OS TEMPOS QUE CORREM. Miguel Vale de Almeida


27.2.05  

'té já...



(P'aí até terça ou coisa assim)

mva | 22:48|


26.2.05  

Mar Adentro.



Devo ver em média uns dois filmes por semana. Mas há meses que me queixo de não ver nada que "mexa comigo" ou que me leve genuinamente a dizer "eis um bom filme". (O mesmo acontece com os livros. Por isso não tenho postado nem sobre uns nem sobre outros). Já me ocorreu que isto possa ser um efeito da sobrexposição a filmes - e livros; ou daquela espécie de suave mas cruel cinismo que vem com a idade (G_ _, I hope not!). (Inclino-me mais para achar que os filmes é que são beras, mas enfim...). Mas hoje Mar Adentro surpreendeu-me e tocou-me. That's all I have to say, dado o tema.

mva | 22:15|
 

Nacionalismos.

Deixo aqui o link para a conferência de Rovira na Fundação Mário Soares, para melhor ilustrar o que disse abaixo. Não simpatizo totalmente com o "encantamento" nacional de Rovira pelo seu país - como não simpatizo com nenhum encantamento desse tipo. Mas uma coisa é certa: coisas muito diferentes abrigam-se debaixo da designação "nacionalismo". O nazismo foi um nacionalismo; a resistência timorense foi um nacionalismo; as lutas anti-coloniais foram nacionalismos. A diferenciação destes processos - retirá-los do constrangimento da designação "nacionalista" e analisar o que se passa de facto - é que me parece importante. O nacionalismo catalão, em geral, é muito mais uma forma de dizer "deixem-nos ser modernos", face às inclinações pré-modernas do establishment do Estado Espanhol, do que uma reivindicação essencialista.

PS- dois exemplos: 1) o nacionalismo catalão não tem um discurso exclusivista ou anti-imigração. No caso da ERC, ou da IC-V (com que simpatizo mais), bem pelo contrário. 2) o movimento lgbt nas Espanhas teve um dos seus fundadores na FAGC (Front d'Alliberament Gai de Catalunya), claramente associada ao "nacionalismo", isto é, à reivindicação de uma espaço/comunidade de liberdades e direitos modernos, que já se estava formando socialmente em Barcelona.

mva | 12:24|
 

As coisas em que as pessoas pensam.

«Por exemplo, no que se relaciona com o modelo de segurança e defesa de Portugal, que é o domínio sobre o qual penso poder pronunciar-me, haverá que implantar uma estrutura para a segurança do Estado português que permita, com eficiência: 1) avaliar permanentemente as ameaças de todo o espectro que nos podem afectar (tanto as não militares como as militares); 2) analisar a cada momento a situação estratégica envolvente, e propor as modalidades de acção convenientes aos órgãos de decisão política, especialmente aos órgãos de soberania; 3) formular um Conceito Estratégico Nacional que não respeite apenas às matérias da Defesa, mas envolva todas as actividades do Estado e sirva de directriz orientadora/inspiradora para a Nação. Isto exigirá: serviços de informações eficazes, e a criação de um órgão de staff e outro de conselho que apoiem os órgãos de soberania e os responsáveis políticos;(...)».

Loureiro dos Santos escreve isto a propósito de supostas "ameaças" à independência nacional contidas numa entrevista a Carod Rovira. Loureiro dos Santos não percebe nada. Não percebe nada sobre a dinâmica do Estado Espanhol, sobre os diferentes nacionalismos dentro desse espaço, sobre a Catalunha. E, sobretudo, ainda não percebeu que Portugal está na UE e, dentro da UE, está na Península Ibérica. O extracto acima transcrito releva, ele sim, de um insuportável nacionalismo tropeiro. Estas ideias ainda irão medrar na legislatura socialista?

mva | 11:53|
 

Estava tudo "tão bem", tinham que vir estragar...

«Quatro razões para a candidatura de Guterres».

mva | 11:41|


25.2.05  

Webbing ring.



A partir do dia 1 de Março terei mais um blog. "Os Tempos que Correm" continuará a correr, é claro. "Webbing ring" será um blog dedicado à minha pesquisa em Barcelona sobre o processo dos casamentos gay e lésbicos. A ideia é tornar acessível o diário de campo a colegas, estudantes e tod@s @s interessad@s. Também por isso, será em inglês. Espero que gostem.

PS. Explicação da graçola do nome: é claro que "webbing ring" brinca com "wedding ring". Curioso é que basta inverter os dd em bb; continuam a ser duas letras iguais (same-sex letters...) e ainda faz alusão à "web" (coisa que o "ring" reforça - a rede como teia e como laço ou anel, tal como o casamento...)

mva | 11:07|


23.2.05  

In the navy...


mva | 19:02|
 

As esquerdas e o aborto.

Não há dúvida que, no plano dos princípios, o PCP tem razão quanto à questão do aborto. Sendo este um direito, não deveria sequer ser referendável; e havendo maioria de esquerda no Parlamento, este deveria alterar a lei, no sentido da despenalização.

Mas isto é o plano dos princípios. Depois há toda uma história. E a história começa com a recusa, no tempo de Guterres, de legislar havendo uma maioria de esquerda. Foi feito o referendo. E os resultados - bem como a "afluência" às urnas e o resultado não-vinculativo - são conhecidos. O PS teve, então, o seu pior comportamento de sempre.

Veio a direita para o poder. Face à expectativa de esta ficar a governar durante quatro anos, sectores que incluiram o BE e o PS lançaram uma petição para a realização de um novo referendo. Participei activamente nisso. O PCP recusou-se e criticou fortemente a iniciativa. A ideia desta era conseguir trazer o assunto à discussão de novo num quadro político sem maioria de esquerda. E reconhecendo um outro problema político: tendo havido referendo, e mesmo sem ter sido vinculativo, a legitimidade política da alteração da lei seria reforçada se tal se conseguisse através de novo referendo.

É esta também a noção do PS sobre o assunto. Mas é claro que, no caso deste partido, tal se deve sobretudo à necessidade de conciliar interesses muito diversos, de garantir centrismo, e de satisfazer os sectores mais conservadores do PS, incluindo sectores anti-escolha que o PS de novo levou para o parlamento. Más razões, sem dúvida. Sobretudo agora que o PS tem a maioria absoluta.

Todavia, Sócrates comprometeu-se na campanha a fazer novo referendo. Deve, como é óbvio, cumprir a promessa. À esquerda não-PS compete pressionar para que a promessa seja cumprida e uma das maneiras de o fazer é exigir que o referendo se faça quanto antes. Sobretudo sem correr o risco de vir aí um presidente da República que não aceite a convocação do referendo.

Já a data, podendo coincidir com o Verão (e as datas estão limitadas pela realização de outras eleições, autárquicas e presidenciais), não é a melhor, reconheço. A não ser que se jogasse no mais cedo possível, antes ainda das férias, por exemplo os inícios de Junho.

