OS TEMPOS QUE CORREM. Miguel Vale de Almeida


31.12.03  

VISTOS.

"El Mar", em DVD e "The Good Girl" no cinema. O primeiro junta os ingredientes "guerra civil espanhola" e "repressão católica" para construir um dramalhão gay, do género "nós até gostávamos de ser felizes, mas como não podemos, a nossa estética de auto-representação é o sofrimento e a queda". Prefiro a Margaret Cho gozando/revoltando. O segundo pensa que inova mas repete a estratégia ortodoxa do cinema independente americano: a América é uma província chata, habitada por pessoas vazias e alienadas, onde quebrar as regras ou tentar segui-las é um "preso por ter cão, preso por não ter", pois a tudo preside o princípio da impossibilidade de comunicação/comunhão entre as pessoas. Esse é o resultado negativo duma cultura que confunde a liberdade individual com o individualismo, recusando ver quanto é determinado pelas estruturas sociais. Mas a Margaret Cho di-lo melhor.

Ah, sabem o que ela diz? "Um governo que recusa a duas pessoas do mesmo sexo a possibilidade de terem uma lista de casamento é um governo fascista".

mva | 15:45|
 

Tomar balanço.

Em vez de fazer um balanço, vamos tomar balanço. Para 2004, é preciso: que Durão Barroso seja desmascarado na sua dependência da extrema-direita de Paulo Portas/Opus Dei/Bancos da Opus Dei/Igreja Católica; que se demonstre que o PP é mesmo a extrema-direita, disfarçada com as falas mansas portuguesas; que toda a gente perceba que o perigo populista espreita no estilo de Santana Lopes; que se prove que o caso Casa Pia é um monstro de iniquidades, do abuso sexual que não fica impedido, à manipulação política do caso, passando pelo perigo tabloidista das TVs que temos; que o PS se refunde como partido defensor do Estado Social, deixando de ser a versão light do neo-liberalismo; que o PC se refunde democraticamente; que o Bloco não faça asneiras; que o Iraque se torne numa democracia apesar da presença americana; que o Bush seja impiedosamente desmascarado como aliado das ditaduras do médio oriente, incluindo o regime deposto de Saddam Hussein; que o plano de Genebra para Israel/Palestina ganhe adeptos e mais adeptos; que os europeus percebam que é preciso uma constituição, mas que ela deve ser feita democraticamente; que o movimento pela alterglobalização comece a fazer programa e não se deixe seduzir pelo folclore; que a ONU comece a reconstruir-se, contra a hegemonia americana e desautorizando as ditaduras que abundam, da China a Cuba, passando por Angola e a Arábia Saudita; que o movimento pelo referendo do aborto recolha as 75 mil assinaturas; que haja um referendo ou uma alteração positiva da lei pelo Parlamento; que os imigrantes se mexam, exigindo cidadania plena (saúde, educação, voto, pelo menos); que o movimento lgbt cresça, diversifique e saiba criar plataformas para o que interessa; e que as pessoas se fartem depressa de ver o Euro 2004 e os fogos florestais e viagem muito para Espanha.

mva | 15:38|
 

As Invasões Árabes.

Uma reportagem qualquer na SIC Notícias: entrevistas a jovens em vários países árabes e/ou muçulmanos: Líbano, Síria, Irão, etc. Sobre como vêem os seus países, o Islão, a decadência do mundo árabe e islâmico em termos históricos, a falta de esperança no futuro e nas lideranças, o trauma americano e ocidental, etc. Mas prestei atenção sobretudo ao "subtexto": é que a reportagem dava-nos imagens nos antípodas dos estereótipos sobre o mundo árabe e/ou islâmico. Nem fundamentalistas empedernidos, nem gente com ar de terrorista, nem o estereótipo português do marroquino chato atrás de nós pedindo (e oferecendo...) tudo com falsa simpatia. Não. O que eu vi foi jovens como os que se vêem no Bairro Alto, nas Amoreiras ou num cinema lisboeta. Muitos até com "melhor aspecto". Modernos, cosmopolitas, arejados. Até nessa coisa horrível que são as expectativas "raciais", gente (sobretudo no Irão, claro) bem mais "branca" do que a nossa... Alguns grupos de discussão conseguiam manter uma conversa bem mais inteligente e sustentada em argumentos e conhecimento do que acontece entre muitos dos meus alunos. E a maioria o que desejava era democracia, bem-estar, justiça social e diversidade: poder usufruir do mesmo que o Ocidente (que sentem como direito seu e algo que lhes é inerente, como humanos, é claro) e poder manter formas suas de vida, desde que compatíveis com noções genéricas de direitos humanos.

