Como esta questão da Constituição Europeia e do referendo não pode ser vista de forma dogmática (os matizes são muitos, quer do lado do sim, quer do não, e seria idiota dizer sim=direita e não=esquerda), sugiro a leitura deste texto de Yann Moulier Boutang, da revista Multitudes. Tanto um como outra pertencem ao universo "esquerdista" da alterglobalização. Só que Boutang apelou ao voto no Sim em França e faz uma dura (e inteligente) crítica aos "Nãos". Esperemos que pluralismos destes se verifiquem também entre nós (imodestamente gosto de pensar que posso contribuir para isso; muito mais e melhor o pode Vital Moreira e tant@s outr@s). É claro que, desde ontem, tudo é diferente nesta discussão. Talvez agora se comece de facto a discutir uma Constituição...
No site podem descobrir outros textos sobre o assunto. Obrigado ao Zé Neves pela sugestão do texto de Boutang.
Este blog (e o seu autor...) é 100% a favor da pertença de Portugal à UE, 100% a favor de maior integração política europei, 100% a favor de uma Constituição europeia, 100% a favor do reforço dos poderes do Parlamento Europeu que deveria tomar a iniciativa de repensar o falhado projecto de Tratado. Numa atitude cínica sem precedentes, este blog vai fazer um meio-de-semana prolongado na localidade europeia de Zamba del Mar.
Carta do leitor António Brotas, também no Público de hoje:
«(...)A percentagem de votos "sim" dos apoiantes dos dois partidos da direita, UDF e UMP, era de, respectivamente, 80 por cento e 75 por cento. O actual projecto de tratado sobre a Constituição europeia (que não se percebe bem se é um projecto de tratado, ou um projecto de constituição) foi, de facto, redigido "por assim dizer" em francês, mas sob uma larga influência da direita francesa, que aproveitou para nele procurar incluir, de um modo praticamente irreversível, disposições favoráveis a um puro sistema de concorrência dos mercados. Contra este projecto votaram em França, segundo a mesma sondagem, 89 por cento dos apoiantes do PC e 90 por cento dos simpatizantes da extrema-direita. Mas votaram ainda contra 59 por cento dos apoiantes do Partido Socialista, apesar de num votação interna dos militantes do partido ter havido um resultado em favor ao "sim". É dos militantes e simpatizantes do PS francês que votam "não" que me sinto mais perto e julgo sentir o que eles sentem. Por que é que votaram eles "não"? É porque são contra a Europa? Porque querem provocar uma crise? Porque têm medo do futuro? Porque querem defender privilégios seus e da França como o Eduardo Lourenço e outros articulistas em Portugal parece pretenderem? Penso que não. Votaram "não" porque entendem que o futuro das sociedades, em particular da europeia, não pode ser confiado ao puro funcionamento das regras de mercado, que faz com que as pessoas acabem por ser tratadas como mercadorias. Sobretudo, não aceitam que disposições que assim o determinam fiquem inscritas de um modo praticamente irreversível numa futura Constituição da Europa, que só poderá ser alterada pelo voto unânime dos 25 países que a compõem.Não há nenhuma razão para haver uma crise na Europa. As regras de funcionamento dos órgãos europeus negociadas pela Comissão presidida por Giscard d"Estaing e a Carta dos Direitos Fundamentais com força obrigatória geral anexa têm, certamente, um largo apoio das populações europeias, incluindo a francesa. O que se passa é que esta Comissão excedeu o seu mandato e, para além daquilo que era necessário negociar e incluir na proposta, pretendeu nela incluir disposições adicionais que não têm qualquer cabimento no texto de uma Constituição.Se o projecto actual for rejeitado por alguns países, e foi-o hoje pela França, o Parlamento europeu terá, a meu ver, simplesmente, de se debruçar sobre o assunto e nomear uma comissão que prepare uma nova proposta que, tendo em conta a opinião das populações e dos países, inclua o que é necessário e pode ter consenso, e exclua o que está a mais e é motivo de discórdia. De qualquer modo, ontem foi um dia muito importante para o futuro da Europa.»
«(...) Mas existe também um argumento cínico contra a Constituição europeia, que é o dos que a rejeitam pretensamente "em nome da Europa" e de em nome de uma "outra Constituição". No seu argumentário, entre nós representado pelo Bloco de Esquerda, o tratado constitucional deve ser rejeitado não por ser uma constituição mas sim por não ser uma genuína constituição aprovada em assembleia constituinte; não por trazer Europa a mais, mas sim por trazer a menos; não por ser um avanço constitucional, mas sim por ser pouco mais do que a constitucionalização do que está, incluindo o modelo económico neoliberal; não por não ser melhor do que o que está, mas sim por ser muito recuada quando comparada com o que deveria ser. Mesmo que a Constituição correspondesse a essa caricatura (e não corresponde!), não existe maneira mais simples, nem mais cínica, de rejeitar qualquer avanço do que em nome de um maximalismo consabidamente utópico, ou pura e simplesmente indefensável. Assim se justifica rejeitar a alternativa que realmente existe em nome de algo que não existe nem pode existir, para assim justificar a manutenção do que está. (...)»
Este é o verdadeiro alvo da crónica de Vital Moreira (hoje, no Público). Desilude-me que tenha caído na argumentação de chamar "cínico" a um argumento que é tão politicamente válido como os outros - e que até foi defendido por largos sectores do PS francês, algo de que ninguém fala nos telejornais.
A Europa com que sonho será necessariamente federal, com vários níveis de poder, desde o local ao europeu, passando pelo regional e o nacional. A Europa com que sonho será necessariamente democrática, com um sistema parlamentar sólido e, é claro, uma constituição resultante dum processo constituinte democrático. A Europa com que sonho desenvolverá a sua herança de modelo social, alterando-o para o tornar eficaz e não para o destruir. A Europa com que sonho será o lugar por excelência da igualdade e da diversidade. A Europa com que sonho não se constituirá em potência militar mas em potência de paz e cooperação. A Europa com que sonho reconhecerá que não é mais o centro do mundo, não terá saudades do colonialismo como não tem das guerras que a dilaceraram e será o lugar cosmopolita e miscigenado por excelência. A Europa com que sonho não será nem os EUA, nem a Rússia nem a China.