A posição de princípio do PCP é respeitável e simpática por isso mesmo - porque é posição de (bom) princípio e recorda não só que o aborto é um direito, como chama a atenção para a existência de uma maioria de esquerda recém-legitimada pelo voto. Mas sabendo nós que o PS não aceita nada que não o referendo, o melhor não é pressioná-lo - garantindo que o assunto não sai da agenda e não é protelado para as calendas, e acrescentando a legitimidade extra de uma nova decisão referendada? Ambas posições, do PC e do BE parecem-me, paradoxalmente, complementares. Assim como a suposta preocupação de Sócrates de que o referendo seja ganhador. Têm é ritmos e tácticas francamente diferentes. Três ritmos e tácticas diferentes.

Não seria altura - a melhor altura - de se entenderem numa estratégia comum? Talvez os posicionamentos de cada partido sejam sinal disso mesmo: só se negoceia depois de cada parte estabelecer as suas "fronteiras".

mva | 15:33|
 

Olhar de esquina.



Vale a pena ver a expo "Das Esquinas do Olhar - Arte da Diáspora Africana Contemporânea", na Gulbenkian. Fiquei particularmente seduzido pelo trabalho de Ingrid Mwangi. Neste trabalho ela pegou numa conhecida foto de Hitler sendo admirado por uma série de alemãs arianas. Mwangi transformou a cara de Hitler na cara do seu marido alemão e replicou a sua própria cara sobre as das admiradoras...

mva | 15:24|


22.2.05  

Paridade?

Alguém cá em casa fez rapidamente as continhas sobre o número de mulheres eleitas:

BE: 4 em 8 (50%)
CDS/PP: 1 em 12 (8.33%)
CDU: 2 em 14 (14.29%)
PS: 34 em 120 (28.33%)
PSD: 6 em 72 (8.33%)

Total: 20.8%

mva | 13:50|


21.2.05  



Apesar da enorme alegria e alívio, clima estranho em Lisboa. Ontem à noite não se ouviam buzinadelas. As ruas não se encheram. Sócrates transpirou umas breves e inócuas palavras de vitória e retirou-se. O país votou em massa contra Santana Lopes e a vergonha do desgoverno de direita. Votou com a consciência de que o país atravessa uma fase difícil. Mas não votou, creio, com entusiasmo pró-PS. Mas isso é interpretação à flor da pele. O que é certo é que o PS teve maioria absoluta e não tem agora qualquer desculpa para não governar, e bem. O PS é, agora, a grande incógnita, não as palermices da direita. É o que o PS fará - e não fará - que nos deixa o coração nas mãos.

O PCP não "sobreviveu". De há uns tempos para cá que me parece estar a viver um paradoxo: purgados os dissidentes, tomado o poder pelos duros, há toda uma geração e todo um eleitorado para quem essas questões não são importantes, mas sim a resistência, a actividade sindical, a presença autárquica e um imaginário algures entre o 25 de Abril e a Festa do Avante. Isto é paradoxal porque aquilo que impede o PCP de mudar de discurso (digamo-lo com clareza: de se bloquificar) não são as referências históricas ao Leste, a que provavelmente uma maioria de militantes, sobretudo os mais novos, já não liga nada, mas sim o empecilho do centralismo democrático. Quando este acabar, é certo que o PC perderá força, mas enriquecerá muito mais possíveis alianças da esquerda, de sectores do PS, ao Bloco.

O Bloco sobe, e muito e, para quem ainda não tenha percebido, refundou-se (e os eleitores refundaram-no...) como partido nacional e mais popular. O Bloco tem agora duas tarefas pela frente, a meu ver. A primeira é fazer oposição pela esquerda, face a um PS que com certeza se sentirá refém do centro que julga tê-lo eleito. Isto é, o Bloco deverá continuar a contribuir historicamente para a criação de uma hegemonia de esquerda moderna que possa permear o PS (e o PC). Assim se influencia também a governação - no parlamento, na rua, na intervenção mediática, nos movimentos sociais - e não apenas se o PS tivesse tido maioria relativa.

Quanto à direita, que dizer? No teatro da direita, Paulo Portas faz a performance do homem honrado para conseguir uma vaga de fundo de apoio, para poder finalmente refundar o CDS no partido democrata-cristão de que agora fala quase tanto como de deus. Deixá-lo. Assistiremos deliciados a uma daquelas lutas "civilizadas" pelas heranças e arcas das tias que tanto caracterizam a betocracia. Santana Lopes, esse optou pela performance do canalha: o populismo e o personalismo levam-no a não se demitir e a lançar-se na guerra interna. Assistiremos deliciados a uma daquelas lutas histéricas pelas heranças e a courelazita de terra que tanto caracterizam a burgessocracia.

Livrámo-nos de Santana. Livrámo-nos do populismo. Agora vamos exigir a este governo que vem que honre a palavra "esquerda" que tanto proclama.

mva | 11:23|


20.2.05  

Lembram-se?



Foi agora!

mva | 21:50|
 

As pequenas manipulações.

1) Chamem-me paranóico. Mas estava a ver o jornal da SIC Notícias das 14h e Paulo Portas foi entrevistado enquanto eleitor e como todos os outros líderes. Tudo bem. Só que às tantas faz o comentário simpático e humorado (tudo bem) sobre como hoje não se pode falar de política. E termina a frase colocando as duas mãos no ar, com os dedos bem abertos - precisamente o gesto que repetiu ao longo da campanha para pedir 10%. A entrevista terminou assim, deixando no ar a ambiguidade do gesto (que ele justificaria como ilustração da proibição de fazer campanha, como um sinal de "stop").

2) Numa mesa de S. Sebastião, na escola Marquesa de Alorna, familiares meus deparam-se, pela segunda eleição consecutiva, com uma membro de mesa que ostenta, ao lado da urna, um livro regligioso. Desta feita era uma coisa qualquer sobre franciscanos, com um padre na capa. Fizeram queixa. O senhor responsável pela assembleia de voto disse que aquilo não era propaganda. Um dos meus familiares respondeu, e bem, que já é demasiado crescido para se convencer de que um livro religioso numa secção de voto não é propaganda eleitoral - num país onde tanto se joga no campo dos "costumes", com a ICAR intervindo com toda a sua força. A queixa foi redigida (não há formulários de queixa, é preciso redigir uma coisa extensa em legalês tuga).

mva | 17:11|
 

História eleitoral.


(Obrigado, Leonor)

mva | 12:08|
 

E você, já foi votar hoje?


Detenção da sufragista Emmeline Pankhurst , Londres, 1914 (Museum of London)

mva | 11:13|


19.2.05  

Reflictam. Mas reflictam mesmo.



