OS TEMPOS QUE CORREM. Miguel Vale de Almeida


30.4.05  

O "casamento" de Pontons.

Lluis Fernando Calentey, alcaide de Pontons, gerou a polémica com os insultos homofóbicos que marcaram a sua recusa em vir a realizar casamentos entre pessoas do mesmo sexo. Hoje a Juventude Socialista da Catalunha promoveu um "casamento" em frente à Câmara Municipal daquela localidade. Pontons é um minúsculo povoado (na Espanha em geral pode haver municípios muito pequenos, já que não existe a figura da freguesia) a 600 m de altitude. Depois de uma hora de comboio desde Barcelona até Vilafranca del Penedès, ainda é preciso apanhar um táxi para percorrer os restantes 20 Km, subindo uma belíssima serra. Na pequena praça em frente à pequena câmara municipal, juntaram-se umas 100 pessoas. No início o espaço já estava ocupado com cartazes da JSC e a aldeia inteira ostentava grafittis insultando o alcaide. A porta da câmara estava pintada com dois símbolos masculinos entrelaçados.



Os meios de comunicação é que não faltaram. Enquanto a "cerimónia" não teve início, vários "convidados" foram fotografados com a bandeira do arco-íris. O grosso do evento consistiu, aliás, em entrevistas concedidas por activistas a n câmaras de televisão.



O casal chegou e foi lido o manifesto escrito pela JSC em que, em nome do "Estado democrático e de bem-estar" (gosto da formulação) se falou em direitos iguais e se criticou fortemente o alcaide.



Finalmente, o jovem oficiante socialista perguntou ao casal se desejavam casar-se. Após o "sim" e o beijo (impossível de fotografar devido à concorrência da TVE), chuva de confetti e arroz.



Tudo foi rápido, eficaz, bem-disposto. Pessoas locais perguntavam se ia haver bolo. Toda a gente gritava "beijo!, beijo!". A Guardia Civil observava feliz. Toda a gente desceu da montanha. Pontons lá tem o seu alcaide, agora expulso do PP, e o Estado Espanhol terá em breve a lei do casamento alterada.

mva | 21:13|
 

O macho penetrado.

Miguel Sousa Tavares publicou ontem uma crónica de opinião que revela o triste estado da... opinião: pela falta de informação factual, pela preguiça em buscá-la, pela confusão entre preconceito e sentido de justiça, pela incapacidade de desmontar as próprias crenças à luz dos argumentos de outros.

No caso do julgamento dos Açores, haveria que ir ler os artigos 174 e 175 do Código Penal; haveria que ir ler as propostas do anterior governo (!) de modificação desses artigos; haveria que ir ler os textos produzidos pelas associações LGBT; haveria que consultar as recomendações do Parlamento Europeu, do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos e o Conselho da Europa no sentido da abolição da diferença na idade do consentimento.

Porque é disso que se trata, para lá de qualquer juízo sobre o abuso sexual (alguém põe isso em causa?!). O que o 175 sugere é que não há verdadeiro consentimento por parte d@ adolescente numa relação homossexual. Ou seja: o teor homofóbico da lei estava (está...) em achar "impossível" que um ou uma adolescente deseje e consinta conscientemente numa coisa tão "bárbara" como a homossexualidade.

And now for something (NOT!) completely different:

É neste caldo de cultura que argumentos como o de MST navegam - ou se afundam. Mais: se se fizer uma leitura a contrapelo daquele tipo de textos percebe-se que fantasmas os habitam. São fantasmas típicos da homofobia. Mas não só: são fantasmas de machismo e de falocentrismo, pois a "vítima" imaginária é o macho penetrado. No fundo, a mesma figura que habita os verdadeiros nojos, mais ou menos camuflados, que sentem as pessoas que torcem o nariz a todos os avanços nos direitos dos gays.

Nada, absolutamente nada, na defesa da abolição do 175 tem a ver com qualquer tolerância face ao abuso sexual. A mensagem parece ser difícil de passar porque a homofobia vive da atribuição de uma ilicitude fundamental à homossexualidade. Para um homófobo, a homossexualidade é sempre abusiva e a sua figura máxima - a do varão analmente penetrado - é sempre uma desonra, uma emasculação, uma violência e uma violação.

mva | 11:25|


29.4.05  

Gays e Católicos.

A propósito da questão sobre a suposta contradição entre dizer-se católico e gay/lésbica, levantada no Renas, é curioso ler um pedaço de um artigo publicado hoje por Josep Miró i Ardèvol (procurar na secção "Diàleg") conhecido ultra-conservador católico (e,claro, anti-casamentos gay e lésbicos) do movimento e-cristians. Diz ele às tantas: «(...) hi ha una concepció incompatible del que és l'Església. Per exemple, quan s'afirma que es pot renunciar a tot menys a l'Evangeli, es comet una reducció que porta al relativisme. L'Església catòlica té l'Evangeli com a guia, però llegit a la llum de la tradició i del magisteri, i no des de la subjectivitat, més pròpia del protestantisme. El credo de la nostra fe n'és la millor constatació. L'Església per als catòlics no és només una associació humana, una mena d'ONG benefactora, sinó una realitat transhistòrica, comunió dels sants i cos místic de Crist.» Se for necessário, traduzo. Mas a ideia é a seguinte: ser católico é necessariamente ser da/pela ICAR, ao contrário do que dão a entender alguns auto-proclamados católicos que não concordam com as ideias da hierarquia (em rigor, para Miró nem deveria ter cabimento a noção de "hierarquia"). Miró acaba por ter uma estranha e perversa razão "técnica": quem quiser seguir "Os Evangelhos" fora da Igreja Católica tal qual ela existe pode fazê-lo no protestantismo. E, recordo: não são poucas as igrejas de origem protestante que são gay friendly. Por exemplo, os Unitários Universalistas estão representados em Espanha...

PS: Espero que não levem a mal o humor, mas uma amiga minha aqui chama carinhosa e ironicamente os seus amigos gay católicos de maricristis (assim como há as musculocas e outros divertidos neologismos...)

mva | 14:12|
 

Ar fresco.



O diário Avui alivia-nos hoje das barbaridades de alguns alcaides do PP. Duas mulheres dirigiram-se à vereadora de Barcelona Imma Mayol pedindo-lhe que seja ela a celebrar o seu casamento. O presidente da Câmara, Joan Clos, está à espera de uma enchente de casamentos e está a preparar os serviços para que tudo corra bem. Ele próprio quer oficiar o primeiro casamento gay ou lésbico.



Entretanto, espero poder fazer de enviado especial ao "casamento" que os jovens socialistas promovem amanhã em Pontons, a vila cujo alcaide declarou não casar "tarados".

mva | 11:35|
 

Concurso. Entrada 2 (extra-concurso).


José Gil e o Nevoeiro dos media.

O tópico dos media, ou mais exactamente, dos telejornais generalistas, é abordado logo no momento inicial do livro de José Gil. Foi um aspecto que me interessou particularmente, visto que, a partir do momento em que comecei a assistir criticamente a estes paradigmas da transmissão de ?informação? em Portugal, tornei-me numa companhia insuportável entre as 20 e as 21 horas de cada dia. Hoje já não vejo estes telejornais. E era insuportável porque criticava peça a peça, quer seja pela falta de profissionalismo, pela abordagem sensasionalista ou pela falta de menção a temas importantes. A minha ingenuidade consistia em medir tudo isto a partir do princípio que os telejornais queriam fazer informação séria. Não querem. Isto tornava a minha critica fútil, que era ao mesmo tempo irritante por outra razão: ninguém quer saber.

