OS TEMPOS QUE CORREM. Miguel Vale de Almeida


31.8.05  

O princípio do fim da III República.

As eleições presidenciais apresentam-se como uma disputa entre Mário Soares, regressado do passado, e eventualmente Cavaco Silva, do passado regressado. É triste: a política portuguesa não se renovou e, aparentemente, não surgiram novas gerações. Bem sei que é um susto imaginar Cavaco Silva na presidência; e que o receio de que tal aconteça pode justificar um apoio, por silencioso que seja, a Mário Soares. Mas tudo isto deixa um travo amargo na boca. Há sectores na sociedade e mesmo em áreas politicamente organizadas da esquerda que poderiam perfeitamente avançar com uma candidatura jovem, de ruptura com aqueles passados estafados; que poderiam apresentar uma candidatura cívica, questionadora do sistema e desta mesma incapacidade de renovação; e que poderiam fazê-lo sem ter que "radicalizar". Desagradável mesmo é se esses sectores recorrerem a velhas - velhíssimas - estratégias, seja a da candidatura partidária autónoma levada até ao fim e protagonizada por um dirigente partidário, seja a da candidatura "para desistir".

No estado em que as coisas estão na cultura política nacional, só uma candidatura cívica, de esquerda, abrangente, questionadora do estado das coisas, teria algum interesse. Não vai acontecer. O que vai acontecer é mais do mesmo, é a velharia - mais dos modos e modelos do que dos candidatos, que isso não interessa - da III República. Contra os que já começam a sentir tentações totalitárias para "dar a volta a isto", a resposta deveria ser começar de facto a dar a volta a isto - mas pelo lado da revolta democrática. A esquerda portou-se mal na preparação das presidenciais. Nada do que se anuncia à esquerda me motiva mais do que a escolha entre dentífricos igualmente milagrosos...

mva | 13:53|
 

Protecção anti-treta.


©AP Photo/Douglas C. Pizac

Encontrado no blog da Margaret Cho. Uma versão portuguesa seria útil para o que se aproxima nas autárquicas e presidenciais.

mva | 11:41|


30.8.05  

Os grunhos afiam os dentes.

Parece que no mesmo dia do evento publicitado no post abaixo um grupo de grunhos e beatos (mais grunhos que beatos, creio) tentará realizar uma manifestação homofóbica. Creio que não se deve convocar nenhuma contra-manifestação. Fenómenos como este, convocados pela Net e interligando gente da extrema-direita, não devem ser publicitados. Deve-se engolir em seco, esperar e ver. Se a dita manifestação tiver a escala que não acredito que vá ter e se tiver muita publicidade mediática, então uma contra-manifestação posterior poderá fazer sentido. Independentemente disto, a manifestação grunha é um caso de polícia e de política: porque vai apelar ao ódio, e porque é clara a ligação a um partido legalizado e que concorre às eleições. As autoridades democráticas devem fazer alguma coisa, tanto no plano da repressão, como no plano da promoção da igualdade e da dignidade - talvez começando pelo Presidente da República, que reagiu a uma onda racista com uma "presidência aberta" em meios imigrantes pobres. Porque não passar o dia no Centro Comunitário Gay e Lésbico de Lisboa? Porque não aparecer no colóquio abixo publicitado?

mva | 19:50|
 

Agenda para Setembro.

COLÓQUIO DE ESTUDOS GLQ:
CULTURAS, IDENTIDADES, VISIBILIDADES
Lisboa, Instituto Franco-Português, 16-17 de Setembro de 2005

16 de Setembro
10.30-11.30. Sessão de Abertura
António Fernando Cascais, Presidente da Comissão Científica do Colóquio
Philippe Reliquet, Director do Institut Franco-Portugais
Albino Cunha, Presidente da Associação Cultural Janela Indiscreta
José Augusto Mourão, Presidente do Centro de Estudos de Comunicação e Linguagens
11.30. Conferência Inaugural: Didier Eribon: "L?histoire comme politique"