O "dia de reflexão" é uma instituição um pouco tonta. Percebe-se que não haja campanha oficial dos partidos. Já não se percebe que os media quase se calem sobre tudo o que tenha a ver com eleições. Não somos crianças. E a discussão política não é o mesmo que publicidade enganosa (bom enfim tá bem vá lá cof cof). Seja como for, desejos de excelente dia de política da família, política da amizade, política do trabalho, política da religião, política do consumo, política do ambiente, política de...

mva | 13:22|
 

Avatar.



Já agora, apresento o meu avatar (ou "gravatar", como em "o outro eu com gravata"?), que é uma bandeira. O preto e o vermelho vão juntos como cores de esquerda com raízes anarquizantes. O preto sozinho é, também, afirmação de negritude (ao contrário dos skins, reclamo, no imaginário, origens no Atlântico Negro). O vermelho sozinho é afirmação de esquerda. O rosa sozinho é afirmação de gayness.

PS1. Avatar: «From the Sanscrit for the incarnation of Godhead, an avatar is the 'body' you 'wear' in a virtual community - an animated, articulated representation of a human which represents you, the user, in any virtual environment».

PS2. Avatar: «In Hinduism, an Avatar is defined as the incarnation (bodily manifestation) of an Immortal Being, or of the Ultimate Supreme Being. It derives from the Sanskrit word "Avatara" which means "descent" and usually implies a deliberate descent into mortal realms for special purposes. The term is used primarily in Hinduism, for incarnations of Vishnu the preserver, whom many Hindus worship as God. To this day, Hindus believe in the divine Avatars Krishna and Rama.»

mva | 13:20|


18.2.05  

Gente com problemas de pele.

O Expresso (indesculpavelmente avesso à blogosfera - não consigo linkar a notícia) diz que os skinheads estão em recrudescimento, de modo a ganharem um estatuto lá do universo deles que só se obtem matando alguém. Bem, isso já fizeram, e tragicamente, entre nós. Pelo menos duas pessoas perderam a vida. Mas o Expresso refere de novo a lista de alvos a abater encontrada na casa de um deles em Outubro: incluía pessoas da sinagoga de Lisboa, do SOS Racismo e dirigentes da Opus Gay. Já sabíamos que a homofobia fazia parte do menu desta gente. E sabemos que, felizmente, os skins são vigiados pela polícia como bandidos que são. Mas espera-se que haja também protecção activa da polícia às pessoas visadas por estes rapazes de pele branca (mal eles sabem que em muitos países não seriam considerados "brancos" e que há uma probabilidade de 99,9% de terem antepassados NEGROS).

PS: O outro dado da notícia é que o PNR - partido que a democracia portuguesa deixa concorrer às eleições - está infiltrado por skins, e consciente disso. Não se faz nada?

mva | 15:29|
 

Há muitas estrelas vermelhas...



... eu escolho a que tem cabeça.

mva | 11:45|
 

"Qualquer dia legalizam o Coiso das Neves".

Compare-se a entrevista de Coiso das Neves (thanks, Boss) com este texto de Gato Fedorento (thanks, Panasca-Mor). Ou de como há mesmo dois portugais (??), a História não acabou, as ideologias não desapareceram, o mundo não é todo igual, Portugal não é "um país católico", as pessoas não têm pensamento único, etc., etc., etc.

E de como as eleições são importantes.

mva | 10:44|


17.2.05  

No comments.

Curioso fenómeno: desde que o Bloco subiu nas sondagens, a Corporação dos Comentadores elogia a genuinidade de Jerónimo de Sousa e suaviza o que já foi uma hostilidade sua para com o PCP. Também leva aos extremos a atribuição das mais horríficas características ao Bloco, todas relacionadas ou com a História (o "maoísmo", o "trotsquismo", etc). Por um lado, porque Os Comentadores, Inc. tendem a pertencer ou a uma geração presa à memória dos conflitos do Verão Quente pós-25 de Abril (há trinta e tal anos, senhores!); ou a uma novíssima geração de pijos tugas, formada no fast track das carreiras mediático-empresariais. Mas, sobretudo, porque a Cosa Nostra Comentaria é liderada por cristãos-novos, ainda (trinta e tal anos depois, senhores!) traumatizada pelas facadas recebidas nas incubadoras de conservadorismo que foram os obscuros partidos de extrema-esquerda em que militaram durante os desarranjos de testosterona da tardo-adolescência.

PS - Um fenómeno paralelo a este (mas que revela sobretudo como funciona e como é selectiva a subservocracia tuga: para os Comentatores há uns poucos de Professores em Portugal, todos ligados à Economia ou ao Direito, reinando entre eles "O Professor Cavaco Silva" e "O Professor need-I-say-more? Marcelo". Tudo o resto é para eles uma cáfila, incluindo um tal de Louçã, por acaso Professor Associado de Economia, com livros publicados "lá fora" e carreira internacionalmente reconhecida....

mva | 22:48|
 

No Fórum Lisboa.

Ontem falei no comício do Bloco em Lisboa. Ao contrário de aulas, congressos e quejandos, em que me sinto à-vontade, falar em comícios põe-me em pânico. Mas parece que a coisa correu bem. Um pequeno extracto do exercício que fiz de desmontagem de ideias feitas:

«A primeira ideia feita é a de que existe algo chamado "voto útil". Esta ideia tem que ser desfeita. O único voto útil numa democracia é o voto que corresponde à consciência do eleitor. Dos eleitores espera-se que votem no partido cujo programa mais lhes agrada, cuja prestação política na legislatura anterior mais respeito lhes merece, cujos princípios, visão do mundo e propostas mais se identificam com as suas. Esse é o voto útil.

A segunda ideia feita é a de que se "roubam", "pescam" ou "se vão buscar" votos aqui ou ali, a este ou àquele partido. Esta ideia é em si mesma um insulto à democracia e à inteligência dos eleitores - já para não falar do insulto à liberdade de escolha das pessoas. Os votos não pertencem a ninguém, a não ser quando se vive em regime de caciquismo e de dependência dos favores dos poderosos - infelizmente uma realidade demasiado evidente em muitos contextos do nosso país, marcados pela associação perversa entre municípios, clubes de futebol e interesses empresariais.

A terceira ideia feita é a de que a maioria absoluta é a melhor forma de garantir estabilidade política. Também ela é falaciosa. Desde logo porque a expressão "estabilidade" não quer dizer nada, se não se explicar que estabilidade, com que meios e para que fins. Em si mesma pode querer dizer tudo e não querer dizer nada. Em democracia, os eleitores escolhem diferentes opções e é obrigação dos seus representantes eleitos procurarem, através do diálogo, da negociação e do confronto, as estabilidades necessárias para a prossecução de determinadas políticas. Que espécie de democracia é essa em que os eleitores se vêem confrontados com a chantagem de "ou nos dão o poder absoluto ou é o caos"?»

