OS TEMPOS QUE CORREM. Miguel Vale de Almeida


31.1.06  

Novidades

1. A petição à AR para alteração do Código Civil já tem data de entrega marcada: 16 de Fevereiro. É altura de entregar as folhas de assinaturas que ainda possam andar por aí.

2. Amanhã a Teresa e a Lena vão fazer história. Pela primeira vez um casal de pessoas do mesmo sexo vai exigir à República Portuguesa a que pertence (assim nos querem fazer crer) o direito a ser igual (perdão, o direito a casar porque assim o deseja). Estejam atent@s.

3. Os TQC já receberam várias propostas para uma nova bandeira nacional. As propostas podem ser "sérias" e "jocosas". No fim, as propostas serão alinhadas pelas duas categorias. Quem quiser pode e deve acompanhar a proposta com uma pequena memória descritiva. Gráficos de todo o mundo, uni-vos!

4. Daqui até à Primavera surgirá o sítio miguelvaledealmeida.net, uma página pessoal "à séria", com textos online e muitos outros recursos, incluíndo, claro está, este vosso blogoservo. Fica o cheirinho.

mva | 15:29|
 



Lisboa, inverno

PS: Há dias em que não apetece "falar", pronto.

mva | 10:21|


28.1.06  



A coisa mexe

«Há uns tempos, Teresa e Lena deram um beijo na rua e foram regadas com uma mangueira por um vizinho. Marisa, a filha biológica de Lena, nunca mais esqueceu a "humilhação" e só sonha com o dia em que as suas duas mães possam casar. (...)» (ler o resto aqui)

Quando estive em Barcelona falavam-me sempre da importância de casos concretos de queixas e recursos a tribunais para o avanço da visibilidade da desigualdade de gays e lésbicas. E também de como foi importante o acompanhamento da causa por alguns jornalistas. Casos humanos, mediatização de qualidade, produção cultural (filmes, TV, etc), e iniciativas legislativas complementaram e ajudaram a exponenciar o movimento LGBT como movimento cívico.

mva | 11:46|


27.1.06  



Cautela

A iniciativa do Luís Grave Rodrigues é óptima. E a disponibilidade e coragem do casal de mulheres que deseja casar-se é de aplaudir! É mais um passo, com outra táctica, na luta pela igualdade no acesso ao casamento civil. A ILGA-Portugal, por exemplo, tem vindo a recolher assinaturas para uma petição à AR; e organizou, junto com uma instituição universitária, um excelente seminário sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Estas iniciativas - como todas as iniciativas do movimento LGBT ,que não só a ILGA - têm sido conseguidas com muito esforço e com enormes dificuldades do ponto de vista dos recursos humanos. Isto nota-se ainda mais quando há necessidade de falar para os jornais, de ir às TVs, de mobilizar pessoas que dêem o seu testemunho sobre o desejo de casar, a homoparentalidade, as suas vidas como gays e lésbicas, etc. Em Portugal, nem no movimento LGBT organizado existe mais do que uma mão-cheia de pessoas que possam/queiram dar a cara.

Há excepções: pessoas que dão a cara pagando ou não o "preço" por isso. Mas num ambiente reprimido e, para mais, de generalizada ausência de participação cívica, o "dar a cara" é, infelizmente, cada vez mais algo feito por quem não tem nada a perder. Espero sinceramente que não se repitam situações como a do "casamento" encenado por um cantor rasca para uma TV. Nessas situações, os protagonistas ganham uns tostões e cinco minutos de notoriedade, e perdemos nós tod@s anos de igualdade e respeito. Que fique claro: não faço ideia quem são as mulheres que irão à Conservatória na quarta-feira, e apoiarei a sua demanda de todas as maneiras que me forem possíveis. Mas sinto-me como um gato escaldado.

Na quarta-feira, quando o casal de mulheres for à Conservatória, estarão presentes uma série de pessoas de várias organizações do movimento LGBT, dando o seu apoio. A mobilização tem circulado nos e-mails. A intenção é boa, o entusiasmo também, mas temo o pior. O "pior", para mim, seria o efeito televisivo de mostrar uma manifestação de meia-dúzia de pessoas, transmitindo uma imagem de marginalidade e, na melhor das hipóteses, curiosidade exótica. Temo a morte na praia. Espero que quem acompanhar as duas mulheres o faça como um grupo de amigos que as acompanha.

Tivesse havido genuíno entusiasmo e participação de todo o movimento LGBT na iniciativa da petição (que, pesar disso, resultou) e talvez neste momento já existisse uma vaga de fundo que possibilitasse não só uma concentração de jeito, como o surgimento de mais casais que participassem na iniciativa do Luís. Tivesse havido menos catolicismo recalcado, menos radicalismo esquerdista, e menos teoria queer mal enjorgada nas "dúvidas" e "hesitações" face à reivindicação do casamento, e talvez na quarta-feira fosse de facto ganhador ir - muita gente - à Conservatória apoiar o casal. Infelizmente não houve. Assim como, infelizmente, não houve coordenação para que resulte bem aquilo que é, quer se goste quer não, um acto político. Nestas coisas não interessa apenas marcar posição, interessa ter estratégias ganhadoras. Espero que em breve haja mais casais a quererem confrontar a lei e que a via judicial seja vitoriosa - sobretudo se a legislativa não o for.