Isto fez-me pensar se, no século XXI, não estaremos perante uma realidade social de peso, a saber, uma espécie de classe, ou grupo social global, feito de gente com as seguintes características: urbanizada (a maior parte do planeta vive já em cidades), com acesso a informação, com desejos de consumo criativo (o consumo não é só alienação, é também apropriação e construção de identidades), e conectada (isto é, sabendo que existem outros e que lhes/nos são semelhantes). Esta "classe" - de que estes jovens são exemplo - é que pode ser um actor social mundial para os tempos que vêm aí. Talvez não se trate tanto das "multitudes" de que o discurso alterglobalização tanto fala , nem de polimorfas alianças de excluídos. Talvez se trate mais de algo semelhante ao que sempre aconteceu na História: quem faz as coisas avançar são as pessoas que têm um mínimo de conforto e informação e que se revoltam, eticamente, contra as injustiças à sua volta e contra as que continuam, apesar de tudo, a sentir, mesmo que em planos não materiais. Foi o que aconteceu com as "revoluções burguesas" na Europa de há séculos, afinal.

Isto é polémico, bem sei. Mas é que eu duvido - e infelizmente - que sejam os milhões de africanos infectados com HIV, os milhões de mulheres trabalhando em caves do sudeste asiático onde se montam computadores, ou os milhões de imigrantes clandestinos semi-escravos a darem a volta alterglobalizadora.

Naquela noite SICesca, gostei de ser invadido por aqueles "árabes"...

mva | 15:21|
 

To be gay or not to be gay.

Uma interessante discussão tem decorrido nos últimos dias em vários blogs de temática lgbt (demasiados para blinkar aqui!). Foi despoletada pela opinião de Alexandre Monteiro sobre o boom de blogs lgbt. As reacções foram, a meu ver, muito positivas, pois denotam que há um assinalável grau de consciência lgbt.

Eu resumiria a questão assim: enquanto ser lgbt for fonte de discriminação, há toda a razão para existirem espaços de comunicação que se identificam como lgbt; enquanto ser lgbt for alvo de silenciamento e ocultação, há toda a razão para existirem espaços de comunicação que apresentem / representem as existências lgbt; e enquanto houver quem viva na ilusão liberal de que não há discriminação e de que os lgbts aborrecem com a sua excessiva expressividade (e que tudo é uma questão de valores pessoais, logo "se eu não tenho preconceito contra os lgbts é porque o preconceito não existe), há toda a razão para espaços de comunicação lgbt.

Sobretudo, isto: é impossível introduzir uma lógica de simetria nestas questões assimétricas: a discriminação dos homens não se compara à das mulheres, nem a dos brancos à dos negros, nem a dos ricos à dos pobres, nem a dos heteros à dos lgbts (já repararam como os exemplos de discriminação de heteros por lgbts se referem sempre a situações de ambientes nocturnos lgbt ou rodas de amigos? Big deal!).

mva | 14:45|
 

VISTO.



O P e eu descobrimos a Margaret Cho em San Francisco. Depois, foi começar a encomendar os DVDs. Chegou-nos agora o desse mesmo filme que vimos em Frisco. Cho é uma americana de origem coreana. Faz stand-up comedy. É uma fag hag de estimação na América. A forma como aborda o sexo, como destrói os convencionalismos puritanos da América e, sobretudo, como eleva à dignidade do riso a comunidade lgbt, é fantástica. Mas sobretudo, rimo-nos, rimo-nos muito. Ah, a Margaret tem um site. E um blog

mva | 14:23|
 

Rusty is a homossexual.



Esta história é mesmo engraçada. Não é todos os dias que conseguimos gozar connosco e, ainda assim (ou por causa disso?), ter efeito pedagógico. Obrigado, JP, pelo link.

mva | 14:12|


28.12.03  

Onde está o Wally?

Os autores destes mapas da galáxia da Internet dizem, e com razão, que o seu trabalho é arte.

mva | 01:37|


27.12.03  

Novo link.

Por sugestão do Gonçalo, incluí na lista de links o de Alex Golub, estudante de doutoramento na University of Chicago (estive lá há dias, que pena não tê-lo conhecido). Responde, de certo modo, à minha dúvida em post anterior. "Estudantes de antropologia, que mil diários floresçam!" (mas de jeito...).

mva | 21:13|
 

Interler.

