OS TEMPOS QUE CORREM. Miguel Vale de Almeida


30.12.05  

Um milhão é todo um país, II

Países e territórios com menos de um milhão de habitantes (por ordem decrescente do número de habitantes; a negrito os que "nos dizem alguma coisa"):

Fiji (893.354 hanitantes), Qatar, Chipre, Reunião, Guiana, Bahrain, Comoros, Ilhas Salomão, Guiné Equatorial, Djibuti, Luxemburgo, Macau, Guadalupe, Suriname, Martinica, Cabo Verde, Malta, Brunei, Maldivas, Bahamas, Islândia, Belize, Barbados, Sara Ocidental, Polinésia Francesa, Antilhas Holandesas, Nova Caledónia, Vanuatu, Guiana Francesa, Mayotte, São Tomé e Príncipe, Samoa, Guam, Santa Lucia, São Vicente e Grenadinas, Tonga, Ilhas Virgens, Micronésia, Kiribati, Jersey, Grenada, Seychelles, Marianas, Man, Aruba, Andorra, Dominica, Antigua e Barbuda, Bermuda, Guernsey, Ilhas Marshall, Samoa Americana, Gronelância, Ilhas Faroe, Ilhas Caimão, Saint Kitts e Nevis, Liechenstein, Mónaco, São Marino, Gibraltar, Ilhas Virgens Britânicas, Ilhas Cook, Ilhas Turks e Caicos Islands, Palau, Wallis and Futuna, Anguilla, Nauru, Tuvalu, Montserrat, Santa Helena, Saint Pierre e Miquelon (7,012 habitantes).

Mesmo na linha do milhão, um curioso país: Timor-Leste, com 1.040.880 habitantes.

mva | 17:13|
 

Um milhão é todo um país

Uma grande caixa cor-de-rosa na capa do Expresso desta semana: "Um milhão de portugueses são homossexuais". Seguida da pergunta "Casamentos entre pessoas do mesmo sexo?" sobre as caras dos candidatos presidenciais e as suas respostas: Cavaco "talvez", todos os outros "sim".

Por ser o Expresso, por ter escolhido este tópico de entre muitos outros num inquérito genérico sobre sexualidade e por mencionar o mágico número em vez da percentagem de 9,9% (e por mostrar a divisão entre Cavaco e os restantes...), esta notícia terá um efeito muito positivo na auto-estima de gays e lésbicas e nas "classes médias" leitoras do semanário, que se confrontarão com o milhão. Talvez seja bom,, também para a esquerda - perante este número é preciso continuar à espera da "reivindicação social" para nos dar os direitos que a Constituição garante?

Alguns pontos negativos, porém. A sondagem foi enviesada devido à recusa de dois terços dos inquiridos em responderem ao inquérito! Significa isto que os resultados estão enviesados no sentido da faixa dos 15 aos 30 anos. Três quartos dos inquiridos são a favor da descriminalização do aborto. Mas os mesmos três quartos são contra a adopção por casais do mesmo sexo. Este dado doi ainda mais, porque o inquérito se esqueceu de perguntar a opinião sobre o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo - mais absurdo ainda dada a escolha do tema da capa.

PS. Quanto à opinião anti-adopção, o inquérito não faz (e, dado o seu âmbito, não tinha que fazer) nenhuma referência à quantidade de situações de homoparentalidade. Mas a verdade é que quando as pessoas perceberem a quantidade de crianças que já vivem com pais do mesmo sexo ou com um pai ou mãe assumidamente homossexual, terão que reconsiderar o preconceito...

mva | 16:53|
 

Bom Ano para tod@s!

mva | 12:44|


29.12.05  

Vale a pena ler no Público de hoje

José Neves:

«(...) O patriotismo é sempre uma arma do poder - mesmo quando utilizado pelos que se pretendam representantes dos fracos. Alegre pode-nos confortar citando Cunhal e sendo comparado a Aragon - o problema mantém-se: é que, quando o Partido Comunista Francês de Aragon mobilizou o nacionalismo patriótico contra o nacionalismo fascista, nos anos 30, ele negou os direitos fundamentais dos resistentes argelinos; é que, quando o Partido Comunista Português assume o hino nacional, ele desconsidera o direito dos trabalhadores imigrantes à luta de classes.(...)»