A Teresa e a Lena (não sei os seus sobrenomes), se me lerem, podem contar comigo para tudo o que tenha a ver com a defesa do direito à igualdade no acesso ao casamento.

(Não deveria ser preciso dizê-lo, mas aqui vai: a minha posição é absolutamente pessoal e nada tem a ver com as associações a que pertenço)

PS: A Comissão de Saúde do Parlamento vai fazer audições sobre a legislação da reprodução medicamente assistida. A lista de convidados inclui "especialistas", associações de planeamento familiar, associações de famílias (?), igrejas. Não inclui organizações dos direitos das mulheres ou LGBT. A desculpa já se antevê: "Ai, mas é que isto é legislação sobre o problema clínico da infertilidade, não sobre as escolhas reprodutivas". Bela democracia. Pois bem: não sei se existe um emoticon para um gesto feio, mas imaginem-no...

mva | 20:46|


26.1.06  

Teresa e Lena

(e Luís...): força!

mva | 22:58|
 



Relações, ralações

As relações afectivas entre as pessoas baseiam-se cada vez mais (como já Giddens tinha notado) na pura relação, isto é, na ideia da relação como válida em si e por si mesma, algo que só deve durar enquanto satisfizer ambas as partes, segundo os valores culturais contemporâneos do amor, da amizade, do sexo, etc. Eu acrescentaria que as relações devem também, segundo este modelo, basear-se no mútuo consentimento entre as partes. Elas assentam supostamente na escolha. Por fim, esse consentimento é cada vez mais visto como devendo ser informado, o que implica um conhecimento cada vez mais reflexivo sobre a natureza das relações (sobre o amor, sobre a amizade, sobre a sexualidade, etc.).

É claro que isto é uma "ficção". É uma história que contamos a nós mesmos sobre nós mesmos. Mas, como dizia outro cientista social desta área (Weeks), é uma ficção necessária, isto é, faz parte do quadro ético em que nos orientamos. O que este tipo de modelo relacional, e a ficção necessária que o acompanha, fazem, é apresentar o inverso do parentesco e da família. As relações (de novo: amorosas, amistosas, sexuais, etc.), baseadas na "escolha", opõem-se às relações baseadas no "destino" (e no acaso - "não se escolhe os pais"), as relações com base no parentesco. Estas não são relações em si mesmas mas relações-na-estrutura (à falta de melhor expressão); não são de todo baseadas no mútuo consentimento (na escolha, desde logo); e não são informadas, pelo menos de modo igualitário (os pais podem ler manuais sobre educação, os filhos não têm manuais para perceber os pais e não os entenderiam mesmo que os tivessem).

A "escolha" também é uma ficção necessária. Ninguém escolhe verdadeiramente o seu parceiro ou parceira, por exemplo, já que o conhece dentro de um campo de relações sociais - em termos de classe, estatuto, etc - específico e em certa medida predeterminado. Mas poderia dizer-se o inverso em relação ao parentesco: se as relações começam como destino e acaso, desenvolvem-se também com alguma escolha, sendo as relações afectivas com parentes melhores entre certos indivíduos do que entre outros.

A relação amorosa é, por assim dizer, o nó disto tudo: porque se constrói com base numa ética próxima da amizade, por um lado; e porque dá azo a uma relação próxima do parentesco, já que um casal constitui uma família e, nalguns casos (hetero, férteis, e havendo vontade; ou adoptantes, sejam hetero ou homo, casais ou não, férteis ou não) institui parentesco com uma geração seguinte. Reconhecendo que a oposição entre a escolha e o destino é forçada, que as características da pura relação são contaminadas por determinismos sociais e que as do parentesco podem ter elementos de pura relação, ficamos em condições de divisar um "projecto" ético relacional para um futuro não muito distante. Este "projecto" junta cultura e política, porque parte do reconhecimento do possível (o que temos, o que há, os modelos culturais possíveis - e não a utopia) e a vontade ética de construir - através, por exemplo, da educação - uma vida melhor para mais gente.

Os seus traços seriam os seguintes, grosso modo: maior peso da relacionalidade, da escolha, do mútuo consentimento e da informação nas relações familiares e de parentesco - em suma, "democratização" da família, incluindo o valor da escolha de quais os indivíduos com quem se quer mesmo ter uma relação a partir da idade do consentimento; e maior peso de compromisso e responsabilidade nas relações amorosas, amistosas e sexuais, de cuja ligeireza e transitoriedade muita gente se queixa, e que existe em grande medida por causa do trauma de relações familiares e de parentesco sufocantes e esquizóides.

É claro que este "projecto" tem um tempo e um lugar (além de ser o produto selvagem da minha biografia...): o ocidente (whatever that means) e a modernidade, pelo que é desafiado quer pela alteridade cultural, quer pela fragmentação pós-moderna. Muitos outros modelos de relações de escolha e de acaso/destino existem, incluindo aqueles em que esta oposição nem faz sentido; e muitas dinâmicas da pós-modernidade já fizeram parte do trabalho que o projecto identifica. Mas se pensarmos em termos da nossa comunidade mais imediata (aquela onde vivemos grande parte do tempo, onde as nossas relações se estabelecem e em relação à qual temos/queremos ter voz) e das instituições que a regulam e/ou influenciam (escola, estado, igrejas, media, etc.), este projecto poderá ser uma via para combater ao mesmo tempo o reaccionarismo familista e o nihilismo hedonista.