Uma das vantagens da net é sem dúvida a facilidade com que se pode obter informação. Por exemplo, bem sei que muita gente não faz ideia quem é o Samuel Pepys que refiro abaixo, noutro post. Mas qualquer um pode obter, na net, informação relevante sobre ele, sem ter que ir à procura de uma enciclopédia ou dirigir-se a uma biblioteca. Tudo bem. Mas o problema com a info-busca na net é que ela dá a entender que se pode passar sem a base ("as basezinhas..."), um esqueleto de conhecimentos, um tronco, a partir do qual se procuram ramificações (e esse é o papel da universidade e, especificamente, das ciências humanas).

Quando entramos no campo da meta-net, isto é, da compreensão da própria net enquanto fenómeno sociológico, cultural e etnografável (ver link que acrescentei agora, ao lado), é importante ter informação baseada na reflexão, mais prolongada no tempo e no estudo das fontes. Essa obtem-se em livros (independentemente de se publicarem em papel ou em zeros e uns) resultantes de pesquisas. Duas dicas: o sociológico e português Gustavo Cardoso e o etnográfico e inglês Daniel Miller. Aqui ficam: Cardoso, Gustavo (1998), Para Uma Sociologia do Ciberespaço, Celta Editora e Miller, Daniel e Don Slater, 2000, The Internet: An Ethnographic Approach, Berg Publishers.

mva | 19:21|
 

Católicos pela livre escolha.



O actual debate sobre o aborto corre sempre o risco de se tornar numa conversa de surdos (salvo seja, a expressão é estúpida e discriminatória...), em que os posicionamentos ideológicos fazem guerra preventiva contra a discussão esclarecedora. Uma das maneiras mais eficazes de ultrapassar isto é "conversar no campo do adversário". Mesmo não sendo católico, tenho uma predilecção especial pela organização Catholics for a Free Choice. Assim, o meu contributo para a questão do aborto é colocar um link permanente com a CFC (ver ao lado). Ah, tem uma secção brasileira, em português... (Algum/a católic@ de cá gostaria de fundar uma secção local? Organizem-se!).

mva | 18:33|
 

À beira-mar (trans-)plantados.

É comum - em blogs e crónicas de jornais - ouvir as elites queixarem-se do "provincianismo", da "periferia", do "cantinho", do "jardim à beira-mar plantado" (toda a gente sabe que nada acontece nos jardins a não ser o lento crescimento das ervas), etc. Eu próprio faço isso vezes sem conta. Muita gente se irrita com esta atitude ou tique e propõe, como alternativa, atiçar o orgulho nacional, dizer mal dos outros sítios, ou, nos casos mais sofisticados, fazer a psicanálise das elites em pequenos países. É claro que o queixume pelo queixume não serve de nada e muitas vezes pretende-se apenas dizer que não se pertence à escumalha. Mas a alternativa dos neo-patrióticos não cheira nada bem. Acho que a única coisa a fazer é aprender mesmo a ser cosmopolita: estudar, aprender, viajar, viver, se possível, noutros países, transplantar e transplantar-se, transmitir informações, formar - em suma, educar e educar-se. Ou batemos o pé a favor dos valores cosmopolitas, promovendo-os, ou restam-nos duas alternativas: virar cínicos rancorosos e azedos, ou enveredar pelo "Cá vamos cantando e rindo" que a nova extrema direita nos propõe.

mva | 18:22|
 

Em lugar algum.



Retrospectiva da luso-sulafricana (nascida no Moçambique colonial) Ângela Ferreira, no Museu do Chiado. Destaco duas instalações muito felizes. Na primeira, passa um filme de propaganda colonial que retratava, antes de 1975, Moçambique como um paraíso "multiracial", à boa maneira do tardo-colonialismo português. Atrás, numa vitrine, peças de Rafael Bordalo Pinheiro (epítome da sátira política portuguesa) retratando a prisão e humilhação de Gungunhana, esse símbolo da vitória portuguesa sobre os "pretos bárbaros". Na sala adjacente, uma mesa de madeira trabalhada, representando o valor acrescentado da arte/mercadoria europeia, está lado a lado com três grossos troncos de madeira - a matéria-prima extraída de África. Excelente comentário ao colonialismo. Altamente aconselhável ao ministro Paulo Portas e aos nostálgicos do colonialismo que, todos os anos pelo Natal (e este não foi excepção), editam grossos álbuns com postais da Angola colonial ou "vistas de Lourenço Marques"....