Painéis:
14.30-16.30. Psicologia
Gabriela Moita (Oradora convidada)
Vítor Moita: "De (como) é feito o Sujeito: A construção da(s) identidade(s) (homo)sexuais numa perspectiva psicológica e desenvolvimental"
Eduarda Ferreira: "Da Reflexão à Acção - Uma proposta de trabalho"
Henrique Pereira: "Homens que têm sexo com homens: O que fazem, como se sentem e implicações identitárias"
Nuno Carneiro (Coordenador): "O Pincel da Psicologia sobre a Tela do Político: Para uma Cidadania Psicológica da Diversidade Sexual"

16.45-18.00. Literatura
Frederico Lourenço (Orador convidado): "Encontros imediatos na Ilíada"
Teresa Cláudia Tavares: "Situações e alusões homoeróticas na poesia feminina de meados de Oitocentos: a obra de Henriqueta Elisa"
Eduardo Pitta (Coordenador): "Libido itinerante"

17 de Setembro
10.00-11.30. Artes e Estudos Culturais
José Augusto Mourão (Orador convidado): "O vício contra-natura na tradição da Igreja - Pedro Damião e Tomás de Aquino"
Francesca Rayner: "Genealogias queer no teatro: O Espelho do Narciso Gordo e Pour Homme de André Murraças"
Cecília Barreira: "Feminismo/Feminismos"
Ana Luísa Amaral (Coordenadora): "I cannot touch you now / And this is the oppressor's language: lendo The Price of Salt, de Patricia Highsmith"

11.45-13.00. Cinema
Carla Despineux (Orador convidado): "Miúdas, gangs, pistolas"
António Fernando Cascais: "O Fantasma, ou o homem metamórfico"
João Ferreira (Coordenador): "Representações da masculinidade na mais recente cinematografia gay"

14.30-16.15. Ciências Sociais
Miguel Vale de Almeida (Orador convidado): "Casamentos Homossexuais: Integração ou Revolução?"
Paulo Jorge Vieira: "Torcendo o Espaço. Geografia Social e Cultural e os Estudos Lésbicos, Gay e Queer"
Ana Cristina Santos: "Heteroqueers contra a heteronormatividade: notas para uma teoria queer inclusiva"
Tito Lívio: "Estereótipos, preconceitos e homofobia dentro da comunidade gay"
Teresa Levy (Coordenadora): "Homossexualidade e 'discursos do gene gay'"

16.30-18.00. Política
Pedro Zerolo (Orador Convidado, a confirmar); Representantes dos vários grupos parlamentares do PS, PSD, PCP, CDS/PP e PEV
Albino Cunha (Coordenador): "Uma questão de sociedade"

18.00. Sessão de Encerramento

mva | 19:30|


29.8.05  

Arquivo do Verão, 2:
Portugal.

Portugal / Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me sentir como se tivesse oitocentos / Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater os infiéis ao norte de África / só porque não podia combater a doença que lhe atacava os órgãos genitais / e nunca mais voltasse / Quase chego a pensar que é tudo mentira, que o Infante D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney / e o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente / Portugal / Não imaginas o tesão que sinto quando ouço o hino nacional / (que os meus egrégios avós me perdoem) / Ontem estive a jogar póker com o velho do Restelo /Anda na consulta externa do Júlio de Matos / Deram-lhe uns electro-choques e está a recuperar / àparte o facto de agora me tentar convencer que nos / espera um futuro de rosas / Portugal / Um dia fechei-me no Mosteiro dos Jerónimos a ver se contraía a febre do Império / mas a única coisa que consegui apanhar foi um resfriado / Virei a Torre do Tombo do avesso sem lograr encontrar uma pétala que fosse / das rosas que Gil Eanes trouxe do Bojador / Portugal / Se tivesse dinheiro comprava um Império e dava-to / Juro que era capaz de fazer isso só para te ver sorrir / Portugal / Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém / Sabes / Estou loucamente apaixonado por ti / Pergunto a mim mesmo / Como me pude apaixonar por um velho decrépito e idiota como tu / mas que tem o coração doce ainda mais doce que os pastéis de Tentugal / e o corpo cheio de pontos negros para poder espremer à minha vontade / Portugal estás a ouvir-me? / Eu nasci em mil novecentos e cinquenta e sete, Salazar estava no poder, nada de ressentimentos / o meu irmão esteve na guerra, tenho amigos que emigraram, nada de ressentimentos / um dia bebi vinagre, nada de ressentimentos / Portugal depois de ter salvo inúmeras vezes os Lusíadas a nado na piscina municipal de Braga / ia agora propôr-te um projecto eminentemente nacional / Que fossemos todos a Ceuta à procura do olho que Camões lá deixou / Portugal / Sabes de que cor são os meus olhos? / São castanhos como os da minha mãe / Portugal / gostava de te beijar muito apaixonadamente / na boca

(Jorge de Sousa Braga, O Poeta Nu, Ed. Fenda, 1991.)

mva | 14:46|
 

Arquivo do Verão, 1:
Free Batman and Robin!

