Quem pensa que a política sexual é um forçado e obscuro conceito académico, deveria fazer uma pesquisa sobre a actual campanha eleitoral portuguesa para perceber como ela existe mesmo. Mais: para perceber quão central ela é.
Temos um primeiro-ministro que decide fazer da sua heterossexualidade e do seu modelo de relacionamentos um valor acrescentado para angariar votos junto dum campo social dominado por conceitos hegemónicos de género e sexualidade. Temos uma sociedade inteira a congeminar e disseminar boatos não só sobre a orientação sexual do principal candidato da oposição, como sobre os nomes dos hipotéticos companheiros. Temos o dirigente de um partido de direita e ministro da coligação no governo proclamando valores conservadores de género e sexualidade e apoiando uma política do armário que passa erroneamente por respeito pela privacidade. Temos até um dirigente do único partido com uma agenda emancipatória nas questões LGBT a gerar, a partir duma infeliz frase, uma catadupa de reacções hipócritas falsamente simpatizantes da liberdade e direitos sexuais. E por aí fora.
Esta campanha revela, como poucos outros "dramas sociais", as estruturas profundas marcadas pelo heterossexismo, o desprezo pelas questões de género (já repararam como, ao contrário de Espanha, a agenda da violência de género não apareceu nos elevados debates dos últimos dias?), a homofobia estrutural e o armário. Com todas as consequências que isto tem: um clima de alusão, boato, intriga e dependência das opiniões políticas e decisões de voto da apreciação subjectiva das condutas amorosas dos candidatos - todo o contrário do dito respeito pela privacidade.
Tão grave como isto, é constatar que esta é a gramática com que funcionamos. Esta é a nossa triste gramática de política sexual. Compare-se com duas outras. Tanto a campanha eleitoral estadunidense como a espanhola foram marcadas por questões de género e sexualidade. No primeiro caso, a gramática é a dos valores de cariz religioso e dos valores da liberdade individual. Podemos não gostar dela, dos seus termos e até da dependência dos adversários do fundamentalismo (Kerry, por exemplo...) em relação aos termos estabelecidos pela América profunda. Mas a verdade é que é uma gramática pública: os termos do debate são conhecidos, abertos, postos na mesa e é em torno deles que se discute. No caso espanhol, a gramática é - ainda ou outra vez - a das duas Espanhas, do conservadorismo Opus Dei da meseta e da herança do franquismo, versus o progressivismo anticlerical, republicano e ferozmente libertário. Também ele pode ser limitado, mas cria um espaço semântico público em que a discussão é feita.
Entre nós que temos? O reino do desprezo pelas questões femininas (incluindo o efeito de hegemonia que é as mulheres babadas em Braga com PSL...), o efeito do armário e da homofobia preemptiva, o boato: tudo coisas que não são postas em cima da mesa, que não são dizíveis com transparência, que dependem da alusão e das leituras de segundo nível. Em suma, obscuridade (para não dizer obscurantismo) quase absoluta.
Por favor, há algum sociólogo, antropólogo ou politólogo out there que queira estudar esta coisa?
Acho óptimo que os iraquianos tenham tido eleições. As eleições, se livres, são sempre um motivo de celebração. Falacioso é dizer que as eleições iraquianas só foram possíveis "graças" à invasão americana, com base na mentira. Teriam sido possíveis por outros meios. Como o foram em muitos outros contextos.
Paulo Portas diz que se deve salvaguardar a vida privada, mas que é contra o casamento homossexual, pois o casamento tem uma tradição e uma razão de ser que diz respeito a uma união entre pessoas de sexo diferente.
O cúmulo do atraso é quando alguém acha que é merecedora das consequências do atraso.
PS: Não. O cúmulo do atraso é quando somos obrigados a escrever posts crípticos como este...
O inefável Jorge Coelho diz num comício que Santana deve parar de falar de «porcarias». A que se refere? Não ao acto de provocação de Santana, mas ao conteúdo das insinuações; que Coelho acha serem "porcarias".
Uma "popular" em Espinho desabafa para Louçã: « Esse Santana não pode ficar, tem um ror de mulheres, tem um ror de filho dum ror de mulheres! E o que é que ele tem contra os homens sexuais!?».
Ou de como a possível simpatia com a segunda parte do desabafo desaparece quando se pensa na primeira parte.
Jerónimo de Sousa recorre a um provérbio popular dizendo, a propósito do CDS, que P. Portas está «com um olho no burro e outro no cigano». E sobre esta frase, já ninguém diz nada?
Vale a pena ler o artigo de André Freire. Inclusive a referência a João Ferreira do Amaral. E. depois, perguntar-se: que defende mesmo o PS relativamente aos serviços públicos?
Reparei hoje nas mudanças no site do Bloco. As questões LGBT adquiriram "direito de cidadania", com a sua secção própria e acesso (que espero venha a ser ainda mais completo) ao material produzido (este também, com perninha pessoal...) pelo MELGA (Movimento da Esquerda Lésbica e Gay, o grupo de trabalho LGBT do BE).
Nunca será demais dizer que o facto de o BE ser o único partido, por enquanto, a ter um grupo LGBT, deve ser razão de orgulho moderado. Porquê? Porque é necessário que outras áreas ideológicas e de sensibilidade política e partidária se debrucem sobre o tema. Não é saudável para ninguém que só um partido o faça.
«É preciso dizer que não há verdadeira alternativa de esquerda quando se aceita uma política de integração europeia, como o faz o Bloco de Esquerda, iludindo a sua orientação marcadamente federalista e neoliberal», disse Jerónimo de Sousa.
Se há coisa irritante é a forma como comentadores e políticos colocam sempre o BE no campo "anti-europeísta", quando a linha do Bloco tem sido sempre a defesa de um "europeísmo de esquerda", incluindo a necessidade de uma Constituição (que não a que é proposta actualmente, mas isso é outra discussão e tenho a minha opinião sobre isso). Faz agora o PCP o favor de esclarecer o assunto.
