OS TEMPOS QUE CORREM. Miguel Vale de Almeida


28.3.05  

A síndrome de Viseu.

Os acontecimentos homófobos de Viseu apelam a uma reflexão sobre como a sociedade portuguesa, neste início de novo ciclo político, deve lidar com a discriminação e a desigualdade com base na orientação sexual. Em Viseu ocorreu (e ocorre?) uma manifestação mais violenta, detectada, denunciada e mediatizada, daquilo que é o quotidiano oculto das pessoas homossexuais, alvos sistemáticos de insulto, silenciamento, promoção da hipocrisia, exclusão familiar e profissional, medicalização, perseguição religiosa e menorização social e política em geral.

Há quem, situando-se no campo anti-homofobia, não simpatize com as vítimas de Viseu porque a violência foi exercida sobre pessoas que procuram parceiros sexuais em espaços públicos. Quanto a isto, há que dizer que certas formas de viver a sexualidade são produzidas pelo próprio sistema homófobo, neste caso pelo silenciamento, a remissão para a sombra, a punição social. Mas o que importa é que não pode haver ressalvas estéticas e de gosto na defesa das liberdades; e que qualquer interpretação mais negativa da sexualidade em espaços semi-públicos é infinitamente menos grave do que a violência homófoba. E esta assenta no "nojo" em relação à homossexualidade, como os homófobos de Viseu tão bem expressaram.

Se os acontecimentos de Viseu são a ponta do imenso icebergue da homofobia, importa saber como esta pode ser combatida. O primeiro passo tem sido dado obviamente pelos movimentos sociais que defendem os direitos das pessoas homossexuais. Mas a obrigação é também do Estado, dos partidos políticos e dos media, que devem assumir que a homofobia é uma forma de discriminação tão grave quanto o sexismo e o racismo; e que todas elas são geradoras de desigualdades tão graves quanto as geradas pela desigualdade socio-económica. As estratégias de combate à homofobia são múltiplas e jogam-se em tempos e velocidades diferentes. A mudança de mentalidades que leva ao fim do "nojo" pela homossexualidade é um caminho longo, que passa pela aposta na educação, na visibilização da homossexualidade, e outros processos de transformação cultural. Mas nada disso acontece se não houver, primeiro, a mudança legal que permita a mudança do funcionamento das instituições e a dignificação social das pessoas afectadas pela discriminação.

Um enorme passo foi dado recentemente no campo da igualdade formal: a Constituição, no seu artigo 13º, passou a incluir a orientação sexual como uma das razões pelas quais ninguém pode ser discriminado ou beneficiado. À luz desta alteração, a constitucionalidade de algumas das nossas leis fica posta em causa. Desde logo, a lei das uniões de facto diferencia cidadãos de primeira de cidadãos de segunda: os casais heterossexuais podem adoptar, os homossexuais não; e o Código Civil impede os casais do mesmo sexo de se casarem. Como já se percebeu em Espanha, a simples alteração da redacção do Código Civil respeitante ao casamento, deixando de referir o sexo dos cônjuges, constitui um passo imprescindível para a equiparação legal e para a pura e simples garantia da dignidade plena dos cidadãos e cidadãs homossexuais. Mais do que a "proibição" da discriminação com base na orientação sexual; mais do que a concessão de alguns direitos relativos a uniões de facto; mais até do que a eventual promulgação de uma lei anti-homofobia, o acesso ao casamento por casais do mesmo sexo constitui a mais corajosa forma de combater a homofobia, devido à importância simbólica da instituição do casamento, ao seu carácter legitimador e publicitador da sexualidade dos cônjuges.

Os sectores mais conservadores, desde logo a Igreja Católica Apostólica Romana, consideram o casamento entre pessoas do mesmo sexo uma aberração e uma contradição em relação à sua noção de "matrimónio". Estão errados, muitas das suas afirmações são puro insulto homófobo, mas têm o direito de aplicar as suas regras aos seus casamentos religiosos. Mas a sua opinião deve ser irrelevante para esta discussão - o que se reivindica é uma alteração do casamento civil; e tal como a sociedade civil e o Estado não interferirão nas regras matrimoniais religiosas, tão-pouco a ICAR deverá interferir nas regras civis. Aparentando maior moderação, os sectores políticos conservadores tendem em vários países a propor alternativas ao casamento para casais do mesmo sexo. Essas alternativas são muito semelhante ao PaCS (Pacto Civil de Solidariedade) francês, criando uma figura terceira, diferente quer do casamento, quer das uniões de facto, permanecendo as pessoas homossexuais impedidas de se casarem. Esta posição é inaceitável como o é qualquer tentativa de apenas melhorar as uniões de facto sem avançar para o casamento.

