A capa da revista Sábado mostra Cavaco Silva no quarto, em frente ao espelho, dando um nó à gravata. Título: "Cavaco na intimidade". Meus deuses, só a ideia! Porno de má qualidade, nããããããão!
P.S.: Terá Cavaco sido "educado para os afectos"? P.P.S.: Bibi e Cavaco na mesma capa? Portugal no seu melhor? Estaremos todos quimicamente castrados? Obrigado, Sábado, que seria de nós sem ti?
Vezes em conta, em debates sobre educação sexual, oiço isto: "o que queremos mesmo é uma educação dos (ou para) os afectos". Não percebo, confesso. É assim como se também a educação física pudesse ser uma educação para os afectos e depois cada um fazia desportos sozinho.Gostava de fazer a genealogia da expressão. Donde vem? De alguma escola ou autor de alguma psicologia? De alguma escola ou autor de alguma ciência da educação? Ou será que - tremo - vem de uma igreja? A expressão contaminou muita gente, da "direita" à "esquerda". E o que parece querer dizer é que não há uma coisa chamada sexo e sexualidade, mas sim uma nebulosa chamada "afectos". Isto obscurece mais do que clarifica. Propicia os eufemismos. Evita falar de sexo. Perpetua os tabus. Afectos há muitos, milhares, milhões. Pelos pais, pelos amigos, pleos colegas, pelos namorados, pela humanidade, pelos animais... O sexo e a sexualidade podem ser uma expressão de afecto. Mas nem sempre o são. Nem têm que o ser.
A melhor coisa que me aconteceu aí pelos 12, 13 anos, foi o meu irmão mais velho ter-me oferecido um livro de educação sexual que continha três coisas: uma explicação biológica da maturação e funcionamento sexuais no sentido estrito; uma sistematização do sexo, apresentada na base do prazer e do bem-estar; e, claro, um lado ético sobre a autonomia das pessoas e sobre a normalidade das variações sexuais. Nada me fez tão bem como isso. Os afectos já os havia descoberto e ainda hoje descubro, nas relações de todos os dias com as pessoas de todos os dias.
Vasco Pulido Valente escrevia hoje sobre como a ICAR não influencia verdadeiramente ninguém. Até certo ponto tem razão. Mas só no que diz respeito à discrepância entre dizer-se católico e aquilo que se faz. Exemplo típico: ir à missa e, mesmo assim, fazer um aborto. (Devo dizer que nem sequer acho isto uma hipocrisia; é apenas sinal de como a religião é outra coisa hoje em dia; ou se calhar sempre). Mas há um outro nível em que a ideia da pouco influência da ICAR não se aplica: é que quando se pergunta a essa mesma pessoa (do exemplo) o que ela acha sobre o que os outros devem fazer, aí a influência é aceite e transformada em dogma. Por exemplo: votar contra o aborto num referendo. A palavra que normalmente se usa para descrever esta situação é moralismo.
Isto faz-me pensar num outro mistério que me persegue: você é homossexual assumido e vai à TV falar dos direitos de gays e lésbicas. Alguns espectadores telefonam e dizem coisas do género "eu não tenho nada contra os homossexuais, eu respeito-os, mas eu acho que é uma doença". O à-vontade com que dizem isto revela que nem têm consciência de quanto o estão a insultar (você é, disse que é, um homossexual). A única explicação para isto é que muita gente faz uma distinção radical entre casos (pessoas) concretos e o conceito geral de "homossexualidade".
Como era de esperar, alguns comentadores não perderam a oportunidade para turvar a distinção entre homossexualidade e "pedofilia", a propósito da decisão do Vaticano em excluir homossexuais do sacerdócio. Como também era de esperar, muita gente usou, como suposto contra-argumento, a ideia feita de que há muitos homossexuais armariados que escolhem o sacerdócio. Tudo isto é muito turvo, repito, e deveria ser esclarecido.
Um dos efeitos de homofobia interiorizada é ficar no armário. Mas não só, que isso pode ser simples escolha. Há uma homofobia interiorizada que leva a ficar no armário sentindo verdadeira culpa; esse sentimento de culpa e pecado existe sobretudo se essa internalização da homofobia acontecer no quadro da internalização de um certo tipo de catolicismo. Nenhum homossexual homofóbico vai para padre só por o ser. É preciso que seja católico à partida, isto é, que tenha uma mentalidade e valores estruturados em torno dum certo tipo de catolicismo.
