Irritam-me os constantes "manifestos" de "Os Economistas" (coitados dos economistas que não são "Os Economistas"...). Porque, sob a capa de um suposto tecnicismo, o que fazem é política. Política não assumida. Não há mal nenhum - antes pelo contrário - em fazer política. Mas que se assuma. Que não se disfarce sob a máscara da "técnica" e o "prestígio" da universidade ou do sucesso do grupo económico ou banco a que se pertence ou para que se trabalha. O nosso país está cheio de pessoas que a) derivam o seu prestígio da universidade, b) obtêm o seu poder real fazendo muito dinheiro trabalhando (ou "consultando") para grandes grupos empresariais e c) fazem "on the side" manifestos sobre "como as coisas deviam ser". Ora, a primeira obrigação de um cientista ou universitário que se preze é assumir que a ciência ou a técnica não são neutras; a primeira obrigação de um empresário que se preze é fazer com que a sua empresa faça muito dinheiro; e a primeira obrigação de um cidadão ou político é pensar no bem comum. Decidam-se, assumam-se, esclareçam. Mas não nos enganem com a suposta candura de puros ocupantes de uma torre de marfim técnico-científica. Depois dos juristas - e, nalgumas coisas, dos médicos - temos agora "Os Economistas" como a nova casta de brâmanes da Nação, puros e afastados das coisas "sujas". Mas quem são? O que fazem? Porque o fazem? Para que fazem estes manifestos?
E agora para algo de verdadeiramente mesquinho, mauzinho, ad homine e tendencioso: uma listagem dos grupos económicos e financeiros para que trabalham os subscritores (subscritoras quase não há...) dos vários manifestos d' "Os Economistas", e dos quais obtêm o seu verdadeiro poder (depois cosmetizado pela medalha de "Professor") seria muito esclarecedora.
PS: os argumentos destes manifestos e dos seus apoiantes jornalísticos raiam, por vezes, o erro lógico puro e simples. Como quando usam o exemplo da Irlanda ou da Finlândia para "demonstrar" que lá não foram necessários grandes investimentos públicos, por exemplo em transportes. Caros amigos: trata-se de ilhas, uma real, outra quase (basta ver um mapa). Aparte os aeroportos que já têm há muito tempo, já investiram o necessário nos ferry-boats que as ligam aos continentes (Reino Unido e Europa continental, num caso, Suécia no outro). Portugal não é uma ilha, mas sim parte de uma quase-ilha maior, a Península Ibérica. Se a vossa agenda é ainda a do capitalismo nacional a la Salazar, assumam-no. Se não, assumam como Sócrates a prioridade "Espanha, Espanha, Espanha". (Claro que a Ota é uma asneira colossal, mas por outras razões. E claro que a maior integração com Espanha não tem que ser submissão ao centralismo madrilenho).
Soares, Alegre, Sócrates, Coelho, ou a novela cor-de-rosa. Bocejo. Comichão. Encolho, resignado, os ombros: tudo o que sirva para travar Cavaco.
Coisas verdadeiramente importantes e que não parecem preocupar ninguém:
O electricista brasileiro que foi morto pela polícia londrina com cinco tiros na cabeça por ser considerado suspeito. A democracia liberal está a aprender com os terroristas? (não encolho resignadamente os ombros dizendo "tudo o que sirva para travar o terrorismo")
Tenho que ir consultar este médico que escrve n' O Primeiro de Janeiro. Já. Eu, outros e outras como eu e já agora o Vargas Llosa que, coitado, sendo hetero, deve sofrer da doença da igualdade de direitos.