Na segunda, um vídeo, AF filma-se em pose e gestos de forcado. Cada gesto é acompanhado de sons parecidos, ao mesmo tempo, com o resfolegar do touro, com os urros de incitamento dos forcados, e com a banda sonora do sexo. Graças ao corpo feminino ocupando um papel onde normalmente se vê um corpo masculino, percebemos melhor a performance da tourada - onde o forcado e/ou o toureiro tenta seduzir o touro, para receber a sua investida e, depois, domá-lo, através da força, no caso dos forcados, através da ferida que menstrua simbolicamente o touro, no caso do toureiro.

A exposição é um ensaio (na arte contemporânea é mesmo preciso ler os catálogos...) sobre estas tensões reprimidas, latentes, por psicanalizar, e que enchem a nossa sociedade de questões irresolvidas, a saber, duas bem relevantes: o passado colonial e a sua continuação nas questões de identidade nacional, imigração, e racismo; e a óbvia desadequação das nossas potencialidades humanas face às estruturas dogmáticas de género e sexualidade.

mva | 18:14|
 

Yes, massa.



O meu amigo Rui tinha-me avisado que não valia a pena ver "Master and Commander". Aparentemente era aborrecido, as personagens não teriam profundidade psicológica, etc. Talvez por "ir preparado para não gostar", o filme surpreendeu-me positivamente. Não oferece nada de fabuloso, mas o que oferece fá-lo bem e honestamente: mais uma instância da metáfora do barco como microcosmo social. A minha relação com os filmes é muito pouco cinéfila, e mais "social" (ossos do ofício). Por isso gostei de ver aquela representação (sem preocupações quer de aceitação quer de denúncia) das relações sociais hierarquizadas - sobretudo entre Estados (Inglaterra contra França, guerra, patriotismo), entre classes (os marinheiros de baixa extracção e os oficiais das elites), entre profissões (o militar contra o cientista). Mas o mais interessante são as que invertem expectativas, ou as mais ocultas, ou mesmo as invisíveis. Em primeiro lugar, a idade: o filme retrata bem como o critério etário é coisa recente. Naquela época a classe sobrepunha-se à idade, o que permite que um miúdo adolescente tenha ascendência sobre homens feitos (e diz-nos muito sobre as sacralização das crianças nos nossos dias...). Em segundo lugar, a criação de bodes expiatórios, na figura do jovem oficial inseguro da sua autoridade e que, por isso, é construído pela tripulação como tendo malapata e sendo a origem de todos os males. Em terceiro lugar, a ausência completa de mulheres. Neste caso, o filme tem uma ambiguidade que faz pensar: por um lado, não podemos (não posso) deixar de pensar na invisibilidade da homossexualidade neste retrato; mas, por outro, o filme mostra bem como as ditas regras hierárquicas, no barco como na sociedade (sobretudo naquela época) são masculinizadas. Este princípio é deliciosamente quebrado em momentos de pontuação da história: quando o comandante e o médico se dedicam a tocar música: aí suspendem a guerra, a competição, o rank, o patriotismo, e entram no mundo da emoção. A não ser, é claro, que a música os transportasse para um salão da aristocracia da época.

mva | 17:51|
 

And the winner is...

Neste blog, (sugerido pela minha amiga Leonor Areal - digo isto porque estou habituado ao "rigor das citações" e não fui eu que "descobri") pode encontrar-se o link para os prémios dos blogs britânicos atribuídos pelo Guardian. Achei muito interessante o diário de uma call girl, bem como o projecto de alguém que, nos próximos 10 anos, publicará diariamente um pedaço dos Diários de Samuel Pepys. Esta "diarística" especializada é uma das promessas mais interessantes dos blogs, pelo menos infinitamente mais interessante do que a média do que se faz chez nous (especialmente entre o vasto grupo de fundadores da moda), demasiado marcada por um certo espírito machola de bocas e conversa de café sobre-tudo-e-mais-alguma-coisa (e a que, obviamente, não escapo totalmente).

Ocorreu-me também que um blog seria um óptimo suporte para fazer uma etnografia on-line: haverá por aí gente da antropologia a fazer isso? A colocar os seus diários de campo na net? Jovens antropólogos, hello?

mva | 13:06|
 

A Ana Sá Lopes continua a saber o que diz.

mva | 12:58|


25.12.03  

Blinks

Resolvi começar a colocar links. Começo pelos blinks para blogs de temática lgbt e sigo para associações e similares lgbt, blogs genéricos, media alternativos, humor, política, e associações de antropologia. Espero que sirva de alguma coisa e que susceptibilidades não sejam feridas.