(Quanto à pedofilia - que afecta tanto padres homo como heterossexuais - apenas uma pergunta: qual a relação entre a formação de um desejo erótico por crianças, e uma cultura - nomeadamente católica - que discursa e representa sistematicamente a criança como pura, angelical e exemplar?)
Confesso que me espanta a excitação que tomou hoje conta dos media portugueses a propósito de mais uma declaração homofóbica do Vaticano. Ele é Fórum da TSF, primeiras páginas das edições online dos jornais e, mais logo, um Opinião Pública da SIC-Notícias. Não compreendo porque é dado mais destaque a um assunto duma igreja do que a assuntos que nós, enquanto cidadãos duma república democrática, dum estado de direito e laico, podemos efectivamente resolver. Explico-me: enquanto república podemos de facto tomar decisões no sentido de mais (ou menos) igualdade, alargando (ou restringindo) todos os direitos a toda a gente; mas já não o podemos fazer em relação aos preceitos internos duma organização religiosa (ainda que eu ache que há limites: como é possível uma organização religiosa ir contra a Constituição? Não é por isso mesmo que não se admitem organizações que promovam, na base de preceitos religiosos, a mutilação genital feminina?).
O resultado disto é que se dá mais atenção a um comunicado homofóbico do Vaticano, do que a uma proposta concreta de evolução da nossa democracia, como o foi a discussão há dias do alargamento do casamento civil a pessoas do mesmo sexo. Só resta a esperança de tanta atenção à ICAR poder resultar em denúncia das suas atitudes retrógradas.
É claro que não sou ingénuo: a maioria dos portugueses dizem-se católicos; e a ICAR tem efectiva influência sobre as mentalidades. Mas é preciso cuidado: não tornemos isso numa self-fulfilling prophecy, em que de repente contribuimos para a ICAR ter ainda mais influência, para mais legitimando-a (como se a ICAR fosse uma sede de decisão em relação aos direitos. Não é. O estado de direito sim).
A palavra lobby - que Carreira das Neves usou hoje para se referir aos gays - anda a ser mal usada em Portugal. Lobby é simplesmente "grupo de pressão". Existem lobbies absolutamente legais e assumidos nos Estados Unidos e, sim, em Bruxelas. O verdadeiro lobby gay em Portugal são associações, perfeitamente legais, que defendem os direitos de gays e lésbicas perante uma sociedade que @s discrimina. Tem a influência que tem (pouca), marcada pela desvantagem de representar uma minoria. A ICAR é igualmente um lobby - e também legal, graças à liberdade religiosa que todos defendemos - só que infinitamente mais poderoso (pela História, pelos recursos e pelo número de "sócios"), com a característica de, no respeitante aos assuntos em causa, promover sistematicamente a limitação e repressão de direito e liberdades - desde logo das mulheres e dos gays e lésbicas.
As reivindicações e propostas do movimento gay e lésbico respeitam ao universo civil e não ao religioso. Pretendem acrescentar liberdades e direitos e não cerceá-los; pretendem dignificar mais gente, sem retirar dignidade a ninguém. As reacções da ICAR, pelo contrário (e mesmo que tecnicamente as suas decisões se apliquem só à sua organização) vão no sentido da repressão e do cerceamento de liberdades e direitos. Pretendem manter muita gente na indignidade e promovem essa indignidade. Será que não dá para entender isto?
Quando eu estava no liceu nos EUA, nos idos dos setentas, já havia substitute teachers. Ocupávamos o nosso "furo" ou adiantando trabalhos de casa ou conversando sobre o que tínhamos aprendido nas aulas quando o substituto não era daquela especialidade. Eficaz. No big deal. Confesso que não percebo o estardalhaço em torno desta questão. Assim como não percebo o crescente isolamento e autofagia do sindicalismo docente português. Como eu já suspeitava quando o governo foi formado, Maria de Lurdes Rodrigues está a fazer um trabalho decente, a julgar pelos argumentos publicamente debatidos. Pelo menos na retórica, os professores do secundário estão a perder em toda a linha.
