Participei activamente na última campanha (durante o último governo PSD-PP) pela convocação dum novo referendo sobre a IVG. Parecia-me então que essa era a melhor estratégia para trazer o assunto à praça pública e a única com eficácia política durante o reinado da direita. Hoje inclino-me mais para defender a tese da alteração legislativa no Parlamento pela maioria de esquerda. Percebo que PS e Bloco tenham que manter a coerência nas suas posições, sobretudo o primeiro, que prometeu novo referendo na campanha eleitoral. Mas será que a manteve em tantas outras áreas, começando pelos impostos? É também certo que a direita aproveitaria, mais tarde ou mais cedo, uma alteração legislativa no Parlamento para exigir um novo referendo. Espero que o PS e o Bloco estejam seguros de que a estratégia do referendo corresponde a uma noção de que as pessoas votarão maioritariamente pela despenalização - conseguindo-se assim sanar o impasse do outro referendo, não vinculativo pela fraca afluência às urnas. Mas lá que é frustrante é: ver uma maioria absoluta de esquerda não alterar duma vez por todas esta maldita lei e, ainda por cima, ter de aturar as hesitações presidenciais. Espero que tudo isto não prolongue este penoso andar de aborto em aborto da despenalização.
Provavelmente os jornais gratuitos, como o Metro e o Destak já estarão a ter tanta influência na opinião pública como o telejornal da TVI. Hoje pego no primeiro e deparo com o título "Nascimentos no mínimo". Vai-se a ver e a "notícia" mais não é do que o aproveitamento de uma nota de imprensa da Associação Portuguesa de Famílias Numerosas. Nem falemos na qualidade do "jornalismo". Perguntemo-nos, antes, porque há-de a APFN estar preocupada com a diminuição do índice de fecundidade ou da taxa de natalidade, em vez de se restringir à defesa dos seus interesses? A resposta é simples: a APFN é uma das muitas máscaras do movimento neo-conservador inspirado pela ICAR. O que eles estão a dizer é que o Estado deve incentivar "as famílias" a terem mais filhos (dizem-no mesmo, actually).
Espero que os movimentos de mulheres percebam o que está a passar-se: pressões no sentido de terem mais filhos significa necessariamente pressões no sentido de ficarem em casa - porque nem o Estado social (o português...) é suficientemente forte para sustentar períodos longos de licença de maternidade com regresso garantido ao emprego, nem as relações de género mudaram o suficiente para permitir pensar que tanto homens como mulheres ficariam a tomar conta dessas crianças. Mas a coisa não fica por aqui. Umas páginas à frente, pode ler-se que Correia de Campos quer ver as mães a amamentarem durante seis meses. Amanhã aparecerão com certeza certos psis de serviço a cronicar sobre a importância das stay-at-home moms para o desenvolvimento dos petizes - sem nunca falarem sequer de como pode haver mais e melhores infantários.
Toda a gente conhece a h(H)istória: uma crise de emprego e são as mulheres as primeiras a serem recambiadas para casa. Normalmente conseguindo até convencê-las de que isso é o melhor para os filhos - que entretanto foram incentivadas a ter - e que lá reencontrarão a sua verdadeira natureza.
PS: No Público José Vítor Malheiros chama a atenção para os números: mais de 15.000 crianças em instituições. E para como um dos problemas no mundo da adopção está no facto de os juízes insistirem tanto na família "biológica" (conceito que não quer dizer absolutamente nada: a consanguinidade é, em termos de relações entre pessoas, parentalidade, família, etc., apenas o que dela quisermos fazer...). Só falat mesmo dizer que, caso as mães das 15.000 crianças tivessem ficado em casa nada "disto" teria acontecido.
daqui Corre-se daqui para ali em frenesi de segunda-feira. Apaga-se um fogo e outro no trabalho. Tomam-se notas fantasiosas sobre textos belíssimos que um dia se há-de escrever. Responde-se a mails que chovem tropicalmente e envia-se outros tantos a gente que teima em não responder. Come-se à pressa com uma amiga há muito não vista e morre-se de culpa porque a conversa, moído o almoço, não assentou arraiais na recordação, tal a presssa (assim, com três s, que a pressa em Portugal é lenta e a lentidão é apressada).
Lá surge uma brecha, coisa breve, em que se pensa na pessoa amada. E a revolta por só surgir numa brecha-coisa-breve.