De quando em quando tenho destes repentes: tentar encontrar o rasto de amigos perdidos há muito. A Internet facilitou tremendamente o assunto. Uma vez, antes da Net, uma carta para um amigo alemão ainda teve que ser reenviada pelo seu pai para a Austrália, para onde o meu amigo havia emigrado. Mas hoje é mais fácil. Às vezes tremendamente fácil. Como no caso do meu amigo nigeriano, o Nori. Estou a ler um livro do filósofo nigeriano Kwame Appiah, The Ethics of Identity e, ontem, a propósito das execuções de homossexuais no Irão, fiquei a saber que também na Nigéria têm sido executados gays. O tema "Nigéria" espoletou a vontade de guglar pelo Nori. Conheci-o nos EUA nos anos 80. Estávamos na mesma universidade, eu estudando antropologia, ele música. Nascido nos Camarões, mas na realidade Yoruba da Nigéria, o Nori seguiu a carreira de cantor lírico, performer, professor. Perdi-lhe o rasto. Hoje resolvi fazer uma busca. Uma referência de 2002 dava-o em Nova Iorque, entre outras coisas ensinando na NYU. Haveria uma referência mais recente, que eventualmente me conduzisse a um endereço electrónico? Havia, mas revelou-se tremenda e fez-me perder o rasto do Nori de vez: Nori morreu em 2004, aos 47 anos.
Já nem me lembro das circunstâncias em que o conheci. Lembro-me apenas da simpatia dele, do bem que cantava, do seu sorriso, e duma espécie de inocência confrangedora. Lembro-me do espanto com que descobriu a sério o racismo e as voltas que este dá quando um seu namorado afro-americano (!) se zangou com ele, agredindo-o e insultando-o com a expressão "macaco africano". Lembro-me de dançarmos horas a fio num bar gay, o Numbers, perdido numa estrada rural. Lembro-me de chás e boas conversas em casa de amigos comuns. Lembro-me da facilidade com que tocava os outros, com que abraçava os outros, com que sorria para os outros - doce, docemente, sem espalhafato e apenas porque that came natural to him. E agora, com o atraso de um ano, e via Net, e quando procurava contactá-lo de novo, ele vai-se-me.
Na Bahia fiquei a conhecer relativamente bem a religiosidade afro-brasileira marcada por uma grande influência Yoruba. Por isso, com certeza o Nori perceberia se lhe enviasse um grande, grande axé. E para os leitores que têm que aturar a tristeza que sinto: não pensem nunca que estar vivo é o estado normal, uma coisa que vai de si. É, isso sim, um incrível privilégio. Um brutal privilégio.
Na esplanada, um casal de classe média-alta, na casa dos trinta, com três filhos. O mais velho, com uns oito anos, senta-se ao colo do pai para lhe mostrar a carteira que comprou. "Aqui é para as notas; aqui para os cartões...", vai dizendo o miúdo. O pai acrescenta: "E aqui é para as fotografias das miúdas, das namoradinhas!". Bem sei que se pode achar isto "natural", "automático" e dito "sem intenção" (não é isso a "cultura"?). Mas hoje, em que cultura é também a crítica da dita? Nem será apenas a "orientação para" a orientação sexual, subjacente na frase, que espanta, mas também a orientação para o namoro. Porque não dizer à criança simplesmente o seguinte: "E aqui é para as fotografias das pessoas de quem gostas"?
Não percebo a Ota. Não percebo os argumentos de quem é a favor da Ota, nem os de quem é a favor de manter a Portela indefinidamente. É óbvio que a Portela significa ruído e constrangimento ao crescimento. Mas é mais que óbvio que a Ota significa um absurdo de custos e uma distância da cidade igualmente absurda - só justificável em cidades muitíssimo maiores que Lisboa. E quanto ao investimento público, emprego gerado, etc., tudo fica por explicar - como tudo ficou por explicar quando dos n estádios para o Euro 2004. Basta voar um pouco com o Google Earth para ver que há alternativas. Já o TGV será outra história. Assuma-se de uma vez por todas a centralidade de Madrid no espaço ibérico e a inserção de Portugal no mesmo, e faça-se com que essa inserção funcione e beneficie todos os cidadãos. O resto é muito triste: há décadas que vejo ministros caírem por causa de terrenos e empreiteiros...
PS: A Ota é o borrãozinho vermelho perdido lá para cima no mapa...