Há uma igreja - a Católica Apostólica Romana - que só aceita homens como sacerdotes; que exige desses homens o celibato; e que considera a homossexualidade uma perturbação. Essa mesma igreja vem agora dizer que ninguém suspeito de homossexualidade pode ser sacerdote. Até certo ponto é lá com eles. Deixa de o ser quando e se promover publicamente a estigmatização dos cidadãos e cidadãs homossexuais dos países onde se instalou. E quando o contexto conota inevitavelmente esta iniciativa com uma suposta repressão do abuso sexual de menores por padres católicos, promovendo assim a ligação indevida entre homossexualidade e "pedofilia".
Porque é tão fácil para os poderes instituídos criticar seitas evangélicas e fundamentalismos islâmicos - dizendo que há neles atitudes inadmissíveis pela nossa cultura e democracia - e é tão difícil abrir a boca face a isto? Não será também inadmissível na nossa cultura e democracia que uma associação discrimine as pessoas em função do seu sexo e orientação sexual?
1. O Fórum do Casamento ultrapassou as expectativas. Estiveram presentes pessoas "gradas" das ciências sociais em Portugal que, não trabalhando directamente sobre o assunto, perceberam claramente quanto ele ajuda a perceber melhor os desafios contemporâneos das CS na área do parentesco, família, género e similares; estiveram presentes pessoas da área do Direito, o que permitiu um raro diálogo entre áreas infelizmente demasiado afastadas. O facto de o Centro de Estudos de Antropologia Social do ISCTE e a Associação ILGA-Portugal se terem juntado nesta iniciativa augura muito de bom sobre a necessária relação entre ciência e sociedade. Quanto às ausências - académicas dentro da área (e da "casa"), partidárias, associativas? - cada um sabe de si.
2. É com iniciativas destas que também se faz a relação entre universidade e comunidade. E o ISCTE, ao albergar esta iniciativa, cumpriu o seu dever como universidade pública. Bem menos felizes são os pequenos comentários e indirectas que se vão ouvindo - ou de que se vai ouvindo falar. Há uma pequena, subterrânea e torpe homofobiazinha que permeia até os meios que se consideram liberais, progressistas e de pensamento livre. Há medos e fantasmas sobre o "prestígio", sobre o efeito nas "carreiras", etc. Como sempre, não tenho pachorra e a caravana vai alegremente seguindo. A pobre gente sofre muito com vários medos de ridículo e vergonhas sociais - e eu não tenho estofo nem de psicanalista nem de padre para as "compreender".
3. Algo de semelhante, aliás, com a imprensa. As revistas cor-de-rosa estiveram presentes na entrega dos prémios Arco-Íris pela Associação ILGA-Portugal. Porquê? Não para verem o actor da novela da TVI ou os The Gift, mas para fotografarem a jornalista Fernanda Câncio, não enquanto jornalista, mas enquanto suposta namorada do primeiro-ministro. A homofobiazinha reinante acha que isso da sexualidade deve ser mantido no "privado"; já não acha o mesmo quanto às relações amorosas heterossexuais, claro... Assim como uma mulher profissional e com consciência cívica é menos importante do que o homem com quem eventualmente namore.
4. No regresso do Uruguai e Argentina, percebi que o incidente do Beijo de Gaia (assim poderia ficar conhecido para a história), deu pano para mangas. Houve coisas boas, por exemplo a reacção do presidente das Associações de Pais, absolutamente digna, moderna e democrática. Mas houve coisas como a prosa de Miguel Sousa Tavares - sobre o assunto e sobre o artº 175 do Código Penal. Que dizer? A partir de um certo ponto, ou as pessoas são francamente burras ou fazem-se burras para dizerem por outras palavras o que não se atrevem a dizer directamente. MST é apenas mais um afloramento duma espécie de desejo subterrâneo que percorre tanto os que "mandam bocas" numa universidade, como as revistas cor-de-rosa; tanto os que não têm paciência para as reivindicações LGBT, como os que não têm paciência para as "questões de mulheres" (e é comum as duas impaciências irem juntas): o desejo de que tudo "torne a ser como dantes", em que não era preciso estar consciente da existência de formas de exclusão e marginalização que não as impossíveis de não ver (como a pobreza), em que o mundo pertencia aos homens hetero e o resto eram assuntos "privados" ou coisas em que "não se metia a colher". Era um mundo mais fácil, mais tranquilo, sem vigilância da linguagem, sem gente a dizer que se sente insultada pelas opiniões dos "meninos" e dos "senhores doutores". Era um mundo pacífico - para os poucos privilegiados por essa paz podre. Bem, tirem os cavalinhos (os burrinhos?) da chuva: o mundo mudou.