PS: É assim que eu passo o 25 de Dezembro. Coisas de gentio...

mva | 16:47|


24.12.03  

X-mas

Lá fora o céu está azul e faz aquilo que os lisboetas, com o seu refinado sentido de humor, chamam "frio". Em Ilhéus, onde morei em tempos, homens de calções, chinelos e tronco nu bebem cervejas numa esplanada da praia, debaixo de um calor desumano. Algures no Médio Oriente, as pessoas vão à sua vida normalmente e vêem na televisão reportagens sobre a celebração do Natal em paragens distantes. Do Tibete a Madagáscar, da Coreia a Marrocos, milhões e milhões de pessoas sabem do Natal através da TV. Este ano - mas por acaso - o Hannukah judaico acaba no mesmo dia do Natal cristão. Cristão? Bem, os ortodoxos ainda vão esperar por Janeiro... E o Divali hindu já se celebrou em Outubro este ano. E os Muçulmanos têm outras personagens históricas para celebrar. Mas todos - tibetanos e judeus, malgaxes e hindus - são esmagados pela presença globalizada do Natal. Basicamente porque a globalização foi sendo feita por economias e estados-nação enquadrados por culturas religiosas cristãs: primeiro ibéricos, depois ingleses, logo americanos. Estes últimos criaram uma indústria das representações - a TV e o cinema. Assim, toda a gente no mundo tem acesso a imagens, canções, símbolos e, sim, emoções e sentimentos, do Natal americano: renas, pai natal, árvore de natal, neve, reencontros familiares etc. Mas há mais. Este Natal americano é, na verdade, o produto de uma síncrese gerada pelas imigrações e na qual as formas culturais escandinavas acabaram por ter mais importância que outras. Muito do Natal americano, agora globalizado, deve-se a suecos, basicamente.

Eu nasci numa família sem religião. O Natal celebrou-se sempre, todavia. Sem Menino Jesus, presépio ou missa do galo. Com consumo e reciprocidade, ou vice-versa. Com um misto de alegria e resignação - gosta-se da reunião das pessoas, não se atura o frenesi das compras. Mas sobretudo com um sentimento curioso, que é o do deslocamento: como se a realidade nunca chegasse aos calcanhares das expectativas criadas pelo modelo mediatizado e globalizado (não há neve lá fora!). Entre o afastamento religioso face a um Natal cristão e o afastamento cultural face a um Natal americano, sobra uma coisa esquisita que se quer ultrapassar rapidamente com uma festa de passagem de ano, um regresso à normalidade, o dia maravilhoso em que os funcionários da câmara começam a retirar as iluminações...

Ao menos se isto fosse mesmo hemisfério sul e pudessemos fugir para a praia...


Picado de um mail dum amigo: christma.exe

mva | 15:44|
 

Penso, blogo existo.

Blogo desde 13 de Maio deste ano, e já lá vão mais de 100 posts. Comecei o blog como alternativa à webpage que mantinha. A webpage já era, havia tempo, a alternativa às crónicas que em tempos escrevi no "Público" e, depois, no "Portugal Diário". Com a tecnologia dos weblogs pude começar a ensaiar outros modos: por vezes ecrevo crónicas, por vezes "mando bocas". Os estilos variam. A retórica varia. Só ainda não consegui entrar em diálogo directo com as visitas que comentam. Só ainda não consegui aderir à ideia de "blogoesfera" e de comunicação cruzada entre blogs. Pareceu-me que o modo/moda já estavam prédefinidos quando a tecnologia foi disponibilizada. E eu tendo a reagir a esses pressupostos. Já é desafio suficiente expor-me da maneira que me exponho e dar o mesmo valor a formas de escrita que podem ir do sarcasmo e da ironia até ao quase-científico. Ainda há muito para experimentar e aprender. Mas uma coisa é certa: para mim o blog não será nunca uma extensão da "cultura dos chats", a que não aderi. Prefiro ver o blog como a escrita contínua de uma crónica contínua: para um pensamento ligado à "existência" e para existir pensando. Em público.