Enfim: racionalizações depois de uma agradável e solta conversa sobre "O Futuro das Relações" ontem no É a Cultura, Estúpido!

mva | 11:13|


24.1.06  

E agora para algo completamente fútil

OK, temos novo PR. E em 2010 celebrar-se-ão 100 anos de república (com Cavaco na presidência...). Venho propor um novo entretenimento: mudar o símbolo da dita. Sim, refiro-me à bandeira. Ninguém pode levar a sério um país com uma bandeira como a portuguesa, saída de um concurso para símbolos duma sociedade de recreio. Ninguém pode levar a sério um símbolo saído duma ilustração de ditadura centro-americana numa banda desenhada ou filme de série B. Não é drama nenhum mudar. Outros - estes e estes, por exemplo -, bem respeitáveis, já começaram a arregaçar as mangas. E a portuguesa tão-pouco foi sempre a mesma.

Este blog aceita, daqui até 1 de Março, propostas de novas bandeiras para Portugal. Façamos algo de verdadeiramente (in)útil pelo país, agora que já votámos para alívio e felicidade do senhor engenheiro e do senhor professor.

Podem enviar as propostas para o endereço de mail ao lado. Boas ideias!

mva | 11:21|
 

E agora podíamos conversar um bocado?

Uff. Acabou o ciclo eleitoral e agora seguem-se três-anos-três em que, talvez- quem sabe- assim espero, a esquerda poderá finalmente dicutir um bocado de política, de valores, de opções, de ideologia, de projectos. O Bloco precisa de falar. Precisam de falar as suas diversas tendências e pessoas e grupos de interesse. O PC, suponho, precisará de falar. O PS precisa de falar (e de que maneira!). Os desafectados precisam de falar - mais que tudo, de serem ouvidos. Precisamos de discutir ao que andamos, que país é este, como se faz a Europa, qual a ligação entre as ideias que vamos tendo e a vida que vamos vivendo. Apesar da actividade política constante (que a política não é só eleições), precisamos de "parar". Não se aguenta fazer política na dependência constante e imediata de eleições, prazos, campanhas, mobilizações e toda a espécie de urgências que impedem (e servem de desculpa para) o debate e o esclarecimento.

mva | 11:12|


22.1.06  




E agora, Manuel?

1. Cavaco ganha. Ganha por pouco, com 50,6%, se pensarmos nas expectativas criadas e no facto de ser o único candidato da direita.

2. Soares tem uma votação baixíssima. Mas eu, que nunca simpatizei muito com a sua figura política, reconheço o seguinte: o seu exemplo cívico, ao candidatar-se aos 81 anos e quando aparentemente estava na reforma, ficará para a história da democracia.

3. O PS continua a demonstrar ser um caos. Sócrates vai dormir tranquilo por ter arredado o espectro de Soares do PS. Vai coabitar tranquilamente com o seu espelho de direita. E não vai preocupar-se sobremaneira com Alegre.

4. E tem razão para isso. Não duvido da boa fé e convicção de quem votou Alegre - desde logo muitas pessoas próximas de mim. Mas a verdade é esta: de Alegre não vai sair nada, porque não há nada a sair. Quem apoiou Alegre pensou estar, digamos, a apoiar Pintasilgo - e enganou-se redondamente. Funcionário-deputado do PS há 30 anos, apoiante sistemático das políticas dos vários primeiros-ministros socialistas, Alegre não tem pensamento político para lá de meia dúzia de banalidades vaidosas. Alegre não existe, e quando tenta existir não se vê mais do que um vazio redondo, marialva, preguiçoso e republicanamente antiquado. E os seus promotores regressarão a casa e às suas vidas já amanhã; quando muito farão uma Sedes, com ocasionais jantares-tertúlia no Centro Nacional de Cultura. Triste, muito triste, o efeito Alegre. Compreendo a motivação de muitos dos seus apoiantes e eleitores - a crítica ao sistema partidário, ao próprio PS, a vontade de cidadania - mas apostaram no cavalo errado. Espero que consigam dar a volta e não deitar fora 20% de votos.

6. Jerónimo e o PCP aguentam-se. A sua rede social e organização existem e são sólidas, ainda que claramente limitadas. Mas o PC continuará muito provavelmente colado às "condições sociais da sua existência". Para onde o crescimento? Com quem as alianças e a criação de sinergias?

7. Louçã fica abaixo do esperado e desejado. Tal deve-se, não duvido, ao efeito Alegre. Embora 5% seja a linha de água, Louçã merecia mais, para o confirmar na política portuguesa como figura imprescindível. Mas graças à campanha saiu definitivamente do que alguns poderiam qualificar como a mera liderança de um grupo de "extrema esquerda". Passou à maioridade - e sinto-me bem e orgulhoso por ter contribuido um bocadinho para isso.

O PS crítico, o PC que deseje entrar na (pós)modernidade, o Bloco que não queira ser marginal, e a cidadania desafectada de esquerda (que ora vai para os partidos, ora para Eanes e PRD, Pintasilgo, ou Alegre), precisam agora de pensar - e têm 3 anos e meio para o fazer. Se isso não bastar, não merecem uma segunda oportunidade.

É caso para perguntar, com dupla razão, "E agora, Manuel?"