Os telejornais funcionam segundo uma lógica de entretenimento, de agitação suave. Doutra forma, como nos poderia ser possível comer se nos confrontassemos realmente com as tragédias do mundo? Quando o assunto nos toca mais de perto, as peças apelam ao comentário de senso comum e de instinto primário. É a transformação do mundo em conversa de café. Como é dito no livro, o mundo noticioso dos ?directos? e dos ?enviados especiais? consegue colocar o espectador ?dentro do mundo mas ao mesmo tempo acima dele, como se o vivesse não vivendo.? É por isso que as grandes tragédias do mundo são sempre retratadas com um subtexto semântico de exótico, distante, ou quase de ficção científica. Como que a dizer: não se preocupe, desse lado do ecrã está seguro. Se as pessoas não se sentissem seguras, não haveria entretenimento. Apela-se ainda à imobilidade. As coisas são como são (mais mortos em África, mais um atentado na Palestina..., muitas vezes meras perpetuações de preconceitos nocivos) e nada podemos fazer. Quanto muito, a culpa é dos ricos ou poderosos. Se as pessoas pudessem realmente fazer alguma coisa perante as notícias do mundo, seria uma chatice e acabar-se-ia o entretenimento.

Para isso é importante que o conhecimento não seja também demasiado profundo. Daí o constante bombardeamento visual. O que é preciso é chocar e não implicar o espectador. Mas os telejornais sabem que esta via se esgota e é por isso que procuram tão avidamente a tragédia que pode implicar o espectador. Consequentemente, é dada grande importância às ?vagas de frio? ou aos episódio do tipo ?podia ter acontecido a um de nós?. O que tem imagens vale (maremoto), o que não tem não conta (Darfur). Se for mesmo preciso ver, faz-se uma simulação de computador. É a prova como o mundo da televisão se afasta progressivamente de nós, até não nos dizer nada, até ser irreconhecível. Este estado das coisas (?É a vida?), este ?numbing? é perigoso. Primeiro, porque promove a ignorância. Quantas pessoas sabem hoje explicar minimamente o que se passou no Kosovo, uma guerra tão perto de nós (e que ainda não está sanada)? Outro exemplo, no processo de independência de Timor, quandos não entraram na falácia do ?povo Português salvador? esquecendo o passado colonialista na ilha e não percebendo que, em grande parte, se tratou duma apologia do Nacionalismo? Segundo, promove a falta de memória (o Nazismo é coisa de filmes e videojogos) e provoca o entorpecimento geral dos sistemas de alerta. Quando percebermos que os perigos globais não estão no mundo distante do ecrã, será já demasiado tarde?

Nuno Pinho.

Nota: O Nuno pediu simpaticamente que o texto ficasse "fora de concurso", por ter sido ele o vencedor do último.

mva | 11:30|


27.4.05  

Começou a tourada.

Alguns presidentes de câmara do PP vieram manifestar a sua intenção de não permitirem casamentos entre pessoas do mesmo sexo nos seus municípios. Sentiram, talvez, que o apelo da igreja aos funcionários dos registos civis lhes dava força. Um deles, aqui mesmo na província de Barcelona, foi dizer para os jornais que os homossexuais são tarados e deficientes. Os jornais traziam ambos os assuntos nas primeiras páginas de hoje. É que o PP tratou de dizer que não subscrevia a opinião dos seus autarcas; e viu-se obrigado a expulsar o senhor que vê tarados e deficientes em toda a parte. Até o Conselho Superior do Poder Judicial, que em tempos emitiu um parecer homofóbico sobre a nova lei, veio agora dizer que toda a gente tem que respeitar a lei, que é como quem diz, -la. Eh, eh.

mva | 15:37|


26.4.05  

Uma experiência forte...



...foi ter visto ontem In My Country, de John Boorman. Calhou mesmo bem, no meio da leitura da autobiografia de Mandela, a que me referi há dias. (É, aliás, curioso que me "concentre" no apartheid e na libertação sul-africana quando estou a investigar questões de discriminação e libertação com base na orientação sexual...). A África do Sul é um caso fascinante, que convoca todas as contradições do colonialismo e das lutas de libertação nacional. Todos temos a perplexidade e hesitação da personagem do jornalista negro norte-americano perante um país que viveu um autêntico fascismo e onde, mesmo assim, as pessoas em diferentes lados da barricada não só tinham (também) relações de intimidade entre si, como conseguiram prosseguir a estratégia da "Verdade e Reconciliação". Pense-se em como não aconteceu o mesmo na Alemanha do pós-guerra ou, salvas as devidas proporções, em Portugal (vide caso das listas dos informadores da PIDE...). A estratégia da Truth and Reconciliation teve a inteligência de se basear quer na ética de fundo religioso protestante, muito expandida na África do Sul, quer em conceitos "tradicionais" africanos sobre a interligação entre as pessoas ("quem que faz mal a alguém faz mal a todos e a si próprio") - no fundo, duas versões do mesmo e coincidentes, ainda, com a ética secular. Falar, pedir desculpas e ser amnistiado: uma espécie de regime confessional para os tempos (pós)modernos, que vê na socialização da culpa o próprio castigo - talvez o pior de todos.

mva | 13:07|
 

Assim não vamos a lugar nenhum.

Dito assim, isto é pura ideologia. Mais: é irresponsabilidade social, num mundo onde não só já é difícil falar em diferenças entre homens e mulheres no geral, mas onde existe, isso sim, uma relação assimétrica de poder e desigualdade. Precisamos de mais informação sobre a qualidade desta pesquisa; precisamos de informação sobre outras teorias, sobre contra-evidências; precisamos de ouvir também a opinião de especialistas de outras áreas; precisamos, sobretudo, de uma abordagem crítica, cautelosa, e consciente de que quando se fala destes assuntos não se está a falar de ciência "neutra", mas de questões graves que afectam a cidadania, a democracia, a igualdade. É terrivelmente irresponsável fornecer às pessoas este tipo de "notícia" como se fosse uma realidade incontornável. O problema fundamental quer da pesquisa apresentada quer da notícia sobre ela é o pressuposto do dimorfismo sexual como objecto de inquérito e como base explicativa para diferenças e desigualdades sociais. E que vai o novo Ministério da Educação fazer com esta proposta contida na notícia: «Neste sentido, o Instituto da Inteligência está a organizar acções de formação em escolas dos 1º e 2º ciclos, bem como cursos para pais, a fim de transmitir estas e outras descobertas sobre as diferenças entre rapazes e raparigas no processo cognitivo e nos comportamentos.»?

mva | 12:45|
 

"Novas" famílias.