«DC Comics, la editorial del cómic Batman y Robin, ha pedido a la galería de arte neoyorquina Kathleen Cullen Fine Arts que retire las obras del artista Mark Chamberlain en las que se muestra a los superhéroes abrazándose y besándose.» (El País, 23-08-05, via Sara, num mail). Uma das coisas boas da Net é podermos contornar estas proibições. Here's to you, DC Comics (sue me!):


©Mark Chamberlain (mais aqui)

mva | 14:36|
 

Limpeza.

Numa limpeza aos blinks descobri que alguns correspondem a blogs inactivos há bastante tempo: "Abre os olhos", "Cysnenegro", "Popcam", "Solidão", "Branco fresco" e "Xobineski". Se @s autores/as tiverem endereços novos que me tenham escapado, agradeço que mo digam.

mva | 13:46|


27.8.05  

Até que o sal e o sol assentem.

Os últimos dias têm sido de subpostagem - uma questão de férias, de acesso menos fácil à rede, e de baixa intensidade mental... Muitos apontamentos na Moleskine, pouca concretização em posts. A partir de segunda-feira, será a rentrée. As minhas desculpas aos habitués. (God, how French!).

mva | 12:23|


24.8.05  

Fogo que arde sem se ver.

Um dos "clássicos" portugueses (e do Sul da Europa e América Latina em geral) é a queixa das elites letradas da esquerda "estrangeirada" sobre a inviabilidade do país (mea culpa também...). Mas o fenómeno engraçado a que assistimos agora é à apropriação deste tema pelos neo-conservadores que tomaram conta do sistema mediático. Se para a esquerda comentadeira os culpados da situação eram as elites económicas, a Igreja, o capitalismo ou outro papão mais ou menos simplificado, para a direita comentadeira os culpados são as próprias vítimas. Isso nota-se nas queixas sobre a falta de produtividade (forma elegante de dizer que os trabalhadores são maus), sobre o gigantismo da administração pública (forma elegante de dizer que não é preciso função pública), sobre os horrores do multiculturalismo e da imigração, etc. Tudo isto poderia ser considerado desprezável como apenas um caso de disputa direita-esquerda, sem mais consequências. Mas não é assim. Estes neo-queixosos fazem o seu trabalho num contexto novo, marcado pela crise económica, pela corrupção (nos vários sentidos da palavra) do sistema político e pelo clima (anti)terrorista. Assim, a sua queixa traz escondida uma proposta de saída para a crise - privatização extrema, fim de direitos laborais, retoma de "valores" conservadores na educação, na sexualidade, no patriotismo, you name it. Passadas para o plano estritamente político, estas propostas introduzem uma dúvida corrosiva: será que vale a pena a democracia? A história dos conservadores à portuguesa é a mesma há dezenas e dezenas de anos: blame the victim, viver à conta do Estado que se ataca sistematicamente, viver de especulação e, quando as coisas apertam socialmente, pedir aos grunhos de serviço que exerçam autoridade e punho de ferro.

(Perante tudo isto a esquerda encontra-se na pior situação possível: a de mera guardiã das "conquistas" democráticas e sociais do passado. Por isso a esquerda parece agora tão "conservadora" e a direita parece tão iconoclasta e revolucionária - exactamente como aconteceu com os fascismos na primeira metade do século XX.)

É também por isso que podem dormir tranquilamente enquanto um país inteiro arde: não se fez já lucro suficiente com n estádios de futebol em vez de aviões de combate a fogos? Não se gastou/fez já dinheiro suficiente com material militar que não serve para combater fogos (Paulo Portas, o Encoberto, dormita tranquilamente nos States preparando o regresso messiânico...)? "Deixai-os arder": torna-os mais desejosos de uma mão de ferro que "ponha ordem nisto" - afinal a única coisa para que serve o Estado no ideário conservador.