O discurso de comício permite demasiado a "desonestidade intelectual", porque é um discurso instrumental. Tentei evitá-lo, o que não é fácil.

PS: para a blogayesfera em particular (mas não só!), um extracto da parte que nos toca directamente: «O Bloco sabe que nunca este país será moderno enquanto as mulheres forem julgadas por abortarem, enquanto @s homossexuais (os gays e as lésbicas) não usufruirem dos mesmos - rigorosamente os mesmos - direitos civis que a restante população, ou enquanto dezenas de milhar de imigrantes não forem cidadãos de pleno direito, e futuros garantes da salvaguarda da nossa - e deles - segurança social.»

mva | 11:42|


16.2.05  

O debate.

Por que carga de água a RTP ou o PCP ou ambos não substituíram Jerónimo de Sousa quando ficou afónico? Afinal de contas não é justamente por se dizer que em Portugal não se elegem primeiros-ministros que Santana Lopes está no governo?

De resto, assistimos ao afundamento, em luto, de Santana, Paulo Portas terá sido triunfante para a direita (achei-o bem mais inseguro que noutras situações), Sócrates aguentou-se dizendo rigorosamente o mesmo que já lhe ouvimos, e Louçã fez a noite lançando o caso dos bancos. Posto isto, é o que já se sabe: consolidação do PCP, ligeira subida do CDS, queda não catastrófica do PSD, subida mas-não-gigantesca do Bloco e maioria à-beirinha-de-absoluta para o PS. Veremos nas sondagens dos próximos dias (ah, e nas eleições, é claro).

PS: A seguir ao debate, quer na SIC quer na RTP (as Ns). Muito se fala na degradação da classe política. E quem mais o diz é a classe jornalística e comentadeira. Mas ninguém fala da degradação desta última: ouvir debates entre comentadores, a maioria dos quais bonzos media-empresariais (com a pose conhecedora que só os não conhecedores sabem fazer) ou jovens "jornalistas económicos" surgidos sei-lá-donde, com cabeças nulas, interesses ocultos mascarados de isenção, quando não de presunção "beta" - bem, isto é que é verdadeiramente penoso. Mais valia os grupos empresariais da media enviarem funcionários que fossem honestamente ler cartas enviadas pelos patrões, ou então convidar o zé da esquina para pensar uma coisas. Comparados com eles, viva os políticos!

PPS: Um exemplo de ignorância jornalística: especular sobre a facilidade ou dificuldade de entendimentos PS/Bloco, sem referir (sem saber?) que todo o movimento da petição por um referendo do aborto foi feito em conjunto pelos dois partidos. Outro exemplo: dizer que é impensável PS e Bloco entenderem-se quando têm posições opostas quanto à Constituição Europeia, quando em Espanha a maioria parlamentar de esquerda conta com o PSOE a favor e a IU e a ERC contra. E por aí fora. Ficava aqui a noite inteira.

mva | 00:22|


14.2.05  

A mente delgada.

Não, não vou dizer mal das opiniões de Luís Delgado ou confrontá-lo politicamente. É, se calhar, mais grave do que isso. Estava a ler calma e distraidamente o seu artigo de hoje, quando me apercebi que estava a lê-lo... calma e distraidamente. Fui ver porquê, lendo-a com mais atenção. E eis a espantosa conclusão a que cheguei: é que o artigo não diz nada, é uma espécie de redacção inane, de quem escreve porque tem que escrever. Entre este nível de jornalismo e opinião e relatos sobre o estado do tempo não há rigorosamente diferença alguma. Como seria analisado pelo interessantíssimo Tropes que um casal romeno inventou em Portugal (pois, como toda a gente sabe, os imigrantes não servem para nada e daí não poderem votar, nem dar a nacionalidade portuguesa aos filhos que cá nascem, nem contribuir para a salvação da Segurança Social, nem...)?

mva | 16:49|
 

Dia dos namorados e das namoradas.

A Fernanda Câncio tem um belo artigo, de uma página inteira, no DN de hoje, dando muito destaque à situação de castração a que são submetid@s os casais de namorados gay e lésbicos. Faltava dizer que quem for a uma loja comprar artigos para o S. Valentim não vai encontrar nada targetted a casais do mesmo sexo...

mva | 16:42|
 

Pelo menos homofóbico é.

«Não sou pedófilo nem pederasta nem homossexual. Desde que me conheço sempre fui heterossexual e sexualmente activo», disse Carlos Cruz.

mva | 16:39|
 

aLucianação.

Alguém me explica o que se passa com o luto nacional? É ou não é preciso que o PR o autorize? E entrava em efeito hoje ou amanhã? Nem os jornais, nem o portal do governo, nem o da Presidência da República me ajudam. É que moro num conjunto de prédios com centro comercial que onstentam, na fachada, as bandeiras de Lisboa, Portugal e UE. Ora, hoje dei com a bandeira nacional a meia haste. Fiz um inquérito e na administração quer do centro comercial, quer do condomínio, ninguém tinha recebido ou dado ordens para tal. Iniciativa de um zeloso funcionário aLucianado?

Entretanto, figuras gradas da ICAR manifestam-se claramente contra a suspensão da campanha eleitoral como forma de manipulação, ao dizerem que não desrespeitam de todo os partidos que não suspendam as suas campanhas. Isto está giro, está.

mva | 16:30|
 

Este blog é território livre de luto nacional.



Quase tudo deveria estar entre aspas: "irmã", "vidente", "aparições" etc; ou pelo menos adjectivado: os fiéis católicos. Mas não: os nossos jornais e TVs vão calmamente continuar na sua obediência aflita à ideia hegemónica de que este "é um país católico" (numa espécie de constatação de evidência supostamente tão neutra como dizer "este é um país de língua românica"). Irão pelo menos criticar a manigância da declaração de luto nacional em plena campanha eleitoral? É que Lúcia... (não sei o apelido) não foi uma heroína nacional, uma presidente da República, uma figura laureada com o Nobel, uma...

No penoso avanço para a modernidade, meia-volta retrocedemos três casas. Na edição portuguesa do Monopólio, a casa que repesenta uma prisão deveria representar uma igreja.

mva | 11:05|


13.2.05  

Análise de conteúdo.

mva | 13:44|
 

Snapshot II.

Fait-divers televisivo: a polícia apreende baralhos de cartas a um grupo de reformados, acusados de jogarem a dinheiro no Jardim da Parada. Na reportagem, um dos reformados diz: «Nós somos velhotes: este tem 80, aquele ali 70, eu também, aquele ali é mais novo, mas é de cor.» O "de cor" acha a observação normal e nem reage. Supõe-se que repórter e espectador também. Fico atónito. Segue-se a vez de outro dos reformados: «A polícia veio aqui, mas não vai apanhar os assaltantes e... e... esses estrangeiros ilegais que estão para aí a roubar e a assaltar!». Toda a gente acha normal. Supõe-se que repórter e espectador também. Fico atónito.