mva | 14:52|
 

O Penhor dos Anéis

Lá me arrastei para a terceira e espero que última parte de "O Senhor dos Anéis". O tom sarcástico tem a ver com o facto de que apanhei das maiores secas fílmicas de todos os tempos com os dois primeiros episódios. Note-se que eu não me acho nada "intelectualóide" no campo do cinema - e se há coisa de que goste é de ser "entretido" com coisas de série B, ficção científica, etc. O problema com os anéis é que não encaixam no dedo. Em nenhum dedo. A série promove-se como estando na linhagem de filmes e livros que retratam com detectivesca complexidade universos alternativos, dento dos quais o espectador ou leitor pode tornar-se num investigador da mitologia, do simbolismo, dos sistemas de classificação imaginados, etc (qual antropólogo, portanto). E creio que muita gente gosta da série por causa disso. Acontece, porém, que isso - o que é prometido - não é dado. O que, de facto, acontece na série, são duas coisas: cenas de guerra e cenas de guerra (OK, também um bocadinho de "aventura na floresta em busca do graal, confrontando-se os heróis com inúmeros perigos"). É certo que há uma ou outra cidade gira, e que as paisagens da Nova Zelândia são arrebatadoras. Mas... ponto final: o problema da série é que é, simplesmente, boring. Se o estado do imaginário contemporâneo se reduz a esta reciclagem bocejante de coisas mais bem feitas no passado, então confirma-se que o imaginário deixou de o ser, para passar a ser a mera expectativa do imaginário.

mva | 13:57|


20.12.03  

Cheira mal, cheira a Lisboa

De há uns meses para cá, quando o vento sopra de Sul e o céu está nublado, cheira pessimamente em Lisboa. O cheiro é igual ao que se sente quando se passa perto duma fábrica de papel. Não me lembro de este cheiro atingir Lisboa com esta frequência noutros Invernos (época em que é mais frequente o vento soprar de Sul e imediações). Ora, partindo do princípio de que o vento não sopra mais de Sul do que antes, ou alguma celulose (ou equivalente) está a produzir mais e/ou a emitir mais poluentes, ou construiu-se uma nova. Como é possível, então, que ninguém responsável venha falar sobre o assunto?

Um colega na Assembleia Municipal, do Partido Os Verdes, também referiu este assunto numa reunião duma Comissão. Todos os presentes disseram que nunca lhes cheirou mal e que isso "era mania dele". Eu pelo menos fiquei aliviado por saber que nada de errado se passa com as minhas narinas. E comecei logo a elaborar uma teoria selvagem sobre como as pessoas estão tão habituadas a sujeitarem-se a toda a espécie de porcarias que já nem notam novos ataques à ecologia...

Mas tenho a janela fechada. Neste momento, 12h50 do dia 20 de Dezembro de 2003, cheira HORRIVELMENTE lá fora. Quem estiver online agora, vá "ver"...

mva | 12:53|
 

A Ana Sá Lopes sabe o que diz.

mva | 12:09|


16.12.03  

Relatório Secreto do Comité das Nações Unidas para a Promoção da Racionalidade e da Liberdade

«Num pequeno país da periferia da Europa, um bando de sacerdotes de uma obscura seita, a ICAR - Igreja Católica Apostólica Romana (não confundir com IURD) desautorizou um dos seus membros por ter dito que o aborto poderia ser descriminalizado. Os feiticeiros - todos homesn e voluntários de uma estranha forma de sexualidade, conhecida como "abstinência" - são os herdeiros directos da instituição que durante séculos assassinou milhões de pessoas (índios, negros, judeus, bruxas, homossexuais, protestantes, etc.) e se calou perante o Holocausto. Numa viragem histórica nas suas prioridades, proclamam-se defensores da Vida. Sabendo que as mulheres podem ser presas caso pratiquem o clandestino aborto, manifestam os modernos bruxos um grande "amor e misericórdia" perante a situação das mulheres incriminadas. Curiosamente, os dicionários do dialecto falado no pequeno país, definem "amor" e "misericórdia" de forma absolutamente contrária à utilizada por eles, o que nos permite deduzir que, provavelmente, "Vida", no seu calão, não quer dizer "vida".

Na realidade, tudo indica que sob o lema da "Vida" se esconde o propósito conspirador de garantir o domínio público sobre os úteros das mulheres, a sua sexualidade e sobre o seu potencial reprodutivo. De outra forma não seria entendível que os movimentos civis promovidos pela seita, denominados "pró-Vida", falem de assuntos que nada têm a ver com a "vida", como sejam a homossexualidade, o divórcio, a pedofilia, etc. Estamos mesmo em crer que as atitudes destes sectores cabem na definição patológica de "inveja do útero". Num plano mais sociológico, tudo indica também que o principal propósito é a manutenção de uma instituição de inculcamento ideológico, de consumo e de divisão do trabalho conhecida como "família".