Isto é intolerável - como todos os outros crimes contra a liberdade, a democracia e os direitos humanos no Irão. O mínimo - e como é mínimo! - é que o governo português e a Comissão Europeia emitam uma nota de condenação, já que continuamos a ter relações diplomáticas com aquele regime patriarcal, fundamentalista, obscurantista, racista (veja-se o caso da minoria árabe do Irão), teocrático e apoiante de terrorismos vários, da fatwa contra Rushdie a inúmeros atentados assassinos.
Mario Vargas Llosa em O Paraíso na Outra Esquina narra, entre outras, a história por detrás do quadro de Gauguin Pape Moe ("Água Misteriosa", 1893). Gauguin não se interessava muito por sexo enquanto prosseguia uma carreira na Bolsa de Paris. Já antes, quando fora embarcadiço, não lhe agradavam as prostitutas nos portos e terá resistido ferozmente às investidas dos marinheiros sobre o seu próprio corpo. Quando descobriu a pintura e, depois, entrou na fase de fuga da "civilização", acabou por "descobrir o sexo" com a sua "concubina" em Tahiti. Sexo e pintura passaram a andar de mãos dadas, um alimentando a outra e vice-versa. Um dia Gauguin foi com um jovem em busca de uma madeira com que fazer as suas esculturas de ídolos Maori por ele inventados (tal o exotismo que o dominava...). O rapaz caminhava à sua frente e o pintor sentiu uma tremenda excitação sexual. O que o "transportou" não foi a vontade de ter sexo com o rapaz da maneira que tinha descoberto o sexo com a sua amante, mas sim o inverso. Tomando banho numa lagoa a meio do caminho, Gauguin acabou sendo penetrado pelo jovem, no que Llosa descreve como uma experiência erótica sublime. Llosa/Gauguin descrevem o rapaz como pertencendo à categoria local (Tahitiana/Maori) de "terceiro sexo", expressão algo errónea para referir homens que têm sexo com homens - com total aceitação social. A busca do exótico, o fascínio com o "selvagem", a vontade de fuga da "civilização" passaram, para Gauguin (pelo menos o de Llosa), pela descoberta das suas potencialidades eróticas.
«A conferência de líderes da Assembleia da República (AR) confirmou ontem a necessidade da realização de um concurso público europeu para a adjudicação do estudo sobre o aborto clandestino em Portugal, dado o elevado valor estimado da iniciativa de cerca de 800 mil euros. O assunto foi debatido pelos líderes parlamentares dos partidos que tomaram conhecimento da recusa da Comissão Parlamentar de Saúde em desistir do estudo proposto no Parlamento em 2002 pela então deputada socialista Helena Roseta.» (Público)
Mas desde quando se tomam decisões políticas sobre os direitos das pessoas com base em estudos? Se o estudo revelasse que não existe aborto clandestino, desistia-se de descriminalizar o aborto? Qualquer dia os centros de investigação universitária em certas áreas podem passar a direcções-gerais... Qualquer dia? E a governação a uma imensa sondagem/estudo em permanência...