Já não há, de facto, paciência para a manipulação. Hoje em França não se vota sobre uma Constituição Europeia. Vota-se sobre a assinatura ou não, pela França, de um tratado europeu. O consórcio Giscard d'Estaing e Companhia fizeram o pior serviço possível à construção europeia: atrasaram em décadas a possibilidade de termos uma Constituição, resultante de um processo constituinte verdadeiramente democrático e representativo. Em vez disso atamancaram os tratados já existentes neste novo tratado a que tiveram o descaramento de subintitular "que estabelece uma Constituição da Europa". O resultado é o que se vê: confusão, manipulação da informação, referendos de nível nacional e em datas diferentes, descrédito, descrédito e mais descrédito.
Eu sou europeísta. E sou a favor duma Constituição Europeia. Por isso espero que hoje a França chumbe este golpe burocrático.
Vejam isto, o site da manif anti-casamentos em Madrid. Assusta. Sobretudo a música. Quer dizer que já perceberam que não vão lá com velinhas e procissões. (Enfim, já JPII tinha chegado a essa conclusão ao dar shows em estádios de futebol...). Entramos na era em que os defensores da desigualdade usam a estética dos defensores da igualdade.
PS: El título de éste post llevará a que mucha gente anti-igualdad visite éste blog. ¡Bienvenid@s! Les ofrezco (y dedico...) estas fotos, esperando que seays muy felices dejando que los demás lo sean también:
Mandela passou 20 anos na prisão. Já depois de libertado, viajou bastante. Um dia, o avião que o transportava do Canadá para a Irlanda teve que parar em Goose Bay, a norte do círculo polar Árctico. Resolveu sair do avião e dirigiu-se a uns jovens que o tinham vindo saudar. Apercebeu-se então que pela primeira vez na vida estava a ver Innuits ("Esquimós"). Falou com eles ("maravilhas" do Império Britânico: tanto o velho senhor Xhosa como os jovens Innuits falavam inglês). Sabiam quem ele era pela televisão. Saído da prisão, Mandela estava fascinado com a velocidade das comunicações, com a facilidade das viagens, com a pequenez do mundo. Em suma, com a Boa Globalização. Nem por isso deixou de tecer comentários sobre as semelhanças da experiência histórica dos autóctones da África do Sul e do Árctico - colonizados em pontos extremos do globo. Há qualquer coisa que me fascinou nestas dez ou quinze linhas do segundo e último volume da autobiografia de Mandela.
Não sei se o Público tem vergonha do seu suplemento de sábado, a Xis. Eu teria. A verdade é que não aparece online, por isso... Vem isto a propósito de o tema da capa de hoje ser "Compreender o ateísmo" (esse terrível mistério...). No interior apresenta-se pomposamente como "Dossier ateísmo". Ora, o dossiê consiste num texto de Inês Menezes sobre "As Origens do Ateísmo", integralmente baseado numa entrevista com «Michel Renaud, professor catedrático, membro do Instituto de Bioética da Universidade Católica Portuguesa e um dos mais ilustres e eloquentes pensadores da actualidade ...» (!?). Segue-se, pela mesma jornalista, uma entrevista a Vasco Pinto Magalhães, «Jesuita, licenciado em Filosofia e Teologia e co-fundador do Centro de Estudos de Bioética». Hummm, assim, sim, é mais pluralista. O dossiê termina com um artigo da referida jornalista, inteiramente baseado na entrevista anterior. Pois. Ou o sr. Renaud ou o sr. Magalhães devem-lhe ter dito que não existem ateus para entrevistar...
Muitos colectivos LGBT espanhóis (com grande presença para os "meus" catalães) publicaram hoje este anúncio no El País. É uma resposta ao anúncio de que o Renas deu conta (o Ferran do Un que passava também me avisou, mas não fui a tempo...). O Foro Español de la Familia convocou para 18 de Junho uma manifestação conta os casamentos entre pessoas do mesmo sexo. Já para a semana, terça e quarta, o Senado discute a lei. Depois, se tudo correr bem e as pressões da direita não resultarem, a lei volta ao Congresso. A 2 de Julho será a manif do Orgulho Gay em Madrid. Esperemos que seja já para celebrar.
«The Church tricked me and turned me into a cannibal!», diz este bloguista, ex-canibal (i.e., ex-católico) confesso. É claro que o tema da eucaristia, que os católicos celebram hoje, já foi muito glosado como sendo uma forma de canibalismo simbólico. Convém dizer que, dum ponto de vista antropológico, todo o canibalismo é simbólico, quer se ingira carne ou algo que a represente. O que importa é a noção de comunhão, de absorção das qualidades daquel@ que se ingere e que passa a ser parte de quem ingere: uma divindade, um antepassado, algo que é normalmente tabu e só deixa de o ser em circunstâncias cerimoniais específicas, representantes de grupos rivais, etc. Muitos protestantes apodaram a eucaristia de canibalismo. Os católicos dizem que não é tal coisa. Tanto uns como outros debatem este assunto porque a noção de "canibalismo" ganhou, na sua cultura comum (a Ocidental), o significado de coisa própria de bárbaros e selvagens - todos aqueles primitivos que precisavam de ser evangelizados. Isto é, que precisavam de abandonar a sua forma de canibalismo.
PS: Não é piada a Sócrates. Talvez mais à classe política; ao país; a nós. Quem tenha visto o PM no Parlamento hoje terá percebido a diferença abissal entre ele e A Coisa que o precedeu no governo.... Thank god for small mercies.
As medidas já estão disponíveis no Público, na notícia sobre o discurso de Sócrates (inlincável...). Reconheço que algumas são boas. Mas as omissões continuam.