No campo anti-homófobo, em larga medida coincidente com os sectores progressistas, as posições são diversificadas. Há quem ache que a menorização legal e social é intolerável; há quem ache que é preciso esperar por uma maior mudança das mentalidades para poder exigir o casamento; há quem, com argumentos baseados nalgum feminismo e nalgum pensamento radical de esquerda, ache o casamento em si mesmo uma instituição de fundo patriarcal que não deveria ser "imitada" pelos homossexuais; e há quem ache que a homossexualidade é intrinsecamente marginal e acarinhe o seu suposto carácter contra-cultural.

Os argumentos supostamente progressistas contra o casamento (ou que secundarizam essa reivindicação) revelam vários equívocos. Desde logo, o casamento mudou, na lei e nas práticas sociais, graças à acção do movimento e pensamento feministas, e às alterações nas relações de género e nas formas de família; o que se reinvidica é a igualdade legal, não uma qualquer forma antiga de viver o casamento. Obter o direito ao casamento para casais do mesmo sexo é modificá-lo ainda mais no sentido democrático, como sucedeu com a obtenção de igualdade entre homens e mulheres. Em segundo lugar, uma posição crítica em relação à instituição do casamento não é contraditória com a defesa da igualdade de direitos - da possibilidade de pessoas do mesmo sexo se casarem se o quiserem. Mas há mais: a exigência do direito ao casamento constitui um teste fulcral à homofobia: porque revela a enorme contradição entre, por um lado, elogiar o casamento como instituição nobre por excelência, acarinhada e promovida e, por outro, impedir o acesso a ela por uma parte da população (o que só pode ser feito se se acredita que as pessoas homossexuais têm algo de errado). Nas hesitações quanto ao casamento entre pessoas do mesmo sexo pressente-se a síndrome de Viseu: o casamento torna evidente, demasiado evidente, a sexualidade entre pessoas do mesmo sexo, para mais legitimando-a e relativizando a heterossexualidade, que de normativa passa a ser uma entre outras. A reivindicação do casamento para casais do mesmo sexo, parecendo "conservadora", é verdadeiramente "revolucionária". E parecerá um dia tão evidente e "simples" como ter exigido em tempos o direito de voto para as mulheres (apesar de a democracia do voto poder ter sido considerada "burguesa" e não-participativa...).

Levará algum tempo até que a "motivação" homófoba para crimes como os de Viseu seja impossível ou impensável. Ou para que as variações da sexualidade humana, praticada em mútuo consentimento informado, sejam vistas por todos e todas como igualmente normais. Mas demorará muito mais tempo se a nossa Lei continuar ela mesma a ser homófoba.

mva | 18:15|


26.3.05  

Montanha abaixo.

Regressados duma semana de descanso em Andorra, onde descobri que o ski não é definitivamente o meu desporto. Suspeito que depois duma operação a uma hérnia discal (atenção, intelectuais sedentários...) desenvolvi um medo inconsciente a tudo o que envolva a possibilidade, mesmo que imaginária, de cair. Estou muito bem em bancos, cadeiras, sofás, banquetas, sofás-cama, chaises-longues, poltronas, canapés, areia, relva, água e corpos (sobretudo um), mas não vou à bola com skis, patins, rodas, pára-quedas, saltitões ou pranchas.

Mas o mais curioso em Andorra nem é a história do país. Ou sequer o facto de ser um país. Ou o de ter como co-príncipes o presidente francês e o bispo de Seu d'Urgell na Catalunha, fazendo de Andorra a única "monarquia homossexual involuntária". O mais curioso é que Andorra é Tugaland. A modernização esquizóide e acelerada do país é toda visível ali. Como se a "luta de classes" tivesse sido trasladada: de um lado, operários e empregados oriundos das várias profundas nacionais; do outro, queques, para-queques e não-sou-queque-mas-gostava-de-ser, fazendo ski, oriundos das várias superfícies (ou superficialidades) nacionais. (A excepção, claro, éramos nós, pessoas sensíveis, inteligentes e críticas...).