PS: Já no dia 23, fiz uma pequena alteração neste post escrito na noite eleitoral. A referência à "diferença de votos" com que Cavaco ganhou não fazia sentido em números absolutos, pelo que a substituí pela percentagem, mais comparável com os esperados 53% e mais. Quanto a Alegre, aproveito este PS para reforçar e esclarecer o meu "ponto": tanto a mudança no PS quanto a criação de movimentos de cidadania são absolutamente necessários. Receio é o prometido ficará eternamente devido.

mva | 22:48|
 

Fora d' El País


Em dias de reflexão e voto, não há como ir à imprensa estrangeira (neste caso, entre aspas, caramba, que isto é a mesma península). Excelente reportagem de Miguel Mora no El Pais. Para lá dos Pirinéus, este vosso servo (por vezes Manuel Vale de Almeida (I like it...), por outras Miguel de Almeida) diz umas coisas no Humanité.

mva | 12:01|


21.1.06  

Notas de dia de reflexão



1. Já tão pouco gente fala de Liberdade. Mas ontem à noite ouvi a palavra outra vez. Foi a última palavra que ouvi na campanha.

2. Outro dia, creio que no DN, vinham umas fichas sobre os candidatos. Na pergunta sobre religião, a coisa distribuia-se assim: Cavaco - católico; Soares e Alegre - agnósticos; Jerónimo e Louçã - não têm. Até nisto o PS ocupa o centro ambíguo.

3. Através de um especialista doméstico nestas coisas, fiquei seduzido com a ideia do approval voting. Este sistema seria bem melhor do que o actual, que nos obriga a votar num só candidato. Poderíamos simplesmente indicar nos boletins quem aprovamos e quem não aprovamos. Os políticos portugueses bem que podiam dedicar-se à tarefa de melhorar a democracia.

4. Via Renas, fiquei a saber dos desenvolvimentos em Maryland. Mais do que o Massachusetts (que prefiro, de longe), ou de que New York (onde também vivi), Maryland é o meu estado, por ter lá vivido quando ainda era iogurte dentro do prazo. É um estado-tampão entre o Norte e o Sul e só desejo que, na questão do casamento gay, a nortada sopre forte.

mva | 12:01|
 

Teste em dia de reflexão (Oops...)



«You scored -5 on the Moral Order axis and -1 on the Moral Rules axis. The following items best match your score:

System: Liberalism
Variation: Moral Liberalism
Ideologies: Capital Democratism, Progressivism
US Parties: Democratic Party, Green Party
Presidents: John F Kennedy (95.58%)»

Teste aqui. Não achei graça nenhuma aos resultados... Partido Democrata?! O meu partido nos EUA é os DSA...

mva | 11:39|


20.1.06  

Indecisão



Votantes no PS, socialistas divididos, gente de esquerda desiludida, indecisos, e outros seres humanos louváveis: por favor votem no domingo. Já imaginaram a alegria de ver Cavaco obrigado a uma segunda volta?

mva | 11:28|


19.1.06  

Com senso?



A palavra "consenso" está a ganhar uma irritante importância na cultura portuguesa. Qualquer dia este é o país da saudade e... do consenso. A expressão é, quanto a mim, uma típica palavra ventríloqua. Através de "consenso" está a dizer-se algo que não "consenso", algo que envergonha e que não se tem coragem de defender explicitamente. Esse algo é o "silêncio". Vejamos.

Estava eu a desabafar sobre isto com uma aluna minha americana e ela disse que "consenso" lhe fazia lembrar os Quakers (a mim fazia-me lembrar o Cavaco, e entre estas duas "lembranças" está todo um oceano...). Entre aquela congregação as decisões são tomadas por consenso, o que significa isto: se houver nem que seja um membro que não concorde com uma proposta, ela não avança, até que ele ou ela concorde, dias ou semanas e reuniões mais tarde.

Mas não é preciso ir tão longe. "Consenso", para mim, é algo a que se chega depois de vários processos, concomitantes ou alternativos, de tipos potencialmente diferentes: o confronto; a negociação; o diálogo; etc. Todos eles são muito mal-vistos e mal praticados em Portugal, onde as pessoas tendem a não ouvir-se nas conversas, tendem a não exprimir ideias e convicções claras, tendem a obedecer, a satisfazer os superiores, ou a seguir o lema "o que é que queres, as coisas são mesmo assim". (E quando se revoltam, é isso mesmo, revoltam-se - puff, explodi, pronto já passou - não se revolucionam). Em suma: "consenso" é sem dúvida das coisas mais difíceis de alcançar entre nós, pela simples razão de nem sequer temos as ferramentas e as metodologias para o construir.

Quando se proclama a necessidade de consenso, quando se diz que algo (um projecto de investigação, um tema para uma conferência, uma ideia para um curso, um tópico para um programa político, uma proposta de lei, etc) "não é consensual" (quel horreur!) e por isso não deve ser discutido, o que se está a dizer é que tudo deve ficar na mesma, que há áreas tabu, e que a fonte do dito consenso deve ser a tradição, o hábito, a inércia ou, pior ainda, a autoridade.

Aquilo de que o "consenso" português fala é do silêncio.

mva | 17:35|


17.1.06  

Queer : teoria desviada, teoria excêntrica



A noção e a designação de "teoria queer" estabeleceu-se definitivamente. No entanto, continua a soar-me queer que tenhamos que usar a expressão... queer. Assim, dita em inglês num contexto de comunicação em português, perde-se o sabor da expressão. Queer era/é um insulto como "maricas", mas também um adjectivo "normal" para dizer "esquisito". Seria óptimo que se conseguisse esta ambivalência numa tradução portuguesa.