Devo viver numa torre de marfim, casulo, não-lugar, sei lá.

mva | 12:33|
 

Snapshot I.

Uma funcionária dum serviço que frequento pede-me ajuda a resolver o problema duma pessoa amiga, com inclinações suicidárias por ser lésbica e não imaginar sequer que isso possa ser normal ou que existam outras pessoas como ela. Alguém do meio académico contacta-me para desabafar sobre o autêntico calvário que passou ao consultar pscicólogos homofóbicos que não percebiam que o seu problema era como lidar com a homofobia (suponho que também a internalizada). Um empregado de um estabelecimento comercial vai desabafando, por metáforas e alusões, a sua situação quase depressiva por se ter confrontado com a sua ambiguidade sexual já tarde na vida. Poderia dar-vos mais exemplos. Em rigor, não se passa uma semana sem que me apareça um caso com contornos semelhantes. Alguém mais incauto e optimista poderia dizer que as coisas já não são assim nas gerações jovens urbanas. Mas situações de convívio com muitas destas pessoas, asumidamente gay e lésbicas no círculo estreito da sociabilidade protegida duma casa ou bar, revelam a perpetuação do armário através da interiorização do discurso aparentemente civilizado da "vida privada" e da "irrelevância identitária" da homossexualidade. O resultado é o curtocircuitar das possibilidades de mudança social gerada pelos grupos sociais que justamente poderiam conduzir a transformação - porque feitos de gente mais jovem e mais autónoma. Assim funciona a hegemonia do armário, versão lusitana. Só assim se explica o desprezo absoluto, da parte da media e dos políticos, por uma população entre o meio milhão e o milhão de pessoas. É que quando as pessoas não têm sequer consciência de que pertencem a uma "população", a dita não existe.

mva | 12:21|


12.2.05  

Humanismo ou Siloísmo?

Enquanto esta suspeita existir, retiro o link do Partido Humanista. Um relatório da Assembleia Nacional Francesa não é propriamente um instrumento de lançamento de boatos. Como este blog não é nem um meio de comunicação social nem um organismo do Estado, reservo-me o direito de fazer esta censura preemptiva. Esperemos que as pessoas do PH avancem com relatórios de teor contrário, feitos por instituições com credibilidade semelhante à da AN Francesa. (Obrigado ao JA pela informação).

mva | 14:18|
 

Igualdade no casamento.

O Boss criou um blog sobre casamento entre pessoas do mesmo sexo. É uma excelente iniciativa, a juntar a muita e boa renação e veadagem. Vai já para os blinks.

mva | 14:03|
 

A foice e o martelo.



Creio que esta notícia passou um pouco despercebida há dias: «A Comissão Europeia rejeitou uma proposta de proibição de símbolos comunistas em todos os países membros da União Europeia (UE). Um grupo de eurodeputados conservadores de Leste queria aplicar a mesma medida legal às suásticas e aos símbolos comunistas, como o da foice e martelo.»

A notícia revela um problema cada vez mais evidente: a tentativa da direita contemporânea em fazer-se "anti-sistema", "vítima do politicamente correcto" (chegando por vezes ao ponto, como com Paulo Portas, de se apresentar como "revolucionária"). Uma das estratégias é equivaler nazi-fascismo a comunismo, através da equivalência (essa não tão discutível assim, mas específica) entre Hitler e Estaline. É claro que é perfeitamente compreensível que quem tenha vivido sob ditaduras estalinistas e semelhantes sinta em relação a elas um asco semelhante ao que sentimos face ao salazarismo.

Mas quer isto dizer que se deva equivaler fascismo e comunismo? Aqui é que discordo em absoluto. Por uma razão muito simples: o comunismo tem uma herança e uma história que precede as ditaduras estalinistas, as ocupações soviéticas ou os delírios maoístas e quejandos. Essa herança e essa história ligam-se ao movimento operário, a lutas pela igualdade e a democracia em muitas partes do mundo (e desde logo no Ocidente europeu), antes e ao lado de "socialismo reais" catastróficos. É por isso que o símbolo da foice e do martelo não é associado apenas às ditaduras de Leste ou ao gulag e massacres soviéticos. Já os símbolos fascistas e nazis só podem mesmo associar-se às ditaduras e, especialmente, ao Holocausto.

Só mesmo o estadounidense médio, endoutrinado no anti-comunismo que teve a sua máxima expressão no McCarthysmo ou, agora, os conservadores do Leste europeu, podem propor a equivalência. A Comissão Europeia recusou a proposta, e bem: olhou à sua volta e viu as gerações e gerações de pessoas absolutamente normais e generosas que se identificaram com os PCs da Europa Ocidental e fizeram dessa identificação uma forma de humanismo. Eu conheço-as. Muitos de vocês devem conhecê-las. Alguma vez vos passaria pela cabeça dizer que aquela foice e martelo que têm lá em casa é um símbolo de ódio que deveria ser proibido?

mva | 13:45|
 

Xana.



Há mais de dois anos que não comprava o Expresso. Hoje comprei-o, por faltar apenas uma semana para as eleições. Mas o statement político mais interessante fui encontrá-lo numa secção marginal chamada "Inquérito". A entrevistada é Xana dos Rádio Macau (uma banda (já? ainda?) do "meu tempo"):

«- É a favor da despenalização da droga?
- Sim.
- É a favor da adopção de crianças por parte de casais homossexuais?
- Sim.
- Quantos filhos gostava de ter?
- Nunca quis ter filhos. »

Magistral.

mva | 13:34|


11.2.05  

"Sócrates sob suspeita".

É esta a frase em rodapé na SIC. Ao longo de toda a notícia. Eu já imaginava que algo assim viesse a acontecer durante a campanha. Felizmente a notícia do Independente e o (mais um) leak da PJ não estão relacionados com a Casa Pia, mas sim com a relação entre câmaras, construtoras e financiamento partidário. Pois claro: que outra coisa poderia atacar directamente o passado de Sócrates se não o ambiente, de que foi ministro? Santana Lopes reage de forma estranha (outra palavra para "calculada", uma vez que em Portugal é óbvio que o primeiro-ministro sabe o que vai sair da PJ ou o que vai sair no Independente): diz, "cheio de sentido de Estado" que não comenta "assuntos de Justiça". A frase é bem mais assassina do que aproveitar o "caso" para atacar Sócrates. Eis o ponto a que chegámos.

mva | 13:45|
 

Dores de crescimento.

Talvez por ser da Mesa Nacional do Bloco e por ter tido algum destaque nos primórdios do mesmo, o meu círculo de mundo - de amizades, profissão, família e pessoas do dia-a-dia - interpela-me muito sobre o movimento. Habituei-me a prestar atenção a "estados de alma", críticas, elogios ou análises da performance do BE. Não estou muito envolvido nesta campanha por razões que nada têm a ver com qualquer intriga política (simpático aviso a quem pense em truncar este post...), pelo que as observações daquelas pessoas precisam ainda de alguma reflexão da minha parte.