Gracas à iniciativa dos meus colegas brasileiros nesta Reuniao de Antropologia do Mercosul, a minha comunicacao sobre casamento entre pessoas do mesmo sexo acabou por ter algum destaque, numa sessao maior e mais "nobre" do que estava previsto. Um dos resultados ee que podemos agora dar inicio a uma rede iberoamericana de cientistas sociais que estudam o assunto. De resto, tem sido mais ou menos impossivel passear por Montevideo - trabalho ee trabalho e o "turismo academico" nao ee tao facil de fazer quanto se julga. Parto hoje para Buenos Aires, para dois dias finais. Talvez de la - ou ja so de Lisboa - possa fazer um balanco desta incursao rapida pelo Cone Sul.
Um balanco (assim, sem cedilha) do Fórum do Casamento ainda vai ter que esperar (mas adianto já: muito bom). Estou em Montevideu, Uruguai, acabado de chegar e ainda a "cheirar" este estranho ar de Europa transplantada para a América.
As esquerdas não conseguiram - ou não quiseram, ou não puderam - encontrar um candidato único. A ter havido, deveria ter sido alguém vindo de fora dos aparelhos partidários, de modo a ultrapassar divergências e a estabelecer uma plataforma mobilizadora. Não aconteceu e provavelmente não é possível no actual estado da política e da esquerda. De qualquer modo, uma tal candidatura estaria sempre marcada pela ideia defensiva de oposição a Cavaco, mais do que por qualquer ideia propositiva e crítica sobre o estado da democracia portuguesa. A atracção por um imaginário passado "antes do descalabro" - a magistratura de influência de Soares ou o "republicanismo" de Alegre - parece-me, infelizmente, uma reacção simétrica à atracção, sentida pela direita, por um passado cavaquista pré-Santanas Lopes.
É neste quadro que os partidos mais pequenos da esquerda optaram por apresentar candidaturas próprias. Não percebo porque causa tanto furor a ideia de que possam estar a "medir forças" ou a quererem ocupar "espaço mediático". Não é isso mesmo a política? A responsabilidade por uma eventual vitória de Cavaco dever-se-á a todos os candidatos da esquerda e, sobretudo, aos eleitores. Não é isso mesmo a democracia? Interessa-me, isso sim, que nas eleições presidenciais haja candidatos que apresentem a sua visão do mundo, do estado da democracia portuguesa, e do que gostariam de ver acontecer para que a República seja sustentável. Com opções claras, e não com platitudes. As eleições presidenciais são um terreno excelente para isso: trata-se do único cargo unipessoal e, mesmo quando apoiadas claramente por partidos, as candidaturas são as candidaturas daquelas pessoas, dos seus percursos e da sua maneira de pensar e ver a sociedade.
Muitas pessoas poderão estranhar que apoie a candidatura de Francisco Louçã. As minhas críticas e hesitações em relação a várias posições do Bloco poderiam indiciar outras opções. Não apoio Louçã por disciplina partidária. Os partidos não são nem devem ser igrejas, não são nem devem ser grupos de amigos geridos pela lealdade absoluta. E no caso do Bloco, exijo sempre que se cumpra o proclamado pluralismo e democracia interna. As minhas hesitações e quezílias têm mais a ver com um problema de mim comigo próprio - a questão de estar ou não num partido, e que é de uma ordem diferente do apoiar ou não uma candidatura presidencial. Acho simplesmente que a forma que Louçã tem de ver o estado da democracia e da República portuguesas é fundamentalmente justa e correcta; e que é necessário que seja ouvida; e que isso se mede em força e votos. É preciso que alguém fale do que se quer para o país, para lá do cerrar fileiras contra Cavaco e para lá de atitudes de refúgio em discursos vagos mas essencialmente coniventes com a forma como o país tem sido gerido.