A minha amiga N., de Barcelona, é, salvo seja, um dos meus "troféus". "Troféu" da persistência mútua de ambos em mantermos o contacto e a ligação desde 1977. Nesse ano éramos os dois estudantes de intercâmbio nos EUA, vivendo em duas localidades próximas em Maryland. Mantivemos o contacto, escrevemo-nos e visitámo-nos ao longo dos anos - coisa que me aconteceu com apenas mais um ou dois dos muitos outros colegas de várias partes do mundo. Agora que estou em Barcelona, ela tem sido o meu maior apoio emocional e a sua casa é uma outra casa para mim. Outro dia aconteceu um daqueles eventos à amigos de Alex - o tipo de coisa a que não sou muito dado, já que o passado não é propriamente o meu país (ou praia, ou chávena de chá, ou cena...). Outra colega nossa, francesa, a E., estava de visita, e N. resolveu também convidar o F., espanhol agora a viver na Catalunha. Foi curioso verificar - no plano estrito da "sociologia da família ou do amor", digamos - os percursos dos 4, quase trinta anos depois de Maryland: eu estava naquele jantar com o meu companheiro, que tinha vindo passar o fim-de-semana, constituindo o único casal à mesa; N. vive sozinha, depois de ter estado casada durante uns anos há bastante tempo. Está agora envolvida no processo de adoptar uma criança em Marrocos; F. esteve casado, teve dois filhos, divorciou-se, e tem tido várias relações amorosas, estando agora a iniciar uma nova; E., sem relação conjugal, estava no jantar com o seu filho adoptivo de 5 anos, oriundo do Haiti.
Devíamos ter tirado uma foto para enviar a certas pessoas...

mva | 12:09|


25.4.05  

Cravos e ferraduras*

Li ontem, já o 25 de Abril começara, que Sócrates não só convidou Ratzinger (os jornais bem se esforçam por nos habituar ao Bento, mas eu acho que este Papa vai ser sempre conhecido pelo seu nome, verdadeiro oposto fonético e imaginário do nome papal) a visitar Portugal, como disse que esse convite correspondia ao sentimento nacional. Não pude acreditar. Um primeiro-ministro, para mais socialista, arroga-se o direito de dizer que nós tod@s desejamos que Ratzinger venha a Portugal?! Trinta anos depois do 25 de Abril?! Provavelmente Sócrates pensa que pode justificar isto com a necessidade de garantir a continuação do turismo a Fátima; se calhar pensa que toda a gente fica contente com a sua estratégia de defesa dos interesses económicos nacionais; se calhar pensa que é a isto que se chama "sentido de Estado". Oh, pobreza mental...

Sócrates, como tantos e tantos socialistas, continua prisioneiro da ideia não confirmada (é como aquelas "notícias" puramente ideológicas que aparecem nas páginas de "ciência" dos nossos fraquíssimos jornais, falando de "descobertas" sobre diferentes aptidões intlectuais de homens e mulheres e outros penamentos mágicos do género...) de que o país é esmagadoramente católico, esmagadoramente papista e de que ganhará votos, apoio e paz com a subserviência à ICAR. Basta ler um bocadinho de sociologia para perceber que não é nem assim; e basta um líder político que tenha a coragem de mostrar as suas verdaeiras convicções progressistas para que a sociedade real, para lá das ideias feitas, abrace a mudança.

Foram-se os cravos, ficaram as ferraduras: pesadas, de ferro, de cavalgadura - e próprias de mentes supersticosas e aflitas.

PS- Como são fracos os jornais portugueses lidos à distância! Já nem o Público se safa, tal o conservadorismo de muitos opinadores, ou a sensação geral que me assalta de a maioria dos jornalistas e cronistas "pensa mal", isto é, com poucas bases, pouco rigor, pouca lógica, pouco rasgo e ainda pior argumentação e retórica. Independentemente das ideologias, a comparação com um El Pais ou um Le Monde - e até com jornais locais de Barcelona! - é absolutamente confrangedora. Pouco me importa que isto pareça a típica queixa tuga que de tão aparentemente estrangeirada acaba parecendo provinciana: é que o problema, quando bem visto, não assenta no "carácter nacional" ou sequer na "pequenez do país", mas sim num problema verdadeiramente político de assalto dos media pelos poderes instalados. Temos com certeza liberdade de expressão no nosso país, mas não estamos livres dum poderoso condicionamento mental - exemplo disso é a campanha a que se assiste para a limpeza de Ratzinger (vide Público), em que até o primeiro-ministro participa desnecessária a pateticamente. Há coisas que se vêem melhor quando se está fora ...

* Frase roubada a um mail da Leonor...

mva | 14:59|


22.4.05  

Ruído na comunicação.

Ontem enviei por e-mail um comentário aos casamentos em Espanha, em resposta ao pedido duma jornalista. Para que notem a diferença entre o que se diz e o que se publica (não há nisto acrimónia, simplesmente desejo de esclarecer), leiam a peça:

«"Poucas esperanças" em Portugal

Miguel Vale de Almeida, defensor dos direitos dos gays e lésbicas, considera haver "poucas esperanças" de que a aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo pelo Parlamento espanhol se reproduza em Portugal devido às diferenças entre o PS e o PSOE (partido socialista espanhol). "O PS está refém de um "centrismo" que me parece mais baseado num fantasma do que numa realidade. O fantasma é que a sociedade portuguesa não estaria "preparada"", diz Miguel Vale de Almeida, antropólogo e investigador na área do género e da sexualidade, em resposta por e-mail a um contacto do PÚBLICO. Pelo contrário, argumenta, o PSOE percebeu que a sociedade precisava de enfrentar "os sectores conservadores, apoiados pela hierarquia da Igreja". O activista do LGBT, movimento contra a discriminação fundada na orientação sexual, sublinha também a diferença entre os movimentos gay e lésbico dos dois países - fraco em Portugal e forte em Espanha. No caso português, a questão do casamento homossexual depende também da modernização do PS - "que muito tem a aprender com o seu congénere espanhol", afirma. S.R»...,

...o meu comentário, enviado por mail, e no qual se baseia a peça:

«As diferenças entre o PS e o PSOE não auguram grandes esperanças neste campo. O PS está refém de um "centrismo" que me parece mais baseado num fantasma do que numa realidade. O fantasma é o de que a sociedade portuguesa não estaria "preparada"; este fantasma revela também dois medos: o da Igreja Católica e da sua influência, e o da perda de votos nos sectores do "centro". Mas há que olhar para a experiência espanhola. O PSOE de Zapatero propôs esta lei por duas razões. A primeira tem a ver com o facto de o movimento gay e lésbico ser forte em Espanha e ter pugnado pela igualdade de direitos na lei, incluindo o casamento; a segunda tem a ver com a percepção política de que a sociedade espanhola precisava de um enfrentamento com os sectores conservadores, apoiados pela hierarquia da Igreja. A estratégia demonstrou ser acertada: criar um "élan" de democratização, de defesa da igualdade e dos direitos civis. Não é por acaso que mais de 60% dos espanhóis se declaram favoráveis a esta lei. Em Portugal o movimento gay e lésbico é mais fraco, como o são todos os movimentos sociais. Mas tem crescido imenso e já inclui o direito ao casamento como uma das suas reivindicações prioritárias (sobre este aspecto sugiro contacto com a Associação ILGA-Portugal, mais do que com a Opus Gay...). No plano político só o Bloco de Esquerda e a Juventude Socialista falam claramente em casamento. O PS, além das razões apontadas acima, ficou refém de uma campanha eleitoral suja, baseada em argumentos homofóbicos lançados por Santana Lopes e que não foram clara e taxativamente combatidos pelo PS. Como? Dizendo claramente que uma sociedade democrática é uma sociedade de igualdade de direitos e de plena dignidade das pessoas; e propondo a alteração do Código Civil da forma que se fez em Espanha - deixando de referir o sexo dos cônjuges. Em Portugal muito depende da força e argumentação do movimento gay e lésbico; mas também da modernização do PS - que muito tem a aprender com o seu congénere espanhol. Oxalá a celebrada eleição de Espanha como parceiro privilegiado (feita por Sócrates na sua visita oficial) contamine o PS de modernidade. Do que menos precisamos é de soluções de segunda, como uma "melhoria" das uniões de facto; ou de argumentos baseados no medo e na homofobia oculta, como o receio do direito à adopção como consequência da igualdade no casamento.»...