Será possível recuperar o bom das ideias liberais, sem ter que comprar o mau - isto é, honrar a herança europeia da liberdade e do individualismo sem sacralizar a total liberdade económica? Será possível recuperar o bom das ideias socialistas, sem ter que comprar o mau - isto é, ter uma visão materialista histórica e honrar a herança do movimento operário sem subscrever a "revolução"? Será possível recuperar o bom das várias experiências revolucionárias do terceiro-mundo sem fazer o culto das palermices messiânicas - isto é, dizer sim a Mandela e não a Guevara - e ainda mais "não" aos terrorismos mascarados de luta armada? Será possível recuperar o bom dos movimentos de "terceira geração" (feminista, gay, ecologista, multicultural...) sem ter que perpetuar os seus vícios - isto é, ter uma visão plural das identidades situadas sem cair no comunitarismo? Em rigor, não foi este desejo de uma indyologia mista que fervilhava em muitos de nós, se calhar caótica e inconscientemente, nos dois ou três meses de ouro a seguir ao 25 de Abril de 74? Não queríamos nós liberdade, direitos cívicos, democracia política, estado social, igualdade de oportunidades, crescimento com desenvolvimento e solidariedade - tudo isto temperado com um entusiasmo colectivo que dispensasse nacionalismos patridiotas? Tal como na teoria social, também nos projectos políticos tenho horror à pureza e à ortodoxia; à "fidelidade" à genealogia e às heranças e aos "códigos genéticos" e às absurdas linhagens e sublinhagens da esquerda; ao folclore e às supostas coerências sistémicas entre todos os componentes. Prefiro o bricolage e a triagem, a construção de híbridos (compatíveis, claro), desde que os princípios éticos (logo políticos, logo estéticos - mas isso é outra conversa...) fundamentais sejam garantidos: liberdade, igualdade de oportunidades, diversidade.
Hélas, olhando à volta só vejo ou negação da ideologia, ou afirmação de ideologias. Ou cinismo ou delírio. Ou esterilidade ou folclore. Népia indyologia.
«Artículo 22. 1. Para la concesión de la nacionalidad por residencia se requiere que ésta haya durado diez años. Serán suficientes cinco años para los que hayan obtenido la condición de refugiado y dos años cuando se trate de nacionales de origen de países iberoamericanos, Andorra, Filipinas, Guinea Ecuatorial o Portugal o de sefardíes.» (Ley 36/2002, de 8 de octubre, de modificación del Código Civil en materia de nacionalidad)
"Contou-me um passarinho" hoje - como quem conta que a Terra gira em volta do Sol - que, se se frequentar a igreja certa, no dia da semana certo, à hora certa, com missa "dada" pelo padre certo, se consegue o favor certo ou o emprego certo, na empresa certa, num dos tentáculos do grupo financeiro certo (não revelo qual, mas começa por B, acaba em, P e parece que no meio tem um C) - isto se uma pessoa se tiver descuidado na juventude e não tiver aderido ao clube juvenil certo ou não tiver frequentado a faculdade certa. Vou já recuperar o tempo perdido: a próxima decisão de ano novo será passar a acreditar em Fátima, o melhor plano de poupança-reforma deste lado do céu.
«O arquitecto Manuel Salgado retirou ontem o seu apoio à candidatura de Manuel Maria Carrilho à câmara de Lisboa, invocando "deficiências de carácter" do socialista.» (DN). Provavelmente amanhã Carmona-Santana vai arregaçar as mangas contra todas as formas de discriminação por razões de carácter. Os lisboetas babam-se, deliciados, pela pugna eleitoral entre as duas destacadas figuras da cidadania e do pensamento político.
São José Almeida - uma das excepções de qualidade no quadro negro dos media portugueses - tem um bom artigo de comentário no Público de hoje, sobre imigração e nacionalidade. Sobretudo porque demonstra o que falta a muita gente: consciência histórica, especialmente consciência da história colonial. Termina o artigo com este PS: «Vai continuar na lei o embuste de reconhecer a nacionalidade portuguesa só por laços de sangue? Ou seja, um norte-americano tetraneto de portugueses que imigraram no início do século XX para os EUA vai continuar a ter direito à nacionalidade portuguesa, mesmo que não fale português, não conheça nem nunca tenha visitado o país, não tenha qualquer tipo de ligação concreta a Portugal senão a ascendência e a tal suposta entidade chamada "sangue português"?». Ela até poderia ter ido mais longe: continuam a falar de (ou a pressupor que há) "sangue português" e depois admiram-se que haja uma manif racista contra o "arrastão"?