«O fervor homofóbico é espantoso e quase irreal. Num comício de Lopes grita-se: "Bem hajam os homens que amam as mulheres!". E o primeiro-ministro candidato a novo mandato diz que "o outro candidato tem outros colos" e que "estes colos sabem bem"». (do excelente artigo de Ana Sá Lopes)
«Gostaria de perguntar ao dr. Pedro Santana Lopes como concilia o que acaba de dizer com o site do Instituto Português da Juventude, que funciona na Presidência do Conselho de Ministros, e que tem páginas sobre sexualidade juvenil, apelando a igualdade de tratamento entre homossexuais e heterossexuais», adiantou [Manuel Monteiro].
É simples, Nelito: basta ler o Artº 13º da Constituição da República onde o menino vive. Mas com o Nelito podemos nós bem. O pior é que a provocação lançada por Santana Lopes revela que o ainda primeiro-ministro também não leu a Constituição: achar que as pessoas do mesmo sexo devem estar impedidas de se casar se quiserem - ao mesmo tempo que diz umas coisas vagas sobre o respeito pela diversidade - não é substancialmente diferente de dizer que não deve haver casamentos entre pessoas de "raças" diferentes", pois os filhos mulatos poderiam acabar com a "diversidade" das "raças (não, não é delírio, já foi Lei em vários países e estados dos EUA).
Pensam que a história acaba aqui? Nããão. Reagindo à provocação, Sócrates disse que Santana deveria «concentrar-se nos problemas dos portugueses». Isto é, para o líder do PS, o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a adopção por esses casais são assuntos desprezíveis; os gays e lésbicas não são (bons) portugueses; e é bom votar no PS porque não aceita essas modernices. Aliás, Sócrates, que garantiu não propor nem casamento nem adopção, poderia ter ficado calado: o programa do seu partido é totalmente omisso em relação ao assunto, contrariamente ao que, aliás, teria desejado a Juventude Socialista.
As associações LGBT reagiram. A ILGA-Portugal muito bem. Já a Opus Gay coincidiu curiosamente com o discurso de Sócrates. Ficámos a saber no jornal das 11 da SIC Notícias que aquela organização também acha que Santana deveria preocupar-se com os problemas "reais". Não está sozinha na posição. Várias pessoas em diferentes organizações do movimento, e por razões diferentes, também acham que o casamento e a adopção são reivindicações de segunda linha; ou acham que são perigosas para a aceitação do movimento; ou acham que a agenda do casamento é conservadora. Wrong.
Talvez este episódio - que não se pode deixar ficar como tal, pois o movimento deveria atacar, e em força, a reaccionarice agora assumida pelo Centrão - sirva não só para tornar ridículo o aproveitamento histérico que tem sido feito da "frase de Louçã", como para tornar evidente a importância política, simbólica e estratégica da reivindicação do casamento e da adopção.
Dr. Septimus é o arquetípico cientista louco que troca a calma investigação científica pelo sonho de grandeza e despotismo. E o Dr. Felix? Hummm... Pelo menos, lá parecidos são. Agora resta esperar que Blake & Mortimer (não, Freitas do Amaral não é o Mortimer) intervenham. Zás, trás, bang!
PS: Quando pessoas da direita "facha" insultam outros com o epíteto "neo-fascista", que conclusão se pode tirar? Bem, que aquilo de que não gostam é do prefixo...
Já chega mesmo. O episódio Louçã/Portas continua a dar que falar. Isto é, continuam a fazer com que dê de falar. A epítome da paranóia é o artigo de hoje de Pulido Valente no Público (para quê linkar?). De repente, é como se vivessemos num país onde não há a vergonha de ter tido (e ter!) Santana Lopes como primeiro-ministro; onde não há a vergonha de ver a hipocrisia de Paulo Portas ser premiada; onde não há a vergonha de se terem perdido milhares e milhares de empregos, de as mulheres irem a tribunal por abortarem, de ter tropas no Iraque, de premiar, com lugares políticos, homófobos como Villas-Boas, de, de, de.
Qualque reacção crítica ou autocrítica de esquerda à frase de Louçã foi já esmagadoramente ultrapassada e diminuída por um aproveitamento especulativo por parte quer da direita, quer de jornais e TVs interessadas em promover o mais velho desporto português: descobrir nas pessoas que se respeita (ou em relação às quais existe uma aura de respeito ou algo de ligeiramente diferente do pântano) que "afinal são como eu". Já chega, OK, já percebemos que querem ter carta branca para serem contraditórios e hipócritas sem qualquer entrave de consciência. Já chega: agora vão prá cama ou amanhã não há sobremesa.
Isto dá 250 nazis responsáveis pelo Holocausto que ainda estão à solta. Velhinhos, com certeza, mas à solta e não menos culpados. Nunca nos esqueceremos do Holocausto, mas enquanto esta gente estiver no remanso das suas quintas e apartamentos em países remotos, como se pode tranquilamente achar que tudo foi ultrapassado?
«Isto é que está um frio. Ainda sinto mais porque ontem voltei do calor. Estive no Recife. Gosto do calor húmido. Não tarda nada volto para lá de vez. Agora é só vender este carro, lá para meados de Fevereiro e vou-me embora. Tenho uma empresa de aluguer de carros lá, uma casa na praia e um apartamento na cidade. É claro, aquilo lá é preciso é ter cuidado, o senhor sabe como é que são os brasileiros, um tipo tem que estar sempre a desconfiar. Ainda agora estive lá a judar uns portugueses que se querem instalar e não sabem mexer os cordelinhos. Mas quando vivi no Rio ainda era pior, eu cá não andava com o BMW na rua para não dar nas vistas, mais vale ter luxo em casa mas não mostrar nada na rua. Por causa dos sequestros, tá claro. Mas agora vou de vez. O que eu quero é ganhar dinheiro. Já 'tive para ir antes, mas a minha primeira mulher morreu e depois os meus sogros quiseram a custódia do meu filho e já se sabe como a justiça portuguesa é rápida: tive que esperar dois anos, para ficar com a custódia do miúdo. E agora já tenho outro, que é brasileiro, casei-me com uma brasileira. Ela até nem quer voltar para lá, diz que aqui é mais seguro e até gosta do frio, veja lá. Mas a gente vai, ai vai. Aquilo é uma maravilha, dá pra fazer muito dinheiro e eu quero é fazer dinheiro. Tive que resolver um problema com um sócio, que fez assim umas... argoladas. Desde que um tipo tenha cuidado... Aquilo há muita aldrabice por lá e depois há as gajas... Mas como eu costumo dizer, tirei o curso e até já fiz a especialidade, agora não me interessa mais, já vi tudo... E pronto, com cuidadinho faz-se um pipo de massa. É claro, se me sequestrarem ou a um dos meus filhos, a gente vem-se logo embora.»