Um dia com muitos contactos. Por razões profissionais acabo por me reunir à mesa dum café com pessoas das mais diversas áreas, minhas desconhecidas até então. Todas concordam: não podem mais com o discurso sobre o défice. Não acreditam. Porque sabem que só se diz metade, só se propõe metade. Porque sabem que há iniquidades que permanecerão, intocadas, silenciadas - nas isenções de impostos, nas benesses para altos cargos, nas absurdas empresas municipais que servem para dar empregos de gestão e fazer o que as Câmaras deveriam fazer, nas, nas, nas; porque, porque, porque.
É isso, caro José Sócrates. Sabemos que as contas estão "más". Sabemos que a administração pública é um monstro. Mas sabemos também que está mal gerida, com gente a mais nuns sítios e a menos noutros, com gente incapaz nuns sítios e competente noutros. Sabemos que acha que há fuga e evasão fiscais - nós também. Só que também sabemos que há sectores riquíssimos deste país legalmente beneficiados do ponto de vista fiscal (disso você e os seus apoiantes da oposição de direita não falam).
É por isto, José Sócrates, que muitos de nós - desde logo eu - não acreditamos e não aderiremos a uma qualquer tentativa de criar uma grande vaga de fundo patriótica. Para consensos tolos desses já nos bastou o Euro 2004. E já nos basta o aval por omissão que está a dar à criação de um "consenso" em torno dum Cavaco Silva reciclado, lavado e sebastianizado em consciência contabilística da Nação.
Não, caro José Sócrates, a mim não me convence de que isto é tudo técnico e consensual: nem a economia nem, muito menos, a política, são mera mecânica de automóveis.
Imagine que acaricia o pelo dum gato. Sedoso, limpo, perfeito. Agora imagina que a sua mão se desloca a contrapelo. Pelos soltos começam a cair; uma ferida até então desconhecida é descoberta; pode mesmo acontecer que salte uma pulga inesperada.
"Défice, défice, défice" (tão banalizado que até já se grafa em português, e não deficit); "Apertar o cinto"; "Sacrifícios"; "Vacas magras"; "Recessão". E as receitas, repetidas ao infinito pelos mesmos comentadores e economistas de sempre (e que não são o único tipo de economista que existe...), são sempre as mesmas: "Um país é como uma casa"; "Há que aumentar as receitas e reduzir as despesas"; "Não se pode viver acima das possibilidades". Dividem-se apenas no maior peso dado ao aumento da receita ou à diminuição da despesa. É assim como se a economia fosse a política americana: democrata ou republicano? (what a choice!)
São correctas as avaliações do estado das coisas? Sim, até certo ponto. Algum de nós duvida que o Estado é gordo demais e que largos sectores da Função Pública são incompetentes? (e algum de nós duvida que o empresariado português vive à conta do Estado e é incompetente, já agora?). Mas em larga medida a avaliação do descalabro nacional parece consensual porque se baseia em afirmações aparentemente de bom-senso. Dum bom-senso que chega a raiar a banalidade.
E no entanto.... No entanto, quem as profere, os tais comentadores e economistas de sempre, profere-as há... bem..., desde que me lembro. Muitos deles passaram por sucessivos governos. Porque não se materializaram os bons-sensos e as banalidades em medidas com resultados? Em suma, porque não resultou o que sempre propuseram e vão com certeza propor outra vez?
A primeira resposta possível é que há tanta resistência à aplicação do bom-senso banal que nunca se consegue alcançar o que se propõe: o "Estado gordo", "o peso da administração pública", o "conservadorismo dos sindicatos", a Função Pública como "partido", etc. Como disse, é difícil negar que a administação pública é pesada, que o Estado é gordo, que há desperdício, gente a mais e, ainda por cima, ineficácia. Como não se pode negar que há imensa fuga e evasão fiscais.
Mas a segunda resposta raramente é dada: que tanto as formulações do bom-senso banal como a avaliação da situação possam estar... erradas. Que, além do manifesto excesso de gente a não fazer nada, possa haver gente mal colocada, capacidades desaproveitadas; que possa haver orçamentações simplesmente mal feitas ou feitas com propósitos de manipulação política; que, além de fuga e evasão fiscais, possa haver (há...) bancos, empresas e, em suma, gente, que nem sequer cai na categoria de fuga ou evasão fiscal porque simplesmente está isenta de pagar ou usufrui de descontos imorais; que possa haver (há...) sigilo bancário e fiscal maior até que nos EUA; que possa haver offshores, sei lá, na Madeira (há...). Já para não falar do pormenor de estarmos sujeitos a um idiota pacto de estabilidade...
Nenhuma destas considerações tem sido pesada pelas análises dos comentadores e economistas que, em última instância (via TV ou via Ministérios das Finanças e da Economia) nos têm governado nas últimas décadas. Como não acredito que sejam fracos de cabeça, só me resta concluir que não querem, politicamente, pesá-las.
Pensar a contrapelo é o primeiro gesto dum pensamento crítico. É pegar nas afirmações, sobretudo nas do bom-senso banal (regra nº 1: desconfiar sempre do bom-senso e da banalidade), e questionar as coisas mesmas que ele pressupõe. E o pensamento crítico é o primeiro passo para o exercício da política numa democracia que se pretenda justa. Nela, as decisões sobre a qualidade e a quantidade de Estado, sobre a natureza e a justiça dos impostos, sobre o que se orçamenta e como se orçamenta, devem ser decisões com projecto político - nunca as banalidades, recheadas de metáforas de vacas e cintos, da administração de uma economia doméstica. Esta era a metáfora do Salazar, caso não se lembrem.
Não sei o que é que aconteceu ao país, mas hoje de manhã os jornais tinham todos fotos de homens semi-nus e contentes. Deve ser um mecanismo de compensação do défice.
Uma das provas de que ainda existe democracia e liberdade de expressão é que muitos jornalistas e comentadores falaram nos últimos dias de duas "belíssimas" operações de publicidade. A primeira é a forma como Sócrates se prepara para anunciar medidas para conter o défice; a segunda é a pré-eleição de Cavaco para Presidente da República. Aquilo que os jornalistas e os comentadores não fizeram, todavia, é a crítica política desses factos. Talvez não seja da sua competência, admito. Mas é certamente da competência da oposição de esquerda, esteja ela no parlamento, fora ela, ou até no interior do PS.