PS. Coisas boas (haja deuses!): recebi um mail de um dos casais que entrevistei em Barcelona durante a pesquisa sobre o casamento - as moças vão casar-se em Outubro. Felicitats!

mva | 13:07|


22.8.05  

Dois uísques (?) na Zamba.

Ontem fiz 45 anos (aaaargh!). Meia idade. Costumo pensar que é bom fazer um exercício - para mim saudável mas que a outros pode parecer perverso. Trata-se de imaginar que se vai morrer no momento seguinte e fazer um balanço de vida. No meu caso, considero que o exercício revelaria uma pessoa privilegiada. Em primeiro lugar porque cresci com pessoas (a família e, logo a seguir, os amigos e as amigas) que gostaram de mim sem me sufocarem e deram bons exemplos éticos e afectivos. Em segundo lugar porque a origem social permitiu que pudesse ter estudado e que não me tivesse faltado o fundamental - e mesmo bem mais do que isso. Em terceiro lugar porque, apesar de Portugal ser um país com problemas terríveis, ainda assim é "primeiro" mundo. Seguem-se as questões em relação às quais é difícil dizer se resultam desses privilégios ou do nosso trabalho pessoal. Em primeiro lugar, amei e fui amado (acreditem, não é tão vulgar como isso); em segundo lugar, descobri a minha "natureza", nomeadamente sexual, assumi-a, senti-me bem com ela e não a escondi de ninguém (os privilégios também ajudaram aqui, é claro); em terceiro lugar escolhi uma profissão que me agrada e me dá gozo e satisfação, ainda que não muito dinheiro...); em quarto lugar, acho que tentei dar algo aos outros - algumas pessoas fazem-no tendo filhos desejados, outras ajudando pessoas; acho que o fiz sendo social e politicamente activo (em todos estes casos o que interessa é o caring e a dádiva); por fim, acho que fui conseguindo ser crítico, auto-crítico e acompanhando as mudanças, e de preferência sob a égide de algum sentido de humor - características poucas vezes elogiadas. Não acredito em deus, levo em pouca consideração a "pátria", detesto preconceitos e discriminações, não me comporto como um assassino na estrada e não desejo mais fama do que o prazer incontestável que dá ser reconhecido pelo que faça.

Quanto aos defeitos (são vários, acreditem...) e aos erros cometidos e males feitos (outros tantos...), compete aos outros dizerem (que eu prometo ouvir...). Posto isto, que o exercício, perverso ou saudável, vá para as urtigas - viver é maravilhoso: respirar, sentir, comer, dormir, fazer amor, ver uma paisagem, ler um livro, ver um quadro, uma peça, uma dança, um filme, escrever um post, viajar, beber uns copos, conversar com amigos, you name it. Um brinde a todos e todas, de um destes uísques que permitem escrever posts egocêntricos e tolinhos como este.... E com a promessa de que a coisa não se repete tão cedo.

mva | 21:17|


19.8.05  

Dias calvinistas.



Mais uns dias e isto volta ao normal...

mva | 10:46|


16.8.05  

Gaza strip.

mva | 11:55|
 

Portugal Telecome.

A Joana Amaral Dias comenta hoje os comentários à sua (e de Vital Moreira, e minha, e...) referência ao número de familiares de membros das elites políticas que trabalham na PT. Convem dizer que o meu interesse na questão tem a ver mais com uma constatação sociológica do que com uma "denúncia" de nepotismo. E a constatação é esta: num país pequeno, com uma gigantesca empresa pública/privada como a PT, em situação de quase monopólio, o facto de haver aquela concentração de membros das parentelas da elite política revela o "aperto social" em que vivemos. A lógica do parentesco (afectiva), a lógica das relações cidadãos-Estado e a lógica das relações contratuais são coisas supostamente diferentes. Mas em todas as sociedades elas misturam-se e sobrepõem-se. Só que mais numas do que noutras. E a vigilância crítica dos cidadãos deve basear-se na tentativa de as separar, como condição da democracia. Historicamente isso tem sido difícil entre nós - e a triste constatação nada tem a ver com as competências, ou falta dela, das pessoas em causa.

mva | 11:19|
 

Uff...