Ricardo Llamas cunhou a expressão teoria torcida em espanhol, mas o termo não vingou (até porque me parece mais uma tradução de twisted do que de queer). A este propósito, João Silvério Trevisan diz aqui o seguinte: «Há um livro em espanhol sobre teoria queer, do Ricardo Llamas. O termo foi adaptado para ?teoria torcida?: ele leva em consideração a raiz latina, pois supõe que o queer seja algo distorcido. Para mim isso simplesmente dá na idéia portuguesa de desvio/desviante. Uso bastante essa terminologia no meu livro Devassos no Paraíso. Aí, falo muito do Brasil como o ?país do desvio?, em várias áreas ? abrangendo no desvio até mesmo o carnaval e sua profusão de máscaras (em sentido restrito e lato). Penso que se você faz questão da tradução, o melhor seria algo como ?teoria do desvio? ou ?teoria desviante? ou ?teoria desviada?. Não se esqueça que um dos termos populares para homossexuais no Brasil é transviado ou desviado. Eu suspeito até que o termo ?viado? seja uma corruptela desses dois termos. Não por acaso, já ouvi gente traduzir teoria queer para ?teoria viada?, que também acho aceitável em princípio, apesar das outras conotações que não são meramente transgressivas, mas implicam em assumir o lado pejorativo do termo. E nunca sei se isso é totalmente positivo. (Mensagem eletrônica de 20 de julho de 2001)»

De facto, "teoria viada" é sedutor. Mas não funciona (ainda) em Portugal, por razões dialectais. Já teoria desviada poderia servir tanto para o Brasil como para Portugal, mantendo a alusão ao brasileiro "viado". A minha primeira inclinação tradutora foi justamente para o campo semântico do "desvio", pois acho que ele não é marcado apenas pela estigmatização; também contém elementos de contestação (desviar-se do caminho como atitude contestatária)

Enquanto substantivo, já se sabe o que quer dizer em inglês. Mas queer também é verbo, o que é sedutor (por evocar acção): expose, endanger, peril, thwart, spoil, scotch, foil, cross, frustrate, baffle, bilk... Enquanto adjectivo, significa curious, funny, odd, peculiar, rum, rummy, singular, fishy, funny, shady, suspect, suspicious.

Saíndo do inglês, em espanhol (e para lá da proposta de Llamas), queer é traduzido como extraño/a, raro/a ou excéntrico/a. Em francês, como curieux (étrange, singulier, étonnant), bizarre, suspect, inquiétant. Em português, o Porto Editora dá-nos: estranho, esquisito, fora do vulgar, excêntrico, singular, original, suspeito, de carácter duvidoso, indisposto, adoentado, esquisito, tonto, homossexual. Como forma verbal, estragar, escangalhar, desconcertar, transtornar, prejudicar, indispor.

Todo um campo de possibilidades engraçadas se abre, então: teoria desviada, teoria estranha, teoria esquisita, teoria excêntrica, teoria suspeita, teoria indisposta, teoria do desconcerto, teoria desconcertante, teoria transtornada... "Teoria excêntrica", por também referir algo que se pratica "fora do centro", e "teoria desviada", pelas razões acima expostas, seriam as minhas traduções favoritas.

Aceitam-se sugestões/votações.

mva | 18:09|


16.1.06  

O fim da História



«Cavaco Silva não está disponível para participar num debate com os outros cinco candidatos à Presidência da República, que teria lugar esta sexta-feira, nas instalações da Rádio Difusão Portuguesa (RDP), "por motivos de agenda"» (Público)

Cavaco prossegue a sua estratégia. Não se trata apenas de não falar. Trata-se de "dizer" que já é presidente, que os outros não merecem conversar com ele, que os outros estão noutro campeonato. Que ao dizer isto está a desrespeitar os eleitores e a democracia é algo que não o incomoda. Pior: é algo que não parece incomodar a maioria do eleitorado.

Vários estudiosos do salazarismo já o disseram: o sucesso de Salazar deveu-se em grande medida à sua colagem às estruturas profundas do país. Não quis entrar em vanguardismos revolucionários de tipo fascista. O paroquialismo ruralista, católico, mariano, isolacionista e proteccionista do Botas batia certo com as expectativas de um povo a viver em ancien régime. Esperto como um cavaco (não existe a expressão?), manteve-se caladinho e quieto e frugal e poupadinho e casto. Cavaco actualiza isto: o seu silêncio, a sua "autoridade", o seu desprezo pelas regras do debate democrático batem certo com a nova alienação, esta espécie de salazarismo pós-moderno em que vivemos.

Se esta criatura ganhar, a direita vai recompor-se através da vitória política da conquista da presidência. Vai recompor-se ao nível simbólico, o mais decisivo de todos. E o que sobra de esquerda em Sócrates desvanecer-se-á em menos tempo do que demora a surgir um novo desempregado, uma nova privatização na saúde, uma nova escapadela aos impostos, uma nova conta off-shore, uma nova mulher julgada por aborto, um novo ataque ao ambiente e ao urbanismo, uma nova vítima da homofobia, uma nova sinecura numa instituição com participação do estado, um novo imigrante numa gaiola de aeroporto, um novo avanço do patriarcado (o genuíno e o com P grande, da ICAR), uma nova participação num ataque militar dos EUA, e por aí fora até ao proclamado fim da História.