E a crítica deveria seguir linhas simples, começando por colocar perguntas: Sócrates prepara-se para tomar medidas semelhantes às tomadas por governos de direita, ou diferentes? Se as medidas dos governos de direita fossem de facto as correctas e correspondentes à sua suposta e "científica" "inevitabilidade", não teriam já resultado? Sócrates vai vender-nos a ideia falsa de que a economia é uma contabilística exacta, ou vai assumir que a economia épolítica? Sócrates vai dizer-nos que só há uma escolha - punir os já punidos e deixar tudo na mesma - ou vai falar-nos de orçamentos zero, de fim do sigilo bancário e fiscal, de controlo da fraude e evasão fiscais, dos privilégios (que não meras vantagens ou incentivos) dos bancos, etc? Isto quanto à primeira operação de publicidade. Quanto à segunda: o PS apoia Cavaco para presidente? Se não, apoia quem? E com que entusiasmo e determinação? É aceitável que se dê apoio passivo a esse programa de construção de um homem providencial, "impoluto", acima da mesquinhez da política, "contabilista exacto" (sim, as semelhanças com Salazar são evidentes), desistindo completamente de um candidato de esquerda ganhador?
Se for este o programa do PS para os próximos anos - um programa socrático encavacado - estará perdida toda a esperança. E o PS ficará para a História (enfim... não será a primeira vez...) como o verdadeiro aplicador das medidas de direita. O primeiro passo está dado: o apoio tácito a Cavaco como "garante" da operação de limpeza que assegurará a perpetuação da sujeira.
O PRG não é propriamente a coisa mais fascinante do mundo. Mas enfim... E quanto à Constituição Europeia, sou contra, sobretudo porque acho que a Europa merecia uma Constituição, democraticamente elaborada a partir de um processo constituinte.
«Inconformismo. Contra a cultura dominante e o politicamente correcto». Esta frase faz parte do estatuto editorial da revista Atlântico, dirigida por Helena Matos.
Numa simples frase estão contidas três afirmações que fazem parte do que se poderia chamar a estratégia publicitária dos sectores neo-conservadores: passar a mensagem de que a rebeldia está mais "à direita" do que "à esquerda"; de que a "esquerda" domina a cultura; e que esta é hipócrita, isto é, politicamente correcta.
Convenhamos que há razões para esta mensagem medrar pelas mentes afora: o modelo social europeu está em crise, permitindo assim apresentar a esquerda como "conservadora do que há" e o (neo)liberalismo como algo que rompe com o pântano; a esquerda ainda domina a área cultural mais prestigiada, assumindo por vezes uma atitude snob face a tudo o resto; e há uma relativa punição social da intolerância que em certa medida apela ao que pode parecer hipocrisia na correcção política.
No entanto, será mesmo assim? Até que ponto? Com que gravidade, comparando com outros defeitos das tendências políticas e culturais actuais? Vejamos. O programa (neo)liberal começa por ser contraditório: ele é, no plano das liberdades, um ataque à herança do liberalismo, perfeitamente reclamável pela esquerda. Não há nada de rebelde e inconformista em propor uma revolução no contrato social e das nações (porque as propostas centram-se especialmente no domínio laboral e das questões de segurança) que, em rigor, pretende fazer recuar as nossas sociedades para o laissez faire dos inícios do século XX.
Quanto ao segundo aspecto, o domínio da Cultura pela "esquerda" é infinitamente menos eficaz na condução das mentalidades do que o domínio dum capitalismo do enlatado em tudo o que é televisão, cinema, jornais de escândalos, ou publicidade - os domínios verdadeiramente influenciadores do sentido de vida (ou lack thereof) das pessoas. Mas mesmo se atentarmos a áreas mais "sérias" da produção de sentido, como os jornais de referência, pode em rigor dizer-se que são dominados pela "esquerda"? De todo, e há já bastante tempo, se lermos os editoriais quer do Público quer do Diário de Notícias.
Por fim, o "politicamente correcto". Já percebi que, nos últimos anos, a expressão deixou de ter o seu sentido original. Ela significava a vontade de mudar a linguagem como campo de expressão e reprodução de desigualdades e exclusões. Hoje o pc é percepcionado como sinónimo de hipocrisia. Mais: o seu sentido expandiu-se para referir também "agir (e falar) de acordo com as conveniências", sem ferir ninguém, sem levantar ondas. Curioso processo: passou a significar justamente a hipocrisia burguesa, os bons-costumes, que a "esquerda" identificava na "direita". Pessoalmente continuo a defender com unhas e dentes as virtudes do projecto da correcção política, sabendo que ele tem uma área específica de aplicação: a "fala" das instituições - da Lei, do Estado, da Escola, etc - que têm a obrigação de promover a igualdade, mesmo sabendo nós que isso não corresponde à instituição da mesma. O pc não tem a ver com paninhos quentes e boa educação: tem a ver com o desejo de igualdade e o reconhecimento de que a linguagem muda a percepção do mundo. Mas há mais: o projecto de ataque ao "politicamente correcto" (projecto que está a ser bem sucedido) pretende denegrir sobretudo as propostas de igualdade no campo identitário ("racial", de género, sexual, etc). Quando oiço alguém reinvindicar o "direito" de me contar uma anedota homofóbica ou racista, acusando-me de falta de sentido de humor (!) por não gostar do facto, só consigo ver que aquela pessoa não quer mesmo que eu tenha os mesmos direitos que ela - ela que está no centro da hegemonia, ao mesmo tempo que se vê como inconformista.