O que mais gosto nas eleições presidenciais é o carácter simbólico de se estar a escolher uma figura que, por ser o ponto cimeiro da hierarquia política, possa representar a nossa visão do mundo e o nosso ideal de país (apesar de não ser possível, em nenhum caso, a concordância total e absoluta com tudo o que um candidato diga ou proponha). Quero que Louçã seja ouvido e seja votado. Desejo que mais pessoas se reconheçam na mistura entre um pensamento coerente e sustentado, por um lado, e a rebeldia, pelo outro. Entre a cedilha e o til. Sinais diacríticos que fazem toda a diferença.
É uma carrinha Ford Transit, com um escadote no tejadilho. Na porta traseira, anuncia tratar-se da carrinha da empresa "Marcial Multiserviços". Arranjos de canalização, desentupimentos, electricidade, tudo. O vidro traseiro está completamente tapado por uma bandeira brasileira, proclamando a divisa positivista "Ordem e Progresso". Ao lado do dístico com o nome da empresa (e do número de "tlm", a abreviatura portuguesa para telemóvel), um peixe estilizado. Símbolo inconfundível dos cristãos evangélicos. Pense-se o que se pensar, o evangelismo no Brasil e na América Latina estimulou o famoso "empreendedorismo" e uma ética que alia puritanismo e trabalho. Migrada agora através dos muitos Marciais.
À noite ainda espreito, por uns penosos 10 minutos (e antes de mergulhar num Martin Cruz Smith passado em Chernobyl) um "Prós e Contras" (sim, da televisão pública) sobre uma iniciativa de evangelização da ICAR. Penoso também - se não fosse assustador - ver como Fátima Campos Ferreira manifesta subserviência a José Policarpo. Subserviência, não mera boa educação; como, aliás, também aconteceu numa entrevista de Maria João Avilez ao mesmo dirigente da ICAR - na qual conseguiu vender a ideia de que somos todos necessariamente católicos, graças a demonstrar-se ela mesma, de forma não confessional ou reflexiva, católica.
Seja como for: um, o senhor Marcial, evangeliza através da microempresa, o outro, o cardeal Policarpo, através dos media do Estado.
Um homem (agora diz-se, ao que parece, "rapaz" ou "jovem") de 21 anos estava acusado de 60 situações de condução sem carta. Sessenta. Teve pena suspensa e pagará umas multazitas, ou lá como se diz. Nas TVs vê-se toda a gente satisfeita. "Rapaz" e mãe e advogados e amigos são unânimes: não é um criminoso, não matou nem violou. O advogado acrescenta que o juiz local é do mais humano que há e que guiar sem carta não deveria ser crime. Já pôs a circular um abaixo-assinado para mudar a coisa. Vê-se ainda os amigos do "rapaz" saltando e gritando de alegria, cantando aquelas coisas tipo "olé, olé, não-sei-quê" que se usam desde que foram reinventadas as praxes. Um deles (provavelmente um menor - agora diz-se "criança", mesmo passada a puberdade - mas com pergaminhos de sabedorias várias no olhar...) grita: "Prendam mas é os pedófilos".
Tudo está bem quando acaba bem. Durmamos em paz. Guiemos os nossos carros sem carta - que "lá fora" incendeiam-nos.
Cultura, multiculturalismo e outras palavras perigosas.
Pelas razões mais diversas, tornou-se comum nos últimos tempos fazer do "multiculturalismo" o bombo da festa. Como por acaso até dirijo um curso de mestrado em antropologia com a designação temática "Multiculturalismo e Identidades", talvez convenha explicar brevemente onde me posiciono. Para mim, "multiculturalismo" não é um programa ou projecto político (é-o para outros, claro). Vejo o-que-cabe-debaixo-da-designação de "multiculturalismo" como um "facto". Um facto da realidade social que merece ser estudado e que inclui, logicamente, as representações sobre... multiculturalismo. Esse facto tem muitas variações e nuances, normalmente ligadas às diferentes histórias de estados-nação, experiências coloniais e situações migratórias. É esta variedade e variação que permite um estudo antropológico comparativo. O "facto multicultural" pode resumir-se, de forma algo simplista, a isto: as sociedades euro-americanas (e já não só) funcionam na base dum conceito antropológico de cultura que dá azo a ideias de... multiculturalismo, isto é, várias culturas convivendo (bem ou mal) num determinado espaço e tempo. Acontece que esse conceito de cultura é errado. É um conceito que define a cultura como um objecto (uma "coisa"), propriedade de uma população, normalmente vista como uma extensa parentela, supostamente ancorada num tempo longo, idealmente ligada a um território e com aspirações de autonomia política unicultural.