A não ser que... A não ser que as dezenas de milhar de indecisos e quase-abstencionistas da esquerda - ou apenas de entre quem acha que a democracia é o pior sistema à excepção de todos os outros, como dizia o Churchill e canta o Sérgio Godinho - se mobilizem em massa no dia 22.

PS: Lenny, o "boneco" é tão antigo (eighties, Vila Nova de Cerveira...) que até a assinatura era outra...

mva | 19:17|
 

A leste nada de novo



«Quanto ao casamento entre homossexuais, não tenho objecções, embora não o devamos arvorar como grande ideal do futuro. Mas sou contra a adopção de crianças por casais homossexuais. Entendo que faz parte da formação de uma criança a componente masculina e a feminina.» (Garcia Pereira, no DN)

Pois. E eu sou contra a adopção de crianças por pessoas do MRPP. Acho que faz parte da formação de uma criança a componente democrática, humanista, liberal e não-sexista. Nos idos dos anos setenta fui muitas vezes para o liceu com medo de apanhar pancada (pancada mesmo) dos MRPP. E se alguma vez o poder fosse tomado pela seita, seria dos primeiros a ir para a prisão. Há coisas que passaram do prazo de validade há muito tempo - o maoísmo, por exemplo. Em rigor, há coisas que nunca tiveram sequer prazo de validade.

mva | 18:41|
 

Sexual politics



A página 22 do Público de hoje é uma delícia gráfico-política. Uma espécie de comentário não planeado sobre género. Num dos lados, em baixo, uma notícia sobre o luto pelo emir do Kuwait, ilustrada com uma foto de um homem carrancudo, de óculos escuros, pêra e lenço árabe sobre a cabeça. Uma imagem de impenetrabilidade e dureza masculinas. No outro lado da página, uma notícia sobre a candidata presidencial chilena, Bachelet e outra sobre a presidente (e de novo candidata presidencial) finlandesa, Halonen. Bachelet sorri abertamente para a câmara e faz o sinal de OK com a mão; Halonen, ainda que em pose mais séria, sorri também.

Que pena que em vez de Manuel Alegre, Helena Roseta não tenha ela mesma avançado....

mva | 17:56|
 

Under the weather



Fim-de-semana um bocadinho complicado. Posts seguem dentro de momentos - prevê-se que segunda à noite, a julgar pela distribuição dos indecisos (ou outra qualquer técnica sondageira). Glug.

mva | 00:21|


13.1.06  

A boa moeda



É sexta-feira, 13, acordei com uma ligeira dor de cabeça e espero que chegue um senhor que vem colocar uns cortinados. Em suma, óptimas condições para navegar pela página da candidatura do "Professor Cavaco Silva" (ah, já agora, este vosso servo deverá passar a ser referido como "O Professor Vale de Almeida"...).

Derrapo rapidamente para uma secção de apoiantes vindos do mundo do skate. Humm.... Um deles, António Boavida, diz: «Desde sempre que o Prof. Cavaco Silva é uma pessoa que me inspira confiança, daí a minha simpatia por ele». Identifico-me: é exactamente o que sinto pela minha mãe, pelo meu companheiro, pelos meus amigos. Pena que não se candidatem. Mas adiante. O site de Cavaco dá provas de acreditar sinceramente no mercado: «Quais as notáveis marcas que te apoiam? A. B.: Neste momento as marcas que orgulhosamente represento são: a Adio, a Mada, a Fidelity, a Eastpak e a Bana.» Algumas das marcas têm direito a link para os seus sites publicitários (eu retirei os ditos...).

Mas isto, como diriam os mais snobs, são coisas de putos. Interessante mesmo - marcas mesmo - é a lista de nomes da Comissão de Honra: Américo Corticeira Amorim, Diogo Somague Vaz Guedes, Fernando BPI Ulrich, Francisco CIP Van Zeller, Ludgero AIP Marques, e Cª Lda. O site de Cavaco é um grande centro comercial, animado aqui e ali por actrizes de novela e revista, uma escritora pomposa e apresentadores de concursos.

Chega de snobeira. Vamos aos cortinados.

mva | 10:40|


12.1.06  

Obsessão irracional



«Estou totalmente a favor de que qualquer mulher, qualquer que seja a sua situação, possa ter acesso à procriação medicamente assistida (PMA)», disse o ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior. Mariano Gago «afirmou-se também "totalmente em desacordo" com aquilo que denominou de "obsessão irracional em ver em qualquer aglomerado de células pluripotentes um ser humano"».

Ontem a Conferência Episcopal Portuguesa emitiu um comunicado em que diz o seguinte:

«1. As técnicas de Procriação medicamente assistida devem ser reservadas a casais heterosexuais, para assegurar o dever ético de oferecer ao novo ser um homem como pai e uma mulher como mãe. Não admita o recurso a gâmetas fora do casal em virtude da grave dissociação entre paternidade genética e social.
2. Não considere aceitável o recurso a mães portadoras porque atinge a interacção profunda entre a criança e a mãe (...).
3. Sendo o embrião uma vida humana dotada de dignidade, as técnicas usadas devem evitar a existência de embriões excedentários, mesmo destinados a uma segunda gravidez do casal. (...)»