Que se verifica, então, nesta tripla cambalhota linguística da "direita" - agora rebelde («inconformista»), contra-cultural e anti-hipócrita (meus deuses, dir-se-ia que saíram todos do Maio de 68. Oops: saíram mesmo...)? O velho truque da inversão, que se consegue graças à polissemia das palavras. Mas é um truque, e desonesto enquanto tal. A prova dos nove é saber se aquilo que a "nova direita" propõe conduzirá a uma sociedade menos conformista, mais diversa culturalmente e promotora da igualdade. Não me parece nada que seja esse o caso.
1. Os rapazes e as raparigas têm os mesmos direitos e deveres, são capazes das mesmas coisas e não há coisas de rapazes e coisas de raparigas. 2. O sexo é natural e bom. 3. Masturbar-se é normal. 4. Há quem se sinta mais atraído por pessoas de sexo diferente. 5. Há quem se sinta mais atraído por pessoas do mesmo sexo. 6. Ninguém tem o direito de fazer sexo connosco se não quisermos. 7. Não temos o direito de fazer sexo com alguém que não queira. 8. Há como evitar a gravidez. É assim: ... 9. Há como evitar doenças sexualmente transmissíveis. É assim: ... 10. Ninguém tem o direito de nos assustar em relação ao sexo, de dizer que é feio ou mau, que só serve para ter filhos, e tão-pouco que é a coisa mais importante do mundo.
E a vencedora é: "Catarina" de As Minhas Histórias, com este texto. O prémio - o Dicionário da Homofobia - ser-lhe-á entregue em breve (ora aqui está uma boa desculpa para nos conhecermos; fico à espera dum contacto por mail...).
Leia-se e pasme-se. Trata-se de um artigo no AngoNotícias. Os mais ingénuos poderão pensar que quem sofreu ou sofre uma discriminação (por exemplo, "racial") fica, por isso, mais compreensivo face às discriminações sofridas por outros. Not!
Num dos filmes (sobre os ataques a um Pride em Belgrado) que amanhã às 21h serão mostrados no Lg do Camões por ocasião do Dia Mundial contra a Homofobia, vê-se bem como o nacionalismo de direita é sempre homofóbico, baseando o seu "argumento" na excepcionalidade cultural (seriam outras culturas, "decadentes", "efeminadas", a tolerar a homossexualidade; a nossa, "pura" e "viril" não aceita isso).
Hoje mesmo, Graça Franco no Público ataca o manual de educação sexual proposto pela APF referindo, como quem não quer a coisa, que foi adaptado de um manual espanhol. O "sentimento anti-espanhol" será profusamente aproveitado no backlash homofóbico que se aproxima na nossa sociedade.
Também sabemos das histórias de puritanismo sexual associadas a muitas esquerdas, "revolucionários" e movimentos de "libertação". Em África - para voltar ao início do post - tudo isto é acrescido de um excepcionalismo de tons essencialistas e generalizantes (A África): a África e os africanos seriam culturalmente (racialmente?) incompatíveis com a homossexualidade; esta seria o resultado da influência decandentista dos colonizadores, um vírus a exterminar. Não é apenas Mugabe, o ditador e ex-libertador do Zimbabué que o diz. Pelos vistos, algum jornalismo angolano também.
Sai hoje do ar o link para o concurso do 17 de Maio, dia internacional contra a homofobia. Nesse dia divulgarei @ vencedor/a do prémio. Também sai do ar o Webbing Ring. Terminada a fase do estudo de caso em Barcelona, não quero que o WR fique disponível na Net para sempre: foi um exercício de trabalho de campo com notas em "tempo real", para benefício de estudantes, colegas e pessoas interessadas no tema em pesquisa. Foi um exercício arriscado e incompleto: arriscado por expor mais do que é normal as vidas dos meus colaboradores de pesquisa (o que antes se chamava "informantes":..); e incompleto por não dar conta de tudo, ao contrário do meu diário de campo, esse ainda pessoal e intransmissível. Espero que tenham gostado. Cache or no cache, se alguém precisar de aceder aos materiais para algum efeito de estudo, estarei disponível para ajudar. Vou agora começar a parte pior de todas: analisar o material, começar a escrever e... verificar tudo o que falta (viagens futuras a Barcelona serão, pois, necessárias - o que fica mais fácil, passe a publicidade, com a Vueling...).
Aproveito ainda para agradecer os parabéns pelo segundo aniversário dos TQC. Estes, sim, continuam: refrescados pelo vosso apoio.
Não esquecer! Termina hoje à meia-noite o prazo de entrega de textos para o Concurso (não vá o título do dito ter gerado equívocos quanto à data...). Ver as regras aqui.
A declaração de inconstitucionalidade do artº 175 do Código Penal deu azo a várias asneiras. De alguns jornais e comentadores, para todos os efeitos sociológicos gente altamente (cof, cof) escolarizada e letrada. A confusão constante entre consentimento e abuso ou entre criança, adolescente e menor e a ligação a casos concretos (como o processo de "pedofilia" dos Açores ou o do cidadão inglês) revelam o estado das coisas: o problema de muita gente é a homossexualidade, sempre associada a desvio, agressão, trauma. As interpretações erradas do 175 e do significado da sua inconstitucionalidade acontecem porque os intérpretes interpretam (o.k....) na presença da imagem mental dum homem lúbrico assaltando um rapazito - e nunca de um jovem de 16 anos atraído por um de 18, por exemplo. O subtexto é que a homossexualidade é intrinsecamente "má".
Miguel Portas subscreve a moção de censura a Barroso. Para o caso pouco importa o conteúdo da coisa: curioso, sim, é que isto se tornou notícia também por causa do subtexto. Se no caso do 175 o subtexto é o "desvio" homossexual", neste caso é o "antipatriotismo". Uma certa e generalizada patridiotice acha estranho que um eurodeputado português possa pôr em causa o Presidente da Comissão português. Coisa feia! Falta de educação! Anos e anos de "pactos de regime" entre PS e PSD em função do "interesse nacional" criaram uma cultura de "consenso" estupidificante e apolítico. (Que sirva ao menos para Guterres, o homem responsável pelo caos da questão do aborto, desaparecer de vez do mapa político).