Graças a (ou apesar de?) acessos à xarxa (net em catalão - delicioso) a 1 euro/dez minutos (ils sont fous, ces Andorrains!), fiquei a saber que vai haver referendo ao aborto antes do Verão, e que o caso de Viseu apareceu nas primeiras páginas graças à incansável Fernanda Câncio (minha candidata aos prémios Arco-Íris - hint, hint...). Sobre isto, mais posts nos próximos dias - que agora estamos com uma fome carnívora própria de semana santa. (O "estamos" tem a ver com o facto do MQT* estar por cá - daí os "altos espíritos" do post...)

(Quanto à parte casamenteira, aproximam-se entrevistas a políticos, associativos, famílias homoparentais e a discussão no Parlament catalão das adopções por casais do mesmo sexo. Mais nos próximos dias).

*Mais Que Tudo.

mva | 19:52|


22.3.05  

Intervalo.

Tanto este blog como o Webbing Ring estarao de férias até ao próximo sábado, algures nos Pirinéus, onde o acesso à net em cibercafés custa uma absurda fortuna. Até já!

mva | 10:06|


17.3.05  

A montanha não pariu um rato porque não havia montanha.

Eis o que diz o Programa do Governo na página 87:

«5. Política de não discriminação
O Governo assume integralmente as disposições constitucionais e as orientações da União
Europeia em matéria de não discriminação com base na orientação sexual. Nesse sentido, é
importante lançar um amplo debate nacional sobre igualdade e orientação sexual, incluindo o
desenvolvimento de acções anti-discriminatórias junto de grupos sociais particularmente
sensíveis para a qualidade da nossa democracia.»

That's all, folks.

mva | 22:14|
 

A saque.



A Argentina viveu, nos anos 90, uma crise chocante. Talvez por aquele país ter ganho a fama de país desenvolvido, com louros de "primeiro-mundo" vindos já dos inícios do século XX, tenha chocado ainda mais o que ali acontece - o descalabro económico e social num país desses parece (injustamente, é claro) chocar mais do que as "habituais" (não deviam sê-lo) razias humanas e ecológicas de África, por exemplo. Mas a razão verdadeiramente interessante pela qual o caso argentino choca é que exemplifica o que é (o que foi?) a loucura neo-liberal, sobretudo quando os interesses internacionais (de bancos, mafias, narcotráficos, governos, etc) se aliam à desonestidade dos políticos locais. Ao ver hoje Memoria del Saqueo, não consegui deixar de pensar em Portugal. Afinal de contas, uma grande parte do documentário é sobre a forma como se privatizou, as consequências das privatizações, e o discurso ideológico que se criou em torno da "necessidade" de privatizar (estou a referir-me a serviços públicos e a bens públicos, estratégicos).

Quando as coisas são horríveis e nos vemos envolvidos nelas - e, se tivermos um pouco de espinha, tomamos partido - é claro que é difícil ser "neutro". E, em boa verdade, é um tanto estúpido o desejo de neutralidade numa série de coisas. Mas fazer um documentário não é apenas dar um ponto de vista; ou, no caso de eventos fortes, alertar e despertar consciências. É sempre mais eficaz e mais humano dar a perspectiva de quem vive os eventos. Ora, o que Fernando Solanas faz é um documentário propagandístico, na tradição da denúncia, aproximando-se nos recursos narrativos e de montagem, do formato de um jornal partidário esquerdista como-já-nem-há, com recurso a coisas demasiado básicas (o contraste ricos/pobres, etc). Pelo caminho, a linguagem e as generalizações a que se dedica (tipo "o povo saiu à rua contra a globalização") acabam por ser contraproducentes. Solana apresenta-se honestamente como denunciador, dá a cara no filme, mostra-se até como vítima de balas disparadas contra ele por inimigos políticos. Mas nada disto me convence de que um filme mais subtil e rico teria sido tão eficaz como este na denúncia, com a vantagem de poder ser melhor na análise, mais eficaz no convencimento dos que ainda não estão convencidos e menos obsceno no uso das imagens de pobreza, desnutrição e morte.

Não fosse a minha revolta pelo que aconteceu na Argentina e o facto de este filme poder ser um aviso e tê-lo-ia detestado....

mva | 21:50|


16.3.05  

As pessonhas.