A tensão a que Pacheco Pereira se refere hoje é bem ilustrada pelas bolas vermelhas que alguém anda a colocar sobre o nariz nas fotos dos candidatos. Ou pelas notícias que vão chegando de pessoas que estão a ponto de votar nulo (supostamente como forma de expressar descrédito no sistema, sem desistir da democracia). Ou, ainda, nos números ontem avançados no Público, referindo que mais de 80% dos jovens não tem qualquer participação cívica ou associativa.
Não se trata, entre nós, de um doce abandono democrático, supostamente típico de países avançados e com democracias sólidas (aliás, nesses países, como os escandinavos, a participação cívica é bem maior...). Nem, obviamente, de uma situação de ditadura, onde a participação eleitoral e cívica é reprimida. Trata-se, uma vez mais, de uma situação de democratização manca, e de modernização manca.
Num contexto destes, não há provavelmente estratégia pior do que a da pequena revolta secreta e íntima, feita do discurso do "eles são todos iguais" ou de decisões de abstenção e mesmo voto nulo. É preciso separar vários trigos de vários joios e, sobretudo, identificar responsabilidades directas. É preciso não esquecer que há o quadro geral (Portugal como democracia e modernidade mancas) e o contexto próximo. Quanto ao primeiro, o trabalho de mudança é necessariamente lento; quanto ao segundo, não custa muito identificar as responsabilidades: meses atrás estávamos muitos e muitas exigindo eleições face à indigitação de Santana Lopes para primeiro-ministro e à sua dependência de Paulo Portas.
O primeiro gesto de revolta e de saneamento do sistema é votar claramente contra aquela dupla (agora bicho com duas cabeças; mas adivinha-se-lhes o corpo comum), identificando os responsáveis directos pela desgraça próxima. O sistema, esse, muda mais lentamente.
Como é que se arranja um estúdio ou pequeno apartamento minimamente confortável e decente em Barcelona sem se ir à bancarrota? Grrr.... Estic desesperat...
Bagão Felix chama o BE de neo-fascista; no DN, publica-se hoje este rascunho de estupidez; gente que defende a actual lei do aborto e o julgamento de mulheres, chamando a isso "direito à Vida", defende o fundamentalismo de Paulo Portas acusando Louçã de homofobia, sob o eufemismo de "ataque à vida privada"; e gente que não levanta um dedo contra a homofobia e que perpetua diariamente o armário, apresenta-se agora como paladina das liberdades... O rol é interminável. Quando uma polémica começa, tende a perder o pé rapidamente. No caso presente, trata-se do esquecimento (ou da tentativa de fazer esquecer?) a questão do aborto e a questão da arrogância fundamentalista de Paulo Portas.
Perante este cenário, aplaudo o facto (P. Portas tê-lo-ia feito em circunstâncias semelhantes?) de Louçã ter respondido no Público às críticas que lhe foram dirigidas nesse mesmo jornal. Esquece a infelicidade da frase que usou? Sim. Mas, pelas razões que expus acima, já não me interessa. Sinceramente: já não me interessa. Porque o sexismo e a homofobia à portuguesa (feitas sobretudo de vendas nos olhos, assobiar para o ar, hipocrisia e armário) reforçam-se na reacção de falsas virgens ofendidas e de falso progressivismo simbolizada por esta onda de epítetos ("neo-fascista"??!!) lançados ao Bloco.
À boa maneira do "capitalismo selvagem", a direita portuguesa faz tudo o que for possível para atingir os seus objectivos: até fingir-se de esquerda.
No rol dos blinks está agora, até 20 de Fevereiro, um "Especial Eleições 2005", com blinks directos para os programas dos partidos. Como isto não é propriamente a comissão nacional de eleições, ou um meio de comunicação social "isento e independente", a direita não está incluída... (aliás, a imagem - sacada do Google - é explícita...).
PS: Embora Os Verdes não tenham propriamente um programa, surpreende que não refiram nada da agenda LGBT. Já o Partido Humanista faz com que o Bloco não seja o único partido a falar do direito à adopção e ao casamento.
Excelente post do João O. Como, aliás, a discussão sobre o assunto no Causa Nossa. O post do Boss, por sua vez, revela o outro lado da questão: a percepção, pelos gays, de que há algo de errado na forma como os nossos aliados nos tratam (e, por isso, não o acho contraditório com o do João O., nem incompatível de encontro a meio-caminho com a discussão no Causa Nossa...)
Como eu dizia no post anterior, já era de esperar o aproveitamento da frase infeliz de Louçã para uma espécie de cambalhota "anti-homofóbica" por parte de quem NUNCA tem uma postura anti-homofóbica - e ainda por cima confundindo o que estava em causa no momento em que a frase foi proferida.
Agora o que é preciso é bola em frente. Feitas as contas, em questões de política LGBT, a alternativa teórica ao Bloco seria o PS. Mas que encontramos no seu programa? Apenas isto: «5. Política de não discriminação. O PS assume integralmente as disposições constitucionais e as orientações da União Europeia em matéria de não discriminação com base na orientação sexual. Nesse sentido é importante lançar um amplo debate nacional sobre igualdade e orientação sexual, incluindo o desenvolvimento de acções anti- discriminatórias junto de grupos sociais particularmente sensíveis para a qualidade da nossa democracia.» Cem, duzentas, mil vezes menos do que o Bloco ou... o PSOE.
PS: Barcelona estava óptima. A seguir às eleições parto para lá durante uns meses e este blog passará a ser internacional, perdão, ibérico.
Que dizer da frase do meu colega de partido Francisco Louçã? Pois bem, que foi infeliz, politicamente errada e que me magoou. Qualquer outra reacção minha seria hipócrita e partidiota.
Mas o episódio - constituído pela frase de FL, mas também pela presença/postura de PP e pelo complexo armário+ hipocrisia+homofobia+boato em que vivemos - não acaba com a frase. Começa com o que ele permite em termos de especulação e pelo que ele revela sobre a nossa situação.