No mesmo país, existe uma sucursal civil e política da seita, denominada Partido Popular, dirigido por várias outras corporificações da repressão sexual. Este partido é parte minoritária da coligação no governo, mas exerce o controlo ideológico sobre este, uma vez que a parte maioritária é demasiado abrangente e centrista para ter verdadeiras opções ideológicas. Assim, e perante a ameaça do outro partido (denominado PSD) de descriminalizar os actos abortivos das mulheres ainda que mantendo a proibição do aborto, o referido PP invoca o pacto de sangue da coligação, que sacraliza um referendo sobre o assunto realizado em 1998.

Nesse referendo não houve quorum. Esse referendo não foi vinculativo. E o parlamento tem poderes para decidir sobre a lei do aborto mas não quer fazê-lo. Esta situação pantanosa é curiosamente partilhada pelos partidos que estão na esfera de influência da seita e por um outro que se encontra nos seus antípodas, denominado PCP; os primeiros dizem que o povo se expressou no referendo, pelo que não deve haver outro (também "referendo" deve querer dizer outra coisa); o último espera pacientemente por uma nova maioria parlamentar.

Mesmo que a alteração legislativa sugerida pelo PSD fosse para a frente, não só o aborto continuaria a ser proibido, como outras pessoas envolvidas em abortos que não as grávidas seriam perseguidas e punidas, quando, no caso das parteiras, estão a prestar o serviço clínico que o Estado se recusa a fazer.

Alternativamente, no país ao lado, existem clínicas onde se pratica o aborto, com base na mesma lei que vigora no pequeno país periférico. Numa reportagem televisiva pode-se constatar o aspecto civilizado das instalações e dos técnicos que lá trabalham. Quarenta e cinco por cento das clientes são do pequeno país periférico, um dos 3, entre os trinta e muitos países que constituem a Europa, onde o aborto é proibido (colocando assim o referido país no patamar civilizacional nº 3: "país em vias de desenvolvimento, com fraca expansão da racionalidade e limitações graves da liberdade").

Mas, além daquelas mulheres que recorrem às clínicas no país vizinho, o jornal de referência do pequeno país noticia que 11.000 mulheres recorreram num ano aos hospitais, na sequência de complicações geradas por abortos clandestinos.

Face à pressão do PP - que é, como quem diz, face à pressão da referida seita religiosa - o PSD recua e diz que a alteração legislativa só acontecerá via referendo mas nunca na actual legislatura.

Numa pequena cidade do pequeno país, várias pessoas são julgadas por aborto, um ano depois de o mesmo ter acontecido noutra localidade.

Conclusões: Sugerimos seriamente que os operativos da referida seita e do seu ramo político sejam acusados de associação criminosa e publicidade enganosa e confinados em campos de reeducação para a aprendizagem de ciências naturais, igualdade de género e sexualidade livre e responsável.

Nota: de modo a evitar interpretações erróneas, mais se declara que o pequeno país, cujo nome permanecerá secreto até à implementação das decisões que venham a ser tomadas, não é a Moldávia.»

mva | 22:50|


15.12.03  

A queda do império português



Caadá, de novo, o das invasões bárbaras e da "Queda do Império Americano". Duas mulheres portuguesas residentes no Canadá casaram-se no City Hall de Toronto. A SIC fez uma reportagem (de Conceição Lino). Devemos começar a habituar-nos à ENORME variedade de estilos de vida, gostos e opções, MESMO ENTRE gays e lésbicas. Este casamento é disso exemplo: eu não gostei nada do facto de uma das nubentes ir vestida de smoking, "à homem" (i.e., com um código de vestuário culturalmente simbolizador do papel masculino) e a outra de vestido de noiva, "á mulher". Mas significa isto que as despreze, ou critique por prestarem um mau serviço à imagem de gays e lésbicas? Não. Pelo menos esforço-me por isso. É que isto de ser lgbt não é como pertencer a um partido comunista, onde se debatem as opções estéticas e de estilo de vida em termos da sua maior ou menor "correcção". Aquelas mulheres fizeram "a sua coisa". E se ela inclui a reprodução de papéis de género, bem..., isso é com elas - mesmo que eu não me coiba de dizer que esse não é o meu estilo e que o acho constrangedor. E tenho que aceitar, com alguma resignação, que o público médio vai, naquelas imagens, confirmar muitas das suas expectativas estereotipadas sobre como os gays e lésbicas simplesmente simulam as relações hetero. O que há que celebrar é este casamento pelo seu significado simbólico para as lutas lgbt "em português". Mas, sobretudo, constatar como é necessário fugir, emigrar, REFUGIAR-SE noutros sítios para poder viver dignamente...