Por três vezes ligo a televisão por breves minutos. Primeiro episódio: está a ser entrevistado um especialista florestal, que fala sobre uma espécie vegetal chinesa que estaria a invadir os campos. Paranóico, penso que o entrevistador vai estabelecer a ligação com a imigração. Não é que ao fim de um minuto o faz mesmo? Segundo episódio: um debate sobre se os refeitórios escolares devem oferecer comida segundo as regras dietéticas muçulmanas; o homem que está contra pergunta ao que está a favor (um catalanófono com nome árabe) se num país muçulmano aceitariam acatar as necessidades de alunos cristãos ou judeus - uma pergunta que está no grau zero quer da retórica quer da inteligência democrática. Terceiro episódio: sobre a incidência da tuberculose, toda a peça é sobre como os imigrantes podem ser os principais portadores; "e a tuberculose pode apanhar-se com um simples espirro".

Autoctonia, desqualifição, contágio. A Europa está, coitadinha, a ser invadida por pessoas com peçonha - as pessonhas. Em qualquer lado - aqui, em Portugal, na França... - as representações sobre os imigrantes assentam nos mesmos recursos, se bem que com (e elas são importantes, porque são quase tudo o que temos para melhorar as coisas) nuances. Os dados apresentados hoje no Público (e que pobre artigo, confundindo causas com consequências e por aí fora) não deveriam surpreender ninguém - a não ser os que acham que a retórica da tendência portuguesa para o cruzamento de culturas e fenótipos tem algum valor e sustentação (essa retórica, aliás, é ingénua a mostrar as suas contradições: fala sempre das supostas misturas criadas pelos portugueses mas nunca de misturas criadas em Portugal graças às pessoas que para "cá" vieram, vêm ou de "cá" foram expulsas...).

Quando é que a Europa perceberá que a) não pode viver sem imigrantes, b) já não existem condições para a existência de estados-nação "puros e c) tem uma responsabilidade (não digo "toda a culpa") fortíssima na criação quer do subdesenvolvimento do terceiro-mundo, quer da criação de representações hierarquizadas de alteridade entre europeus e não-europeus?

mva | 14:49|


15.3.05  

Tempos e espaços.



Finalmente uma boa "desculpa" para ler o Hommage to Catalonia de George Orwell. Aliás, por aqui tem havido um boom de atenção historiográfica e literária à Guerra Civil. É curioso ler a descrição de uma Barcelona-soviete, cheia de bandeiras vermelhas e essa suspensão (hoje sabemos que é apenas suspensão...) da "normalidade" em nome da construção de algo de radicalmente diferente. Mesmo assim, logo nas primeiras páginas ficamos a saber que rapidamente as mulheres que participavam na luta militar foram remetidas para os bastidores. Orwell fala de como "ao princípio" toda a gente achava natural ver as mulheres pegarem em armas; e pouco depois, os homens já faziam pouco delas na instrução militar. Do mesmo modo, uma das personagens, um rapaz de 15 anos, no esplendor do seu entusiasmo revolucionário, grita "Fascistas: maricones!".

Hoje o dirigente do PP local disse que se acabou a Barcelona moderna, que queria mudar o mundo. Referia-se com certeza à Barcelona que tantos admiramos (bem como, é claro, a um certo propagandismo criado aquando dos Jogos Olímpicos, etc). A que se referia? Bem, ao mais recente turmoil local: há umas largas semanas atrás desabaram uns prédios por causa das obras d eum túnel do metro. Muitas pessoas ficaram sem casa. Imediatamente começou a discussão sobre as responsabilidades. Acossado pela direita, Maragall teve a tirada infeliz a que me referi já noutro post, acusando a antiga administração da direita de cobrar 3%, para financiamento partidário, às empresas de construção encarregadas de projectos da Generalitat. Como não conseguia provar o que dizia, meteu-se num lamaçal. Mas agora há uma comissão parlamentar de inquérito. E já há depoimentos de construtores confirmando a suspeita e até falando em percentagens na ordem dos 20. Só que a sensação obtida lendo os vários jornais é de um certo desencanto público com a política local, mais os receios de o novo Estatut (dando maior autonomia e, sobretudo, garantindo um novo modelo de financiamento) poder ser prejudicado. Mas para um forasteiro como eu as coisas não parecem terríveis. Os habitantes do bairro prejudicado pelo desabamento queixam-se com razão, querendo indemnizações maiores do que as oferecidas pelo governo; mas também é certo que eles são sempre recebidos pelo governo, que as negociações existem, e que uma força de assistentes sociais, etc, foi posta à disposição dos prejudicados, bem como apartamentos novos.