No meio de gatafunhos, chamadecas, notariado e converseta, uma brecha mais cinzenta, aberta por uma quase-crise da mãe. Já não tenho pai e a mãe está a entrar de rompante na velhice-mesmo. E não se pode tratar da velhice dos outros com(o) um apontamento, uma chamada telefónica, um e-mail. E não se pode pensar na velhice alheia sem pensar na velhice-to-be própria.
E depois, bem, depois, há uma criatura, uma só no meio de centenas e do monóxido de carbono duma cidade feia-que-insistem-em-chamar-bonita. Uma mulher, de idade avançada (que deve ser o contrário da idade atrasada) que se encontra na paragem do autocarro com o marido e sorri com uma felicidade impossível.
Reading Lolita in Tehran, da iraniana Azar Nafisi é mais do que um livro sobre a "condição da mulher" no Irão dos aiatolas. É um livro sobre a literatura, as janelas que ela abre, o espaço de respiração que permite. Nafisi vive agora nos EUA, onde é professora de literatura. No Irão passou pelo terror que foi ver a sua vida - e a de toda a gente - reduzida à fantasia de mundo perfeito de uns quantos fanáticos religiosos. É o que acontece quando se tenta transformar utopias em realidades. (Em rigor, é o que acontece quando se tem utopias...). Numa das passagens do livro fiquei boquiaberto perante uma possibilidade que nunca me tinha ocorrido: as jovens iranianas que, em vez de lamentarem a terrível vida das suas mães, invejam-na. Jovens com sede de passado - um passado sem tchador imposto, controlo e humilhações, para não mencionar o pior. O livro, traduzido em português, é simplesmente brilhante, estruturado segundo os autores e livros anglo-saxónicos que Nafisi ia lendo em sua casa com algumas das suas alunas, em autênticas reuniões de clandestinidade.
A propósito deste horrores, a voz mais séria e respeitável continua a ser a de um dos meus poucos heróis - Salman Rushdie (fica ali ao lado, mesmo que um bocadinho abaixo, do Nelson Mandela). Vale a pena lê-lo no DN de 24 de Setembro:
«O islão reformado rejeitaria o dogmatismo conservador e aceitaria, entre outras coisas, que as mulheres são totalmente iguais aos homens e que as pessoas de outras religiões, e sem religião, não são inferiores aos muçulmanos. Perceberia que as diferenças de orientação sexual não devem ser condenadas mas sim aceites como aspectos da natureza humana e que o anti-semitismo não é correcto. Rejeitaria a repressão da liberdade de expressão por parte da ideologia limitada da "ofensa" facilmente sentida e subtituí-la-ia pelo debate genuíno, robusto, em que tudo tem valor e no qual não há ideias proibidas nem áreas interditas.»
Com gente como Nafisi e Rushdie (ou os amigos muçulmanos que fui fazendo ao longo da vida, todos anti-fundamentalistas) a esperança não morre. E com eles não precisamos de aceitar os discursos islamófobos do novo newspeak ocidental.
Uma das minhas alunas de mestrado trabalha num café. Como é americana, isso pareceu-me perfeitamente "normal" (no final do liceu nos EUA fiz todo o meu dinheiro de bolso trabalhando no talho dum supermercado). Depois descobri que uma outra também trabalha num café. Como é brasileira, isso poderia encaixar na categoria de "imigrante". Ambas as afirmações são obviamente estereotipantes. Mas o que importa é o subtexto: "e os meus alunos portugueses?"
É certo que as coisas estão a mudar. Vejo cada vez mais jovens dispostos a trabalhar nem que seja para obter dinheiro de bolso; ou a partilhar casa com outros; ou começando vida autónoma em uniões de facto. Só que ainda não vejo muitos. Para isto concorrem razões sociais e económicas. Mas estas vão junto com disposições culturais do nosso sistema de reprodução social, assente na família e nos conhecimentos obtidos através da mesma (sim, isto é um eufemismo para "cunha"...). A maioria dos jovens ainda vive com os pais; são os pais quem paga os estudos; são os pais quem paga a casa. É fácil perceber qual é o contrato implícito (e que não impede que esta realidade seja vivida por todos como baseada no afecto genuíno): que os filhos sigam vidas pré-formatadas (casamento e não união de facto; hetero e não homossexualidade; etc.); e que a forte ligação familiar se constitua num sistema de segurança social, nomeadamente o cuidado dos pais na velhice pelos filhos.