Volto sempre aos mesmos escritores e este Verão não tem sido excepção. Tenho uma "coisa" com Naipaul e Rushdie. O cinismo desesperançado do primeiro e a inocência liberal-humanista do segundo, em vez de me afastarem, aproximam-me. Porque me reconheço justamente nesses dois pecadilhos. Ambos são "de origem" indiana. Naipaul nasceu numa família de origem indiana na Trinidad e Rushdie nasceu na Índia. Nenhum dos dois escritores (e antagonistas? Pressinto isso...) é, porém, de nacionalidade indiana e ambos olham aquele país - assim como a Inglaterra e o "Ocidente" - com um olhar distanciado, traduzido, a partir das suas experiências de vida nos centros euro-americanos onde vivem e por onde circulam. Ambos têm consciência das suas identidades híbridas e traduzidas - e nisso me reconheço também. O último Naipaul, Magic Seeds, é de um encantador desencanto político; e os ensaios de Pisar o Risco, de Rushdie, são pérolas de democracia para os tempos que correm. E que bem escrevem, caramba: limpos, simples, irónicos e directos...
Em Espanha, como noutros países, os autarcas podem celebrar casamentos. Isto permite, por exemplo, que haja algum empenho político quer em aceitar bem os casamentos entre pessoas do mesmo sexo quer, pelo contrário, em invocar "objecção de consciência". Em Portugal, porém, creio não estar errado ao dizer que são as Conservatórias a celebrar os casamentos. Seria curioso inquirir o conjunto de "conservadores/as" sobre como encaram pessoalmente o casamento gay e lésbico...
Já não é a primeira vez. Já me aconteceu com a Netcabo, com a PT, com a TV Cabo. O grupo PT é como as alfândegas antigamente - mal nos aproximamos começamos a tremer. Desta vez foi com o Sapo adsl. Preparamo-nos para activar o serviço e para tal temos que recorrer ao "username" e "password" que vêm num envelope. Acontece que a "password" é formada por gatafunhos ilegíveis e não por letras e/o números . Contactamos a empresa por telefone (o serviço não é gratuito, pagando-se assim a uma empresa PT por causa de um erro de outra empresa PT...) e durante uma hora não se consegue nem ultrapassar o absurdo de alguém que não está preparado para resolver o problema, nem contactar com um responsável. Ficamos sem resposta. Não se vislumbra solução. Ninguém sugere sequer devolução de dinheiro. Nada. A irresponsabilidade é total; os custos tremendos; o serviço, já pago, não pode ser usufruído; a PT é uma... - faltam-me as palavras - merda.
Os senhores que dominam a PT pertencem à categoria, muito na moda, das pessoas que acham o Estado o quinto cavaleiro do apocalipse. Na realidade, a PT funciona tão mal como o Estado, só que agora há alguém a ganhar dinheiro (e por certo não somos todos nós que o ganhamos - nem que usufruimos do serviço). A PT tem uma publicidade muito modernaça, um "packaging" e um "marketing" todos práfrentex e, sobretudo, um quase-monopólio. Mas a qualidade dos serviços, do atendimento e a honestidade dão, no mínimo, mau nome à ideia mesma de privatização. A PT é um dos exemplos do capitalismo à portuguesa. No caso do Sapo, do capitalismo batráquio: inchado, coaxante, de pele venenosa e com a capacidade anfíbia de se esconder debaixo de água ao mínimo problema. Não podemos pelo menos ter um capitalismo que funcione?
Diana Andringa é jornalista de profissão. Neste momento não trabalha para nenhum órgão de comunicação social. É cidadã deste país, é candidata pelo BE e, claro, assume-o plenamente. Decide fazer o mini-documentário "Era uma vez um arrastão" porque acredita que houve desleixo e manipulação da informação sobre o suposto arrastão e porque acredita que o tema está directamente relacionado com as representações da insegurança e com o racismo. Qual é o drama? Nenhum. Porquê a histeria em torno de uma suposta falta de ética, incluindo o facto de haver um link para o site do documentário na página do BE? Há duas respostas possíveis. A primeira é que está tudo maluco. A segunda é que quem lança o "escândalo" - nomeadamente o Expresso - quer substituir a ideia de que "nunca houve arrastão" pela ideia de que "há gente a manipular o real dizendo que nunca houve arrastão".