Não se percebe a factualidade do "multiculturalismo" sem se perceber a construção política e ideológica do conceito de "cultura" que lhe subjaz. E não se pode propor nenhuma forma de cosmopolitismo, de diversidade, de igualdade de direitos e de respeito pelo indivíduo se se deitar fora, por wishful thinking, a realidade contemporânea de as sociedades se organizarem em torno daquela noção de cultura. Temos que propor - e demonstrar, pela etnografia e pela teoria - que "cultura" é, sim, um processo, uma negociação, um conflito em torno dos significados que orientam vidas colectivas; só assim se pode ter as bases para despoletar uma política da liberdade e da igualdade que, entre outras coisas, deverá ter como efeito a libertação (estranha palavra, bem sei) das pessoas das amarras da cultura-enquanto-hegemonia.
PS soberbo: é claro que as coisas de "cultura" dizem respeito a todos nós e estão imbricadas na política. Mas não deixa de ser curioso o à vontade com que muitos mediáticos emitem juízos ligeiros sobre estes assuntos, ao passo que correm em busca de especialistas se tiverem que escrever sobre o genoma humano ou a tectónica das placas.
Algumas (obviamente seleccionadas) frases do Manifesto de Manuel Alegre:
«Em comum temos uma Pátria antiga que há novecentos anos é o lugar geográfico, histórico e afectivo da nossa identidade individual e colectiva»; «Temos que voltar a dizer com orgulho a palavra Pátria e dar-lhe um sentido de modernidade e de futuro.»; «É essa também a função do Presidente da República: dar à representação externa a dimensão patriótica da História, da cultura e da língua portuguesa, porque essa foi, é e continua a ser a nossa riqueza principal.»; «Portugal é um velho país cuja força principal sempre residiu na alma do seu povo. Um povo que não se fechou nas suas fronteiras e de certo modo ensinou o mundo a não ter medo do mar. Um povo que foi precursor do renascimento europeu e pioneiro do espírito universalista. Um povo assim não pode perder a confiança em si mesmo e no futuro do seu país. Precisa talvez de novas elites que estejam à altura da sua História e do seu destino. Precisa que o discurso volte a ser inspirador da acção e do risco. Precisa que a política seja de novo uma causa nobre e faça renascer o fulgor da alma portuguesa.»
Em muitos países do chamado "terceiro mundo" existem ONGs e associações ligadas aos movimentos sociais que têm bastante força. Em parte isso deve-se à escala e gravidade dos problemas sociais que pretendem enfrentar. Mas a sua capacidade de acção deve-se em grande medida ao apoio financeiro e de formação que recebem de fundações e de congéneres de países mais ricos. Nestes, o associativismo ligado ao movimento social e as ONGs têm também bastante força, quer porque o voluntariado tem um forte ancoramento cultural (incluindo religioso...), quer porque o bem-estar económico permitiu já a profissionalização.
Em Portugal, estamos apanhados no meio. Claro que há gente que consegue pôr a mexer ONGs e associações; e é claro que se consegue ir arranjar fundos aqui e ali. E é certo que em tese basta três ou quatro pessoas com tempo e energia para pôr a funcionar em pleno um empreendimento destes. Mas em geral não é assim. O resultado é a vida pública interveniente ficar reduzida a tudo o que funciona à sombra dos dois estados: do propriamente dito, no caso dos partidos políticos; do quase-estado ICAR, no caso do associativismo de raiz católica.
Esta situação tende, além do mais, a criar as condições da sua própria reprodução, com a definição pelos partidos do que é legítimo ou não fazer-se em termos de movimento social, e com o reconhecimento público das iniciativas de raiz católica. Tudo o que esteja fora deste sistema não apanha nem uma nesga de sol para crescer; e quem quer aderir a coisas trabalhosas e pouco aceites?