Muita gente acha tudo isto "normal". Obviamente: é isso a "cultura". Mas a verdade é que isto está longe de ser universal. Sítios há onde os pais não esperam que os filhos venham a tomar conta deles. Por isso investem no planeamento da velhice e da doença; ou dependem de fortes Estados sociais. É justamente nesses contextos que os jovens saem de casa mais cedo e começam a trabalhar para o dinheiro de bolso quando ainda vivem em casa dos pais. Entre nós não só a "cultura dos afectos" é familista e criadora de dependências, como o sistema de classes, estatuto e prestígio faz com que todos esses movimentos de autonomia "pareçam mal".
Tudo muda - e há sinais bons por aí, mesmo no meio de muita precaridade e aflição. Mas tudo é melhor do que a caricatura do jovem pespineta, guiando um BMW a faculdade, onde faz um curso em função dum emprego que de qualquer modo arranjaria através das cunhas familiares, e enquanto espera continuar uma vida de festas na casa que os pais lhe prometeram.
«Na política nacional, o dia foi marcado pelo começo da ronda de consultas presidenciais com os líderes dos dois partidos, com vista à formação do novo governo. O Presidente Avelino Ferreira Torres recebeu Fátima Felgueiras, secretária-geral do Partido Socialista. Segue-se, amanhã, o líder dos social-democratas, Major Valentim Loureiro. E é tudo sobre política nacional; seguimos com o noticiário desportivo»
Parece então que amanhã haverá uma manifestação de "mulheres de militares". Da última vez que soube, também há mulheres militares. Mistério. Não haverá, então, "maridos de militares" amanhã? Cônjuges em geral? (E digo isto sem me aventurar no terreno das orientações sexuais ou do Código Civil no respeitante ao casamento...)
É cada vez mais evidente que as expectativas dos estudantes universitários se dirigem para o emprego que possam obter a seguir à licenciatura. A questão da "saída" é, sem dúvida, a grande questão por eles sentida. É também cada vez mais evidente que a licenciatura é vivida como um prolongamento do ensino secundário (para aqueles que têm expectativas "naturais" de seguirem o ensino superior, claro...): na relação com o conhecimento, os professores, os colegas, etc. O primeiro aspecto constitui uma morte anunciada para muitas áreas das ciências sociais, humanidades e artes. Nunca elas poderão gerar saídas profissionais suficientes, pela sua própria natureza. O segundo aspecto também não ajuda: há conhecimentos que só se adquirem com tempo e, sobretudo, muita leitura, coisas que contradizem a noção da universidade como fast food académico ou um longo recreio.
Só há uma maneira de resolver isto - se se achar, como acho, que as ciências sociais e as humanidades são fundamentais para criar pessoas mais críticas e livres (e se não pensarmos que a solução é refugiarmo-nos num elitismo que recusa olhar o real): é transformar a universidade portuguesa em algo mais próximo do college à americana: sem licenciaturas muito específicas, com liberdade de escolha de cadeiras de várias áreas científicas. Nesse ambiente já as ciências sociais e as humanidades sobreviveriam - e cumpririam melhor a sua tarefa cívica - pois seriam parte integrante da formação de toda a gente. Os alunos agradeceriam porque a universidade se tornaria de facto na continuação do ensino secundário. E a questão da saída profissional ficaria remetida para o nível da pós-graduação para os que quisessem ser especialistas duma área. No caso que me toca, não é racional formar dezenas e dezenas de "antropólogos" (i.e., licenciados em antropologia...) ao longo de 4 anos de especialização disciplinar. Seria bem mais interessante ensinar antropologia a gente de muitas áreas diferentes (garantindo, de passagem, o ameaçado emprego a quem já trabalha no ensino de antropologia...) e, na pós-graduação, formar poucos mas bons antropólogos profissionais e/ou académicos.
Com o processo de Bolonha já caminhamos um pouco nesse sentido - mas de pouco servirá passar de 4 para 3 anos de licenciatura se se continuar com a velha estrutura portuguesa das licenciaturas especializadas numa só área e concebidas para um tempo em que os estudantes universitários eram (ainda mais) uma pequena elite - e uma pequena elite anterior à "juvenilização" dos últimos anos, à crescente dependência dos pais e à crise do emprego.