...e a Carta ao Director que enviei hoje:

«A peça publicada a 22 de Abril com o título "'Poucas esperanças' em Portugal' - que cita comentários meus à legalização dos casamentos entre pessoas do mesmo sexo em Espanha - contém algumas interpretações erróneas. Desde logo, o título empola os aspectos negativos e deixa-os descontextualizados: como o artigo diz, e bem, tenho pouca esperança no PS, mas tal não significa que não tenha esperança no movimento LGBT. A peça apenas refere que eu disse que o movimento LGBT português é fraco e o espanhol forte. Acontece que no texto que enviei por e-mail essa afirmação estava devidamente contextualizada: "Em Portugal o movimento gay e lésbico é mais fraco, como o são todos os movimentos sociais". O movimento LGBT português tem crescido muito; precisaria de ser mais ouvido pelos partidos políticos e de ter maior visibilidade nos media (o movimento espanhol realça sempre, aliás, a importância desses factores para o seu sucesso). A minha pouca esperança tem a ver com a esquerda portuguesa e não com o movimento LGBT, cuja tenacidade e abnegação admiro enormemente. O meu "negativismo" é outro: como é possível que numa democracia e num Estado de direito haja uma categoria de cidadãos e cidadãs que, em virtude do seu sexo, estejam impedidos de celebrar um contrato civil? O atraso histórico de Portugal em relação à Espanha em questões básicas de direitos civis envergonha-nos a todos como portugueses. E espanta-me que se perpetue quando o PS, ao contrário do seu congénere espanhol, dispõe de maioria absoluta....

PS: Outra correcção: "LGBT" significa "Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgénero"; não é o nome de nenhuma associação, ao contrário do que o artigo dá a entender.»

mva | 14:34|


21.4.05  

Votação final:

Abstenções: 6
Não: 136
Sim: 183

Seguido de enorme aplauso nas galerias.

mva | 13:22|
 

Ainda o casamento em Espanha.

No Webbing Ring disponibilizo a cobertura jornalística do El País.

mva | 13:19|
 

Casamento em Espanha.

Podem seguir em directo a discussão no Congresso de Deputados espanhol aqui. Neste momento estão a discutir um projecto relacionado com o divórcio. Podem consultar a ordem do dia no mesmo endereço, bem como o projecto-lei, com link dentro da lista da ordem do dia. Não esqueçam a diferença horária...

mva | 10:12|


20.4.05  

Gays cristãos.



Hoje falhou uma entrevista com pessoas do grupo de gays cristãos de Barcelona. Mas dada a quase coincidência de data com a eleição do novo Papa, aqui fica o link para a associação.

mva | 21:00|
 

Mandela.



Sempre fui um leitor compulsivo. Sobretudo de ficção. Mas de há uns anos para cá o prazer começou a diminuir. Ao mesmo tempo comecei a interessar-me mais por histórias reais de gente real - talvez por influência da própria pesquisa antropológica. Só recentemente descobri o género da biografia e, sobretudo, da autobiografia. Pouco me importa que seja um género que releva das convenções sociais sobre o indivíduo - o que me atrai na autobiografia é justamente o contexto histórico e social, vivido por alguém de concreto.

Estou agora a ler, com enorme gosto, a autobiografia de um dos meus pouquíssimos heróis - Mandela. Agrada-me a honestidade e a candura do relato, sobretudo a forma como, nas primeiras 100 páginas, Mandela reflecte sobre os seus erros de juventude: indecisões, mentiras, hipocrisias, erros. Para um antropólogo, é fascinante o relato da sua fuga da terra natal para escapar a um casamento arranjado, cujo lobolo (compensação matrimonial ou "preço de noiva", na infeliz expressão antiga) já tinha sido pago. Para alguém com preocupações políticas, o livro ajuda a perceber como se constrói alguém "de jeito". Estamos demasiado habituados à imagem dos líderes libertadores que, depois, se transformam em bestas. Mandela é dos poucos a quem isso não aconteceu (é bem provável que Amílcar Cabral tivesse tido destino semelhante). E estamos infelizmente habituados a estereótipos sobre os líderes africanos (quando não há nada de intrinsecamente africano na "corrupção dos libertadores"; simplesmente os exemplos africanos são mais recentes no tempo...). Se bem que por razões diferentes, os Mugabes, os Eduardos dos Santos ou os Fidéis deste mundo devem corar quando ouvem o nome Mandela.

PS: Memória: quando nos finais dos setentas estava num grupo universitário americano que promoveu um boicote às cantinas que pertenciam a uma empresa com investimentos na África do Sul do apartheid, costumávamos ouvir a canção "Free Nelson Mandela". É a única canção de protesto que conheço ao som da qual se pode dançar...

mva | 20:43|
 

Concurso. Entrada 1.


Àqueles (o grito da liberdade)

Gente estranha... Tanta gente!
Gente cinzenta num mundo de loucos,
São eles tantos ou tão poucos,
Os que sentem o sentir que a gente sente!

Tristeza guardada em coração dormente!
Têm conversas escondidas do mundo...
São desvairados. Também pensam fundo,
E sentem o sentir que a gente sente!

E é essa gente de tão acanhada mente,
Que nos ignora com tamanho desdém,
Que sabem que sentimos nós também,
E sentem o sentir que a gente sente!

Mas eles insistem em me tomar por diferente,
Porque amo o semelhante, e eles não!
No amor deles não comanda só o coração,
Mas sentem o sentir que a gente sente!

Por isso eu assumo à estranha gente,
Que sei ser como sou, e não como querem!
Que não é por me repudiarem que me ferem,
Aqueles que sentem o sentir que a gente sente!

Bruno Torrão

mva | 20:38|
 

Vou mandar este postal a Bento 16...

mva | 20:23|
 

Se alguém passar por Madrid amanhã...


mva | 15:08|


19.4.05  

Rat Zinger ou "eles têm Papa".

Em inglês soa a nome de "mau" numa história de banda desenhada. Rat, como se sabe, é ratazana; "zinger é um coloquialismo que significa: «1. An exceptional example of its kind. 2. A one-liner; a punchline. 3. An unexpected turn of events.»

Unexpected turn of events? Não tanto. Com o regresso à religião a que se assiste (ao mesmo tempo que as pessoas distinguem cada vez mais a condução da sua vida da ritualidade das igrejas) não espanta muito que a ICAR queira aproveitar a onda - que é como quem diz, radicalizar (ratzingalizar?). Resta-nos a esperança de isto normalmente acontecer quando as coisas estão nas vésperas do seu estertor - por paradoxal que isso possa parecer. Mas há outro factor a considerar: é que João Paulo II já era Ratzinger: por baixo do ar supostamente afável e dos estádios cheios de jovens em contenção hormonal, JPII fez o trabalho de sapa da radicalização reaccionária da ICAR. Perdoem-me alguns "camaradas", mas JPII está para Ratzinger como Lenin para Stalin.

Podia fazer um post tranquilo e sereno (bento?), dizendo que não sou católico e que pouco me interessa quem é eleito para Président-Directeur-Géneral da Coisa (ou da Cosa Vostra). Mas a ICAR é um potentado e afecta a vida e a política de milhões de pessoas, entre as quais pessoas como eu. Quando o Inquisidor-Mor passa a primeiro-ministro, o mínimo que podemos fazer é gritar: foi eleita a Grande Ratazana! Saquem os raticidas!