... É bom saber que não se está sozinho. Já não me sinto como o tonto da aldeia.

mva | 11:08|


14.8.05  

» A Grande Revisão.

«Posto isto, convém prevenir que não tenciono voltar a falar com Miguel Portas. Não lhe reconheço nem inteligência, nem competência, nem honestidade.» Assim termina Vasco Pulido Valente uma crónica no Público de hoje. Era em resposta a esta de Miguel Portas. O resto da polémica só a fui apanhar aqui, nomeadamente a citação de outra opinião, a de João Miguel Tavares.

Tudo isto por causa da interpretação de Hiroshima. Corrijo: tudo isto por causa da fome que a nova direita tem de rever a História, fingindo que não o faz. Fingindo que é só "realismo"; fingindo que é só "fria análise de factos". Na realidade trata-se de uma estratégia de criação de condições para poder, em qualquer momento, apoiar todas as formas de cerceamento de liberdades e direitos, apoiar todo e qualquer terrorismo de Estado, apoiar a ideia de que estamos em guerra contra o terrorismo (como se não tivéssemos sempre estado, como se não tivéssemos sempre devido estar).

Triste é que isto reflecte o que parece estar a começar a passar-se também no meio das ciências sociais em Portugal, cada vez mais dominado por esta estratégia cínica, em aliança com os impérios mediáticos e, ao mesmo tempo, procedendo a uma lenta purga (nos financiamentos para a investigação, nas promoções, nas lutas académicas, etc.) de tudo o que cheire a esquerda - porque agora, aplicada a estratégia, é fácil dizer que o problema "dessa gente" não é ser de esquerda mas sim não ser "objectiva", "fria", "séria", "útil", etc. - isto é, não estar em consonância com a nova Verdade revisionista.

mva | 20:33|
 

» Sobre a relatividade de... tudo.

Um grupo de escuteiros portugueses ficou retido em Londres por causa da greve da British Airways. Face às notícias das TVs e jornais, pensei tratar-se de um grupo de crianças. E que essas crianças teriam passado por momentos particularmente difíceis. Hoje, na RTP, uma "reportagem" dá a importante notícia da chegada do grupo a Portugal, em autocarro: são todos homens e mulheres, jovens, é certo, mas homens e mulheres! Há pais à espera, "aliviados". As "crianças" celebram efusivamente a chegada depois de terem sido raptadas no Iraque (not). OK: alguém me explica se sou eu que já não vivo neste mundo?

mva | 20:27|


12.8.05  

» Teoria política da estrada.

Na nossa civilização há agora dois tipos de seres humanos ocupando o espaço público: os que são só corpo e os que usam um carro para transportar o corpo. Os primeiros continuam tão frágeis como sempre; os segundos fazem-se transportar em armaduras de metal, pesando toneladas e atingindo velocidades superhumanas. Estes têm um poder desproporcionado: podem matar aqueles "de uma só penada". Se se aceitar que a mais poder corresponde mais responsabilidade, compreende-se porque deveriam os condutores ser extremamente cuidadosos, e não só, é claro, com os "peões" (infeliz nome, este, que recorda os trabalhadores no fundo da hierarquia rural...). Só que, infelizmente, não é essa a tese reinante. É-o sim o "darwinismo pop": primeiro instalou-se na interpretação da sociedade, como darwinismo social e sociobiologia; depois penetrou alguma economia; e, sobretudo alguma (muita?) "teoria" política. Não admira, então, que a maior parte das pessoas se comporte como se reinasse a lei do mais forte. No exemplo em causa, o mais forte é o corpo-máquina do condutor-carro, transformado num ciborgue com incrível potencial exterminador. (E as coisas parecem piorar quando os "peões" - recorde-se o outro sentido da palavra... - se transformam em corpos-carro e disparam por aí fora em direcção à sobrevivência dos mais aptos, recuperando o tempo perdido...)

mva | 20:53|


10.8.05  

» Implosão lenta.