O episódio permite que se especule sobre a diferença entre o que o Bloco "diz" e o que o Bloco "diz mesmo". Este tipo de discussão está à partida inquinado pela vontade de derrotar as propostas do Bloco, neste caso as referentes ao aborto e aos direitos LGBT. Em última instância, não me interessa nada que os políticos e os partidos sintam mesmo as coisas que defendem. A relação com a política não deve ser emotiva, mas racional. O que me interessa é que os partidos e os políticos defendam, nos seus programas, as políticas que acho justas.
O episódio revela ainda como estamos todos reféns duma sociedade armariada e de políticos armariados. O armário vence (quase) sempre, pois é ele que define as condições e termos do debate. O armário perpetua-se como armário e, qual buraco negro, anula a hipótese de discurso crítico, porque não permite que se coloquem com franqueza as questões ou sequer os termos da discussão. O armário suga as pessoas para o seu interior escuro e húmido, onde a linguagem é imediatamente traduzida para "armariês".
Pena é que, no caso deste debate (e face ao horror que deve ser discutir com uma fonte ininterrupta de hipocrisia), FL não tenha resistido à hegemonia linguística e discursiva do armário.
Não é fácil postar em viagem (obrigado, Enoch, pela dica do til!), sobretudo quando se cai de cama com gripe... Lá se vão os planos de trabalho meio por água abaixo e, sobretudo, os de diversão... Além de um curso intensivo de catalão televisivo, a cama deu para ler o último número da Zero e deparar com um curioso anúncio, entre muitos já direccionados para os casamentos. Trata-se de um anúncio da Vista Alegre, nem mais. Agora a pergunta é: terá sido iniciativa de uma autónoma Vista Alegre-delegação-espanhola, ou a casa-mãe tuga está ao corrente? Se estiver, bem pode começar a patrocinar alguns eventos locais, não?
PS: Há dias que é impossível aceder ao Renas, pelo menos a partir dos cibercafés (vários). A Weblog não internacionalizou?
No programa da manha (morning, mañana, matí, maldita falta de tiles....; doravante escreverei as palavras impossíveis noutra língua) da TV3, a televisió da Catalunha, pergunta-se aos espectadores se acham que os casais hetero e homo devem ter exactamente os mesmos direitos. Resultado no momento em que deixei de ver o programa: 79% sim, 21% no. O apresentador pergunta à comentadora convidada o que acha e ela, com um encolher de ombros natural, afirma que as mentalidades mudaram... Mas o apresentador tem outra novidade para dar: o Conselho Superior Judicial emitiu um parecer dizendo que a lei dos casamentos poderá ser inconstitucional e que admitir o casamento entre pessoas do mesmo sexo seria tan terrível como permitir o casamento entre mais de duas pessoas ou entre uma pessoa e um animal. O redactor do parecer é um juiz ligado ao PP e à Opus Dei. Como o parecer - de cinquenta rançosas páginas - no é vinculativo, o Governo já anunciou que no vai sequer tomá-lo em consideració. A comentadora do programa, aliás, foi na mesma linha do governo: tornou a encolher os ombros, dizendo que esse conselho judicial é uma coisa de fachas.
Este é um programa da matí, supostamente visto por uma maioria de "donas de casa" (detesto o preconceito subjacente à expressió, e o público até pode ser mais diversificado, mas é verdade que as TVs alinham os programas na base destes pressupostos...); mas nele aconteceu, sem grandes demoras, a famigerada "mudança de mentalidades".
PS: Horas depois, no El Pais vejo a foto de Sócrates com Zapatero. O artigo termina dizendo que a única coisa diferente na política de Sócrates face à de Zapatero será o no-regresso da GNR do Iraque. No é verdade, El Pais, infelizmente no é toda a verdade...
Já vinha a caminho de Barcelona quando li o artigo do DN, de que o Boss fala (e bem). O facto de referir que as associaçoes lgbt nao ligam muito ao casamento é, sobretudo, sinal de um problema jornalístico: é que no artigo percebe-se que o jornalista nao contactou com nenhuma das associaçoes. Se o tivesse feito - pelo menos com a Associaçao Ilga Portugal - teria descoberto a centralidade do tema.
Esta questao da centralidade é sintomática. Muitos e muitas lgbt, mesmo no movimento, nao acham que a questao seja importante. Pessoalmente, acho-a central. Porque joga simbolicamente (no sentido antropológico, isto é, tudo menos com o sentido de "decorativo") com as "regras" da família e do parentesco. Porque é uma reivindicaçao da possibilidade de acesso a uma forma de contrato, vida, etc., altamente valorizada e "normalizadora".
É justamente por isto que a recusa deste direito, mesmo (ou sobretudo?) por parte de quem diz nao ser homófobo (e nao estou a falar do discurso da ICAR, mas do senso comum alargado, da esquerda à direita, dos lgbt aos nao-lgbt...), acaba por revelar a profuda convicçao de que gays e lésbicas sao e devem permanecer pessoas de segunda categoria: "voces nao têm o direito a poderem entrar no nosso restrito clube, porque vocês nao merecem; queremo-vos onde possamos dizer de vocês que sao incapazes de relacoes estáveis, que sao marginais, que sao promíscuos, etc, etc".
Este discurso é ainda complementado por um outro, de carácter "preemptivo": "isso em Portugal nao dá, a sociedade nao está preparada, e reivindicar o casamento é contraproducente para o movimento". Acho este efeito de hegemonia maravilhoso: tao interiorizada está a ideia de vivermos numa sociedade conservadora que somos nós próprios a cria as condiçoes para esse conservadorismo....
PS: Desculpem a ausência de tiles, mas estou em viatge... Já agora, BCN está boa, obrigado.
PPS: Quanto ao Bloco (, Boss,) o casamento está no programa eleitoral e de governo. Isto, a meu ver, só se deve ler duma maneira: se o Bloco tivesse maioria absoluta (!) legislar-se-ia para alterar o código civil e permitir o caamento entre pessoas do mesmo sexo.
