é pai de jovens... - quer imaginá-los preconceituosos, odiosos e violentos. A sua condição de "vítimas sociais" nos planos familiar e escolar sobrepõe-se, com uma espantosa ausência de autocrítica, não só à infinitamente maior vitimização social das Gis deste mundo como à sua vitimização máxima: a morte violenta, prolongada e com sevícias sexuais.

mva | 10:16|