Em que consistem? Um dos temas recorrentes é o do "envelhecimento do Bloco". Que querem dizer com isto? Suponho que, desde logo, o seguinte: suposta perda de irreverência, de inovação na linguagem e propaganda. Mas creio que esta crítica revela outra preocupação, contida na frase "está cada vez mais igual aos outros". Onde dizem notar-se isso? Por exemplo, na suposta aceitação da lógica de uma campanha feita em torno de um líder, de um "candidato a primeiro-ministro"; ou na entrada do Bloco nas tricas da "governabilidade" (Viabiliza ou não um governo PS? Entra ou não no governo? Quer continuar a ficar de fora?...).

Num plano que não é totalmente separado dos anteriores, muita gente me diz não gostar dos cartazes, sobretudo na sua opção pelo vermelho e amarelo, cores simbólicas de uma esquerda "radical" à antiga; ou das frases e palavras de ordem, desta feita sem humor; ou da suposta predominância de temáticas laborais ou "trabalhistas" na campanha que se dá a ver aos/nos telejornais. Em suma, pareceria haver mais tentativa de penetração no "universo" associado ao PCP do que no universo associado ao PS; pareceria haver uma radicalização à esquerda.

Por fim, a figura de Francisco Louçã - a sua retórica, linguagem, estilo, etc... - é vista como um daqueles casos em que as qualidades, quando mostradas em excesso, se podem transformar em defeitos. Isto é, a inteligência e a frontalidade seriam facilmente transformáveis num moralismo cansativo. Este cansaço é parte integrante da política mediatizada - toda a gente se cansa de todos os políticos, pela simples razão que aparecem muito, mas não divertem tanto como cantores ou actores.

Eu percebo. Onde está o apelo à classe média, aos intelectuais, à(s) juventude(s)? Onde está uma estética moderna que não precise da "segurança" das referências revolucionárias? Onde está o pluralismo de figuras do Bloco? Onde estão as famosas "causas fracturantes" (que, curiosamente, também foram alvo de crítica por parte das mesmas pessoas no passado?) Onde está o esperado ou desejado crescimento no sentido da responsabilização ao nível de alianças e governabilidade? Convém notar que estas questões são paus de dois bicos. Por exemplo, um bloco que se oferecesse claramente para um governo PS seria um bloco criticado, pelos mesmos, por abandonar o seu carácter alternativo, do "correr por fora" e fazer oposição... Um bloco que se apresentasse com muitas caras, seria criticado por se recusar a participar na lógica pessoalizada e supostamente esclarecedora dos "candidatos a primeiro-ministro", e por aí fora.

Gosto de pensar que todas estas coisas dependem das circunstâncias. No caso presente, de uma crise terrível de legitimidade das instituições políticas; de uma claríssima e urgente necessidade de derrotar a direita trapalhona de Santana Lopes e os aliados da direita espertalhaça de Paulo Portas; e de um terrível descalabro nas condições de emprego e trabalho (sendo que esse desclabro não se resume às indústrias tradicionais, mas a toda a gente que não pertença ao mundo da finança e das prebendas); de um PS que, em vez de avançar no mesmo sentido que o PSOE espanhol, retrocedeu ao guterrismo; ou de um PCP que se reforçou no seu "campo" com a figura de Jerónimo de Sousa.

O Bloco está a crescer. Nas fases de crescimento é comum crescerem mais algumas partes do corpo do que outras. E está a crescer em simbiose com a democracia portuguesa e os percursos dos seus parceiros à esquerda, o PS e o PCP, com os seus próprios percursos de envelhecimento, rejuvenescimento ou estagnação. Voto no Bloco não só porque conheço a sua dinâmica multifacetada, como conheço as suas provas dadas, como acho que tem o programa que melhor articula as preocupações da esquerda "trabalhista" com as preocupações dos direitos de "terceira geração". Mas faço-o, como não podia deixar de ser, levando em conta - com todas as suas virtudes, defeitos e contradições - as críticas e comentários daquele círculo de mundo onde vivo.

mva | 11:42|


9.2.05  

Continuação do post anterior.

O post anterior não significa nenhum desejo de que aconteça em Portugal o mesmo que aconteceu em Itália: Berlusconi por Berlusconi, já temos vários candidatos; Democráticos de Esquerda por democráticos de esquerda, já temos o PS. Referia-me apenas ao facto de poder haver ou não um colapso do regime político-partidário. Em Portugal prefere-se as doenças crónicas prolongadas.

Quanto às ideologias, também há algo a esclarecer. A ideia generalizada de que "as ideologias morreram" (como ideias correlatas, do tipo "fim da História", etc.) pertence ao novo pensamento único, a meu ver de direita. É o mesmo "pensamento" que, a coberto dessas declarações sobre o fim de várias coisas, pretende simplesmente dizer que o que há é o que pode haver. Traduzindo por miúdos, o mundo passaria a viver na versão globalizada do capitalismo neo-liberal (a adjectivação é importante, porque se trata de expandir o capitalismo da esfera económica e do mercado para a esfera política) para toda a eternidade.

Defender a necessidade de definição ideológica não tem que ser o mesmo que defender dogmatismos ou fés políticas. Trata-se simplesmente de defender programas com base em visões do mundo assentes em escolhas éticas claras. Há quem queira que deixemos de pensar assim, empurrando-nos para a esfera da mera emoção política, ou da tonta simpatia ou antipatia por dirigentes partidários.

PS: Por fim, quanto às "previsões", parece-me que os votos brancos e nulos também vão aumentar, assim como as votações nos partidos sem representação parlamentar. Quanto à abstenção, será a maior incógnita: as gentes vão votar em massa por irritação, ou vão ficar em casa em massa por... irritação?

mva | 16:41|
 

Fare il portoghese.

A origem e significado da célebre frase popular italiana estão muito bem explicados no Semiramis. Embora designe os "borlistas" italianos, a referência portuguesa da frase torna-a aplicável a "nós" (detesto este "nós", mas enfim...). Sobretudo no plano da política e da relação dos cidadãos com o sistema político-partidário. Andamos à borla de quem nos dá borlas, os partidos do "arco do governo", PSD, PS e PP (sim, Paulo Portas tem razão mas não pelas razões que ele diz).

Será que entre nós a crise da relação cidadão-política vai dar numa "solução" à italiana, com a reorganização dos partidos? Não creio. Um sistema borlista não se coaduna com esse radicalismo. No sistema borlista vai-se mantendo o mesmo, reciclando quer o pessoal político, quer o tipo de borlas que se promete e o tipo de borlas que se pede. A reciclagem já começou, com a tomada do PSD pelo Berlusconi do burgo. Pode acontecer no PS a todo o momento.