Augusto M. Seabra:
«(...) Agora, depois da ascensão ao poder dos conservadores do PiS (Direito e Justiça) dos gémeos Kaczinsky, com o apoio da ultradireitista Liga das Famílias Polacas e dos populistas da Autodefesa, ambos marcadamente nacionalistas, há um verdadeiro desafio à União. O obsceno paralelismo entre a interrupção voluntária da gravidez e Auschwitz e a homofobia militante e institucionalizada são outros dois traços, de resto num quadro geral que se alarga à Lituânia, Letónia e Eslováquia - e é tanto mais preocupante quanto o bloqueio do tratado constitucional implicou a Carta dos Direitos Fundamentais, a qual nomeadamente garante a "não-discriminação", incluindo a da "orientação sexual". (...)»

Pacheco Pereira:

«(...) A solidez teórica de Ratzinger, solidez não apenas teológica, mas filosófica e cultural num sentido mais geral, o seu longo contacto com o meio dos intelectuais europeus, conhecendo as suas polémicas e quer as suas interrogações, quer as suas modas, está a dar frutos. Ratzinger está a colocar a reflexão cristã, gerada no cume do poder eclesial, que é por excelência o papado, no centro do debate público, de onde estava há muitos anos afastada. Ou, numa fórmula mais moderada, está a torná-la aceitável como objecto de discussão intelectual, o que é uma verdadeira mudança nos costumes europeus e americanos recentes. Este processo é interessante para a história do movimento cultural europeu e, penso, está apenas no seu início. O nome de Bento XVI, ou mais provavelmente para já de Ratzinger, vai-se tornar citado e citável, em círculos onde nunca o foi o de João Paulo II e dos seus predecessores desde o século XIX. (...)»

Ou de como, em tempo de presidenciais, interessa sim discutir "estas coisas" - nação, "pátria", direitos, Europa, "civilização". NO nosso espaço público mediático, se não fossem dois ou três artigos de jornal por semana e dois ou três posts em dois ou três blogs, e Portugal estaria verdadeiramente desintelectualizado*.

*o que ainda torna mais mais chocante que seja preciso pagar para aceder aos textos online...

mva | 11:52|


28.12.05  

Go east, young man



Já viram A Península Ibérica em Números? No Canhoto apresentam ironicamente o trabalho como "exercício masoquista" do INE...

mva | 11:33|


27.12.05  

Igualdade



Disponível aqui o Manifesto "Igualdade e Diversidade: Uma Questão de Dignidade", ontem apresentado pela candidatura de Francisco Louçã.

mva | 11:23|


25.12.05  

High tolerance for ambiguity

Na revista da associação antropológica americana, um anúncio de emprego da CIA:

«The CIA's Directorate of Intelligence (DI) is actively seeking Anthropologists, Sociologists, and Psychologists to assess psychological, social, organizational and contextual factors affecting the functioning of political, terrorist and criminal groups, as well as societies' responses to medical crises such as pandemics and mass migration (...)»

Mais adiante, nos requisitos: «Aditionally, you must show a high tolerance for ambiguity; a track record of making reasoned judgements based on incomplete or unconfirmed data, and comfort working under deadline pressure (...)».

Giro, giro, seria tentar traduzir "high tolerance for ambiguity": "boa capacidade para mentir"?

mva | 12:28|
 

Aposto que

Não percebo o puritanismo em torno das apostas sobre as presidenciais. Eu cá por mim aposto que Cavaco fica a décimas dos 50%; Soares passa à segunda volta; Alegre não faz um PRD; Jerónimo e Louçã obtêm resultados honrosos.

mva | 12:17|


24.12.05  

Bones Navidaes & Gayoleru anu nuevu*



* (em asturiano)
PS: Entretanto, a associação profissional a que pertenço mandou a seguinte mensagem: «No respeito pela pluralidade das crenças, a APA deseja Boas Festas aos seus sócios que comemoram o Natal e para todos feliz 2006». Faço minhas estas palavras.

mva | 11:28|


23.12.05  

Séculos de presépios...