É aqui que entramos no terreno perigoso. É que, de facto, dizer que houve arrastão com base na "informação" daquele dia é estúpido - e pode ser perigoso porque é uma "verdade" ancorada em expectativas falsas e negativas, de cariz racista e xenófobo. Mas dizer que não houve arrastão com base também na fraqueza da "informação" daquele dia será igualmente estúpido - e arriscado (que não perigoso), porque pode alimentar a expectativa de algum "sociologismo de esquerda" de que a insegurança é sempre uma invenção. Ora, nem uma coisa nem outra: a insegurança existe, assim como as representações da mesma, largamente baseadas em preconceitos racistas. E estes males combatem-se ao mesmo tempo.
Posto isto (que será uma questão de política maior, independente deste caso), o video de Diana Andringa é um exercício de análise da informação e de defesa de um ponto de vista de cidadania, goste-se ou não do conteúdo. O ataque ao mesmo e à sua autora são apenas um exemplo mais da promiscuidade entre muito jornalismo e os grupos económicos que sustentam grande parte dos media portugueses. Gente cujo programa político precisa como pão para a boca (mesmo que finja o contrário, usando uma linguagem "civilizada" - o arruaceirismo deixa-se para os neo-nazis que, depois, se pode distanciadamente criticar...) da ideia de que vivemos num país perigoso e que os responsáveis pelo perigo são os Outros que para cá imigram ou que medram em assustadores subúrbios. O resto - a virginal preocupação com a "ética" de outrem - é treta por arrastão.
«Carlos ya es el marido de Emilio. Y viceversa. Después de ser novios durante 30 años, ambos se intercambiaron ayer los anillos y se dijeron "sí, quiero" en el Ayuntamiento de Tres Cantos (Madrid), una corporación gobernada por el PP y un grupo independiente. La boda, la primera gay celebrada en España, estuvo oficiada por un concejal de IU, que, tras leer los artículos correspondientes del Código Civil, declaró a Carlos y Emilio "unidos en matrimonio". La cita fue a las seis de la tarde. Los novios llegaron acompañados por la madre de Emilio, una mujer de 88 años que, según su hijo, dio "las gracias a Dios" por ser testigo de la boda. Una decena de familiares recibieron con aplausos y besos a la pareja. Antes de que comenzara la ceremonia, la hermana de Emilio leyó un discurso en el que recalcó que el acto es "un paso trascendente" para la sociedad española. "Merecéis ser felices. Gracias por vuestro valor", concluyó. A los pocos minutos, Emilio y Carlos se intercambiaron los anillos --plateados y con una discreta piedra incrustada-- y se abrazaron. El concejal que ofició el enlace, José Luis Martínez Cestao, quiso terminar la ceremonia con unos versos de Pablo Neruda: "Niégame el pan, pero tu sonrisa nunca porque me moriría". ARROZ Y APLAUSOS. Con el documento que acredita su nuevo estado civil, Emilio y Carlos salieron del ayuntamiento entre grandes aplausos y bajo la tradicional lluvia de arroz. Fuera les esperaban una decena de familiares y amigos, entre los que se encontraba el secretario de movimientos sociales del PSOE, Pedro Zerolo. Además, un centenar de periodistas, incluidos varios extranjeros, también esperan con impaciencia la salida de los novios."Estamos muy felices. Esta boda es el broche de oro después de 30 años de relación", explicó Emilio, que trabaja de escaparatista en unos grandes almacenes. Su cónyuge, un psiquiatra originario de EEUU pero con nacionalidad española, tampoco podía ocultar su emoción. "Llevamos 30 años siendo una familia y ahora somos más familia", dijo. Carlos y Emilio se conocieron en una cafetería de Madrid hace 30 años. "Él me miró y yo no podía creer que un pedazo de hombre así se estuviera fijando en mí. Desde entonces estamos juntos. Y sin infidelidades", explicó Emilio.Ambos sobrepasan la cincuentena, pero ninguno de los dos quiso concretar su edad. Eso sí, dejaron claro que el tren del matrimonio lo han podido coger un poco tarde. Sobre todo, por los hijos. "Somos mayores, así que ya no nos podemos plantear la adopción de un niño", comentó Emilio (...)» (in El Periódico, por Olga Pereda)
Que me desvinculei do apoio do BE à candidatura de Sá Fernandes, já o disse. Mas nem pago apoiaria a candidatura de Carrilho. É tão simples perceber porquê: basta ler o seu editorial na sua página de campanha...