(O tom do post é do pior, bem sei. Mas não resisto. E vem aí um ódio de estimação: hip, hip, hurra!)

mva | 21:07|
 

Ainda os novos Decos.

O comentário do António Tomás ao post "Novos Decos" sobre o artigo de Rui Pena Pires é pelo menos tão interessante quanto este. Pena Pires, de quem sou colega, tem há muito uma posição anti-multiculturalista, próxima da visão "republicana" que tem força em França. A sua postura é simultaneamente anti-racista e contra o surgimento de etnicidades com valia política (espero não estar a interpretá-lo mal). Para o António Tomás, como para muitos de nós que, por uma razão ou outra de "identificação", sentimos a distância que vai do proclamado universalismo até ao verdadeiro reconhecimento e respeito, o multiculturalismo já não nos parece um papão tão grande. Sobretudo porque percebemos a necessidade de algum essencialismo estratégico: sem a definição das formas de exclusão, e de quem é excluído, parece-nos difícil alterar o estado das coisas. No entanto, sou contra uma política multiculturalista do Estado, criada a partir de cima, definidora ela mesma de quem são os componentes étnicos, culturais, etc. Assim como sou contra uma política do Estado que finja não existirem "identificações". O assunto é um verdadeiro imbróglio, em todos os países onde a questão se põe, e há que inventar uma terceira via. Será preciso muita investigação, debate e pensamento (daí, por exemplo, a "utilidade social" das ciências sociais...). Numa coisa concordamos todos à partida: ninguém pode ser excluído em virtude das suas origens; e ninguém pode ser acantonado às suas origens. Nacionalidade, cidadania e identidades devem ser pensadas a partir daí.

mva | 13:33|


18.4.05  

A água do banho.

É claro que a "cultura" (no sentido antropológico) está cheia até à borda de "coisas" religiosas; e é claro que a "religião" está cheia até à borda de sistematizações de práticas culturais. Muitas das nossas noções de intimidade, fidelidade, sexualidade, etc., ecoam as noções religiosas da sacralidade do corpo (o corpo como templo); assim como a "sagrada família" é isso mesmo - uma sistematização recente da família nuclear heterossexual e reprodutiva. Os exemplos são n. Mas justifica isto que a religião - sob a forma de uma confissão específica - tenha um lugar privilegiado na sociedade? Não. Porque "cultura" e "religião" não se ecoam mutuamente apenas, como alguns analistas menos dinâmicos tendem a sugerir. Porque a cultura é um processo e não uma instituição, ao passo que a religião tal como a conhecemos institucionaliza-se numa empresa multinacional; e a cultura, dinâmica que é, muda, ao passo que a religião-empresa tende a conservar-se. Mais: a religião-empresa tem uma marca, a da confissão religiosa; o seu equivalente cultural seria o tipo de nacionalismo tendencialmente racializado e xenófobo. No campo da cultura desejamos mais mistura e pluralidade (e ela acontece mesmo que não se queira...). É apenas legítimo que a sociedade e o Estado encarem a religião-empresa-confissão como uma variável cultural entre muitas. Mas para o fazer consequentemente tem que ter consciência que ela tem um peso excessivo e anti-dinâmico - um carácter quase monopolista, para não falar da publicidade enganosa. É por isso que a promoção da laicidade faz todo o sentido. É por isso que é deitar areia aos olhos das pessoas dizer que os pró-laicidade querem apagar a religião do espaço público ou apagar o seu conteúdo e presença culturais.

PS: Noutro plano, mais do privado: muitas pessoas, quando descobrem os ecos religiosos das suas éticas, crenças, práticas (reparem: digo "ecos", não "raízes") - como as atitudes perante o amor, as relações, o casamento, a fidelidade, o corpo, a sexualidade etc - pensam que a alternativa é deitar fora o bébé com a água do banho. Muita suposta libertação sexual mais radical vem desse corte. Normalmente não resulta em maior felicidade (e resulta bastas vezes em incoerências ou retrocessos...), porque o começar tudo de novo é uma espécie de impossibilidade cultural (dados os hábitos e incorporações). Sempre me pareceu mais interessante "resignificar" o que existe, em vez de decretar a utopia. Normalmente atitudes como a minha são classificadas como "perigosas" pelos reaccionários e como "reformistas" pelos progressistas... Mas isso é assunto para outros posts, que o assunto do casamento tem-me feito pensar nisso.

mva | 23:09|
 

Novos Decos.

«(...) No actual quadro jurídico, só por milagre poderá um jovem filho de imigrante nascido em Portugal sentir-se português, quando durante toda a sua infância e juventude foi definido e tratado como estrangeiro. Essa desidentificação com a sociedade de acolhimento não é cultural nem tem origem cultural, sendo antes política na sua expressão como na sua génese. É a recusa, política, da entrada na colectividade nacional, que, como é óbvio, fundamenta, em primeiro lugar, a desidentificação com essa colectividade (...)».

Muito interessante artigo de Rui Pena Pires. Originalmente no DN - mas como não o encontrei aí, está aqui.

mva | 23:04|
 

Em rosa e cinza.



Abro um jornal local e deparo com um artigo sobre Anjelica Huston. Fico seduzido pelas suas palavras de revolta com a ditadura de género e idade na indústria cinematográfica. Não só os homens ganham mais e têm mais hipóteses de estrelato, como as mulheres são punidas assim que começam a envelhecer. Mas Huston, para mais, recusa fazer plásticas ou colocar Botox. Aparentemente a sua posição já havia sido expressa por pessoas como Kim Basinger e Jamie Lee Curtis (e Sarandon, não? Espero que a minha favorita tenha dito coisas semelhantes). Apetece aplaudir. Em tempos o mundo era gerido por uma hierarquia de idade. Os anos sessenta mudaram radicalmente isso. E ainda bem que o fizeram. Mas libertada a juventude, cedo O Mercado tratou de inventar A Juventude. Hoje vive-se um pesadelo parecido com os que viveram os países com revoluções libertadoras cedo transformadas em novos sistemas de opressão. A ditadura do corpo jovem como modelo central de beleza já atinge uma tonalidade moral, para não dizer moralista - é feio envelhecer. As mulheres são mais vitimadas por isto, já que continuam a ser objectificadas a partir dos seus corpos e da capacidade de atracção destes. Mas o fenómeno migrou também para os gays, criando formas de exclusão, real e simbólica, dos mais velhos. É claro que escrevo isto a partir de um lugar identitário (OK, João O., de afinidade...). Quando for (mais) velho quero abrir um clube para pessoas mais velhas e fundar uma casa de repouso gay e lésbica. Alguém quer começar a pensar na Cooperativa Rosa-Cinza?

mva | 18:44|
 

Euskadi.