Parece (no Público, inlinkável) que os ultras estadunidenses estão a interpretar um filme francês sobre pinguins (sucesso nos EUA, desapercebido na UE) como um elogio do casamento, monogamia, "vida" e o costume. Curioso é ver que, mesmo aceitando a tristeza do recurso à "Natureza" para marcar pontos políticos, os pinguins até nem são uma boa escolha. É o que acontece a quem se mete pelos caminhos da irracionalidade comparativa. Em última instância, pode encontrar-se TUDO o que se quiser na dita Natureza.
Apetecia-me dizer bem de alguma coisa... Resgatar algum optimismo sobre o que se passa na nossa sociedade. E até é possível fazê-lo, claro. Por exemplo: ontem fui a um espectáculo da Bomba Suicida, no espaço que antigamente era o Diário Popular. O espectáculo foi fracote - e, curiosamente, não muito diferente dos improvisos underground que já se faziam nos eighties, pelo menos na faculdade onde andei. O que até nem é necessariamente mau sinal - além de mudanças, precisamos de algumas continuidades. Mas interessante mesmo é o facto de haver aquele espaço, onde vários grupos culturais alternativos podem desenvolver actividades fora do cânone (embora o espectáculo tivesse começado com uma queixa sobre a política cultural do Ministério...). Seja como for: em ambientes como aquele, ou nas ruas do Bairro Alto, cada vez se vê mais gente "solta", arejada e bricoleuse. E é sempre um prazer ver raparigas e jovens mulheres que não sentem que têm de andar com os braços cruzados e uma malinha ao ombro. A mesma sensação de transformação tive-a quando analisei curriculos de candidatos a um curso. Embora a amostra fosse enviesada, a verdade é que já se vê muita gente jovem envolvida em projectos voluntários, fazendo muitos cursos práticos, viajando bastante e construindo os seus projectos de vida para lá do mainstream. E disposta a inflectir o rumo da vida.
Pronto, já "disse bem". Agora, ao que interessa (!). Adorei a performance televisiva de Carmona Rodrigues e Carrilho. Carrilho confirma o seu terível carácter público; e Carmona vai revelando a sua engenharia, digamos. A soberba da elite cultural tuga choca com a pespinetice (?) da pequena tecnocracia local. A verdade é que perderam os dois: o que recusou cumprimentar o adversário à saída e o que reagiu apelidando-o de "grande ordinário". Continuem assim, afundando-se na poítica da birra, que nos fazem um favor.
Meia-dúzia de grunhos (e umas poucas de grunhas) com fantasias homoeróticas reprimidas reuniram-se no parque Eduardo VII. Desceram até ao Marquês e fizeram a saudação nazi. É o que normalmente se chama uma actividade de ATL. Como dizia alguém, cresçam e desapareçam.
Agora que os fascistas conseguiram o que queriam - tempo de antena - os sectores democráticos, entre os quais se inclui o movimento LGBT, respondem democraticamente a quem odeia a democracia. Respondem levando avante, sem medo e sem retrocesso, iniciativas há muito agendadas. O Festival de Cinema Gay e Lésbico de Lisboa abriu hoje; nos próximos dias decorre um colóquio de Estudos Gay, Lésbicos e Queer no Instituto Franco-Português; e a Associação ILGA-Portugal lança uma petição pelo casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, a apresentar à Assembleia da República (link para as folhas em breve). Com inteligência, alegria, abrangência, cultura, iniciativa cívica e exigência de mais direitos para quem os não tem e sem tirar direitos a ninguém, respondemos. E os partidos? E você? E vocês? E vocês? Shame on you.
Com que país (e mundo) sonham os fascistas? Com um país com fronteiras fechadas e autosuficiente na economia; com um país em que o Estado corresponde à "Nação" e vice-versa; com um país onde é possível definir quem é um verdadeiro português e quem não é; com um país onde ser português e ser "branco" é a mesma coisa; com um país fechado à imigração e onde ser negro é sinónimo de estrangeiro e estrangeiro é sinónimo de perigo; com um país em que ao Estado e à "Nação" corresponde uma religião, a católica; com um país onde o Estado obriga o capital e o trabalho a "darem as mãos" em corporações; com um país onde a diversidade de convicções políticas é vista como contraditória do "interesse" nacional; com um país onde a família é erigida em célula básica da sociedade (e não os cidadãos, coisa inexistente e perigosa); com um país onde essa família é definida na base da desigualdade de género; com um país onde a principal função social das mulheres é a reprodução e a maternidade; com um país onde as sexualidades não heterossexuais são proibidas; com um país onde o seu sonho é disseminado através da propaganda e a sua contestação vigiada através da censura.