Parece que palavras como "sexo", "benfica", "mulheres" e "fnac" estão entre as mais procuradas pelos portugueses na Net. Parece que 37% da floresta ardida no Sul da Europa em 2004 localizava-se em território português. E parece que, regressado de safari no Quénia (how lame...), Sócrates vai assistir à implosão dumas torres. Não sei porquê - e desculpem o ranço puritano... - mas isto cheira assim como que um bocadinho a decadência. Não?

mva | 11:42|


8.8.05  

» Fresco.


© Juan Coronado

mva | 12:24|
 

» Projectos com princípio, meio e fim.

«"O que nós vamos fazer é constituir distritos urbanos, uma associação voluntária de freguesias, numa lógica de proximidade. Uma estrutura intermédia, entre as pequenas freguesias e o executivo", disse, exemplificando com o modelo administrativo de Barcelona, que Carrilho quer importar.» (no Público de hoje). É exactamente o que a candidatuta do Bloco/Miguel Portas propôs nas últimas Autárquicas: «Para resolver a irracionalidade da divisão administrativa de Lisboa, dar massa crítica e poder político às freguesias, aproximar a decisões da população e desburocratizar a Câmara Municipal, propomos a criação de distritos urbanos. Os distritos urbanos resultarão do agrupamento voluntário das pequenas freguesias na zona mais antiga da cidade. Caso o agrupamento aconteça, passa a haver a possibilidade de protocolos de transferência de competências, técnicos e recursos financeiros da Câmara para o Distrito Urbano e a elaboração de contratos-programa para investimentos específicos.» Qual será a novidade de Carrilho amanhã?

PS - Já agora, e noutra área: «O município apoiará a criação de um observatório independente e permanente que avalie a situação da cidade em matéria de discriminação por sexo ou género e discutirá com ele e com as redes associativas as políticas transversais que sejam necessárias ao exercício da igualdade de direitos. A CML passará ainda a ter um gabinete de recepção de denúncias de discriminação, apoio jurídico e encaminhamento das situações para serviços competentes quando for o caso. Em parceria com as associações, serão promovidas acções de formação contra as discriminações dirigidas às escolas, aos funcionários dos serviços de atendimento público e administrativo das autarquias ou às polícias municipais.» (Bloco de Esquerda, 2001)

mva | 11:52|


7.8.05  

» Muito se fala ao telefone.

O filho de Teixeira dos Santos; a filha de Edite Estrela; o irmão de Santana Lopes; o filho de Jorge Sampaio; o filho de Guterres; o filho de Marcelo Rebelo de Sousa; o filho de Otelo; e, e, e... trabalham na PT (Diário Digital, via Causa Nossa).

mva | 13:34|


6.8.05  

» Serviço de atendimento ao cliente:

"Boa tarde, em que posso ser fútil?"

mva | 02:33|


5.8.05  

» Quem anda a perder valores, e quais?

Primeiro caso: estão a ver um prédio alto, ao lado da Churrasqueira do Campo Grande, mesmo à beira da Segunda Circular em Lisboa? Pois bem, a fachada está coberta, numa altura de vários andares, por um enorme anúncio da cerveja Sagres. O dono do prédio, ou os condóminos, aceitaram o negócio. E aceitaram, é claro, que seja um anúncio sexista, na "melhor" tradição da Sagres: duas mulheres-objecto, uma loira, outra morena, e o slogan "a mais gostosa é a ruiva".

Segundo caso: ao princípio até simpatizei com o projecto da revista Cais. Mas à medida que o tempo passou fui verificando algumas coisas. A primeira é que as suas equivalentes noutros países (penso na Espanha, França e Inglaterra, por exemplo) são revistas de intervenção, em que os sem-abrigo pugnam pela sua causa e reivindicações. A Cais é simplesmente paternalista - inclusive com algum ranço antigo, como na regra que obriga os angariadores a andarem limpos e asseados (uma noção muito próxima do "pobrezinho mas honrado" salazarista...). E já não consegue inspirar confiança, pois agora é raro o vendedor que não peça dinheiro para lá do preço da revista.

Curioso é que estes pequeníssimos exemplos de balda na ética e no (auto)respeito ocorram justamente com áreas ligadas ao que os neo-conservadores elogiam como campos da liberdade e do espírito cristão: a liberdade plena do mercado e a contenção dos problemas sociais através de alguma forma de caridade. Mas isto não deve espantar: o que estes fenómenos indiciam é a crescente dificuldade em haver vizinhos e condóminos exigindo qualidade de vida, ou sem-abrigo (e outros excluídos) ganhando consciência colectiva do seu problema

mva | 13:04|


4.8.05  

» Fogo!