Acordo com isto:

«A legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo "não é uma prioridade" para o PS. A afirmação é de Vitalino Canas - o porta-voz socialista considera prematura qualquer iniciativa para alterar, no Parlamento, o actual quadro legal. "A Assembleia da República ainda não estará em condições de aprovar essa iniciativa", afirmou ao DN, acrescentando que este "debate ainda não foi feito" na sociedade portuguesa.» (DN)

O que, obviamente, me lembrou Cavaco na TV há poucos dias:

«Olhe, eu acho que Portugal enfrenta neste momento desafios tão fortes que esse não é com certeza um problema que preocupa os portugueses, ainda por cima um problema fracturante (...) Nós temos tantos outros problemas que eu não posso especular sobre se os partidos na Assembleia da República vão ou não avançar com essa proposta; e em primeiro lugar deve ocorrer o debate no sítio próprio que é a Assembleia da República; aí é que se manifestam as diferentes [...]» (Cavaco Silva)

(Acho mesmo que Vitalino deveria propor um debate público sobre o direito de voto para as mulheres. Nunca se fez! Como foi possível legislar, assim, sem mais nem menos?! E os pretos, meu deus, os pretos, não se discutiu se as empresas podem ou não discriminar nas contratações de empregados! Não houve um movimento social, ou cívico, ou um debate na AR!)

E, agora, pio mais fino:

«Se da parte do PS fica claro que o casamento homossexual será uma questão para o médio prazo, também da parte do Bloco de Esquerda - partido que se tem manifestado claramente a favor da mudança da lei - não há a intenção de avançar para já com uma proposta concreta. "Não queremos tomar uma iniciativa legislativa sem que ela seja acompanhada por um debate cívico", afirmou ao DN Luís Fazenda. O líder da bancada parlamentar do BE não deixa dúvidas de que os bloquistas avançarão nesse sentido, mas escusa-se também a avançar uma agenda mais concreta - para já o espaço deve ser dado "à sociedade civil e aos movimentos cívicos", no sentido de "uma maior sensibilização pública".» (DN)

Espera aí, Luís. Concordo que, tacticamente, uma proposta do BE na AR poderia colocar em perigo por muitos anos o fim da discriminação legal a que os gays e lésbicas estão sujeitos (o Cavaco tem, perversamente, razão...). Acho mesmo que, sem o PS, nada feito (daí as declarações de Canas serem assustadoras, vindas dum PS com maioria absoluta). Mas, por favor, que o BE não vá pelo argumento da "sensibilização". A não ser que, claro, em Portugal precisemos ainda de sensibilizar as pessoas sobre o que é a Constituição e a igualdade de direitos. Como gay, não quero que as pessoas (e muito menos "a sociedade") gostem de mim, nem que me "aceitem", nem que tenham uma súbita epifania que as leve a perceber que, com a alteração da lei, as suas vidas contiuarão na mesma, apenas melhorando a vida de outros. Não quero nada disso. Só quero igualdade de direitos. Só quero respeito.

PS: Na segunda-feira será apresentado publicamente o Manifesto pela Igualdade da candidatura de Francisco Louçã. Nele se defende, com todas as letras, o fim da discriminação no acesso ao casamento.

mva | 10:32|


22.12.05  

A mais velha aliança

«While this milestone is a cause for celebration, it also has a downside. For the first time in modern British legal history, instead of repealing discrimination parliament has reinforced and extended it. Civil partnerships are for same-sex couples only. Straights are excluded. Conversely, marriage remains reserved for heterosexuals, to the exclusion of gays. The differential treatment of hetero and homo couples is enshrined in law. Welcome to segregation, UK-style.» (Peter Thatchell. Obrigado, Boss)

Espero que a excitação com o caso britânico não inspire meias tintas entre nós...

mva | 11:02|


21.12.05  

Epifania

Maria João Avilez surgiu-me hoje na rádio como uma epifania (bem a propósito para a época). Ao mesmo tempo recordou-me que o ancien régime (no sentido de "História das Mentalidades" do termo) sobrevive, e explicou-me em que consiste o mistério do Natal. Há muito tempo que acho que existe um modelo ? chamemos-lhe "hegemónico" - do que é/deve ser o Natal, e que milhões de pessoas tentam desesperadamente atingi-lo.