Em parte alguma do mundo haverá um governo perfeito e uma cidadania satisfeita por inteiro. Seria um contrasenso, face à própria noção do que é uma sociedade - um feixe de conflitos e interesses, com equilíbrios precários, e em constante mudança. Mas quando leio hoje que Santana Lopes regressa à CML, aí percebo como tudo é relativo. Na comparação é que se aprende.

mva | 20:48|


14.3.05  

O lobby.

Pequeno debate na b.tv entre uma deputada do PSC e um da ERC sobre este primeiro ano de governo socialista. Às tantas o moderador pergunta sobre os poderes fáticos e os lobbies. A socialista diz o seguinte da ICAR por causa dos casamentos homossexuais: «Não foi o poder civil que interferiu com o poder eclesiástico. Foi o contrário. Nós não fizemos nada contra o casamento religioso ou o direito canónico» (hummm, olha que bela ideia...). E disse-o com o ar mais normal deste mundo: nem com atitude provocatória, nem "pedindo desculpas" na expressão ou na linguagem. Brilhante.

mva | 22:39|
 

Em estado flâneur.

Como em qualquer cidade, há uma Barcelona "boa" e uma Barcelona "má". A boa é a cidade onde vibra uma sociedade que não espera pelo dom sebastião nem teme que o céu lhe caia em cima. É a cidade de belíssimos bares, restaurantes e lojas; a cidade da beleza urbanística do Eixample, a cidade que assume o seu lado "burguês" como emblema de "progresso" (todas estas noções estão sujeitas a crítica, mas...). A má é a cidade onde é preciso percorrer pelo menos 500 m de túnel apertado, baixo e sem tapete rolante, para fazer a ligação entre duas importantes estações de metro; é a cidade com gente séria, pouco dada à alegria na comunicação (a alegria latino-americana ou de outras espanhas pode ser falsa, mas sabe bem...) e pouco dada à polidez (nem "obrigados" nem "desculpes" - e a polidez de alguns países do Norte pode ser falsa mas sabe bem...); é a cidade com gente vestida de escuro (onde já vi isto?) e com uma considerável presença do sector chunga...

"Subi" pelo belíssimo Passeig de Gràcia até ao carrer Verdi, onde o cinema do mesmo nome ocupa como que o centro deste bairro onde sabe bem ver mais gente jovem, mais alternativa, e assistir a bons filmes em versão original. Hoje recuperei o perdido (em Lisboa) "5x2" de Ozon. Belo, mas triste (não encontro o adjectivo: não é azedo, nem cínico, talvez desencantado - mas desencantado com aceitação).

Dei por mim a pensar no tema da "fidelidade", que prepassa parte do filme. Não é um tema fácil de falar: se digo que "sou fiel", mil pessoas surgirão a dizer que isso soa a moralismo hipócrita. Na realidade, não "sou" fiel. Tenho vindo a ser fiel. Só que este ter vindo a ser, por força do tempo, estrutura-se em maneira de ser - e em "ser". Torna-se numa clara preferência, e não em algo assente em decisões morais tomadas a priori. Não é por achar feia ou má ou errada a "infidelidade" (independentemente de esta se poder exercer com lealdade, como nas relações "abertas" - raio de palavra, como se as outras fossem fechadas!) que sou fiel. É por gostar de o ser, e por não querer magoar a pessoa com quem vivo. É claro que esta afirmação só faz sentido desde que, a montante, haja uma relação onde ambos estejam na mesma sintonia nestas coisas. E há mais: creio cada vez mais que há tantas sexualidades e afectividades quanto pessoas e casais. Quanto mais analisamos cada caso - e a nós mesmos - mais vemos como nos faltam palavras e conceitos para descrever o modo como cada um e cada casal vive uma relação. E ainda bem: é isso que prova que as relações são processos. No campo da fidelidade/infidelidade, é a minha própria estrutura afectiva e sexual que não me "empurra" (ou não me empurra já, dado o tal processo, o tal "ter vindo a ser") para o que se convencionou chamar "a tentação" (raio de catolicismo linguístico!). Posto isto, morro de saudades.

mva | 22:17|
 

Princípios.



Dizia hoje um articulista, a propósito do primeiro aniversário da vitória de Zapatero: «Em todo o mundo se aplica a mesma lei pendular. A direita leva os países à beira do abismo e uma coisa semelhante ao que se convencionou chamar esquerda aparece para consertar as coisas, para fazer limpeza, acalmar os ânimos e pensar um pouco no futuro a longo prazo. A política dos princípios faz hoje um ano. Que estes princípios não se dissolvam como açúcar no café depende da vigilância activa das pessoas.»