Conclusão: no PS presta-se mais atenção a uma igreja do que ao próprio ministro da ciência?

mva | 10:14|


11.1.06  

Já não há respeito



Não nos bastava o regresso do passado, o neo-salazarismo de fachada social-democrata (para usar a retórica da velha esquerda). Agora reapareceu também Santana Lopes (e deste ao menos lembram-se?). Do mal o menos: reemergiu no papel de desmancha-prazeres (do neo-cavaquismo de fundo ("bispo"?) salazarengo). Siderado, Cavaco só soube dizer "Não faço comentários" (humm, grande novidade).

mva | 19:42|


10.1.06  

Porquê Cavaco?

1. Síndrome da vitória. Isto é assim como com o consumo ou as modas: se não tenho grandes critérios ou opções de fundo, alinho com o que me dizem que está a ganhar, com a "dinâmica de vitória". Prefiro estar entre os ganhadores; já me basta de ser loser.

2. País profundo. Paternalismo e patriarcado não são expressões vãs. São realidades vividas e incorporadas. Abram um livro de leitura dos tempos de Salazar e vejam: o Chefe de Estado é sempre o Pai da Nação; a Nação é apenas uma família grande. O Chefe de Família é austero, rígido, silencioso ("homem de poucas palavras"). A sua autoridade vem do silêncio. E quando fala, convem que fale de um conhecimento que os outros considerem técnico, complicado e, de preferência, que o ar dos tempos considere determinante. Convem ainda que a autoridade do Chefe não advenha da sua posição de classe: se for "humilde" na origem, tanto melhor.

3. Despolitização. Pessoas como Cavaco - ou como o Chefe da Nação, ou o Chefe de Família, ou o Grande Economista, ou o Professor - não são políticos. Políticos são outra coisa. Políticos são os tipos da retórica, do espectáculo do contraditório, das tiradas de tribuno, e das falcatruas descobertas pelos jornais. Não, ele não é um desses e é isso que o torna no mais bem sucedido... dos políticos.

4. Desideologização. Nas muito velhas e nas muito novas gerações (que aqui se juntam num verdadeiro pacto intergeracional), a visão do mundo não é organizada em torno da noção de conflito e interesses contraditórios, ou de direita e esquerda. Juntam-se, nesta aliança, uma coisa muito antiga e uma muito pós-moderna. A antiga é a ideia do consenso, do não-conflito, da harmonia, e que Salazar institucionalizou com o corporativismo (uma empresa é uma aliança patriótica entre trabalhadores e empresários, não um local de contradições), e que se alimenta ainda do horror ao debate próprio do Portugal profundo. A pós-moderna é a ideia de que o mundo não é legível com ideias, mas sim com um agregado caótico de práticas difusas, permitindo ser-se simultaneamente conservador numa coisa e progressista noutra; isto não é em si mau, só que no momento da escolha política é-se mais sensível à aura do que à análise. Nesse momento ou se escolhe o absolutamente novo do marketing (que a política portuguesa não oferece) ou o absolutamente antigo do caldo cultural (Cavaco).

5. A canibalização das posições. Uma das formas da direita se reorganizar é apresentando-se como verdadeiramente inovadora face a uma esquerda definida como conservadora e atávica. Canibaliza a ideia de mudança. Isso tem sido o truque dos esmagadoramente conservadores opinion makers nacionais. Verdade seja dita que a esquerda ajuda, nas suas práticas, a sustentar esta tese. Mas ela não deixa de ser contrabando, desonestidade intelectual no seu estado mais puro. O resultado é haver jovens que acham que Cavaco é de facto ar fresco (é assim como achar que um desodorizante para automóvel está de facto a fornecer ar fresco).

6. Nunca há só um culpado. Não, o problema não é a esquerda estar "desunida". A esquerda é desunida, e ainda bem. O problema radica no PS e na sua ausência quase absoluta de candidato: nem Mário Soares nem Manuel Alegre (este obviamente) surgiram a partir do PS e da sua vontade de combater Cavaco. Nada é infelizmente tão correcto como dizer que, para todos os efeitos práticos, Sócrates deseja Cavaco na presidência.

7. Não sabemos o que é um presidente. Como em Portugal o PR não é nem apenas simbólico nem verdadeiramente executivo, a mancha cinzenta que fica no meio permite todas as ocupações oportunistas. E permite dizer uma coisa e o seu contrário ao mesmo tempo. Ninguém sabe muito bem para o que vota e isso diminui não só o entusiasmo como a vontade de esclarecimento e definição. Ganha quem se colocar no centro do cinzento. Ganham os Cavacos. Cavaco é um okupa. Este problema do sistema agravou-se com a situação sui generis que tivemos: a campanha, com os debates nas TVs fez-se antes da campanha eleitoral, definindo a priori ganhadores e perdedores nas cabeças dos eleitores-consumidores.