Este mundo - este país - é objectivamente impossível nos dias de hoje. Cada alínea referida é o reverso da realidade social estabelecida no mundo ocidental nas últimas décadas. O sonho fascista só seria concretizável através duma ditadura. O sonho fascista precisa, para tornar-se realidade, do upgrade em pesadelo. Mas poderemos ficar descansados? Não. Porque há hoje (e de formas mais perversas do que o que aconteceu com a eleição de Hitler...) uma outra forma de propagar o sonho fascista: capitalizando a ignorância e o preconceito, porque o sonho fascista mais não é do que a cristalização em programa dos atavismos mais profundos da nossa sociedade e cultura. Pior do que organizações fascistas minoritárias, é a penetração da direita democrática e mesmo do centro por agendas que respondam a sentimentos racistas, xenófobos, sexistas e homofóbicos em tempos de crise. O Estado democrático que se acautele e aja em consonância. E cada um de nós também - começando pela comunicação social - nas pequenas pedagogias que exercemos todos os dias com todo o tipo de gente.
PS: Estava eu a tomar notas mentais para este post quando começo a ouvir, num Forum da TSF sobre o referendo ao aborto, uma sucessão de intervenções de ouvintes que demonstraram exactamente isto. Um susto: ao longo de um quarto de hora não houve uma só intervenção democrática, já para não dizer liberal ou progressista.
Dos fascistas que por aí andam e do que fazer com eles.
(Aviso: nada do que vou dizer é com certeza absoluta. É mais aquilo que costuma chamar-se uma sensibilidade)
Há uns meses atrás, a rede constituída pelo PNR, a FN e as franjas skin, etc., promoveu uma manifestação a propósito do (in)famoso "arrastão". Os media chamaram-lhe um figo e as autoridades ficaram caladinhas. Até hoje não fizeram nada. Vivem no remanso do "pensamento literal": como os fascistas não usam a palavra "fascista" não são fascistas aos olhos da lei que não permite grupos fascistas (uff!)
Reconheço que não é fácil solucionar isto. Não se pode avançar para uma interpretação livre das intenções dos outros. Mas há limites, que são os da defesa da dignidade da democracia. No mínimo. Como cidadão, gostaria de saber se as polícias competentes investigam as actividades desta gente. Sei que o fazem para certos grupos de skins. Porquê? Porque têm indícios de promoção de ideários de ódio e contra a constitucionalidade democrática. Ora, esses indícios são às resmas nos sites ligados/associados ao PNR e FN; são praticamente óbvios no próprio processo de formação desses grupos; são escandalosamente evidentes nas pertenças e frequências dos seus elementos (entre o "partido", a "frente" e bandos de skins e quejandos). Onde está então a investigação? E as ilações a tirar dela?
As mesmas pessoas e grupos que organizaram aquela manifestação, vão organizar outra, claramente homofóbica. E daqui a uns tempos hão-de fazer uma contra as mulheres que abortam, contra os judeus, contra... O Estado, esse, fica calado e quieto. Pelo caminho, sectores mais radicalizados à esquerda - e acredito que sem querer - deixam-se levar por uma lógica perversa que consiste em necessitar dos inimigos e das suas acções para os poderem combater. Pessoalmente, não me agrada (embora não me revolte contra isso ou ache que é errado em absoluto). Mas quero que o Estado investigue e vigie (sim, não sou contra um Estado democrático vigilante), sobretudo manifestações onde os participantes perdem a auto-censura e insultam e ameaçam mesmo (sem artimanhas retóricas) pessoas e grupos que a Constituição proíbe que sejam discriminados. Nas manifs é fácil identificar o incitamento ao ódio, senhores da PJ e do SIS.
Uma coisa o Estado democrático tem pelo menos obrigação de compreender (e por maioria de razão um governo socialista, caramba!): que em situação de crise económica e de acelerada, intensa e extensa mudança social, as pessoas mais desprovidas de sentido crítico aderem mais facilmente a discursos extremistas que usam velhos bodes expiatórios, preconceitos e medos. Há de facto receio de que a extrema-direita possa crescer. Mas tenhamos muito cuidado no modo como contrariamos esse possível crescimento: não resultará mais (nesta fase) a pedagogia do Estado que aponte os fascistas como uma ameaça intolerável, do que um confronto que muita gente entenderia como "uma disputa lá entre eles" (os "pretos" e os racistas, os "paneleiros" e os homofóbicos)?