Não conseguem.

Daí a sensação de depressão e melancolia da "quadra". Mas há quem consiga. Há quem disponha dos recursos - de vários tipos - para atingir o modelo em pleno. Ao descrever que pelas bandas da sua família tinha nascido uma criança (like we care...), MJA desenvolveu o mote da criança-enquanto-menino-jesus. Graças a tão criativa prosa, fui juntando os fios a várias meadas soltas nos últimos anos:

1) para ter um Natal a sério convém ser de boas famílias (conceito vaguíssimo nos dias que correm e que inclui os que as boas famílias não acham serem de boas famílias), uma coisa que vai de si e não se explica mas percebe-se, sei lá, no sotaque...
2) convém que estas sejam grandes (acho que agora diz-se "numerosas") - e normalmente as duas coisas vão juntas.
3) convém que haja um local sagrado, uma espécie de raiz da tribo, normalmente a casa de um ancião que funciona como patriarca ou matriarca, mesmo que não lhe apeteça nada, mesmo que a sua maior fonte de alegria seja apalpar a criada ou o jardineiro e não propriamente a maçada do natal
4) convém que toda a grande e nobre família se reúna no chão sagrado; fotos de família, muitas, e um ou outro óleo
5) convém ser católico, isto é, ir mesmo à missa do Galo. Não tem nada, mas mesmo nada, a ver com usar ou não pílulas e camisinhas e assim
6) convém que a grande família não esteja muito baralhada por divórcios e recomposições (e se houver um gayzito ou uma lesbicazita, por favor que tenha o bom senso de aparecer sozinh@ na consoada)
7) last but no least, convém mesmo ter dinheiro para investir no evento e nas prendas. Mas não se fala disso - tem-se.

Com estes capitais e condições asseguradas pode então proceder-se ao passo seguinte que consiste em dizer que o consumismo não interessa para nada (curioso argumento, visto que para ser de uma boa, grande e rica família normalmente é preciso estar de algum modo associado ao comércio, à representação de multinacionais ou à banca que empresta dinheiro aos que desesperadamente querem emular o natal hegemónico); e em dizer que o natal dos pobres é que é digno e bonito; e que devia ser natal todos os dias (as duas últimas são giras: o "dignidade" do natal dos pobres confirma a centralidade do natal dos ricos, que não precisa de ser qualificado de "digno". É-o, por essência e inerência; e o Natal "devia" ser todos os dias porque, efectivamente, é-o para quem diz o sound byte).

Votos de santo natal para tod@s @s que acham genuinamente que é o melhor dia do ano - todos diferentes, todos iguais, não é assim?

mva | 19:10|
 

Soares + Cavaco = Sovaco


Tirado daqui.

(Bem sei que é de mau gosto, mas não resisti. O nosso país cheira a roupa usada).

mva | 11:12|


20.12.05  

Estranho objecto de excitação

Os jornais portugueses estão a excitar-se mais com os "casamentos" gay em Inglaterra do que o fizeram em relação a Espanha. Não percebo. Parte da excitação envolve um erro crasso: referirem-se às parecerias registadas inglesas como casamento - coisa que não são. Em Espanha, sim, a equiparação e a igualdade são totais. Em Inglaterra seguiu-se, no fundo, a via que a direita espanhola propunha: algo na essência parecido ao casamento, mas sem o nome. Qualquer jornalista formado numa escola de Comunicação deveria conhecer a importância política e social dos símbolos. Deveria saber que, no caso inglês, está-se a dizer que os homossexuais são quase iguais aos heterossexuais; em Espanha afirmou-se a igualdade plena. Será que estamos perante um caso de estúpido fascínio pela Inglaterra (simbolicamente o poderoso aliado) e de estúpido desinteresse preconceituoso pela Espanha (simbolicamente "o inimigo")?