8. Não há passado. Resultado de tudo isto: discutem-se pessoas do passado como prováveis presidentes do futuro próximo. Tal só é possível através da mais extraordinária limpeza do... passado. Mas essa é uma das características mais conseguidas do ethos português, da sua política e, curiosamente, uma das maiores características da leviandade pós-moderna. O fenómeno Cavaco é um curioso caso de aliança entre o ancien régime e a pós-modernidade. Perde a modernidade, aquela que tinha como uma das suas características a representação da política em esquerda/direita. E perde aquela esquerda que não soube ainda como avançar com uma agenda progressista em condições de pós-modernidade.

mva | 11:49|


9.1.06  

No meu país

É um daqueles dias de inverno à portuguesa: árvores despidas, sim, mas a terra coberta de verde e azedas. Cobre tudo isto um céu azul frio. Entra-se em Queluz pelo Palácio com o mesmo nome; em frente a ele umas casitas que ali vegetam há décadas. Há uma ruralidade que se mantém ou definha, não se sabe, à beira duma auto-estrada. A escassas centenas de metros, palácio e casas rurais dão lugar a prédios de subúrbio. O salão dos bombeiros faz lembrar os salões de bombeiros de todas as terras do portugal "profundo" (como se este aqui fosse de algum modo "superficial", quando é nestes aquis que vive a maior parte da gente). O salão dos bombeiros é feito daquela arquitectura espontânea que os arquitectos não gostam de chamar arquitectura. Atravessando as portas de alumínio, gloriosa invenção nacional, o corpo reaje ao fenómeno local de sentir mais frio no interior do que no exterior. Outra memória do meu país. No bar, os cachecóis do Benfica, Sporting, Porto e Belenenses fazem a geografia simbólica da pátria e das suas tribos. Alguém colocou o cachecol da selecção nacional bem ao centro - uma herança do Euro 2004. Passam inanidades numa televisão, homens de idade indefinida semi-sentam-se e semi-deitam-se em cadeiras de café, entretendo os dedos com os dispensadores de guardanapos com nomes como Coca-Cola ou Super-Bock. No andar de cima, aos poucos vão-se juntando as pessoas que vêm para o comício da candidatura do Francisco Louçã. Falamos de política, do passado, do presente e do futuro, e falamos a contrapelo dos "meios de comunicação social" e das "empresas de sondagens". Não somos nem heróis, nem mais puros nem mais conscientes. Apenas vivemos segundo ideias de política, de esquerda e de direita e por aí fora, ideias com as quais cada vez menos gente vive. A meio falha a luz. É reposta. Falha de novo. É reposta. Acabamos ao fim de uma hora e descemos as escadas de mármore (ah, o mármore, outra memória sensorial do meu país). Cá fora escurece sobre o verde e as azedas e os subúrbios e o palácio e as casitas rurais e a auto-estrada. "Então vamos ter o Cavaco outra vez, é?" "Pois é, parece que sim".

mva | 11:19|


6.1.06  

«Epiphany

1. a) A Christian feast celebrating the manifestation of the divine nature of Jesus to the Gentiles as represented by the Magi. b) January 6, on which this feast is traditionally observed. 2. A revelatory manifestation of a divine being. 3. a) A sudden manifestation of the essence or meaning of something. b) A comprehension or perception of reality by means of a sudden intuitive realization: "I experienced an epiphany, a spiritual flash that would change the way I viewed myself" (Frank Maier).»

O que conta para mim hoje é o significado a bold. Faz 5 anos que eu e uma certa pessoa epifanámos. Parabéns!

mva | 12:36|


5.1.06  

Cavacada, II

«Cavaco Silva pede eleição à primeira volta» (título do Público).

«Cavaco precisa de passar à primeira volta, e isso exige um enorme esforço de mobilização. Não se trata, no seu caso, de ganhar mais votos, mas sim de não perder os que conquistou, principalmente a favor da abstenção. Da capacidade de mobilização do seu eleitorado depende muito a conquista da presidência à primeira volta. (...) Todos estão convictos, a partir das sondagens, que Cavaco ganha quer na primeira volta, quer na segunda. Pode ser que sim, mas eu não estaria tão certo disso» (Pacheco Pereira, no Público)

Já deve haver para aí uma sondagem nova...

mva | 11:22|


4.1.06  

Cavacada

«"Nenhum partido decidiu a minha candidatura. Nenhum partido financia a minha candidatura." A frase foi usada como um exemplo da característica suprapartidária que Cavaco reclama para a sua candidatura, chegando mesmo ao ponto de deixar no ar que quem lhe paga a campanha são os portugueses de sua livre e espontânea vontade. "São os portugueses, e muitas vezes o povo simples, que vai às sedes dizer que quer ajudar."» (Público)

Pois.

O povo "complicado" que financia Cavaco não se desloca fisicamente às sedes. Em rigor, não precisa de sair da sede. Do banco.

mva | 11:03|


2.1.06  

Entalanço

Filomena Mónica, Pacheco Pereira, Miguel Portas e Boaventura Sousa Santos discutem Portugal na televisão. Praticam o desporto nacional de eleição: discutir a coisa. E ainda bem. Precisamos de discutir a coisa ainda mais e ir chegando a alguma conclusão-acção. Mas se eu agora fosse (como dizem as crianças) sueco e estivesse a ver o programa, diria: "Estes portugueses têm tudo para conseguir resolver a coisa e não a resolvem. Não percebo". E se eu agora fosse, sei lá, dos Camarões, e estivesse a ver o programa, diria: "Mas de que é que eles se queixam?"

O drama da coisa é o drama de todas as coisas entaladas no meio. Mas o potencial das coisas entaladas no meio está na capacidade de verem os dois lados.

mva | 23:44|