Horas de reportagens sobre incêndios. Entre a obsessão e a banalização, o efeito é com certeza o do costume: criar medo, muito medo e, ao mesmo tempo, criar segurança, muita segurança. "Aquelas pessoas estão a passar por uma coisa horrível, eu não". Por isso é fundamental "recolher testemunhos". Necessariamente de gente em stress.

Mas - e aqui o post muda de estrada temática - também de gente (ainda) rural. O espectáculo das pronúncias e sotaques, das formas de vestir, dos valores expressos, da religiosidade, da relação com os poderes, é, debaixo de fogo, exponenciado ao ponto de ser um espectáculo sobre a desigualdade de classes e status neste país. Há umas "coisas", uns "sítios" lá longe de Lisboa e Porto, com gente rodeada de florestas, incendiários e bombeiros pobrezinhos, bradando ao céus e gritando por ajuda, como o teriam feito há trinta ou cinquenta anos. O espaço do medo (dos incêndios, mas também, nas cidades, o da criminalidade) é o espaço "deles"; o "nosso" é o da segurança do espectáculo televisivo. Em rigor, eles são - nos incêndios, nos assaltos, nas cargas policiais, na doença, na crise económica, etc - os actores do espectáculo da desigualdade.

Queixamo-nos, e com razão, do sexismo, da homofobia, do racismo. Mas por trás de todas estas discriminações e desigualdades, subsiste, silenciado e incólume a 30 anos de democracia e não-sei-quantos de UE, não só uma profunda desigualdade de classes, como um terrível classismo. Contra a desigualdade material ainda vão os sindicatos e os partidos de esquerda fazendo alguma coisa (no further comments...). Mas contra o classismo pouco ou nada se faz - porque um dos seus efeitos maiores é impedir a consciência de classe dos pobres e marginalizados. E se há coisa que os portugueses fazem bem - os que nasceram nas classes altas ou os que chegaram há pouco à média - é representar (nem que seja só - ou sobretudo? - no corpo, na roupa, na língua) o que os afasta dos que estão por baixo.

mva | 13:08|
 

» Deve ser isto "os valores".

«A questão é saber se, por estes dias, os portugueses preferem a afectividade calorosa, mais redonda e maternal de Mário Soares, ou a afectividade escondida, mais distante e paternal de Cavaco Silva.» (José Manuel Fernandes, no Público de hoje). Entre isto e os decoradores que, muito a sério, utilizam o Feng Shui, a diferença é pouca. Ah, espera, há mais uma: «O presidente da Portugal Telecom, Miguel Horta e Costa, considera "uma heresia" afirmar que a empresa que dirige financia partidos políticos.» (Público, hoje). Humm, "heresia" contra a santa madre PT, cruzes, canhoto. É provável que amanhã se oiça dizer que Armando Vara será um excelente pai para a CGD e que as indemnizações pagas aos administradores que se vão são um direito sacrossanto.

mva | 12:19|


2.8.05  

» A moral da História.