Curioso. Já nos estávamos a deixar convencer pelo discurso de direita que sistematicamente apresenta esta como moderada, de bom-senso, naturalmente mais capaz de gerir a "economia" (palavra que usam para substituir "sociedade"); e que apresenta a esquerda como incapaz e tumultuosa. Nos tempos bushistas tudo isto foi ainda acrescentado pela ideia de "valores" (aquela coisa que se aplica a tudo menos à propensão "natural" para fazer lucro e ganhar na corrida dos ratos). Seguindo o articulista, "princípios" poderá ser um bom substituto, de esquerda, para "valores; e há que promover a ideia de que à esquerda compete "limpar", "normalizar", "acalmar" e, claro, transformar com uma ideia de futuro (que não tem - e a meu ver nem deve - ser uma "utopia"). Um novo discurso terá que promover a esquerda como a força que salva os países do caos em que a direita os lança - bem o contrário do discurso actualmente hegemónico em Portugal. A direita percebeu que a mudança estava a acontecer e rapidamente tratou de catalogar Santana de "fenómeno" especial. Mas há que dizer: Santana é a direita - apenas com mais lata. O PSD pô-lo "lá", não surgiu do espírito santo (não me refiro ao banco).

Conseguirá (quererá) Sócrates fazer isto? Daqui a um ano poder-se-á escrever uma artigo como este que citei? Talvez compita, mais que tudo, à «vigilância activa das pessoas».

PS: A foto é da administração do distrito (espécie de município dentro do município e mais do que mera junta de freguesia) de Nou Barris, onde tenho aulas de catalão: ou como se pode qualificar o espaço público naquilo que de outro modo seria um dormitório nas margens da cidade.

mva | 15:01|


13.3.05  

Everybody's changing.



Passagem, ontem, da Preciouzzz por Barcelona: jantarito seguido de copito no Punto BCN. Fiquei a saber por ela - sim, porque a minha ligação nética continua desastrosa... - do episódio do envio do retrato de Freitas para o Lg do Rato. Aliás, uma boa ideia seria começarem a fazer isso com todos os retratos de dirigentes centristas (?) até o Caldas se esvaziar. Everybody's changing... Hoje, ida ao teatro Poliorama ao fim da tarde, ver El Mètode Grönholm, peça de Jordi Galceran, encenada por Sergi Belbel - guionista de um filme catalão que admiro muito, Morir o no, do Ventura Pons. A peça é um delicioso huis clos que depende enormemente do (óptimo) texto. Ou deEntretanto, tocaram aqui, depois de Lisboa, os Keane. A sua música tem-me acompanhado e há um tema em especial de que alguém muito especial gosta (e aparentemente anda a ouvir em loop...). Aqui vai:

«You say you wander your own land / But when I think about it / I don't see how you can / You're aching, you're breaking / And I can see the pain in your eyes / Says everybody's changing / And I don't know why / So little time /Try to understand that I'm /Trying to make a move just to stay in the game /I try to stay awake and remember my name /But everybody's changing / And I don't feel the same / You're gone from here /And soon you will disappear /And fading into beautiful light / Cause everybody's changing /And I don't feel right / So little time /Try to understand that I'm /Trying to make a move just to stay in the game / I try to stay awake and remember my name / But everybody's changing / And I don't feel the same /So little time /Try to understand that I'm /Trying to make a move just to stay in the game / I try to stay awake and remember my name /But everybody's changing / And I don't feel the same / Oh everybody?s changing and I don?t feel the same».

Entretanto, para o relato do trabalho de ontem, aqui.

mva | 23:20|


12.3.05  

Barcelona calling.

Heathrow. A sair de Londres. A apreciacao da cidade ee puramente esteetica e subjectiva. Claro que ee um juizo de valor, mas nao corresponde a nenhuma "anaalise" - e muito menos seria afirmada como "opiniao fundamentada" noutro local que nao um blog ou uma conversa de cafee. Todas as cidades e paiises teem coisas boas e coisas maas (oh, banalidade!). Mas ee de comparacoes de experieencias e "feelings" que se vai fazendo um mapa pessoal. Ee por isso que gosto menos de Londres ou Los Angeles ou Roma e gosto mais de Paris, Barcelona ou Boston ou Sao Francisco. Tao simples (?) como isto.