Um jornalista do DN, Raul Vaz, escreve sobre a sua estranheza por o Bloco não ter comentado logo o caso BES/Nobre Guedes/PP, quando havia vociferado contra o caso Galp durante o governo anterior. Para ele isto seria um sinal de acomodação. É curioso ver a direita a exigir ao Bloco sinais de esquerda. Vaz esquece que no caso Galp denunciou-se o que estava a acontecer no governo; ao passo que o caso BES/etc resulta duma investigação (e não somos supostos "deixar a Justiça seguir o seu curso", como soi dizer-se no tuga legalês do consenso político?). Não fosse a minha suspeita de que o editor do DN - na sequência, aliás, da nova estratégia de definição de um nicho de mercado para aquele diário, já internacionalmente conhecida como a nitwit niche strategy fundada por Luís Delgado - é, digamos, intelectualmente desafiado, acharia revelador o subtexto: queremos um Bloco que ladra, não o queremos na nossa caravana.
Um funcionário da ICAR disse uma barbaridade sobre o assassínio duma criança. E disse outra barbaridade sobre fetos abortados, que ele vê como pessoas. Meio mundo gritou "escândalo" em relação à primeira afirmação; ninguém tugiu sobre a segunda. O subtexto, tanto mais perturbador quanto aparentemente inconsciente é que meio mundo, incluindo muitos dos tais escolarizados da mídia, acha que um feto é uma pessoa e o aborto um assassínio.
No banco do largo central Daquela pequena vila litoral Espera-me aos fins de tarde olhos de homens que me perseguem
Vão ali para me verem Para me admirarem Para me condenarem Para me desejarem
Nunca falei com eles, Jamais.
Sei quem são Sei donde são Sei o que querem Sei mais deles Do que eles próprios sabem
Sei que me admiram Sei que me condenam Sei que me desejam
Sei que tem medo de mim Medo do que eu represento De como eu me apresento De como eu ando na rua De como sendo o que sou A minha vida continua Numa vida que acham não poder ser a sua
Sei que tem medo de mim Medo de que fale com eles Se as pessoas sabem o que sou E se pensam que eles são Então decerto que aquele que comigo falou Há-de ser tanto como eu sou Um homem de perdição.
Sei que me admiram Pela minha assunção Represento para tantos homens Aquilo que nunca serão!
Sei que me desejam Que fale com eles Que lhes toque Na privacidade do banco de trás de um carro Na escuridão de um quarto alugado.
Mas nunca falei com eles, Jamais.
Sei quem são Sei donde são Sei o que querem Sei mais deles Do que eles próprios sabem
Sei que se com eles falasse Tudo negariam em exaltação - Que era importante que o povo soubesse Quem começou com a conversação: Eu!
Por isso nem adianta conversar!
Os olhos dos homens que me perseguem São os mesmos que se masturbam culpabilizados Se deitam ao lado da mulher Depois dos miúdos já estarem deitados.
Oamis Seutam.
PS: O concurso acaba amanhã! (E não, não é um concurso só de poesia...)
Talvez só hoje tenha respirado desde que regressei de Barcelona. Um regresso apressado pela morte duma pessoa querida da família transforma o regresso numa estranha experiência. Ao nevoeiro do luto seguiu-se o confronto com a já escandalosa falta de profissionalismo da terra, em assuntos-barra-contratempos a tratar. E o nevoeiro da memória colectiva, com uma sessão sobre o Holocausto no Instituto Goethe. E a convenção do Bloco. E n-mails (mais apropriado que e-mails) sobre isto, aquilo, não-sei-quantos e aqueloutro. E aproxima-se um Elas em Marte sobre homossexualidade, uma mesa sobre a "Constituição" Europeia no Forum Social em Évora, a concentração anti-homofobia em Viseu...
Hoje reemergi um pouco: nos correios, levantando uma caixa com livros enviada de Barcelona, aproveito para comprar um "colete de alta visibilidade" para o carro, a última moda-barra-lei da terra (os Correios são agora lojas de conveniência; também havia Paulo Coelho à venda - literatura de alta visibilidade...) . Páro no meio da rua e penso: como é que numa terra com tantas solicitações, tantos telefonemas, tantas iniciativas, tantos encontros, debates, conferências, colóquios, seminários, programas, tertúlias, congressos, reuniões, vamos-tomar-um-café, vamos-almoçar e quando-é-que-a-gente-se-vê, não acontece, afinal de contas, nada?
Recomecei a ler, agora a sério, o Medo de Existir.
Antes da luta eles juntam-se para se darem forças. O lugar onde se encontram é em qualquer um, eles estão unidos em toda a parte, agem como se fossem um. É então que para lhes dar ajuda dizem
Em nome e pelo poder do espírito santo, contra essas pessoas vão pelas ruas em busca dos "anormais". Invocando a diferença que tanto acolhem como a aniquilam. Nós elevamos a nossa voz. "Somos homossexuais lutando contra vós!"
Deixem que venham esses cavaleiros. Deixei que corpos sejam trespassados pelas espadas deles e o nosso sangue corra pela terra, vivo.
Perdoai-lhes Senhor. eles sabem o que fazem e insistem em o fazer. Ajudai-nos Senhor a espalhar as nossas marcas no espírito viciado desses lutadores, pois sem a tua ajuda a nossa força desfalece e o nosso sangue fica envenenado pelo desânimo. Ajudai-nos a espalhar a tolerância que tão harduamente eles não querem aceitar.
Esses cavaleiros que venham. Esses cavaleiros que estejam preparados para sentir o sacrifício humano. Que esses cavaleiros não vacilem em aumentar a força do nosso acto e não larguem lágrimas.
Perdoai-nos por termos de ser abusivos nas nossas acções. Perdoai-nos por esquecermos que também tu estiveste numa lutar semelhante, pela tua diferença foste morto. Tal como dizias a todos, precisa-se de amor. Perdoai todas as lágrimas que tenha de largar, todas as gotas de sangue que tenha de espalhar, todas as maldições que tenha de mandar, precisamos disso para continuarmos fortes.