Deixando de lado a hipótese de esperar por uma mudança social que pode demorar décadas, restam dois caminhos: o incentivo "iluminado" por parte dos poderes públicos e a abnegação de pessoas com consciência da necessidade de se envolverem. Aplique-se isto aos movimentos de consumidores, de vizinhos, de mulheres, de imigrantes, de gays e lésbicas, e perceberão o que estou a querer dizer. O voluntariado está exausto; as comunidades-alvo não aderem e resolvem (resolve cada um...) os problemas a la portoghese; e os poderes públicos assobiam para o ar, com receio do que possam pensar os sacerdotes - os de facto, e os "republicanos".
Primeiro foi o adiamento do referendo sobre o aborto e a recusa em alterar a lei no Parlamento (a que se seguirá o triunfo do sector católico do PS propondo a moratória nos processos judiciais de mulheres acusadas, fazendo assim a cama para uma crescente deslegitimação da necessidade de alterar a lei...); depois foram os projectos-lei relativos à procriação medicamente assistida, sendo que nenhum consegue sequer chegar aos calcanhares da lei espanhola de 1988(!!!); agora foi o relatório do grupo de trabalho sobre educação sexual, que basicamente vem dizer que não vale a pena fazer nada, a não ser que se entenda por sexualidade o controlo das gravidezes adolescentes e das DST através da vigilância médica; e quanto ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, o tema entra por um ouvido, é triturado pela santa inquisição mental, e sai pelo outro directo para o dossier que diz "Obras de Santa Engrácia", essa nobre instituição portuguesa do empastelamento, da cobardia e do cheiro a mofo.
Percebemos agora todos o que se passa: o "aflitismo" (ou, se quiserem, o "medo de existir" de José Gil) faz com que em Portugal não haja, nem à esquerda, política sexual; não há "tomates" (nem "ovários"); há uma política de gónadas atrofiadas, uma politicazinha sexual.
José Manuel Fernandes - que, como todos os directores de jornais, emite juízos sobre tudo e mais alguma coisa, sem ser especialista em nada - acha que a violência dos últimos dias num subúrbio de Paris resulta da aplicação de ideias "politicamente correctas" à questão da imigração e à não promoção dos valores de cidadania que assegurariam a "integração". Acontece que a França é justamente o país (lembrem-se do caso do véu) onde há mais recusa da aceitação de lógicas que não sejam a do universalismo republicano. Afinal como é? É assim: o famigerado universalismo republicano à francesa pouco mais é do que uma retórica nacionalista (o universalismo republicano é a ideia de França, não é universal), equivalente local da retórica portuguesa da tolerância e do não-racismo do "secular encontro de culturas". Ambos servem para que os que se consideram "de dentro" se sintam bem consigo mesmos; de pouco servem para lidar com a sociedade em transformação e diversificação. Infelizmente. E em ambos os contextos - assim como nos que aplicam as mais variadas sortes de "multiculturalismo" - o problema repete-se e raramente é apenas um problema de discurso sobre a diversidade cultural: é, em grande medida, um problema de emprego, alojamento em guetos e perpetuação da desigualdade (agravada pela contradição flagrante com retóricas da diversidade). Não se trata de "desculpar" a violência (era o que mais faltava). Trata-se de de perceber que nunca alguém se sentirá semelhante se não perceber que pode também ser igual (em direitos, oportunidades e, então sim, deveres).
Pede-se material audiovisual para uma aula aos serviços competentes. Marca-se hora e sítio. Dizem que sim. Telefona-se segunda vez, para confirmar. E assim é: confirmam. Chega o dia e a hora marcados e... nada. Passa-se uma vergonha com os convidados que haviam pedido o material audiovisual para a sua apresentação.
A hora mudou há cinco dias. Todos os relógios públicos do sítio continuam na hora antiga. Ninguém acha estranho.
Não percebo como é possível falar da necessidade de grandes reformas, quando ninguém parece ser capaz de fazer as pequenas: cumprir um compromisso simples; mudar as horas nos relógios.
PS: Postar num blog pessoal queixas sobre a instituição onde se trabalha é em si mesmo sintoma da relativa inutilidade de fazer queixas dentro duma instituição. É por estas e por outras que nunca percebi a ideia de "vestir a camisola" ou de "lealdade" institucional ou empresarial. A minha "camisola" e a minha "lealdade" vão para a auto-exigência de qualidade no trabalho científico que faça e vão para os meus alunos, não faltando às aulas, preparando-as e dando o meu melhor em termos de ensino. Não vão para uma entidade abstracta.