Em Portugal, o sistema borlista definhará lentamente. Os cidadãos que não se reconhecem no sistema votarão cada vez mais nos partidos que consigam demonstrar estar fora do... sistema. Já nestas eleições, o PP subirá, porque conseguiu fingir que não está no sistema; o PCP aguentar-se-á, porque se mostra coerente consigo próprio; o BE subirá, porque vigia e critica atentamente o sistema.

Mas tudo isto será o arrastar penoso para a morte de um sistema moribundo. Até que haja uma clara oferta de partidos alinhados por opções ideológicas (sim, a ideologia não só importa, como não é um bicho de sete cabeças, como não morreu): conservadores, liberais, social-democratas e radicais de esquerda. Em vez da choldra de partidos desideologizados, onde as facções e tendências têm nomes de pessoas e não de ideias, programas ou referências históricas.

Só que um sistema assim dificilmente dará borlas ou viverá delas. Estaremos condenados a fare il portoghese?

mva | 13:08|
 

Sharm-el-sheik.



mva | 10:28|
 

Facada nº 4.323-B.

Costumo, por razões políticas, "irritar-me" com os ocasionais artigos de opinião de Fátima Bonifácio. Mas como o mundo parece andar de pernas para o ar, hoje não senti isso. O que só demonstra que Santana Lopes está mesmo para lá do limiar do inaceitável.

PS: Surpreendente mesmo é que há gente que gosta de PSL. E gente que vai votar PSL. Para aí quase 30 % "de gente". Quem são, por deus, quem são?

mva | 09:59|
 

Sair por cima.

«Portas "moderado", Portas "tolerante", Portas "sereno", Portas que acabou de "adquirir sentido de Estado". Sabe mesmo quem é este homem? É Paulo Portas reformulado, através da nova estratégia de captação de votos à classe média e ao eleitorado central

Há uns meses ainda se pensava que a crise do governo ia ser o fim de Paulo Portas quando chegassem eleições. Afinal tudo indica que o PP não só vai sobreviver, como poderá mesmo crescer. Santana Lopes evita o partido da coligação; Sócrates elogia-o (!); a generalidade dos comentadores esquece que o recente desgoverno foi responsabilidade de ambos os partidos da direita; o homem e mulher comuns "compram" a publicidade de Paulo Portas, que vende a imagem de ter tido os melhores ministros (amnésia colectiva em relação a, entre outros, Celeste Cardona ou Mariana Cascais...).

Queridos partidos de esquerda: têm 10 dias para desmontar a campanha de publicidade enganosa do PP. Depois não se queixem.

mva | 09:28|


8.2.05  

Os carnavais de Brueghel e Miró.


mva | 17:27|


7.2.05  

Entrevista imaginária.

- Mas, Miguel, você nem sempre foi homossexual, pois não?
- É verdade, na juventude passei por uma fase heterossexual. Depois cresci e ultrapassei-a. Hoje encontro-me bem.

mva | 19:30|
 

Gay Kingdom.

Malandros! Roubaram-me a ideia! Aaargh. Desde sempre que tenho um vício privado (embora também algumas virtudes públicas...): o de inventar sítios imaginários; e frequento os sites (todos muito pirosos, e muito geek, não se dêem ao trabalho...) de imaginary countries, etc. Um dia alguém cá em casa foi agraciado com um mapa dum país e duma capital imaginários, resultado de algumas horas de preguiça criativa (belo conceito) no Paint. Era a Rainbow Republic (sim, aquela parte da monarquia não me diz muito...). O mapa de Rainbow City tinha as ruas dedicadas a figuras de referência lgbt, equipamentos culturais e "culturais" (percebem, não percebem?), e por aí fora. Devia mas era ter feito um site.

PS: Obrigado pela dica, Patrão.

mva | 19:21|


6.2.05  

Atlântico: de charco a fosso.

«Consider a mug of American coffee. It is found everywhere. It can be made by anyone. It is cheap, and refills are free. Being largely without flavor it can be diluted to taste. What it lacks in allure it makes up in size. It is the most democratic method ever devised for introducing caffeine into human beings. Now take a cup of Italian espresso. It requires expensive equipment. Price-to-volume ratio is outrageous, suggesting indifference to the consumer and ignorance of the market. The aesthetic satisfaction accessory to the beverage far outweighs its metabolic impact. It is not a drink; it is an artifact». (continue a ler Europe vs. America, de Tony Judt, na NYRB)

Esta recensão de vários livros sobre o tema Europa versus América (meaning EUA...) sintetiza vários dados, normalmente dispersos, comparando as performances das duas "potências" (a linguagem machista da geopolítica...). É ferozmente europeísta, como também eu me sinto. Em relação à Constituição, que em Espanha se referenda (?) em 20 de Fevereiro, Judt como que encolhe os ombros; um pouco como o Pawley; um pouco como eu (mas disso falaremos tod@s com certeza depois das eleições...).

mva | 11:29|
 

M.A.R.I.A.S.

Só hoje, domingo (dia de São Blogue), ao navegar por n blogs, reparei que as M.A.R.I.A.S. têm um blog. Já inclui na lista o blink para as Mulheres em Acção Radical por Ideias Anti-Sexistas.

mva | 11:07|


5.2.05  

Uma tanga no pântano.



A armadilha da Grande Reportagem/DN a Louçã; um apelo de César das Neves e muchachos no Expresso ao voto em partidos que defendem a família tradicional (sem qualquer publicação de apelos simétricos feitos, e enviados para os jornais, pelo movimento lgbt); a beatificação e lavagem de Santana pós-debate pela maioria dos jornais... Tudo isto até é bom, se calhar. Será sinal de um lento processo de espanholização da nossa sociedade, i.e., de criação de uma clivagem entre dois campos, algo que não acontece desde o 25 de Abril? Espero que sim, porque isso é necessário, para contrapor ao pântano dos consensos moles. Mas temo que a realidade seja outra: todas estas clivagens partem de posicionamentos conservadores. O nosso problema é a concentração dos meios de comunicação nas mãos de sectores empresariais em Portugal ocupados por obscurantistas e não por uma burguesia liberal. Em Portugal, o jornal mais à "esquerda" é o Público (!). Por cá não temos nem El País, nem La Vanguardia, nem Libération, nem Guardian. Não há veículo nem sequer para um pensamento próximo do PS... E no meio deste cenário, a direita ainda consegue fazer passar a mensagem de que existe um "politicamente correcto" dominante, de que "a esquerda" domina o espaço público e de que as mensagens conservadoras e reaccionárias são uma forma "alternativa", "resistente", "rebelde" ou contra-corrente" de pensar. Orwell puro.

mva | 17:56|
 

O ar dos tempos.