Esses cavaleiros que não ameacem. Esses cavaleiros que não esperem. Esses cavaleiros que partam para a revolução, que se juntem e espalhem a mensagem que lhes damos nas mãos.
Um clarim toca ao longe. Não se houve ainda o trovão do final da guerra. Ouvem-se gritos. Ouvem-se pessoas a chorar. Ouvem-se gritos de revolta. Vêm-se esses cavaleiros desfilar. Um deles pega na mão de um rapaz e diz-lhe para não chorar. " Eu volto para que possamos viver juntos."
Em nome do espirito santo eles se juntaram no campo de batalha e esperaram que o primeiro tiro fosse dado.
Perdoai-nos senhor mas não somos fracos. Podemos lutar pelo nosso espaço no mundo, pela nossa aceitação. Nada mais te pedimos que aceitação e igualdade.»
Esses cavaleiros lutam. Esses cavaleiros devemos ser todos nós.
Portugal é um país pequeno, periférico e pobre no contexto europeu. Talvez por isso a sua esquerda tenda a situar-se ao centro (como é o caso do PS) ou a ancorar-se na tradição histórica (como é o caso do PC). Fenómenos como o BE são tirados a ferros e minoritários.
Também por aquelas razões, os movimentos sociais são fracos e ligados a tradições históricas mais instaladas. Embora tenha crescido exponencialmente nos últimos anos, o movimento LGBT não tem ainda força suficiente. O resultado desta dupla situação - nos partidos e nos movimentos - é que é "natural" (no sentido de previsível) que seja o segmento mais pequeno e mais inovador (o BE) a acarinhar a agenda do segmento mais recente e mais desafiador da tradição (o LGBT).
Isto pode levar a confusões, como a acusação de controlo político do movimento. Mas é uma confusão: a expectável juxtaposição de pertenças (BE e LGBT) não é necessariamente um fenómeno de "correia de transmissão". Vem aí - mais tarde ou mais cedo - uma questão que vai tornar isto claro: embora o BE tenha no seu programa eleitoral a referência ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, é bem provável que a sua prioridade política no campo das liberdades sexuais seja de carácter mais genérico (por exemplo, uma lei anti-homofobia); por força da esquerda ter que navegar no tal país pequeno, periférico e pobre, ou por força de algum purismo anti-patriarcal transformado em puritanismo (um torcer de nariz emocional à palavra "casamento").
O movimento LGBT tem aqui uma oportunidade de ouro para estabelecer a sua agenda à frente dos partidos - à frente, obviamente, do conservadorismo do PS (exceptuando - honra lhe seja feita - a JS), e à frente de algum esquerdismo no Bloco. Tornar o direito ao casamento civil na principal reivindicação LGBT seria, por paradoxal que possa parecer a alguns, a decisão mais revolucionária de todas - pelo que tem de exigência de igualdade nos direitos; pelo que tem de desafio ao conservadorismo da ideologia de género e da família, e pelo que tem de recusa da marginalização libertária/esquerdista das lutas LGBT.
Espanto nº 1: na cobertura do caso Ivo Ferreira nunca surge manifestado o espanto por alguém ser preso por consumir haxixe. Suponho que jornalistas e comentadores achem "normal" que tal aconteça; se calhar pensam que é também assim entre nós e que assim deve ser. Numa sociedade livre o consumo de drogas não deve ser penalizado, muito menos criminalizado. Que isto não surja como evidente é assustador.
Espanto nº 2: Nuno Pacheco, no Público de hoje, tece elogios à forma pacífica como se resolveu o conflito entre a ICAR e o Governo em Timor-Leste. O elogio implicitamente deixa passar como não problemática a criminalização do aborto naquele país. É elogiado o pacote de medidas eclesiais como forma de precaver a exploração de mulheres e crianças num país pobre. Ninguém percebe que o que aconteceu em T-L foi justamente o oposto do que se diz - um golpe letal na democracia e na laicidade do Estado de Direito?
Foi giro ter sido incluído, pelo semanário Expresso, no grupo da "ala direita" do Bloco. Eu próprio fiz essa blague há anos, quando numa convenção disse que era da ala direita do Bloco, mas que ser a direita da esquerda não era o mesmo que ser a esquerda da direita. Mas foi giro porque o Expresso lá teve que reconhecer a pluralidade do Bloco. E este fim-de-semana a Convenção demonstrou que se leva a sério a pluralidade, o direito de tendência, a democracia interna e a divulgação de informação. Com falhas? Com defeitos? Sem dúvida. Mas tudo começa pelas intenções quando elas se baseiam em princípios e estes se inscrevem claramente nos estatutos.
O Bloco tem agora mais poder. E eu creio piamente no princípio de que o poder implica responsabilidade. E o primeiro princípio da responsabilidade é a honestidade nos propósitos. O Bloco definiu-se, além de democrático e plural, como ecologista, feminista, anti-capitalista e socialista. Estas duas últimas expressões, por causa dos tempos que correm e da história dos últimos cem anos, são obviamente complicadas. Passo a explicar.
Há tempos recusei a designação de "socialista" para o Bloco. E nunca percebi bem o que está por trás da expressão "anti-capitalista". Comecemos pela última. No meu entender (e acho que deverá haver pluralidade interpretativa também), "anti-capitalista" significa criticar radicalmente o capitalismo tal como existe, isto é, o sistema neo-liberal vigente, avesso à regulação, promotor de formas de exploração que, por serem globalizadas, tornam ainda mais difícil a dita regulação e, inclusive, fazem a humanidade recuar nos direitos conquistados; significa também criticar radicalmente uma cultura capitalista baseada apenas no consumismo e no hedonismo. Nada disto significa deitar fora a noção abstracta de mercado (haverá sempre mercado, mesmo num hipotético regime socialista), mas sim recusar O Mercado; nada disto significa recusar o prazer das coisas ou o prazer da vida (bem pelo contrário), mas sim criticar a mercantilização de tudo e o imediatismo dos prazeres. Já questões "de fundamento" (que me parecem mais fundamentalistas que outra coisa) como a abolição da propriedade privada, parecem-me tão puristas e irrealistas (e mesmo desnecessárias) como a exigência purista cristã do celibato total como única forma coerente de evitar o pecado...