Amanhã parto para Barcelona. É numa das minhas cidades favoritas que vou começar nova pesquisa, desta vez sobre o processo dos casamentos entre pessoas do mesmo sexo. Por enquanto é só uma semana de répérage; a partir de finais de Fevereiro... estadia prolongada. Mas postarei.
«Nova palavra no dicionário de Língua Portuguesa: Santanice (de portug. Santana) - acto ou acção de alguém que acaba sempre por prejudicar outro alguém e ser também ele prejudicado com esse acto ou acção, sem ter consciência disso. Forma de agir inopinada e irresponsável que prejudica toda a gente envolvida directa ou indirectamente na acção, sem que o autor tenha uma consciência absoluta das consequências dessa acção - "fez-lhe uma santanice", "acabou por se santanizar", "se disse isso vai ser santanizado", estupidez, parvoíce, inexperiência, irresponsabilidade de grande dimensão, efeito negativo de algo dito ou feito por um inconsciente com poder para o fazer.»
PS: Obrigado, Lenny, e parabéns pelos 44 (best age in the world!)
Parece que os Andaman escaparam ao maremoto: «KOLKATA: The five aboriginal tribes inhabiting the Andaman and Nicobar Islands, our last missing link with early civilisation, have emerged unscathed from the tsunamis because of their age old "warning systems". "The tribals get wind of impending danger from biological warning signals like the cry of birds and change in the behavioural patterns of marine animals. They must have run to the forests for safety. No casualties have been reported among these five tribes," ASI Director Dr V R Rao told newsmen today.»
PS: É irritante verificar que há quem ainda use expressões como "our last missing link with civilisation" ou se refira a estas pessoas como "the tribals". Mas infelizmente o Anthropological Survey of India parece reproduzir o sistema de castas, no qual, "abaixo" dos intocáveis ainda há os inclassificáveis "tribais".
O movimento de "defesa da vida" começou hoje o seu congresso sobre a família. Olhemos, caras amigas, para o programa do evento, patrocinado pela Câmara Municipal de Lisboa e pelo Ministério da Educação. A abertura está a cargo, entre outros, de Santana Lopes, primeiro-ministro não-eleito e demissionário em gestão, mas um querido, apunhaladíssimo, coitado; pelo Ministro da Segurança Social, Família e Criança (e criança, ora bem!) e pela Ministra da Educação, que é educadérrima, ou não tivesse sido criada pela Tia Assunção, que era rigidérrima. No painel "A família como referência humana" (para não confundir com as famílias animais do National Geographic) discursam três professores da Católica. Depois do almoço, segue-se "Luzes e sombras da família". Não, que disparate, claro que não se trata de uma análise da escuridão da sala de piano da Tia Leopoldina que tanta saudade deixou, mas sim de palestras sobre as "dificuldades resultantes" da "cultura ambiente" e da "estrutura social", essas coisas desagradáveis que soam imenso a reunião de comunistas. O painel do lanche - ai, os lanches de canasta da Tia Leontina, que saudade - é sobre "A relação Família-Estado na promoção do desenvolvimento social", pois toda a gente sabe que há Uma Coisa chamada A Família que entra em relação com o Estado e que essa coisa, decidida há séculos no pavilhão do jardim da Tia Anunciação, está ameaçadíssima pela "cultura" e pela "estrutura social", que são umas coisas que se ensinam nessas universidades do Estado e não sei quê. No dia seguinte, o padre Feytor Pinto, que era como se fosse da família lá em casa, faz o desjejum perguntando-se "A família de hoje precisa de respostas. Quais?", o que é duma humildade impressionante, pois toda a gente sabe que as respostas aprendem-se na catequese e pronto (tá bem, vá lá, pode-se aprimorar na Universidade Católica depois...). Vários especialistas respondem com títulos onde aparece bastas vezes a expressão "integral" (educação integral, planeamento integral), que se supõe ter a ver com saudáveis práticas alimentares com coisas boas lá da solar no Minho ou do monte no Alentejo e sem produtos geneticamente modificados - como, no caso do planeamento, as pílulas anticoncepcionais, ou os coisos, ai como é que se chama, aquilo de borracha? Depois do almoço, a digestão poderá ser bovinamente (bovinamente, ai adoro, sai-me cada uma...) realizada ao som da conferência "A sexualidade como valor a descobrir", o que, como toda a gente sabe, é aquela maçada que advém de uma pessoa partilhar o quarto quando se casa, aliás foi uma péssima invenção, que eu ainda me lembro de em casa da Tia Maria da Consolação era quartinhos separados, oh, oh (values!, diz o Tio George, que é um bocadinho possidónio mas a gente tem que ser tolerante). Como a experiência pode ser um bocadinho traumatizante, seguem-se palestras sobre terapia e mediação conjugal e familiar, com destaque para a presença da sempre inspiradora Catalina Pestana (não confundir com a Tia Catalina que na famosa capela de sua casa inventou a expressão "orientação conjugal" ao dizer às sobrinhas com quem poderiam ou não ca$ar-se), seguida de Luís Villas Boas. O tio Villas vai falar sobre "Soluções de Acolhimento: respostas imediatas; oportunidades de preservação do núcleo familiar; oportunidades de reorganização familiar" (com os pontos-e-vírgula e tudo), assunto em que é especialista desde que aprendeu com a Tia Maria do Patrocínio como se reorganiza uma família expulsando a criada que desviou o primo Diogo e enviando o rebento da loucura para um Refúgio - não o da Tia Catalina, que é para os pobres mesmo pobres, mas um mais jeitoso que havia acho que no Algarve ou assim.
A coisa vai longa - o congresso e o postucho. No terceiro dia há umas coisas aborrecidas feitas por uns estrangeiros, mas o espírito de família volta a surgir na grande finale, a cargo de Bagão Felix, Ministro das Finaças - pois como dizia a Tia Henriquina, isto da Família tem muita finança que se lhe diga -, Maria José Nogueira Pinto, da Misericórdia (Santa Casa, Santa Casa, já dizia a Tia Maria das Dores), o "Dr .Nuno Alburquerque Morais Sarmento", que é um querido e não queria que se pusesse o "Albuquerque", mas achou-se que se devia, em homenagem à Tia Mercedes dos Albuquerque de São Martinho do Porto (e com o bronzeado de S. Tomé - ou era do Príncipe?, não sei, mas era no ultramar - fica sempre bem um Albuquerque, a lembrar a gesta dos antepassados). Mas la cerise sur le gâteau será sem dúvida a palestra do Bispo Auxiliar de Lisboa. É que, caras amigas, já dizia a Tia Maria da Glória: "Ninguém sabe tanto sobre família como um bom bispo. O resto é tudo Revolução Francesa".