1.Através do Martin Pawley, esta deliciosa entrevista a uma manifestante anti-casamentos homossexuais. 2.No Público - se assinarem ou comprarem em papel - não percam a crónica de Timothy Garton Ash (de quem gosto imenso) sobre os atentados de Londres; 3.e a de Ana Sá Lopes sobre a Horta, a minha cidade portuguesa favorita.
O post anterior tem a ver com um "problema" que provavelmente nunca "resolverei": as tensões e contradições entre diferentes formas de intervenção. A saber: a político-partidária; a do movimento social; a académica-científica; e a de opinião, de que é exemplo este blog. Discursos diferentes, "regimes de verdade" diferentes, propósitos diferentes, estratégias e tácticas diferentes, sociabilidades diferentes... Mas é bem provável que continue vivendo com essas tensões e contradições - não é isso bem mais produtivo e dinâmico e hibridizante do que uma qualquer "purificação" e "escolha"? O futuro (próximo) o dirá.
Cada vez mais me sinto "órfão de esquerda". Eu e muita gente. Do PS ao Bloco vêm cada vez mais sinais do que se poderia, condescendentemente, chamar "tibieza" - ou, mais irritadamente, "cobardia". Onde se nota isto? Num curioso fenómeno que consiste em juntar a fome à vontade de comer - isto é, o pragmatismo ou possibilitismo políticos (o cálculo), por um lado, e a subserviência a uma ideia incomprovada do que será a "mentalidade" dos portugueses. Estas duas coisas juntas resultam em atraso, manutenção do status quo e na reprodução da ideia de que este é um país lento, retardado e, em última instância, inviável. Onde isto se nota mais é, claro, nas questões "civilizacionais". Já se percebeu que, do PS ao Bloco, o consenso é no sentido de "avançar" (em português isto quer dizer "ir devagar") para o casamento entre pessoas do mesmo sexo mas separando o assunto da adopção. Do PS ao Bloco, a esquerda está refém do terrorismo infantil à portuguesa. Como homossexual e pessoa de esquerda não posso admitir isto nem em nome do pragmatismo político (se calhar não estou é talhado para a actividade política partidária tradicional...). O medo de incluir a adopção com o casamento (ainda ontem: Sónia Fertuzinhos, no Público e, dias antes, F. Louçã num jornal madeirense - embora a notícia fosse tão mal escrita que não se conseguia perceber o que FL disse de facto) é o mesmo que o medo que se sentiu quando da aprovação das uniões de facto - não andavam vastos sectores "progressistas" a dizer que se calhar era melhor só a economia comum e que o país não estava preparado para as uniões de facto? Como homossexual e pessoa de esquerda, qualquer mexida nas leis do casamento que não inclua os direitos todos é um insulto. Também nas questões de imigração e semelhantes, a tibieza e a cobardia imperam. Hoje mesmo se soube que António Vitorino - o mais irritante bluff político da "esquerda" nacional -, na Universidade Católica of all places foi dizer que é preciso estimular a natalidade e que a abertura à imigração não bastaria para resolver o "problema". Tudo isto é dito na maior inconsciência sobre o que significa para as mulheres uma campanha de estímulo à natalidade: é o grande passo para reenviá-las para casa e para a (ainda maior) reificação dos mitos da maternidade. De caminho, Sócrates anuncia uma nova lei da nacionalidade que é o suprasumo da cobardia política. Salazarengamente dependente, como a direita, das ideias tontas sobre o País e o estado-nação, a esquerda portuguesa não tem qualquer problema em perpetuar a ideia de que este país se faz de portugueses verdadeiros, reproduzidos por mulheres obedientes em estruturas familiares tradicionais. Por fim, a cereja no bolo. No Bloco sabem bem como me revolta o diploma proposto sobre procriação medicamente assistida. Sei que foi feito na base de muito trabalho, dedicação e empenho técnico. Mas o problema político mantem-se: como é possível pensar em PMA apenas para casais (assumindo para mais que "casais" quer dizer casais hetero)? Como é possível, na esquerda, não propor o acesso livre a PMA por toda e qualquer mulher - como aliás acontece em Espanha?