Isto liga-se ao que me ocorre dizer sobre a segunda "grande palavra", socialismo. Aceito-a agora de bom grado, desde que explicada e adjectivada, pois não vejo o socialismo como uma Coisa, um Regime ou algo que possa ser decretado; não vejo o socialismo como sinónimo de uma utopia, um céu a atingir, um final dos tempos e da História. Vejo o socialismo como o nome que se convenciona atribuir ao processo, ao movimento de acumulação de processos emancipatórios diversificados. "Socialismo" pode ser o nome do chapéu de chuva de todas as lutas progressistas contra o predomínio dos modos capitalistas de organizar a economia e a sociedade; contra o neo-liberalismo; e contra a cultura capitalista da alienação. Em rigor, a minha perspectiva é social-democrata, no sentido antigo da expressão e o Socialismo é um ponto-de-fuga, como na perspectiva de um desenho, mais do que um destino. Um partido, como o Bloco, é um movimento: nele confluem pessoas preocupadas com as condições concretas das suas vidas e da sua sociedade, em muitos planos diferentes da experiência e das identidades; discutem o que as une e o que as desune e traçam projectos e acções necessariamente transitórios; e não estarão unidas para sempre. Porque não há - porque não deve haver - Um Objectivo, Um Modelo, Um Regime (Uma Coisa...) pré-definida a atingir. É sobretudo isso que me separa de algumas pessoas e grupos cujo dogmatismo e normatividade me dá urticária.
Para as pessoas mais velhas do que eu, as que foram adultos na ditadura, a palavra "socialismo" tem uma conotação relacionada com as utopias e os programas ideológicos de cartilha - e o gosto desagradável (ou a saudade) próprios das desilusões; para a minha geração, que já assistiu à débacle do "socialismo real" (expressão tão risível como o seria dizer que a ideologia do Vaticano corresponde ao cristianismo original....) do Leste, das revoluções "festivas" da América Latina e das "libertações" africanas, a palavra cheirou durante muito tempo a sacristia, a partidão e a dogmatismo; para as gerações da democracia é simultaneamente uma palavra assustadora e ignorada (ou porque uma espécie de consenso capitalista se estabeleceu, reflectindo-se numa educação que transmite a mensagem da equivalência entre capitalismo e "estado natural da humanidade"), ou pela simples incapacidade dos socialistas transmitirem a sua mensagem. Dos socialistas: o plural importa.
Não há, a meu ver, um ser socialista ou sequer um devir socialista. Há um estar, um ir sendo e, sobretudo, um ir fazendo socialista. Por isso aquilo que defenderei no Bloco será a crítica feroz dos dogmatismos para-religiosos da extrema-esquerda, das normatividades anquilosadas à PC, e dos medos e fraquezas que levam ao esvaziamento do movimento socialista no PS.
Visto a camisola do socialismo. Sabendo que a posso lavar e que novas camisolas, com novos desenhos, podem sempre ser compradas.
É delicioso ler os comentários à convenção do Bloco feitos por alguns opinadores de direita nos jornais (imagino nos blogs... mas não os visito). Têm duas características comuns: a contradição e a fantasmagoria. A contradição reside em ora decretarem o fim do Bloco por se tornar partido "a sério", ora por demonstrar terríveis clivagens internas. Face a estas maravilhosas previsões, o BE não só cresce como se consolida como estrutura. A fantasmagoria reside na vontade de perpetuar o que vêem como o pecado original do Bloco: as origens ora estalinistas, ora trotsquistas, ora isto ou aquilo. O fantasma tem que ser cultivado, não vá a realidade desmenti-lo. Quando um dia os novos militantes do Bloco, nascidos na ausência de qualquer referência às lutas arqueológicas da esquerda, estiverem num governo, os comentadores recordar-nos-ão a todos que o Bloco é um albergue espanhol de extremistas de esquerda. Bem sei que a capacidade analítica nunca foi muito forte na direita (pois para se analisar algo é preciso ser-se crítico e quem vive quase só de crenças não pode sê-lo...), mas às vezes é de mais.
Hino do Homofóbico Confuso Eu sou um rapaz normal, bom, simpático, decente. A ninguém desejo mal, p'ra todos sou sorridente. Mas vejo um homossexual e,logo ali, de repente, me toma uma fúria tal que até me sinto doente! Eu sou um rapaz normal que se dá com toda a gente, bom aluno, pontual, estudioso, obediente. Mas vejo um homossexual e, logo ali, de repente, sinto o impulso fatal de arranhar, meter o dente! Eu sou um rapaz normal, mas digam-me, francamente, se esses tipos coisa-e-tal se podem considerar gente! Eu sou um rapaz normal, cristão, praticante, crente, e diz a Igreja que o mal nos vem todo dessa gente! Eu sou um rapaz normal! E se gora, de repente, me toca um homossexual? tornava-ne replente! Essa doença, afinal, pode-se pegar à gente, e eu sou um rapaz normal, não quero ficar doente! Essa gente é anormal, é aberrante, diferente! Eu vou lutar contra o mal, eu vou matar essa gente! Ai do homossexual que apareça à minha frente! Homofóbico, eu?! Brutal?! O que é isso, minha gente? Sou só um rapaz normal!
Óscar Muñoz pinta o seu autoretrato, com água, sobre uma pedra quente. O seu esforço é em vão - a pedra absorve rapidamente a água. A imagem, efémera, desaparece. O resultado, numa projecção vídeo de meia-hora, é assustadoramente bonito.
Gillian Wearing faz autoretratos "como", isto é, pega em velhas fotos de família, reconstroi-se (na roupa, maquilhagem, luz, etc) e fotografa-se: ora posa como a sua mãe, ora como o seu irmão, ora como o seu pai, etc. O resultado, várias grandes fotos de pessoas muito diferentes mas muito iguais, é assustadoramente bonito.