Quando se lançou, também com o apoio do PS, uma petição para a realização de um novo referendo sobre a IVG, estava-se em pleno governo Durão Barroso. Imaginava-se uma longa legislatura barrosista e não se antevia a longa marcha, perdão, a rápida fuga, do líder. O novo referendo era a opção possível - e em teoria aceitável por sectores mais vastos da sociedade - para alterar a situação sem esperar por uma nova legislatura. E, de qualquer modo, a petição era uma forma de manter o assunto do aborto na frente da política.
Mas quando tudo indica que o PS vai ganhar as eleições, propor um novo referendo é sinal de medo. Um PS digno desse nome deveria apresentar ao eleitorado a proposta de legislar a despenalização do aborto, no Parlamento e através da sua maioria. Ao não fazê-lo, Sócrates está a dizer que tanto lhe faz qual seja o resultado do novo referendo, isto é, que o seu partido não defende convictamente a despenalização.
Não se trata apenas de uma questão de diferentes correntes dentro do PS ou de um acordo com os sectores ICARísticos. Trata-se da pior pecha do PS português: a obsessão com a conquista do eleitorado conservador ou simplesmente blah, aquele a quem tanto dá votar PS ou PSD.
Graças a um patrão dos anjos que habitam o ciberespaço, o tamagochi já está sem febre. Aprender html na meia-idade não é canja. Pior ainda quando velhos defeitos de juventude (não guardar cópias das coisas...) não passam com os anos...
As alterações (sobretudo gráficas) na coluna dos blinks são provisórias. Gostaria de saber se as imagens tornam difícil o acesso a este blog por parte de quem tenha ligações mais lentas. Se causar muitos problemas, tentarei encontrar outra solução. Obrigado pelo feedback.
Através do Mil Folhas do Público, descobri este site sobre o geógrafo (mas também muito "usado" pela antropologia portuguesa) Orlando Ribeiro. Não é muito comum ver sites (muito) bem feitos entre nós. Pelo meio, tropeço numa foto da ilha onde cresci...
Recado: este exemplo do Centro de Estudos Geográficos da UL bem que podia ser imitado pelas instituições ligadas à antropologia (por exemplo, o Museu de Etnologia): a equipa de Jorge Dias, por exemplo, bem merecia um site assim...
Porquê e para quê insistir em denunciar e atacar o futebolismo nacional - na política, nas autarquias, nos media, na fiscalidade, na economia, na corrupção, etc? Porque, embora o fenómeno não seja apenas português, cada país especializa-se numa forma de poder subterrâneo que tenta manipular as tentaivas frágeis da democracia e do Estado de direito no sentido de garantir justiça, equidade e transparência. Nalguns países o "inimigo" é uma forma qualquer de nacionalismo extremado ou de extremismo político; noutros uma forma qualquer de fundamentalismo; noutros ainda associações do tipo mafia. Entre nós, é claramente o universo empresarial e político do futebol.
Sónia Fertuzinhos não é apenas a dirigente das Mulheres Socialistas. Foi a principal representante do PS no movimento da petição por um novo referendo sobre a IVG. Encontrámo-nos em muitas reuniões e acções, a que ela ia com um rebento recém-nascido. Agora ficou-se a saber que o PS-Socrático a colocou em 12º na lista de Braga, isto é, no lixo (não por Braga, mind you, mas pelo 12º). Em terceiro lugar na lista de Braga está Teresa Venda, do Movimento Humanismo e Democracia, o sector cato-fundamentalista (ou social-ICARístico) anti-escolha com que o PS-Socrático renovou o contrato. Estamos ou não conversados?
PS: Não, não estou a fazer do PS o "inimigo" principal. Critico o PS-Socrático porque me importa, ao contrário do PSD ou do PP; porque o PS ainda tem uma nesgazinha de potencial de vir a ser a "casa comum da esquerda"; porque de certo modo o Bloco existe (para pessoas da minha tendência no Bloco) como a ala esquerda desse PS-Imaginário.
PPS: É também por isto que nunca percebo muito bem o simbolismo de se colocar o Bloco na "extrema-esquerda", à esquerda do PC. Vejo-o sempre entre o PS e o PC (mas toda a gente, a começar por mim, sabe que sou dado ao devaneio e à folia...).
Pacheco Pereira, no Público de hoje, argumenta sobre a pertinência ou não de voltar a valorizar o Ocidente enquanto civilização, criticando um tipo de relativismo e de autoculpabilização que tem vindo a fazer escola desde, pelo menos, o último quartel do século vinte. Tal movimento seria necessário pelo facto de o novo tipo de terrorismo global ser um terrorismo contra a civilização (ocidental) e não contra regimes ou situações concretas. O relativismo teria, de certo modo, aberto o caminho a estas manifestações extremas - depreende-se.
Não deitaria fora estes argumentos e preocupações. Há, de facto, aspectos errados (alguns até caricatos) naquilo que difusamente se chama a crítica do eurocentrismo, o elogio do multiculturalismo ou, simplesmente, o "relativismo". Mas, como em tudo, há graus. Os estudantes de antropologia que tenham "apanhado" com um professor sério, sabem a distinção entre relativismo cultural e relativismo moral. O primeiro é de cariz metodológico apenas, e o segundo não decorre do primeiro. Além disso, é perfeitamente possível - e desejável - fazer a crítica da expansão capitalista e colonial euro-americana, ter uma postura de relativismo cultural e combater os fundamentalismos, quer os que redundam em terrorismo, quer os que se mascaram de "regresso aos valores ocidentais".