A proposta do grupo de trabalho para a educação sexual mostra bem o que é o estado deste país. Começa pela composição do próprio grupo: psiquiatras, ginecologistas, psicólogos surgem como os especialistas em sexualidade. Isto é, a medicalização da mesma continua alegremente no século XXI como se estivessemos no século XIX. Pedagogos? Cientistas Sociais? Grupos ligados aos direitos sexuais? Qual quê! Essa gente "suja" a limpeza "biológica" da sexualidade...
(Parênteses: ...e retira os privilégios de estatuto e casta de uma certa classe médica que se assume como o corpo sacerdotal da secularidade; despromovidos os juristas em virtude do mau funcionamento da Justiça, o que se quer é médicos como mandatários, comentadores políticos e sociais, escritores; economistas à parte - que servem para interpretar os códigos da moderna Bíblia do Mercado - os médicos são chamados a gerir a teologia da Bio-sociedade, da ideologia da genética, do medo do risco e da contaminação).
Mas mais graves são as propostas. A educação sexual passaria a ser parte de uma "educação para a saúde" vista em termos de prevenção de riscos e em que tabagismo e toxicodependência são postos no mesmo plano que a gravidez indesejada ou as DST. Esta gestão do risco e do medo ficaria ainda ligada a centros de saúde locais e, é claro, seriam os estudantes das áreas universitárias biomédicas os recrutados como monitores. Podem ter deixado, por exemplo, de considerar a homossexualidade como doença (e a julgar pelas barbaridades disfarçadas de platitude que tenho ouvido a Daniel Sampaio, nem disso estou certo...), mas não deixaram de considerar a sexualidade como um campo clínico.
Por fim, o método, a ideia de transversalidade (isto é, não haver uma cadeira de educação sexual): erro crasso. Significa não reconhecer que, estando o ensino organizado em cadeiras, estas dignificam e tornam real o assunto de que tratam. A transversalidade parece bonita, dinâmica e modernaça mas, no nosso sistema, significa uma de duas coisas: ou o desaparecimento rápido do tema nas escolas, ou a sua remissão quase total para as mãos do universo biomédico. Nada impede que uma cadeira de educação sexual seja, ela sim, ponto de encontro de transversalidades, onde se encontrem os aspectos médicos, históricos, sociais, psicológicos e culturais da sexualidade.
Citando um texto de 1936 do antropólogo Ralph Linton, Marshall Sahlins (um dos meus antropólogos vivos favoritos) diz o seguinte em "What is Anthropological Enlightenment?..." de 1999 (disponível aqui via b-on):
«After breakfast our good man settles down to read the news of the day "imprinted in characters invented by the ancient Semites upon a material invented in China by a process invented in Germany. As he absorbs the accounts of foreign troubles he will, if he is a good conservative citizen, thank a Hebrew deity in an Indo-European tongue that he is 100 percent American" (Linton R. 1936. The Study of Man. New York: Appleton-Century, p 329)
Uma adaptação para português poderia dar nisto:
Durante o pequeno-almoço no café (produto oriundo das regiões tropicais) o nosso homem lê as notícias do dia, impressas em caracteres inventados pelos antigos semitas, sobre um material inventado na China, e através dum processo inventado na Alemanha. À medida que vai lendo os relatos de atrocidades em paragens remotas, e se for um homem conservador, vai - através duma língua indo-europeia trazida pelos colonizadores romanos - dando graças a uma divindade hebraica pelo facto de viver neste cantinho à beira-mar plantado onde, outrora, viviam muçulmanos que ainda não sabiam o que era o fundamentalismo.
Folheando a Zero. De repente, no suplemento de moda, dou com este anúncio da Ra-Re. Qualquer coisa despoleta qualquer coisa. Não, não é "isso"... Mas sim a sensação boa de descobrir uma representação da gayness que não me remeta para um pesadelo normativo - para as imagens autorizadas da gayness hegemónica. Que não me faça dizer aquela terrível frase: "É claro que sou gay, mas o que é que tenho a ver com isto?" Com este anúncio sinto ter qualquer coisa "a ver". Certamente que a idade é um factor. Mas não é o único. O casal? Os sorrisos? A ternura e a brincadeira juntas? O à-vontade? Cada qual e todos: uma imagem de felicidade diurna e não de aflição e dureza nocturnas.