Uma muculmana de veu estaa sentada muito direita no cafee, com as maos no regaco e olhando para o colo, ou acenando para pontuar a conversa entre quem penso ser o marido e o filho. Mas olhando com atencao, para debaixo da sua cadeira, o pezinho danca e bate no chao ao ritmo do "Sledgehammer" que se ouve na muusica ambiente...

Antes de escrever este postito, tento visitar o Renas. Que acontece? Ee-me proibido o acesso por conter material inapropriado. No comments. Atee Barcelona.

mva | 09:40|


9.3.05  

Londres.

Londres, por tres dias (e ainda com menos acentos). Porque ee que esta cidade ee tao cinzenta e user-unfriendly? Crummy, bleak, chaotic - soo me ocorrem expressoes inglesas, se calhar feitas de propoosito. Um ou outro cafee e restaurante engracado, de resto uma pessoa laa vai tentando furar as multidoes em ruas com passeios estreitos e sem urbanismo, debaixo do primeiro ceu cinzento que vejo em meses (Barcelona tem estado lisboetamente em regime de azul glorioso). Este conservadorismo ingles (este conservar as coisas como se imagina que eram) ee tanto mais ridiculo quanto se daa trela livre ao empreendedorismo selvagem noutras areas. O resultado? Gente com um ar empobrecido e de quem anda a correr para remendar a vida. Qual tunel: isto precisava era duma, duas, tres pontes.

mva | 20:09|


8.3.05  

A saga.

A saga continua. Lá que o kit adsl da Telefónica chegou, ai isso chegou. Mas pouco depois - OK, precipitei-me, bem sei - tinha o ordenador (ai os espanholismos) tão infectado de vírus e espiões que lá se foi o entusiasmo. O desgraçado está agora numa afamada clínica barcelonesa, algures numa escura backstreet, e eu à espera, condenado a locutórios. Se tudo correr bem, ainda poderei ir assistir à preparação da manifestação de mulheres de hoje. Amanhã parto para Londres, por três dias, para uma conferência agendada há muito tempo. Assim que (olha o espanholismo outra vez) talvez os próximos dias sejam um bocadinho para o silencioso. Fins ara.

PS: Por aqui "o caso" é Maragall, presidente da Generalitat, ter dito que se sentia como uma mulher vítima de violência, por o culparem a ele por ter feito uma denúncia. Na realidade o que ele fez foi um erro de táctica política: "denunciou" que o anterior governo conservador recebia 3% dos contratos de obras públicas para financiamento partidário, mas não teve como comprová-lo (tudo isto na sequência do grande evento local que foi a derrocada de alguns prédios no bairro do Carmel, por causa de um túnel (!) nas obras de expansão do metro). Face à exigência de desculpas da oposição, pediu-as, o que o afundou ainda mais. E agora vem com esta de se comparar a uma mulher violentada - o que enraiveceu meio mundo, desde o PS estatal, até aos parceiros da coligação tripartida catalã, ERC e ICV. O Maragall tem um óbvio problema com os similes e as metáforas - e com o timing do uso destas, hoje que é dia internacional da Mulher.

mva | 11:49|


6.3.05  

Locutorio II.

Sinto-me péssimo e vou fugir. Mas não resisto. É pouco ético, mas... A brasileira no computador ao lado imprimiu o que escreveu. O filhote, de 7 anos, está a ler alto o que ela escreveu: nada mais nada menos do que uma carta a acabar com o marido ou namorado. É patético ouvir a criança a ler frases sobre como "amo você mas", "você foi honesto mas", ou "você agora é só um amigo". OK, get a grip, Miguel: acabou-se a coscuvilhice.

mva | 15:25|
 

Locutorio.

Sinto-me um verdadeiro voyeur. Ou estas pessoas nos locutorios entram numa espécie de pacto social de suspensão da intimidade, ou são muito ingénuas: é que falam a alta voz ao telefone como se ninguém em redor percebesse o que dizem - quando justamente são lugares de alta concentração de estrangeiros. Se outro dia era o instrutor de capoeira brasileiro que explicava como era confortável viver agora com "uma bicha", hoje é uma latino-americana que está a dizer "é que o seu marido engravidou-me, vou ter um negrito ou uma negrita, e ele não quer responsabilizar-se, por isso estou a falar com a senhora...". A tragicomédia humana continua produtiva.

mva | 15:17|


5.3.05  

Consta que há governo.