mva | 11:45|
 

Odete



O filme mais esperado nos próximos tempos é sem dúvida Brokeback Mountain. Mas na secção doméstica, atenção a Odete, de João Pedro Rodrigues, com estreia a 29 de Dezembro. Infelizmente não pude ir à ante-estreia, mas pude ver ontem o trailer - e promete. Um pedaço da entrevista ao Mix Brasil: «Por que a escolha por um casal gay? Porque eu sou homossexual. Para mim é difícil contar uma história que não me seja próxima. Não estou dizendo que é um filme autobiográfico, mas tem elementos meus e de pessoas perto de mim.»

mva | 11:32|


17.12.05  

Putas, Prostituição, e Trabalho Sexual


Picasso, Les demoiselles d'Avignon

Já se percebeu que vem aí um debate sobre prostituição. É um assunto tipicamente contaminado: pela moral cristã, pelo higienismo moderno, pela hipocrisia burguesa, por corrente contraditórias no feminismo, pela ordem de género e, claro, pelo desejo (é um campo cultural e ideológico complexo e fraccionado: basta ver como uma coisa é dizer "puta", outra "prostituta/o", outra ainda "trabalhador/a sexual").

Acho que só se evita o pântano mental e político se se começar pelos princípios. E o princípio aqui é: como garantir a toda a gente (nacionais e imigrantes) direitos básicos de cidadania, que passam pela relação laboral clara, pelo pagamento de impostos, pelo direito à segurança social, e pela promoção da igualdade de género? Se se começar por responder a estas questões centrais, já se poderá deixar de lado a baralhada moralista que afecta toda a gente, da direita à esquerda.

mva | 12:02|
 

Alegre Cavaqueira, episódio VII

Louçã teve ontem o seu último debate. Como sou seu apoiante - e para mais acompanhei-o ontem - o meu comentário é necessária e assumidamente enviesado. Gostei. Gostei até mais do que é normal. Louçã não podia (nem devia) tentar igualar a bonomia-de-sofá de Soares, que nisso é imbatível; e não podia cair no erro de inverter o paternalismo de Soares esmagando-o com energia cerebral - seria feio. Conseguiu o ponto de equilíbrio. E conseguiu-o em grande medida porque os dois candidatos se entendem: sabem situar-se no mesmo campo largo da esquerda e sabem demarcar posições. Foi o único debate de jeito nesta série de debates.

Duas notas negativas em relação a Soares. A primeira diz respeito ao uso do estafado argumento das "diferenças culturais" em relação ao respeito pelos direitos humanos. Esse é exactamente o argumento que o governo da China usa - e usa-o com um cinismo flagrante. A segunda diz respeito ao recurso à acusação de "moralismo" em Louçã. A referência - de Soares e de muita gente - é ao "tom". Mas o que interessa são os conteúdos. E é mais "moralista" (no sentido de defensor da "moral vigente") quem diz supostas evidências de senso-comum, do que quem afirma aquilo que pensa. Os silêncios, as platitudes e tiradas ideológicas mascaradas de bom-senso de um Cavaco Silva são bem mais perigosas do que as linhas de demarcação que Louçã afirma enfaticamente.

mva | 11:47|


15.12.05  

Alegre cavaqueira, episódio VI

Jerónimo-Louçã. Um debate da esquerda para a esquerda, com convocação do passado e tudo. Europa, euro, socialismo "real" - eis as grandes e importantes diferenças. Mas a diferença cultural mais notória é a que opõe o PC "patriótico" (palavra de Jerónimo; e que vai curiosamente junto com a repetição da retórica do país "aberto ao mundo", meaning o país dos descobrimentos) a um BE mais europeísta. E isto significa mais do que questões geo-estratégicas.