Ela (ou ele) foi radical na juventude. Depois, à medida que "A Revolução" se foi parecendo cada vez mais com a história do capuchinho vermelho (lobo mau, muito mau, incluído), foi, consoante as versões, derivando para a direita ou amadurecendo. A carreira correu bem, o casamento correu bem e ele (ou ela) reproduziu-se. Surgiram então os problemas em torno da escolha do modelo de educação, dos valores a transmitir. Queria ela (ou ele) que o crio passasse pelo entusiasmo revolucionário e se desiludisse como ele (ou ela)? Não. O melhor era resolver o mal pela raiz. E que modelo de resolução do mal pela raiz existe? Bem, o de um passado em que o capuchinho vermelho escolheu outra cor para a roupa e não existem lobos maus - ou se os há, matam-se primeiro e pergunta-se depois. Vai daí ela (ou ele) resolve colocar o crio num colégio privado, gerido pela Igreja (ou, noutras versões, a ICAR) - liberdade de educação, bla,bla, sempre é melhor os miúdos não estarem rodeados de potenciais agentes de arrastões, bla,bla, apesar de tudo os valores conservadores dão base, bla, bla, a religião até que não é uma coisa assim tão má, bla, bla. Ela (ou ele) navega doravante pelo doce oceano da tranquilidade do neo-conservadorismo, serenamente ancorada n' Os Valores. Até que um dia..., ai, até que um dia o crio começa a dizer que acha a religião uma patetice, que acha os colegas uns betos insuportáveis, que acha que a guerra no Iraque não tem justificação possível, que acha que não faz mal nenhum fumar uns charros, que acha que os pais (ele, ou ela, ou ambos) são uns caretas, que, que, que. Ele (ou ela) é agora uma fotocópia sem toner dos seus próprios pais. Ainda tenta correr para a frente, escrevendo uns artigos militantes em defesa do neo-conservadorismo, usando a velha técnica revolucionária, só que para fins diferentes. Rezingão, ele (ou ela) vai apurando a arte do cinismo amargo e da superioridade moral, tudo devidamente lubrificado a doses crescentes de whisky. Moral da História para ele (ou ela): se não os consegues vencer, junta-te a eles. Pelo menos a tua derrota será mais doce.

mva | 13:35|
 

» Ainda os rankings.

Eis um comentário interessante no blog de Pena Pires, Paulo Pedroso e António Dornelas, Canhoto.

mva | 13:33|


1.8.05  

» O regresso dos dinossauros.


©Gary Larson

Há dias a jornalista São José Almeida chamava a atenção, com toda a razão, para o que significa a disputa Cavaco Silva / Mário Soares nas eleições presidenciais: o falhanço da geração seguinte de políticos. De facto, a "geração seguinte" é a geração de Durão Barroso e António Guterres: ambos ficarão conhecidos para a História como fugitivos das dificuldades e carreiristas individualistas. Nada de "sentido de Estado" nem de "serviço público" vem dessas bandas. A sua geração caracteriza-se ainda pela presença na sombra de oportunistas como Santana Lopes ou Paulo Portas. Ora bem, os "fugitivos" já fugiram; e os oportunistas já foram castigados. E o que sobra é nada - a não ser a segunda linha dos aparelhos, de Sócrates a Marques Mendes. Haverá uma geração em formação, com alguma promessa de juventude e renovação? A julgar pelo actual ar de infelicidade burocrática de um António José Seguro ou pelo ar de político de almoços de Pedro Pinto, há que ter cautela quando se deposita esperança em dirigentes políticos juvenis (eles foram-no, nas respectivas jotas, lembram-se?). Uma réstea de esperança é ainda depositável, quand même, em pessoas como Pedro Nuno Santos, actual dirigente da JS, ou Ana Drago, do BE. Que os tempos que aí vêm não os estraguem, é o que desejo. Porque vêm aí os tempos da modorra e da tristeza histórica que é toda a gente ficar contente com o regresso dos dinossauros.

mva | 16:44|
 

» O fetiche do ranking.

Título da principal notícia de primeira página do Público de hoje: "Medicina Dentária do Porto é o curso superior com mais sucesso na conclusão de licenciaturas". O absurdo é evidente quando se consulta o estudo em que se baseia a afirmação: trata-se de um estudo sobre faculdades e não sobre cursos (sendo que neste caso específico ambos poderão coincidir). Mas o mais grave não é isto, mas sim a volúpia dos rankings que parece assaltar os media por esta altura do ano. O director do Público veio mesmo dizer - depois dos protestos contra um primeiro estudo, de uma estupidez estrondosa - que as pessoas têm é medo de números. Não. As pessoas têm, e com razão, medo de asneiras qualitativas. Os estudos até agora apresentados por este jornal roçam a cretinice, porque não informam sobre nada de realisticamente relevante. Em Portugal (e infelizmente) não há nem verdadeira concorrência entre universidades nem homogeneidade nas faculdades, nem um ensino superior do tipo college; o que os alunos fazem, entre nós, é tirar cursos específicos - de licenciatura, de mestrado e de doutoramento. Os únicos rankings com alguma remota utilidade seriam os que comparassem cursos.

mva | 16:26|