Embora tenha ganho, Ibarretxe perdeu as eleições bascas. Com a diminuição da percentagem de voto no seu partido e a perda de alguns deputados, o seu "plano" foi por água abaixo. Os socialistas subiram (e os outros "constitucionalistas", os Populares, aguentaram-se). Ilegalizado por duas vezes, o sector "batasuna" consegue subir depois de ter dado apoio ao desconhecido Partido Comunista das Terras Bascas. Os dados estão lançados de novo num território que nos parece sempre "estranho" (a "nós", portugueses...): compreendemos o nacionalismo catalão, maioritário e pacífico; compreendemos o nacionalismo galego, minoritário e também pacífico; temos dificuldade em compreender o nacionalismo basco, que se nos apresenta simultaneamente minoritário e pouco pacífico (a quarta variante não existe: um nacionalismo maioritário e violento - a haver já teria resultado numa independência nesse território imaginário). É claro que esta tipologia vale pouco: nacionalismos há muitos, e não há uma clara dicotomia entre "violência" e "pacifismo". No País Basco a "coisa" só se resolve sentando à mesa parceiros muito diferentes: "constitucionalistas" de direita e esquerda, nacionalistas de direita e esquerda e, entre estes, mais e menos "pacíficos".

PS: A revista do Público do fim-de-semana passado tem um interessante artigo sobre a imigração portuguesa no País Basco. Assusta por duas razões: relembra-nos que a imigração portuguesa continua a existir (uma imigração de gente absolutamente marginalizada pela "modernização" nacional); e revela um certo País Basco, xenófobo e umbiguista.

mva | 18:25|


16.4.05  

Ida e volta / Anada i tornada.


mva | 18:11|


15.4.05  

Eleições virtuais.

Se fosse francês, votava "não" a esta "Constituição" Europeia.

«Une constitution est un texte fondateur d'un État de droit. Elle prend sa source dans la volonté du peuple de se donner un cadre de vie en société réglé. C'est de l'expression de cette volonté que naît la légitimité de la délégation de souveraineté aux organes qui seront décrits dans la constitution. C'est l'héritage principal de l'histoire politique et sociale des plusieurs siècles de lutte. En cela les constitutions s'écartent des Chartes octroyées par un gouvernant dont la souveraineté trouvait une source mythique ou divine. Selon l'article 1 du projet, le traité constitutionnel est " inspiré de la volonté des citoyennes et citoyens " mais le reste de l'article ne parle plus que d'États membres. La source de souveraineté est floue. Si de fait ce sont les États qui sont à la source du fondement constitutionnel puisqu'ils attribuent les compétences, le peuple ne faisant qu'inspirer, encore faudrait-il, pour un semblant de démocratie que ces États aient reçu un mandat (populaire) explicite de faire une constitution. On verra qu'il n'en est rien. En ce sens nous sommes très éloigné d'une constitution mais plus proche d'un traité international normal, négocié et signé entre États. La Convention qui a rédigé ce texte est un organe non élu, dont les membres ont été désignés par les États, sans élection.»

Se fosse basco, este domingo votaria em Ezker Batua:

«Creemos que es posible ofrecer a la ciudadanía vasca un marco en el que se pueda mover con comodidad; un marco en el que se desarrollen con libertad las personas, en tanto que sujetos activos de Derechos Humanos individuales, y en el que pueda crecer y desarrollarse la sociedad vasca bajo parámetros de ilusión, integración, inclusión, mestizaje, pluriculturalidad, respeto, pluralidad, armonía y paz. Esta propuesta, que es a la vez el proyecto estratégico de Ezker Batua/ Izquierda Unida para Euskadi, se basa en dos pilares: el derecho de autodeterminación y el federalismo solidario.»

Se fosse britânico, lá teria que votar Lib Dem...:

«The Liberal Democrats strongly opposed the Government's decision to go to war in Iraq. However by invading Iraq the government imposed on the UK a moral obligation to the Iraqi people to work towards a secure, stable and democratic Iraq. But our obligation cannot be open-ended. The UK Government should produce an exit strategy, including a plan for the phased withdrawal of UK troops by the end of the year.»

mva | 12:41|


13.4.05  

Novo concurso.



A 13 de Maio (!?) este blog fará dois anos. Entretanto decorre uma campanha internacional para a consagração do dia 17 de Maio como Dia Mundial contra a Homofobia. Os TQC lançam um novo concurso: textos livres até 3000 caracteres (nos géneros ficção, poesia, jornalismo, blogging, ensaio, opinião, publicidade, etc...) podem começar a ser enviados para o meu mail (ao lado), até 13 de Maio. No dia 17 de Maio será divulgado o vencedor, que ganhará um prémio simbólico: o Dictionaire de l'Homophobie, dirigido por Louis-Georges Tin, o homem que teve a iniciativa de propor o Dia Mundial.

mva | 15:52|
 

Chhhiu...

Estou cá há uns dias e há uma coisa que me intriga: nunca vejo o primeiro-ministro; quase se não ouve falar da política do governo; toda a gente parece ter desistido do debate político. Será cansaço pós-santanista? Será expectativa? Depressão pós-parto? Período refractário pós-coital? É como se alguém estivesse a dizer "chhhhiu, não digam nada, não façam barulho; a ver se pega..." (no sono?). Assim como assim, até não me importo. O pior é que dos jornais aos blogs, as coisas estão um bocado sonolentas, não acham?

mva | 14:53|
 

Estou aqui, logo sou daqui.

Nos anos 80 o nosso país passou, para todos os efeitos, do direito de solo para o direito de sangue na questão da nacionalidade. Foi um retrocesso gigantesco que nunca foi - espantosamente - motivo de escândalo público. O direito de sangue é o fundamento das formas mais reaccionárias de entender a nacionalidade e a cidadania, baseado que está numa "lógica" do parentesco e da consanguinidade que é em si mesma essencialista e contrária à ideia de uma cidadania para os nossos tempos. A proposta de lei do Bloco para alteração deste estado de coisas é, por isso, louvável. Os seus objectivos são:

«Reconhecimento automático da nacionalidade portuguesa a todos os
indivíduos nascidos em Portugal, mesmo que filhos de estrangeiros; Equiparação da união de facto ao casamento para efeitos de aquisição de
nacionalidade por efeito de vontade; Definição dos requisitos para aquisição da nacionalidade portuguesa por naturalização apenas em função de critérios de número de anos de residência e de conhecimento da língua portuguesa (alteração ao artigo 6º), que são critérios factuais e não discricionários. Anulação de mecanismos de discriminação em função do país de origem.»


Há nestes objectivos duas dúvidas que me assaltam, todavia: a primeira é a das uniões de facto - onde salta à vista que isto diz apenas respeito a casais heterossexuais (!). A segunda é a da língua, pois sou absolutamente contra o critério linguístico como critério de nacionalidade. A razão do meu contra é que sou mais radical nestas questões: só me interessa como critério de pertença à cidadania (e enquanto nos organizarmos por estados-nação...) que as pessoas residam no "sítio", trabalhem no "sítio" e paguem impostos no "sítio". O "facto nacional" deve ser deixado para as escolha culturais das pessoas.

Tudo isto vai dar à questão da imigração. Se assumíssemos de vez que o mundo é global e que há imensa gente a querer mudar de país (e desistam os que têm medo de "invasões", pois as "leis do mercado" também funcionam nestas coisas...), nem sequer as questões tontas (porque equacionadas a partir da lógica estritamente nacional) da "sobrevivência da segurança social" se colocavam; e assumiríamos de uma vez por todas aquilo que ainda é só uma retórica: a diversidade cultural, a miscigenação e a mestiçagem.

mva | 14:34|
 

Pequenas irritações.

Irritação nº 1: Porque é que quase toda a gente anda a pronunciar a palavra "actriz" com A "fechado" em vez de "aberto" - incluindo quase todas as actrizes sempre que entrevistadas na TV? Entre outras razões, o C está lá justamente para abrir o A (e é por no Brasil o A se pronunciar sempre "aberto" que não é preciso escrever o C naquele país).