Se a esquerda portuguesa quer fazer um trabalho de transformação civilizacional - e a política serve também para ir à frente da sociedade e não para seguir os "sinais" desta, obtidos aliás por duvidosos métodos de sondagem, consulta, inquérito, etc - não pode interiorizar o terrorismo cultural da ICAR e dos interesses instalados. Mas, sobretudo, não pode encalusurar-se no universo bafiento do cálculo político-eleitoral, porque corre o risco de passar a agir apenas em função de bons scores eleitorais. Não defendo um maximalismo radical que corra o risco de impossibilitar qualquer mudança. Pelo contrário: estou a dizer que a esquerda portuguesa fica aquém daquilo que é possível fazer e com sucesso, e fica aquém daquilo que deve fazer para merecer o nome de esquerda. É por isso que ela, enquanto estruturas partidárias, me interessa cada vez menos. E é pena.
Os tempos por aqui arrastam-se esquisitos. Parece que a Haloscan está com um problema que afecta alguns blogs. Parece... Pelo menos não creio que a culpa seja do código no template. Estando há horas nisto, não resta mais do que "dormir sobre o assunto" e esperar. Como se não bastasse a questão dos comentários, também sinto nostalgia do velho template - mas o desgraçado continua com um "bug", segundo os senhores da empresa que gere isto tudo. De cada vez que o tento "reimplementar", aparece tudo desformatado como pouco antes desta mudança de template desesperada. Um pouco mais de paciência, portanto... Amanhã os TQC partem de férias e por uns bons dias ainda será este template a casa dos posts de vacanças.
De tanto não se terem mexido contra este fenómeno - e de tanto lhe terem achado "graça" ou de tanto o terem menosprezado - os órgãos de soberania da República (que dizer dos autonómicos, se vivem do caciquismo de Jardim?) cada vez estão mais manietados. Mas em Portugal não existe o impeachment? (ah, valente país sonâmbulo!)
Não há maneira de conseguir abrir o video de Diana Andringa sobre o "caso arrastão", em que presto umas declarações. Consegui vê-lo ontem, mas hoje nem a página abre. Enfim, talvez em breve, e aqui. De qualquer modo, o que é que eu queria dizer (uma vez que o que se diz, num vídeo ou entrevista é necessariamente diferente)? Em primeiro lugar o mais evidente (e o mais esquecido): que o "caso arrastão" é, mais do que tudo, a prova do estado de miséria da nossa comunicação social. Quando já nem se consegue dizer com segurança quantas pessoas participaram num "arrastão" ou se sequer houve arrastão, estamos mesmo mal. Em segundo lugar, que a criminalidade e as representações sociais da mesma (e das suas raízes, causas, etc) são dois problemas que vão juntos, precisando ambos de ser atacados com igual determinação.
Qualquer crime contra a segurança das pessoas é horrível e deve ser reprimido; qualquer situação de marginalização, pobreza e exploração de mão-de-obra imigrante é horrível e deve ser solucionada; qualquer demonstração de racismo e xenofobia é horrível e dever atacada. Não consigo hierarquizar os três problemas (nem como vítima que já fui do primeiro) enquanto prioridades na construção duma sociedade mais decente (por parte dum governo "socialista" com maioria absoluta...).