No momento da discussão do casamento entre homossexuais percebem-se as diferenças: Louçã repete o argumento do artigo 13º da Constituição e da necessidade de os direitos civis serem para todos; Jerónimo fala de um "processo" necessário, dependente do convencimento da sociedade pelo movimento LGBT. Para Louçã é "cumpra-se a Constituição", para Jerónimo é mais "ainda não se ouviu a sociedade aceitar/pedir". Mas há semelhanças, da ordem da hegemonia cultural e que estravazam até a esquerda e as suas divisões internas: nenhum dos dois fala da importância dessa conquista para toda a sociedade. Nenhum dos dois usa a palavra "homossexual" ou "gay e lésbica". Referem-se "ao assunto". E rapidamente se passa a outro. As diferenças são significativas, note-se - e estão na base das razões do meu apoio à candidatura de Louçã; mas as semelhanças são um copo (não um balde, é certo) de água fria.

Uma palavra que descreve bem Portugal: lento.

mva | 23:10|
 

Alegre Cavaqueira, episódio V

Quem esperasse um "duelo" entre "irmãos desavindos", à maneira do imaginário telenovelesco, saiu frustrado do debate Soares-Alegre. Ainda bem. Mas frustrado saiu quem esperasse que os dois socialistas trouxessem a público visões do mundo e da política divergentes. Eles apenas tornaram mais transparente o drama do PS - uma grande corporação onde se nota mais as irritações entre pessoas dos que a diferença de posições políticas. Não fiquei a saber nada de novo sobre Soares. E sobre Alegre apenas fiquei a saber que dissolveria a AR se fosse proposta a privatização das águas, e que não gostou nada do fim do serviço militar obrigatório.

PS: não vi o debate Cavaco-Jerónimo
PPS: Já se sabia que a SIC faz campanha por Cavaco. Hoje tornou-se claro que o Público faz também campanha por Alegre, apresentado como um senhor decente atacado malevolamente pelo poderoso e arrogante Soares...

mva | 10:25|


13.12.05  

Sobre "argumentos" que irritantemente oiço por aí...

Não me admiraria nada se a maioria dos homens que têm sexo com homens - ou que "namoram" mais ou menos com uma identidade gay - fosse contra o casamento entre pessoas dos mesmo sexo, contra a adopção ou mesmo contra políticas antidiscriminatórias ou de promoção da diversidade. Não me admiraria e, curiosamente, não consideraria muito relevante. Porquê? Em primeiro lugar, porque a maioria desses homens o que quer é mesmo continuar a beneficiar do capital de masculinidade garantido pela imagem pública de homens casados, com filhos, integrados em estruturas de prestígio e reconhecimento ditas normais. Em segundo lugar, porque o seu próprio erotismo se calhar depende da contradição e da ocultação; não quereriam de modo algum ser desafiados por (e confrontados com) uma normalização social da homossexualidade. E por fim - e este acho ser o argumento politicamente relevante - porque em rigor não é preciso que os homens que fazem sexo com outros homens ou mesmo os homossexuais apoiem medidas de igualdade e anti-homofobia; o que é preciso é que a sociedade democrática e os seus representantes e garantes reconheçam que mais igualdade e menos discriminação são coisas que decorrem normalmente da democracia. (Quantos negros se organizaram e protestaram para que o racismo fosse considerado ilícito em Portugal? Quantas mulheres se organizaram e protestaram para terem o direito ao voto em Portugal?). É por isto também que os direitos relacionados com a igualdade e o fim da discriminação pela orientação sexual nunca deverão ser assunto para referendo. Nem "clamor social" nem "consulta à sociedade" são necessários para implementar a igualdade prevista na constituição democrática.