Irritação nº 2: Concordo que a "calçada portuguesa" é bonita e ajuda a iluminar Lisboa. Mas resulta em passeio com altos e baixos, buracos, lombas e inclinações inesperadas. Parecem caminhos rurais e não passeios urbanos.

Irritação nº 3: Por que carga de água devem os nomes de mais de 3000 informadores da PIDE ficar em segredo? Não deve a democracia ser promotora de justiça e, só então, de reconciliação? Não há nada mais traumático que os segredos de família mantidos por anos e anos...

Irritação nº 4: O Metro de Lisboa tem agora uns grandes ecrãs de TV. Não se consegue escapar à imagem e ao som quando se está à espera do comboio. Duas questões: porque temos que aturar aquilo? Que critérios de rigor e independência presidem à edição dos noticiários naquele canal de TV do Metro? É que uma coisa é poder escolher um telejornal em casa, de entre vários oferecidos; outra é ser bombardeado por um só, como se de publicidade se tratasse.

mva | 14:11|


12.4.05  

Como acabar de vez com o véu.



Marjane Satrapi é iraniana e vive em Paris.´Faz banda desenhada. O seu trabalho é uma crónica da vida, sobretudo das mulheres, no Irão dos mullahs. Descobri-a hoje na NYRB...

mva | 00:37|


11.4.05  

Um pouco mais de lar.

Uma semana em Lisboa, começada ontem. A primeira constatação é, digamos, geográfica. A Primavera começa mesmo mais cedo, aqui mais a sul. É provável que pelo Alentejo se "veja" a seca, mas em Lisboa fui atacado visualmente por verdes tenros, atravessados por dourado e um céu escandalosamente azul. E essa coisa no ar e na luz que diz: isto aqui é o Atlântico.

Não fosse a arquitectura (que palavra desadequada)e este seria mesmo um local muito bom para viver. Passo o domingo num rodopio de festas infanto-juvenis (ser tio pode ser uma ocupação mais nervosa do que ser pai...), incluíndo uma ida a Sintra. Apetece passar a borracha pela dita "arquitectura IC-19" e guardar o verde e o azul. Pior mesmo, só os "utilizadores" daquele corredor. Ao longo de uns míseros 20 Km, vi quatro acidentes. No regresso, sugeriram que viesse pela A-5. Demorei uma hora por causa dum acidente, passado o qual toda a gente começou a conduzir como se não houvesse amanhã (sorry pelo anglicismo).

Para distrair, liguei a rádio, sintonizada no congresso do PSD - um digno substituto do êxtase necro-papal. Seria que as pessoas corriam a alta velocidade, num domingo, para assistirem a Marques Mendes? Haveria futebol? O IKEA estaria em saldos? O Papa teria morrido outra vez (coisas que podem acontecer por aquelas bandas religiosas)?

Vou sair à rua para cheirar o clima? Será que se nota o socialismo no ar (OK, a pergunta é maldosa)?

mva | 11:13|


8.4.05  

Reinas.



Claro que não podia deixar de ir à estreia de Reinas, o primeiro filme espanhol sobre casamentos homossexuais. E claro que as expectativas eram maiores do que o produto. Tem muitas falhas - de ritmo, de humor, até mesmo de visão da homossexualidade (um bocado streamlined demais). Mas é o que é: uma comédia ligeira, com camp q.b. e, sobretudo, muito mais focada nas figuras das mães (Marisa Paredes, Veronica Forquè, Carmen Maura e uma gostosíssima argentina, Betiana Blum) do que nos três casais de homens (mulheres, népia). Seja como for, hurray, pelo tema - para mais feito ainda antes de a lei estar aprovada, numa espécie de "ficção científica" que não se ficará pela ficção.... En nombre del Estado Español y de Su Majestad El Rey... (esta parte do discurso da magistrada é que era desnecessária...)

mva | 22:30|


5.4.05  

Cerejas.

No programa "Cerezas" da TVE-1, são entrevistadas Teresa Fernandez de la Vega, vice-presidente do governo e Pilar Bardem, actriz (e mãe de Javier). Ambas apresentadas como coquetes e feministas. A entrevistadora pergunta pelo Papa e de la Vega não tem qualquer problema em dizer que foi uma figura ambivalente: contra a guerra mas intolerável nas questões de direitos individuais. Falou de mulheres e homossexuais. A entrevistadora chamou a atenção para o facto de ser a primeira pessoa com responsabilidade governamental a não entrar no coro de elogios ao Papa. De la Vega como que encolheu levemente os ombros - " E então?", parecia querer dizer. (Para depois dizer que o seu governo fez o "razoável": dar as condolências à Igreja e aos milhões de católicos espanhóis, convidar o líder da oposição para também ir aos funerais, e decretar um dia de luto).

Já durmo mais descansado.

PS: Este não é um post de elogio desbragado ao governo. Tanto a proibição de uma lista eleitoral nas eleições bascas como a venda de armas a Chávez na Venezuela parecem-me altamente duvidosas...

mva | 21:13|
 

Ainda o Público electrónico.

Lá respirei fundo e tentei assinar o Público electrónico. Mas o pagamento não foi aceite (não aconteceu só a mim). Recebi um mail genérico dizendo que deveria contactar um certo número de telefone - um número fixo em Portugal. Irritado, enviei um mail. Até agora, nada de resposta. No tal número de telefone ninguém atende. Nada disto inspira confiança - e assusta um pouco dar o nº do cartão de crédito a tamanha incompetência. Já não se trata apenas de questionar o pagamento do serviço: é que eu quis comprá-lo mas não pude, e apanhei com um muro de silêncio.

(Há também, nesta opção do jornal, falta de visão - é que uma edição electrónica deve complementar a impressa, com outros e mais serviços. Não pode ser apenas a mesma coisa e para mais funcionar mal)

mva | 10:05|


4.4.05  

Religare.

Não consigo, em rigor, usar as expressões "agnóstico" ou "ateu" para me descrever. A primeira soa um pouco máriosoarenta: deixa espaço para deus, retirando a confissão religiosa; a segunda soa demasiado a... uma religião, pois pressupõe algo contra o qual se posiciona, fazendo assim com que esse algo como que... exista. Só sei dizer que "a questão não se (me) põe" - a de deus, da vida ou não depois da morte, do sentido da vida, and so on.

Tive três situações de exposição à religião no sentido de "sentimento religioso" que me tiraram ligeiramente do alheamento em relação à "questão". A primeira foi aos dez, onze anos. Na escola preparatória que frequentei davam-nos os livros escolares todos juntos num saco no início do ano. Um deles era de Religião e Moral e tinha as mais fascinantes ilustrações: fogos, sacrifícios, violência, the works... Como os meus pais tinham pedido que eu não frequentasse aquelas aulas, fiquei com água na boca. Mas passou - a banda desenhada deu-me as mesmas emoções poéticas.

A segunda foi quando vivi aos 16, 17 anos, com a minha família judia americana. Como foi a primeira exposição que tive a práticas religiosas familiares, não só aprendi como interiorizei algumas coisas. Nada que se parecesse com fé, mas sim com simpatia. Passou, e hoje sei que foi uma experiência de empatia cultural (a minha primeira como "antropólogo", acho).

A terceira foi quando fiz pesquisa na Bahia e participei no Candomblé praticado pelos meus colaboradores de pesquisa e informantes. Entusiasmei-me tanto com formas como com conteúdos, assim como pelo carácter alternativo, resistente e mesmo desafiador daquela vivência religiosa. Hoje sei que foi sobretudo uma excitação emocional.