PS: Se forem os fascistas a tomar em mãos a tarefa de atacar as exigências de igualdade (casamento, adopção, etc), tenho esperança que muita gente perceba que o problema é mais com eles (os fascistas) do que com as exigências de igualdade.
Depois da versão tuga de Queer Eye for the Straight Guy, parece que vai estrear uma coisa chamada Senhora Dona Lady. A ideia: um Big Brother de homens "muito machos" (sic) que vão fazer de mulheres (na SIC). OK. Perguntas: vão engravidar, abortar e ser presos por isso? Vão entrar no mesmo ciclo, por partilharem casa? Vão ter síndrome pré-menstrual? Vão receber menos do que os homens que participam num Big Brother normal? Já agora: sendo supostamente homens hetero "muito machos", terão como fantasia o sexo entre mulheres? Se sim, o facto de se "transformarem em mulheres" fá-las-á ter sexo entre si, que é como quem diz fá-lOs-á ter sexo entre si?
Agora "a sério": o passarinho optimista dentro de mim diz-me que há uma remota possibilidade de as pessoas perceberem como o género é construído (e então muito do que disse acima, baseado em sexo, não faz sentido); como os homens podem ser/fazer de mulheres; de modo semelhante, aliás, ao que fazem muitas mulheres, culturalmente ensinadas a serem verdadeiras... drag queens.
Agora ainda mais a sério: é impressão minha ou anda tudo obcecado com homens e a condição masculina, seus problemas, variações, futuro e maleabilidade? Ou simplesmente a maioria do público de TV é constituída por mulheres hetero?
O "Esquadrão G - Não és homem, não és nada" é apenas mais um programa cretino duma televisão cretina. A única razão porque merece alguma atenção é por ter ser sido propagandeado como programa cujos protagonistas são gay. No deserto da homofobia é razão que baste para despertar interesse. Ontem juntámo-nos uns tantos e umas tantas aqui em casa para ver a estreia da coisa. Confirma-se: é um programa cretino para uma televisão cretina. Embora sem grande drama (não me parece que o programa faça mossa, assim como não contribuirá para a famigerada "mudança de mentalidades"), perpetua estereótipos de género e sexualidade: os homens (hetero) serão broncos insensíveis; as mulheres (hetero) vêem os seus homens como Barbies para vestir; e os gays (homens) gostam de trapos, amaciadores e comidas com nomes franceses. Programa cretino para televisão cretina num sistema de género e sexualidade cretino. Tudo bem. Mas o mais curioso da noite foi isto: nem no programa propriamente dito, nem no stunt publicitário com a presença do Esquadrão no programa de Herman José, logo a seguir, alguma vez se referiu sequer que os rapazes são gay. Isto é, a sua gayness desapareceu depois do anúncio do programa nas últimas semanas. A sua gayness surge apenas confirmada nos sinais exteriores de... gayness - coisa que só pode acontecer se esses sinais forem os de um estereótipo*. Circularidade absoluta. O silêncio foi tal que quase suspeito que fosse combinado.
Bocejo.
*Um estereótipo não é uma imagem horrenda que deve ser combatida em nome de uma imagem belíssima, definida sabe-se lá por quem e com que autoridade. Um estereótipo é apenas uma forma de pobreza. Não de quem o transporta em si, mas sim de quem o promove/incita nos outros. Este é um comentariozito à discussão no R 'n' V.
Notícia cínica: a empresa multinacional (retirar o "multi", já que a sede é na Casa Branca...) Bush, Cheney & Co. já conseguiu contratos para a reconstrução de New Orleans. No curriculum tem lugar de destaque a reconstrução do Iraque. Notícia esperançosa: em 1927 uma catástrofe natural em New Orleans contribuiu para o aumento de apoio popular ao New Deal de Roosevelt.