PS: o meu exemplo é masculino apenas porque outros factores, de género, se cruzam no caso dasmulheres que têm sexo com mulheres ou nas que "namoram" mais ou menos com uma identidade lésbica.

mva | 22:38|
 

Alegre Cavaqueira, episódio IV

Alegre vs Louçã: ou de como uma coisa é ter um capricho e outra ter um projecto (independentemente de se simpatizar ou não com o capricho e de se subscrever ou não tudo no projecto).

mva | 11:46|


10.12.05  

Alegre cavaqueira, episódio III

Cavaco e Louçã são ambos economistas. Enquanto tal, situam-se nos antípodas. Mesmo assim, com um campo comum de discussão, e tendo Louçã insistido em olhar para Cavaco e interpelá-lo, Cavaco não lhe deu... o dito. Louçã só tem a ganhar com a atitude opositiva; e Cavaco com o "desprezo". Mas no fim, ser combativo é mais nobre do que fingir que não se está num debate com um adversário.

Quando se chegou às questões "fracturantes" (raio de expressão), Cavaco desfez-se: primeiro na questão da imigração, em que esteve this close de dizer que nunca os imigrantes e seus filhos serão portugueses a sério (this close? Disse-o mesmo....). Quando as pessoas não percebem que dizer coisas destas é puro e simples racismo, das duas uma: ou são estúpidas ou são mal-intencionadas. Depois, na questão do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Aí, Cavaco estrebuchou, visivelmente incomodado por coisa tão nojenta, e refugiou-se no argumento do "há coisas mais importantes". Quando não se tem a coragem de dizer que se é contra, das duas uma: ou se é estúpido ou mal intencionado.

Louçã - que parecia bem disposto - disse a frase da noite: "Era o que mais faltava!" (o Estado poder/querer impedir o acesso ao casamento por casais de pessoas do mesmo sexo). Teve um ponto negativo: a invocação da criança filha de imigrantes que não pode fazer desporto federado por não ser portuguesa. Os casos "humanos", para mais infantis, nunca ficam bem.

mva | 16:37|


9.12.05  

Alegre cavaqueira, episódio II

Goste-se ou não, Soares é um senhor. É o único candidato que fala como uma pessoa normal. Está na TV como quem está na sala. Fala de política como quem fala do quotidiano. É assim que deve ser - e digo-o com o à vontade de quem não apoia a sua candidatura.

Já Jerónimo revela, com impressionante candura, a raiz do PCP: partido mais nacional do que outra coisa, até mesmo proteccionista, patriota no sentido popular do termo, com desconfiança em relação à mudança. Antigo, ainda que genuíno.

Cada um à sua maneira é bem melhor que a trapalhada narcísica e mistificadora (ele é deputado do PS; ele sempre foi deputado do PS) de Manuel Alegre.

mva | 13:22|
 

Europa



Hoje e amanhã, na Torre do Tombo. Iniciativa da Esquerda Unida Europeia / Esquerda Verde Nórdica. Programa aqui.

mva | 11:10|


6.12.05  

A Sopa

As reacções de muitos comentadores católicos à "questão dos crucifixos" não revela, ao contrário do que dizem, nenhuma genuína preocupação com a liberdade. Revela outra coisa: o pânico ao sentirem que em Portugal começa a haver algum (pouco, mas algum) discurso opositivo. Isto é, que há gente que já não aguenta mais a Sopa - a Sopa que ao longo de décadas tudo confundiu - Estado, Portugal, Catolicismo - e que deixou tudo na mesma. Agora alguém relembra que o Estado não tem religião; que a Constituição não é um papelito que se desfaz quando mergulhado na Sopa; que a Escola pública não pode ter símbolos religiosos. E quando alguém diz isto, os senhores defensores da Sopa tremem - "meu deus, agora é que as pessoas vão perceber que uma coisa é o Estado, outra ser português, outra ser católico, outra...".