Por uma estranha coincidência, ao lado do artigo de Pacheco Pereira foi publicado um de Alexandra Tété. A ilustre militante da "vida" mete num mesmo saco todas as questões de política sexual, da família, etc., que não lhe agradam e acusa a esquerda dos pecados da "desconstrução" e, subentende-se, do relativismo moral. "Argumentos" à Tété podem ser a consequência de um discurso de "recuperação" do(s) valor(es) "Ocidentais". Se as ideias de Tété se tornassem política (algumas, infelizmente, não precisam tornar-se, pois já são) as nossas liberdades estariam tão postas em causa quanto se vivessemos debaixo de um regime fundamentalista de outra confissão religiosa.
Mesmo que discorde, o argumento de Pacheco Pereira é sério e ele não navega em águas maniqueístas. Mas quando se popularizar o anti-relativismo e o pró-ocidentalismo, a consequência pode ser (como se percebe estar proposto no texto de Tété), o retrocesso nas conquistas sociais e políticas da própria modernidade (que, tendo começado na "civilização ocidental", não é apanágio dela).
Depois da teoria crítica, da teoria da prática, da teoria queer e de tantas outras, ainda vamos ter como alternativa a teoria tété?
Por baixo da praia, a calçada. Ou: o PS que não teremos.
Um pequeno episódio pode às vezes ter um grande significado. Vi ontem um porta-voz do PS dizer para a TV que Paulo Pedroso ficará em lugar inelegível nas listas do partido. O porta-voz repetiu "não elegível" várias vezes. Mais: disse que o próprio Pedroso nunca aceitaria ser deputado na hipótese absurda de, mesmo assim, ser eleito. Tudo isto foi dito pelo porta-voz com satisfação, orgulho e aquela atitude que parece (quer mesmo...) dizer: "Não se preocupem, ele não vai ser mesmo eleito".
Quando se trata assim os seus, está tudo dito. O PS não mudou. Muitos de nós continuamos com a ilusão de que o PS possa um dia tornar-se num partido de esquerda. Um partido de governação, sem dúvida; um partido de abrangência, é claro; mas um partido de esquerda, isto é, com uma visão da sociedade baseada em ideais de igualdade e em valores de diversidade.
O PS tinha agora a sua grande oportunidade. A direita está derrotada e o PS poderia avançar mais no sentido daqueles ideais e daqueles valores. Mas tudo indica que não é isso que Sócrates ou Vitorino querem. A questão é: porquê?
Há várias respostas. A primeira tem a ver com aspectos culturais e de mentalidades dos seus dirigentes. O staff do PS - aquele que é visível e toma as rédeas do partido - reflecte o centro "neutro" da nossa sociedade. Tem medo da igreja, namora o capital, tem ansiedade com as sondagens, não quer "escandalizar" ninguém. É a pequeníssima burguesia ou a classe média aflita na sua gloriosa versão portuguesa. É o universo das pessoas que de tanto repetirem que "primeiro é preciso que as mentalidades mudem" nada fazem para ajudar a mudá-las e, desde logo, perpetuam a não-mudança das suas próprias mentalidades. O PS, nestas questões de "isso é tudo muito giro lá fora mas em Portugal não dá", é o campeão da self-fulfilling prophecy.
A segunda é a rede clientelar que o PS criou. Não há rigorosamente nenhuma diferença entre a negociata do PSD e a negociata do PS quando têm que resolver o complicado problema dos laços com autarcas corruptos, pequenos oligarcas e patronos de província, líderes futeboleiros e outras manifestações de iliteracia - da propriamente dita à democrática.
A terceira é histórica. O PS português não vem da tradição trabalhista como o Labour (pré-Blair, claro), nem da tradição social-democrata (como o SPD), nem é um partido socialista operário, como o PSOE (reflectindo o nome as origens comuns com os PCs). É bom não esquecer que o PS vem da tradição oposicionista soft ao salazarismo; que só foi fundado nas vésperas do 25 de Abril; que foi criado de cima para baixo e não de baixo para cima; que se inspirou num difuso republicanismo laico e não num pensamento socialista. E, finalmente, que a entrada de pessoas vindas de outros sectores (por exemplo, do PC, ou do mundo universitário) não mudou um mílimetro o PS. Os artigos e opiniões deste sector "sangue fresco" parecem sempre estar a falar de um PS que não existe...
A quarta tem a ver com a sua incapacidade em incorporar duas correntes ou formas de mobilização social importantes: a do sindicalismo e a dos novos movimentos sociais. A primeira continua esmagadoramente ligada ao PCP; a segunda é crescentemente representada simbolicamente pelo Bloco de Esquerda. Todos perdemos com isto, pois estas causas acabam por ficar cada vez mais acantonadas nas margens, não sendo filtradas (ao contrário do que está a acontecer em Espanha ou em França) pelo "centro" governista.
É por tudo isto, creio (e não só pela circunstância de Sócrates ter sido eleito ou de Vitorino escrever o programa, embora estes dois enormes bluffs políticos certamente desajudem), que o PS não muda nem mudará. Nunca dali virão propostas sobre, por exemplo, a saúde ou o sector energético que possam soar remotamente a "nacionalização" (quando tal não é necessariamente uma prática "comunista", como o prova o Canadá, por exemplo). Nunca dali virão propostas arrojadas no campo do combate à fraude fiscal ou do levantamento do sigilo. Nunca dali virão propostas de legalização dos imigrantes, ou propostas do alargamento do casamento e adopção a casais de gays e lésbicas. Esperem pelo programa de governo e hão-de ver: por baixo de algum verniz, não haverá nada. Por baixo da calçada não vai estar a praia, mas sim o seu exacto contrário.
Este é o nosso drama: a barreira balofa, bacoca, pequeno-burguesa e aflita que impede a adopção de qualquer política progressista e emancipatória. Assim que o PS regressar ao governo, lá teremos o retorno dos caciques de província; as atoardas do sector católico (com o qual Sócrates já refez o contrato); a performance pública de líderes gastos na tentativa desesperada de convencerem as pessoas conservadoras deste país (que eles imaginam existirem mais do que existem realmente) de que o PS é a mesma coisa que o PSD só que com mais chá.
Um belo dia, ao escrever a minha tese de doutoramento, fiquei todo lampeiro e satisfeito por ter "inventado" a expressão "masculinidade hegemónica". Dias depois descobri que já tinha sido usada por Robert Connell. Desastre. Agora fiquei a saber que o acrónimo ICAR também já andava por aí anos antes do dia em que eu julguei tê-lo "inventado".