O debate de ontem no CCGLL foi excelente porque aconteceu e estiveram presentes os cinco maiores partidos. Isto não é, infelizmente, um feito de pouca monta. Quanto ao resto, como estamos longe de uma real integração - nos programas, no discurso e, sim, na afectividade política - de questões como liberdades sexuais, combate à homofobia e inclusão da igualdade total para @s LGBT... Sobretudo, et pour cause, à esquerda. Mesmo o BE, a quem menos se pode apontar a falha, parece remeter para a mobilização cívica a responsabilidade do arranque da proposta de alteração do Código Civil no referente ao casamento - quando sabemos que as alterações legislativas têm um importante papel pedagógico; que é um pouco ilusório esperar por grandes movimentações sociais entre nós; e que isso ainda é mais difícil no campo LGBT, onde é a própria identidade das pessoas que tem que ser exposta. Mas a mobilização, que já começou no Orgulho deste ano, vai crescer não tarda nada: hoje em dia já não é só tendo gente na rua que se torna real uma demanda... Wait and see.
Está disponível o Relatório do Desenvolvimento Humano deste ano, elaborado pelo PNUD. É excelente que estes documentos estejam acessíveis de forma tão fácil. Já não é tão excelente perceber-se que as coisas, em termos humanos, estão a piorar. Da Noruega ao Níger - números 1 e 177 do ranking - as diferenças são abissais.
PS - Nota paroquial e algo obscena no meio de tanta miséria: Portugal em 27º, atrás da Eslovénia, Singapura, Grécia, Israel, Hong Kong e Espanha.
Sacado do espaço sideral num claro gesto de desobediência civil anti-capitalista (!), tive ontem o prazer de ver Brother to Brother. Já fazia falta um filme que abordasse as tensões inerentes a ser negro e gay, sobretudo nos EUA. Para mais, o filme fá-lo convocando a história da produção cultural dos gays negros, focando no o movimento do Harlem Renaissance do início do século XX. Este movimento é trazido para o presente na figura da personagem de um sem-abrigo que um jovem gay negro em crise de identidade descobre ser Bruce Nugent, um dos membros do HR. Com algumas falhas técnicas e narrativas é, apesar disso, um excelente filme (e um excelente documentário escondido).
Actualização séria de post anterior. Dado o facto de ter surgido a candidatura de Soares - o que não invalida ser um sinal da decadência da III República (o que, por sua vez, não deve autorizar nenhuma tentação autoritária ou totalitária...) nem invalida ser um sintoma de pobre comportamento da esquerda, na sua incapacidade (ou do país?) de encontrar um/a candidat@ nova@ e abrangente - é apenas lógico que o PCP e o BE apresentem candidaturas próprias, para marcarem espaço e propostas. E apresentando candidaturas próprias, é bom que sejam os seus dirigentes a dar a cara.
PS: Mas há mais gente. E a democracia só ganharia se mais aparecessem. PPS: As minhas hesitações com as candidaturas à esquerda nada têm a ver com as dissidências manifestadas no Bloco e publicitadas nos jornais deste fim de semana. Os desejos abstractos de convites a candidatos da "área social" (seja lá isso o que for) ou slogans do tipo "nem Cavaco nem Soares", vindos de Helena Carmo ou da área do movimento "Ruptura", relevam dum esquerdismo basista e a la PREC que só fará mal ao Bloco. E nem constituem a verdadeira clivagem (boa, produtiva, convém que se diga) no Bloco, que é entre o que se poderia designar de "revolucionários" e o que se poderia designar de "reformistas"...
«"Estamos e estivemos preparados para contribuir para os esforços dos Estados Unidos para aliviar a crise humanitária em Nova Orleães", sublinhou o responsável europeu (...) Bruxelas poderia ter "actuado mais cedo" se tal tivesse sido requerido pelas autoridades norte-americanas. "Não tivemos sinais positivos dos Estados Unidos de que precisavam ou queriam ajuda até agora"» (notícia no Público sobre o pedido de ajuda dos EUA à UE, feito oficialmente hoje).
PS: Será que os defensores americanos do small government vão pensar duas vezes a partir de agora? Of course not: as vítimas são pretos e white trash. A não ser que o efeito na economia...
«Somos a única candidatura com que a esquerda pode voltar a governar em Lisboa [palermice nº 1, pim!]. Só com a nossa vitória é que a esquerda voltará a governar em Lisboa [palermice nº 2, pam!]», afirmou, acrescentando logo de seguida o desafio directo ao eleitorado potencial da CDU e do Bloco de Esquerda: «Todos os votos à nossa esquerda são na verdade votos na continuidade» [palermice nº 3, pum!]. (Manuel Maria Carrilho, em notícia do Público de hoje). Pensava eu que em filosofia ensinavam a argumentar.