PS: Salazar gostava de Sopa.

mva | 10:48|
 

Alegre cavaqueira, episódio I

O primeiro debate entre dois candidatos a Presidente foi ontem. Opôs aqueles que, segundo as sondagens correntes, poderiam ser os opositores numa hipotética segunda volta: Cavaco e Alegre. O primeiro demonstrou (surpreendentemente, devo dizer) a sua "esperteza": prepara-se ao pormenor e finge não se preparar de todo. O resultado é conseguir fazer passar a ideia de que está acima de tudo e todos, uma espécie de figuração religiosa do poder, parado no centro duma nuvem, imune a tempestades, ao passado, aos partidos, às diatribes. Em suma: a publicidade enganosa resultou. O segundo confirmou as piores suspeitas - e os muitos amigos meus que o apoiam que me desculpem: o seu discurso é vazio. O drama é que, ao contrário de Cavaco, ele não quer parecer vazio, mas justamente o contrário.

mva | 10:25|


2.12.05  



«The U.S. conducted the 1,000th execution since the death penalty was reinstated in 1976 on December 2.». Isto é: os EUA assassinaram hoje legalmente a 1000ª pessoa. Felizmente ainda há 12 estados sem pena de morte: Alaska, Hawaii, Iowa, Maine, Massachusetts, Michigan, Minnesota, North Dakota, Rhode Island, Vermont, West Virginia, Wisconsin e ainda o District of Columbia. À excepção de West Virginia, não são estados do Bible Belt. Alaska, North Dakota e West Virginia pertencem aos "estados vermelhos" que votaram Bush.

PS: Go, Massachusetts!

mva | 21:07|


1.12.05  

A funcionária que dá corda à máquina



Entrevista a Francisco Louçã na RTP1. Entrevistadora: a funcionária Judite de Sousa. A funcionária que termina a entrevista despedindo-se do dr. Louçã e anunciando que amanhã entrevistará o professor Cavaco Silva. Pouco interessam estes honoríficos idiotas que se usam ainda entre nós. Ou a forma errada como são usados - se quisermos respeitar o próprio sistema. Curioso, sim, é verificar como uma jornalista - a funcionária Judite de Sousa - é prisioneira da máquina cultural que define alguns como mais merecedores do que outros dos honoríficos que ela - e a máquina - acham importantes. Judite de Sousa - em rigor todas e todos @s judites - mais do que prisioneira da máquina, faz a máquina.

Mas o funcionamento da funcionária não se fica por aqui. Ao longo de toda a entrevista (de qualquer entrevista, a Louçã ou outro) só fez perguntas que reproduzem a máquina cultural que cria um certo entendimento da política: a política como jogozinho de votos e de partidos e de disputas e turrices entre candidatos; sobre se FL desiste ou não; sobre se FL disputa com o PCP ou não; sobre se FL fica contente com x por cento ou triste com menos que isso. Não fez uma única pergunta sobre quem é o entrevistado; sobre o que pensa acerca de assuntos políticos; sobre assuntos económicos; sobre assuntos internacionais; sobre assuntos de valores, ética, ou moralidade; sobre, em suma, a sua visão do mundo, questão fundamental na escolha de um presidente sem poderes executivos.

É isto uma grande entrevistadora dum grande canal de TV? Não. Isto é uma funcionária da máquina do senso comum. Justamente o tipo de maquinaria que produz cavacos silvas.

mva | 21:46|
 

Escravos

1 de Dezembro. Num noticiário é entrevistado um senhor de idade, de óbvia origem social modesta. O senhor dá a cara como pessoa infectada com o HIV. A situação parece inovadora: não se recorreu a uma figura social correspondente ao estereótipo do infectado ou do paciente com sida. Mas eis senão quando o senhor diz: "Acho que apanhei de duas mulatas que eu tinha".

(Respirar fundo). Estamos em 2005? Ou estamos em, sei lá, 1800? Ou mesmo em 1640? Que raio de país é este - e que raio de democracia tem sido esta - para poder ainda haver alguém capaz de dizer aquilo?

mva | 21:39|
 

«Parliament ordered to allow gay marriage

Johannesburg, South Africa
01 December 2005 10:51

It is unconstitutional to prevent gay people from enjoying the legal benefits of marriage, the Constitutional Court ruled on Thursday. It gave Parliament one year to rework laws allowing same-sex unions. If Parliament does not do this in one year, the Marriage Act will be rewritten to include the words "or spouse" to allow these unions to take place.»

mva | 10:24|