Venho de uma (longa) aula na Faculdade de Medicina. Lá encontrei a Tangerina do blog Conversa na Travessa. às tantas ela referia o facto de muitos bloguistas estarem a transformar-se em cronistas nos jornais. fez-me pensar em como o meu percurso é o inverso: durante uns cinco anos fui cronista no Público; quando fui deitado fora (sem aviso, diga-se) refugiei-me na Net e, depois, neste blog. Para a geração mais nova, o blog é trampolim para os jornais; para a minha, o blog é refúgio dos jornais?

mva | 17:51|


3.2.05  

Parados em frente aos semáforos. Ou: o debate Sócrates-Santana.

1. Os partidos do centro conseguiram a proeza ignóbil de dar uma machadada na questão dos casamentos homossexuais. Nenhum dos dois fala do assunto nos seus programas. Mas ambos dependem agora do juízo dos eleitores face ao assunto. Isto não é um país civilizado.

2. Pode disfarçar com a eutanásia e a clonagem, mas o que interessa a PSL é navegar o boato sobre a suposta homossexualidade de Sócrates. Este responde dizendo que esses assuntos (note-se, "esses" é o casamento homossexual) não interessam aos portugueses. Errado. PSL sabe bem que em situação de homofobia e armário, coisas destas fazem ganhar ou perder eleições. E sabe mais: sabe que o armário e a homofobia arrastam Sócrates para a fuga e o silêncio - justamente os melhores combustíveis da homofobia e do armário. E assim se fecha a perniciosa pescadinha de rabo na boca a la portugaise.

O que interessa não é nem um coming out, nem uma comprovação de que o boato é falso. Isso seria pactuar com a "lógica" boateira. O que era preciso era que Sócrates tivesse colocado claramente os casamentos na agenda do seu partido, como sugeriu a JS. Não o fez. Agora talvez se trame.

3. Sócrates não foi capaz de bater na tecla óbvia: Santana Lopes foi parar ao governo sem ter sido eleito, na sequência da fuga do seu camarada de partido, governou com o apoio da Coisa-CDS e foi posto na rua pelo Presidente da República na sequência de trapalhadas épicas. Nada disto foi lembrado. Até parecia que estávamos na normal rotatividade democrática...

4. Foi preciso ser PSL a falar do Iraque! E a fazê-lo com uma fabulosa mentira, em que dizia que Sócrates agora apoia a presença no Iraque. Fê-lo no momento em que Sócrates já não podia replicar. Os manhosos ganham quase sempre, e Sócrates-político-mais-político-não-há devia sabê-lo.

5. Escandalosa foi a conclusão. Nos discursos finais, Sócrates foi filmado de lado, olhando para os jornalistas e não para a câmara (para nós). PSL, a quem calhou ser o último a falar, foi filmado de frente, olhando para nós e teve direito a close-up progressivo. Claríssima manipulação televisiva.

6. Na SIC Notícias seguiu-se um debate sobre o debate. Uns vinte minutos depois do início já tinham sido recebidas 11.000 chamadas. 65% afirmavam ter sido PSL o vencedor...

Para mim, como dizia um jornalista na :2, ganharam os partidos que não estavam lá.

mva | 23:12|


2.2.05  

A ficha do Bloco.

Santana Lopes, num "discurso"no American Club (entre aspas, porque as suas intervenções são cada vez mais monólogos roçando o patológico - e daí também o seu perigo...) refere-se ao Bloco de Esquerda como sendo "trotsquista", misturando nessa designação a UDP e metendo no cesto a inexistente LCI (!). Trapalhadas? Este tipo de definição-à-pressa do Bloco não é, obviamente, inocente. É esta, aliás, a ideia que vai passando nalguma comunicação. Embora a minha posição seja "suspeita", talvez não fosse mau fazer a "sociografia" abreviada do Bloco, para benefício das pessoas mais inteligentes e preocupadas.

O Bloco nasceu, é claro, da união entre três forças políticas: a UDP, o PSR e a Política XXI. Qualquer uma delas, à época, ou tinha feito ou era o resultado de processos de crítica em relação ao chamado "comunismo" ou "socialismo". Membro da IV Internacional, o PSR herdava a tradição trotsquista que era, ela mesma, uma cisão contra o estalinismo; a UDP já havia abandonado referências no campo comunista internacional, posicionando-se em ruptura com todas as experiências de "socialismo real"; e a Política XXI tinha sido formada por ex-militantes do PCP, pelos herdeiros do MDP-CDE e por independentes. Na formação do Bloco juntaram-se logo pessoas sem filiação anterior, destacando-se, no grupo inicial, Fernando Rosas (a sua antiga filiação no MRPP havia acabado há muito).

O Bloco foi, naturalmente, crescendo. O acordo entre os três partidos foi cedendo lugar a uma forma de organização interna democrática, cada vez mais baseada na representação dos aderentes e menos no acordo de equilíbrio partidário. Isto foi tanto mais acontecendo quanto o número de novos aderentes foi crescendo; hoje haverá tantas pessoas pagando quotas que não têm origem em nenhum dos 3 partidos, quanto as que têm neles origem.

O Bloco foi, ainda, incluíndo outros grupos e tendências: desde pequenos grupos políticos, como a Ruptura-FER, até grupos que, não sendo organizações políticas, são grupos de interessse constituídos já dentro do Bloco: mulheres, lgbt, sindicalistas, ecologistas, professores, etc. As agendas destes grupos nem sempre são de absoluta coincidência com a política geral do Bloco. E estão a milhas de distância de qualquer vinculação a um dos partidos originalmente constituintes do movimento.

Entretanto, os partidos entraram num processo de auto-extinção: não só por causa da nova lei dos partidos, mas também por causa da dinâmica do Bloco (se os partidos fossem sempre aquilo que foram no início, teríamos o prazer de poder dizer que o PSD de Santana Lopes é ainda o PPD de Sá Carneiro...). A Política XXI já se extinguiu, tendo-se formado uma Associação de reflexão política e a corrente produz ideias numa das revistas da área do BE, a Manifesto. Este ano, o PSR também se extinguiu, tendo-se criado uma Associação e também esta corrente se exprime numa revista, a Combate; quanto à UDP, está ainda em processo de transformação, mas já edita a sua revista aberta ao Bloco, A Comuna.

Quem for a uma Convenção do Bloco pode verificar a diversidade de grupos, forças, sensibilidades, interesses e formas culturais de expressão ou de referência histórica ou simbólica que ali convergem, quase sempre com importantes desentendimentos, e sempre procurando plataformas máximas de entendimento. É bem provável que, se vier a crescer mais, o Bloco venha a ter correntes verdadeiramente organizadas (o sistema democrático de eleição permite-o, através da apresentação de listas para os órgãos dirigentes), muitas delas absolutamente desinteressadas em querer sequer saber o que quer dizer "trotsquismo" ou "comunismo".

mva | 16:15|