Com certeza que alguém algures na rede há-de ter tido a ideia de utilizar a palavra inglesa blink (piscadela) para referir os links num blog; ou que algum jovem escritor promissor há-de ter pensado na expressão patridiota para referir os patriotas idiotas; ou terrorismo cultural; ou R'n'V, ou... (não acham óptima esta maneira de listar as "invenções" como quem não quer a coisa?).
A busca do post perfeito é obviamente uma quimera. Todos os posts recebidos para o "Bloga coMIGo" são bons posts. Procurei, no entanto, estabelecer alguns critérios de avaliação. Para mim - único e omnipotente júri pela primeira vez na vida! - um post deve ser económico, elegante, relevante e oportuno. (Outras expressões que me agradam: simples, ligeiro, escorreito, crítico, novo, lógico, forte, conectado, honesto, emocionante....).
"Económico" quer, neste contexto, dizer "simples", "equilibrado", "sucinto". O post deve ter um argumento central (e de preferência só esse argumento), e evitar excessivas contradições.
"Elegante" quer, neste contexto, dizer (também) "simples", isto é, "ligeiro" de escrita e ligeiro de leitura, de preferência com frases curtas, evitando paráfrases. Escusado será dizer que um bom domínio da língua e um estilo escorreito são importantes para garantir este critério.
"Relevante" quer, neste contexto, dizer que algo de novo está a ser dito, nem que seja através de um olhar pessoal, da atenção a um pormenor que escapou a outros, ou da aplicação de uma ideia "velha" a um contexto "novo". O critério poderia chamar-se igualmente "originalidade", mas a relevância tem ainda a ver com a capacidade de intervenção sobre o real quotidiano. Daí este critério incluir a "oportunidade".
Estes critérios são enviezados pelo meu gosto, é claro. Estão mais próximos do comentário, da opinião, ou da desconstrução crítica marcada por um olhar político e/ou "antropológico". Prejudicam, até certo ponto, estilos que também me agradam, como o ficcional, o poético, o pessoal ou o provocatório.
Posto isto, @ feliz contemplad@ é Nuno Pinho - a quem peço desde já que me envie a sua morada snail-mail para lhe enviar uma encomenda... A tod@s @s outr@s, quero expressar a minha pena por não ter comigo exemplares suficientes das minhas escribadelas...
Peço desculpa pela futilidade em tempos de tragédia mas não resisto. Praticamente todos os jornalistas e âncoras nas TVs têm pronunciado Phuket como "pukê". Lá conseguiram perceber que o "ph" é "p" e não "f". Mas como viram que a palavra termina em "et", pronunciam-na como se fosse francesa, quando a pronúncia correcta é "Puquéte". Hoje a SIC transmitiu uma reportagem francesa no seu telejornal. Por várias vezes o locutor, francês, pronunciou "puquéte". A rapaziada tuga continua afrancesadamente (?) a dizer "puquê". Mas, puquê, nom de dieu, puquê? (Ok, now it's out of my system)
Tive uma sensação estranha ao ler as discussões sobre a questão religiosa entre renas e assumidas. Custou-me a descobrir o que me causava essa estranheza. Mas acho que descobri: em Portugal há muita gente que não consegue separar a sua crença em deus da sua pertença / obediência / "respeito" à/pela ICAR. Isto deve-se, creio, a dois factores. O primeiro é, evidentemente, a hegemonia da ICAR; o segundo é a sua "teologia", que associa a fé/crença à pertença à Igreja. O que estes dois factores geram é uma situação em que se torna difícil haver gente que se diga "Cristã" mas que esteja total e radicalmente desligada da ICAR. Os católicos sentem sempre, em última instância, que desligarem-se da ICAR significa desligarem-se da própria fé e da relação com o seu deus.
Esse é um problema que muitas linhagens protestantes resolveram. E não só: há muitas formas de congregação religiosa para pessoas progressistas, racionalistas, laicizadas e secularizadas, mas que querem reunir-se com outras pessoas para celebrarem uma qualquer espécie de "espiritualidade" de raíz cristã. Nos EUA conheci os Unitarian Universalists, uma congregação cristã que é, entre outras coisas, muito gay friendly. Não é nenhuma seita bizarra: as suas igrejas, de arquitectura muito tradicional, encontram-se nos centros nobres de muitas cidades. Para os ainda mais laicizados, existe o movimento Ethical Culture, a que pertencem muitos judeus não religiosos.
Em Portugal não só não houve reforma protestante como os católicos mais abertos de espírito não conseguiram nem reinventar a sua igreja, nem quebrar com ela e fundar outras congregações. Presos a padres, ritualismos e autoridades eclesiásticas e papais - entrozadas com TUDO, do Estado e da Lei à vida quotidiana - os católicos escapam ao sufoco através do já famoso duplo padrão ICARístico: dizer uma coisa e fazer outra, à semelhança do funcionamento de outras relações e estruturas da nossa sociedade (da "segurança" rodoviária ao (não-)pagamento dos impostos). Toda a gente sabe que esse é o caminho mais seguro para que nada mude.
Os European Liberal Democrats decidiram no seu congresso que «...all European countries should lift legal barriers prohibiting same sex couples access to the existing legal marriage and, in this course, should at least offer registered partnerships to offer protection of same-sex couples at a similar level as married couples, including parental rights».
A este grupo pertencem, no Parlamento Europeu, partidos como a CiU catalã de Jordi Pujol, a UDF francesa, os liberais do FDP alemão, o D66 holandês, o PNV basco e, claro, os Lib Dem britânicos. Nada de muito esquerdalho, convenhamos. Como é, então, possível que entre nós o "liberalismo" seja o estandarte de PSDs, PPs ou blogs que têm gosto em publicar isto?
Não era já altura de haver entre nós um partido Lib Dem? Oh, mas que digo eu? Não era já altura de pelo menos o PS ser um pouco Lib Dem?
Regresso da Zamba. Tempo de (re)organização. E tempo de ler atentamente os posts recebidos, definir critérios de avaliação e... premiar. O TQC recebeu 11 posts, todos publicados. Esta semana ainda publicarei os critérios e os resultados.