Não deserdo nem a poética, nem a empatia cultural, nem as emoções destas experiências. Mas a minha estrutura não podia deixá-las ser mais do que isso - experiências (que nem chegaram a ser experimentações). Que foram experiências religiosas, foram. O religioso é tudo aquilo - mais a parte chata, aquela com que nos revoltamos, do institucional, do impositivo, do repressivo, etc. É por revolta contra esta última parte que muita gente hoje experimenta apenas com a primeira - estão aí os vários new-ages para demonstrá-lo. Só que acontece comigo que não preciso dessa formatação. A experiência que alguns chamam de "religioso" (do re-ligare) tenho-a como todos: nas experiências poéticas, emocionais, sensoriais (e, sim, nas intelectuais) da vida. Sobretudo no sentimento amoroso (quantas vezes epifania), no sexo (quantas vezes possessão e êxtase) e na confiança naqueles de quem se gosta (quantas vezes fé).

mva | 22:49|
 

Alô, dona Rosa...

Ao consultar o Público foi-me exigido pela primeira vez que me registasse. Caso contrário, nada de notícias. O formulário de registo tem coisas assustadoras, como pedir o estado civil e nem sequer contemplar a hipótese da união de facto. Feito o registo, o login não resultou, vezes sem conta. Lá descubro - pois a informação não tinha sido dada à cabeça - que é preciso pagar. OK, eu pago - custos de estar a fazer um acesso "internacional" (meus deuses, a Espanha, tão estrangeiro!!!). Recebo então um mail do Público dizendo que o meu pagamento por Visa não tinha sido aceite. Sem mais explicações, e dizendo que posso telefonar para o númeor x (simpática, esta ideia de pedir às pessoas "internacionais" que telefonem...).

Enfim. Vou-me ficar pela imprensa local e de vez em quando um pouco de DN (ao que uma pessoa chega). De qualquer modo, ainda consegui ficar a saber que em Portugal o luto pelo Papa é de 3 dias. É que em Espanha é de 2, a não ser em algumas comunidades governadas pelo PP....

mva | 10:06|


3.4.05  

A ilha.



Depois da extraordinária porcaria chamada "Alexandre", confesso que fui ver Looking for Fidel receando o pior. Mas achei que seria interessante ver a entrevista de Oliver Stone com Fidel depois de ter visto Habana Blues. Não é fácil aguentar visualmente uma hora de câmaras a tremer. Nem a espécie de delírio envelhecido de Fidel; nem as caras pouco inspiradoras de simpatia dos dissidentes cubanos (há algo que não "compro" neles; quanto a Fidel não o comprava já, ainda que se assemelhe mais àqueles avós a quem já não volta a dar em termos de convicções - he's elsewhere...). Interessante mesmo é perceber - nas entrelinhas - que Cuba é um lugar único, no sentido em que o seu processo político conseguiu criar uma cultura, no sentido antropológico: não é tanto a repressão (que existe) que aguenta o regime, mas sim o isolamento e a "confusão" entre regime e identidade nacional, criando uma hegemonia. Algo disso se percebe também em Habana Blues. Por muito triste que seja, é intelectualmente fascinante pensar Cuba para lá do debate estritamente político-ideológico.

mva | 17:15|


2.4.05  

Koltura.



Dia off, dedicado à Koltura. Além do filme Habana Blues, referido abaixo, exposições Desascuerdos (sobre arte e política no espaço público) e fotografias de Robert Frank, ambas no MACBA. E na Casa Ásia, pintura do filipino Manuel Ocampo (acima).

mva | 21:37|
 

Info.

Para quem estiver em Barcelona, dois interessantes curtos cursos extra-universitários: um sobre redes (Xarxes: Modes d'Acció i Producció en la Societat Global) e outro sobre género (Micropolítiques Postidentitàries. Tecnologies del gènere), este com Spivak, Antonia Baehr e Angela Davis, e organizado pela Beatriz Preciado.

mva | 21:27|
 

Papáveis.

Ao contrário do que previa a sociologia de há umas boas décadas atrás, o mundo está mais religioso. Não será certamente o "nosso" mundo - em Espanha apenas 14% dos jovens praticam o catolicismo. Mas entre a privatização do Estado, os efeitos laborais e económicos do neo-liberalismo, o colapso das grandes narrativas ideológicas e o puro e simples ritmo e intensidade das mudanças, muita gente se vira para a religião (basta ir ao Brasil e ver o que é o surto do evangelismo). Este Papa Católico ficará para a História como a pessoa que percebeu isso e apostou numa mistura inteligente entre hiper-conservadorismo e um discurso "global", feito em múltiplas viagens e dirigido a esses "despojados da Terra". Não estou a fazer um elogio: estou a constatar a esperteza política de quem ocupa um cargo que se diz não-político., Em Suma, a ICAR descobriu uma (nova)forma de populismo, em que se identificam as causas do mal-estar e se propõe como "solução" o regresso ao passado, ou a ilusão disso. Daí a importância de um discurso profundamente sexista e homofóbico - feito ao mesmo tempo que a crítica a Bush e à guerra do Iraque. Um Komintern da Internacional Comunista não teria feito melhor propor o que parece ser uma mudança esperançosa, com um reaccionarismo moral a toda a prova.

PS: Para quando a transferência da Santa Sé para outras paragens? Afinal de contas, a América Latina tem o grosso dos católicos do mundo. Que tal a Sede em Salvador da Bahia, a ver se algum sincretismo acontece? Ou, então, Jerusalém - que, como alguém disse, deveria ser a primeira cidade internacional, gerida pela ONU e onde as três religiões mono- (não stereo) teístas tivessem as suas sedes? Na União Europeia - a que pertence a Itália - é que fica um bocado mal.

PPS: Por aqui, em castelhano fala-se, nos jornais e TVs e a propósito da sucessão, dos cardeias papables. Traduzido à letra, é uma delícia...

mva | 20:12|
 

Habana Blues.



Ou de como se pode perceber que a ditadura cubana e o capitalismo global "fazem sistema" - através da história de músicos cubanos que recusam o estereótipo da salsa, experimentando ourtras músicas, e querem sair da ilha; e da história de uns produtores espanhóis que, dependentes de uma major americana, só assinam o contrato se eles "fingirem" são dissidentes políticos.

mva | 20:05|
 

Os com-papéis.

A manifestação de sem-papéis termina quase à porta aqui de casa. Ainda ontem, num grupo de catalães, espanhóis e ingleses, dizíamos - meio a brincar, meio a sério - que em muitos países trabalham os imigrantes e os locais não. Que fazem os locais? Bem, dedicam-se a discutir os direitos dos imigrantes, nos intervalos de viagens de turismo aos seus países.

mva | 20:03|


1.4.05  

O redemoinho.

Chego a casa pela meia-noite, depois duma conferência na UB sobre a antropologia do género e do parentesco e a questão dos casamentos homossexuais. Ligo a TV e parece que o Papa da Igreja Católica está a morrer. Um conjunto de comentadores está em estúdio, na Tele5, assistindo e comentando a transmissão (lamecha e tendenciosa, com um jornalista a dizer que o Papa dedicou a vida aos pobres...)em directo do Vaticano. E que discutem? Discutem se se deve ou não transmitir a morte em directo. Eles, que estão ali convidados para discutir a morte do Papa em directo. Está tudo maluco ou é impressão minha?

mva | 23:45|