A situação é curiosa. Neste momento, a corrida presidencial é uma corrida entre candidatos de esquerda. Em rigor, Cavaco não é ainda candidato - e sabe-se lá se vai ser... Mas mais curioso ainda é que esta corrida entre candidatos de esquerda, não é uma corrida, mas sim uma aliança de aldeias que distribuem entre si o "mal" (salvo seja). A cada candidato de esquerda, um pedaço da agenda da esquerda; a cada candidato de esquerda, um pedaço do eleitorado de esquerda (e entre o Bloco e o PC a já tradicional disputa dos números). O resultado pode bem ser que o candidato da direita, a ser Cavaco, se veja assim obrigado a ir à segunda volta - na qual então as aldeias da esquerda se juntarão dentro das muralhas reconfortantes do velho senhor feudal e patriarca.
Um furacão, como um tsunami ou um terramoto, é aquilo a que as seguradoras estado-unidenses chamam "um acto de Deus". Mas do mesmo modo que já não se pode falar em "natureza" humana sem ambiente e cultura, tão-pouco se pode falar em "Natureza" sem política. Os desastres naturais e os problemas ecológicos não existem per se - existem sempre em conjugação com a maneira como organizamos a vida colectiva, como prevemos ou não os desastres e como reagimos a eles. A catástrofe de New Orleans está aí para o demonstrar. Poderíamos falar do problema que é deixar crescer uma metrópole abaixo do nível do mar numa zona de tempestades tropicais; poderíamos falar de como esse crescimento se deve à importância da exploração de petróleo na zona e à nossa dependência dum combustível que vai acabar; poderíamos falar de como o planeamento, competência do Estado, cede sistematicamente à especulação. Mas a catástrofe de NO mostra duas coisas mais. A primeira - e nisto as catástrofes são autênticas fotografias em revelação - é a desigualdade: revela a pobreza urbana que grassa nos EUA e, historicamente, no Sul, e as pessoas que ficaram na cidade e que agora estão no desespero total são esmagadoramente negras (e não só por terem enorme peso demográfico no Louisiana). A catástrofe revela a justaposição entre pobreza e "raça" nos EUA. A segunda é a impotência, a incompetência e o desprezo do Estado ultraliberal, capaz de mobilizar tropa, armamento e tecnologia para o Iraque e incapaz, lento e negligente na ajuda às vítimas. Justamente o Estado que diz - a la Bush - que deve ser fraco e pouco interveniente, a não ser na protecção da segurança e propriedade dos cidadãos. Nem disto foi capaz.
Katrina pode ter sido, no seu momento inicial e inevitável, um "acto de Deus". A partir do momento em que o primeiro telhado voa, o primeiro dique desaba, a primeira pessoa aflita não é recolhida, e o primeiro bandido rouba uma loja, passa a ser uma questõ de ecologia política. Agora substitua-se furacão por terramoto; e EUA por Portugal. Que cenário podemos imaginar?
PS: Porque tenho a sensação que demorou muito tempo até que os media dessem relevo ao que está a passar-se em NO? Porque não havia imagens. E porque toda a gente estava convencida de que nos EUA tudo se resolveria numa questão de horas. Agora já se percebeu que nos próximos dias e semanas vai jogar-se ali uma guerra - humana e política - da mesma ordem que a do Iraque.
Por sugestão do Boss, fui ver este post do Towleroad. Entre outras coisas ficamos a saber que a administração Bush sabia que um furacão sobre New Orleans seria um dos desastres mais prováveis nos EUA. Mesmo assim, e segundo um ex-conselheiro de Clinton, Bush cortou em 44% os fundos para o controlo de cheias em NO, como parte das poupanças para sustentar a guerra no/contra o Iraque. O trágico resultado destas e outras trapalhadas: mortes e mais mortes no Iraque, mortes e mais mortes em New Orleans.
«[Os jovens] conhecem o meu empenhamento pelas causas que mais os tocam: a paz, a preservação da natureza, o ordenamento do território, a solidariedade, a participação europeia, a luta contra a pobreza, o diálogo ecuménico e multicultural, o respeito pelo que é diferente, desde a cor da pele à diversidade das opções sexuais» (Mário Soares, no discurso de ontem).
"Opções" em vez de "orientação" à parte (e remeter o assunto para a juventude; e aludir a um "empenhamento" que se desconhecia...), tenho que reconhecer que houve aqui um pequeno passo em frente - a inclusão da "coisa" no discurso político.