Então já têm governo? Oops: então já temos governo? Demos graças aos céus por Jaimes Gamas, Pinas Mouras, Fernandos Gomes e outros sociossauros não terem regressado; suspeitemos que vem aí candidatura presidencial de Vitorino; parabenizemos (eu parabenizo) a minha colega Maria de Lurdes Rodrigues - a quem desejo sorte no "buraco negro" educativo; constatemos, a propósito deste rosto feminino, que o governo do PSOE é estritamente paritário, ao passo que este... A veure...

mva | 15:23|
 

Novidades.

Finalmente há novidades no Webbing Ring... Ide e vede...

mva | 15:20|


4.3.05  

O silêncio nao é de ouro.

A todos os que achem estranho este silêncio - aqui e no Webbing Ring (cujo template mudou graças ao Boss)- a explicaçao é simples: a Telefónica espanhola é tao má como a famigerada TV Cabo portuguesa, pelo que ainda nao tenho net em casa. Torna-se muito difícil escrever posts com pés e cabeça em cibercafés como este, onde um instrutor de capoeira brasileiro está ao nosso lado, falando aos berros para um telefone, contando como deixou a namorada e agora tem uma bela vida com "uma bicha" (sic). Ou com o paquistanês dono do sítio espirrando sisematicamente por trás de nós, enquanto chupa antibióticos como se fossem rebuçados (a sério: acho que ele amanha já nao estará cá - de todo). O trabalho prossegue, lento e algo frustrante, como sao sempre os trabalhos de campo no início. Solitários, pedregosos, com o tempo esticado - mais ainda quando estamos numa cidade e nao numa aldeia, ou a trabalhar com os nossos "iguais" sociais e nao a usarmos do nosso poder simbólico para sermos simpaticamente recebidos pelos aldeaos... Aproveito o tempo para ler, pôr notas e meses de recortes em dia, sistematizando dados e conhecimentos. Uma nova leva chegou hoje, directo do Parlament da Catalunha, cuja bibliotecária competentíssima me arranjou tudo o que existe sobre a questao dos casamentos gay e lésbicos.

mva | 10:51|


3.3.05  

É só um momento, se faz favor.

Por estas bandas e pelas do Webbing Ring, isto anda tudo um bocado parado. Os tempos correm numas coisas e nao noutras. Escrever posts decentes em cibercafés de circunstância nao dá...Um pouco de paciência, que daqui a uns dias já poderei postar tranquilamente. God willing. Fins ara.

mva | 17:26|


1.3.05  

Barcelona a frio.

Ainda estou a postar de um cibercafé. Espero pela ligaçao adsl em casa. A Telefónica local é mesmo prima da PT e as coisas demoram mais tempo do que seria de esperar nesta Europa. Este primeiro dia é de preparaçoes, assuntos práticos, adaptaçoes. Achar casa foi um processo de meses, dado os preços praticados. Finalmente escolhi o estúdio onde estou e que, dada a área, vou passar a apelidar de "toca". Mas é um covil simpático, a uma piscadela de olho da Santa María del Mar - posso assim brincar aos apreciadores de zonas antigas, qual escritor americano expatriado na Europa.

A grande emoçao local é a neve, a grande "desemoçao" é o frio. Ando num frenesi pelas ruas, combatendo o vento siberiano: a arranjar um telemóvel local, a encontrar uma piscina onde fazer um pouco de exercício, a experimentar metro e autocarros, a checar supermercados e restaurantes. Tudo simples, de qualidade e acessível (contrastando com o surreal estate...): onde em Lisboa se come num restaurante "trendy" mas simpático por 8 euros e meio, incluindo sopa, prato, copo de vinho, pao, e sobremesa - sendo que esta era um excelente apffelstrudel?

Amanha começam as aulas de catalao, hoje mesmo já começo com as entrevistas e, se tudo correr bem, assim que tiver adsl o Webbing Ring começará a existir. Peço desculpa pelo laconismo do post: a adaptaçao a um sítio novo estupidifica. E há sempre algo de irreal em estar fora, mesmo quando se gosta desta profissao de estranhamento e aventura. É a falta, nao dos hábitos e rotinas, mas das âncoras humanas que lançamos com prazer. Um beijo à minha âncora.

PS: Alguém em tempos, noutra incursao a Barcelona, me ensinou o truque de como colocar tiles. Estás aí? Precisava que me recordasses. Moltes gràcies.

mva | 13:26|