No mesmo dia, ficamos a saber que Durão Barroso vai ao casamento da filha de Eduardo dos Santos em Angola - uma ex-colónia do ex-império português. Dizem-nos que a visita é privada. Mas sendo ele primeiro-ministro, é impossível escapar à interpretação política. O homem vai a um casamento hetero, quando nem lhe passa pela cabeça propor a legalização de casamentos homo em Portugal; sobretudo, ele vai a um casamento da filha de um dos ditadores mais corruptos e nojentos que existem sobre a face da Terra. E o anúncio é feito no dia em que Durão se congratula com a prisão de Saddam, outro ditador corrupto e nojento.

Durão devia, sim, ir ao casamento do próximo par de portugueses ou portuguesas que tenham a felicidade de se casarem no City Hall de Toronto. Mas eu suspeito que vou morrer antes de ver isso acontecer aqui na santa terrinha...

mva | 20:03|


14.12.03  

As voltas trocadas I
Os bárbaros acampam na margem do Mystic

"As Invasões Bárbaras", de Dennis Arcand, é um filme que deixa um estranho sabor na boca: afinal ele está a criticar o estado social e a elogiar o neo-liberalismo, ou está a dizer-nos que nem uma coisa nem outra interessam verdadeiramente? Dadas as semelhanças entre o modelo do Québec e os modelos do norte da Europa, o filme quase que podia ser sobre esta: uma espécie de cansaço intelectual e político que leva a um desprezo desanimado, a roçar o elogio do mundo tal como o conhecemos depois de Reagan e Thatcher?

Algo de semelhante acontece com "Mystic River" de Clint Eastwood: não consegui gostar do filme. Quer Eastwood criticar (através da exposição) o profundo mal-estar do "contrato" social americano? Então porque se fica com a sensação de que não há saída que não seja o recurso a uma espécie de violência moralizante baseada na vontade pessoal?

Em ambos os casos há como que uma demissão, uma ausência de fôlego ético, uma recusa em pensar para lá da constatação dos impasses.

mva | 12:36|
 

As voltas trocadas II
Saddam e a Constituição Europeia

Praticamente no mesmo dia, Saddam foi capturado e a Constituição Europeia foi pelo cano abaixo. Saddam é uma criatura desprezível que alguém já devia ter capturado há muito tempo. Mas o resultado político vai ser o reforço das posições de Bush.

A Europa precisa duma Constituição. Mas não desta constituição, nem feita desta forma. Assim, ainda bem que esta tentativa falhou. Mas que resultados terá isto para o desejo - que eu partilho - de uma constituição democrática e com preocupações sociais, obtida através de um processo constituinte sério e representativo?

mva | 12:28|


8.12.03  

Más influências



Tenho estado debaixo da influência destas criaturas, chamadas virus da influenza. Em português, a coisa tomou o nome de "gripe". Anglicizando, estou sob a grip desta flu. Esta é a verdadeira doença social, pois basta respirarmos o mesmo ar, respirarmo-nos uns aos outros...

mva | 17:45|


6.12.03  

E afinal, um dia depois, Bragança fica ainda mais divertida...

mva | 12:02|


5.12.03  

Sexo!

"A LINGUAGEM CORPORAL DO AMOR NUMA VISÃO INTEGRAL DO HOMEM.
UNIVERSIDADE CATÓLICA PORTUGUESA, LISBOA, 28 E 29 DE NOVEMBRO DE 2003
CONCLUSÕES DO CONGRESSO
1. A partir sobretudo da “revolução sexual” tem-se verificado, nas sociedades contemporâneas, uma separação daquilo que a Natureza mantinha ligado: sexo, amor, matrimónio e filhos (família), para se chegar a uma situação de sexo sem amor, amor sem filhos, filhos sem sexo, com todas as terríveis consequências ao nível da estruturação básica destas mesmas sociedades: filhos sem pais, pais divorciados, a multiplicação de experiências afectivas que não satisfazem, traduzindo-se em uniões precárias, instáveis e não-duradouras, entre outras. " (Vejam o resto aqui)

Isto já não é simples opinião, ou questão de crença: isto é terrorismo. Eu, por exemplo, já pratiquei sexo sem amor e não me tornei num monstro do ponto de vista ético e moral; vivo uma relação de amor, sem filhos, e não admito que me acusem de "egoísmo hedonista" por isso; e conheço mulheres decentíssimas que tiveram filhos sem terem tido sexo (hetero). Estes eventos da Universidade Católica (uma contradição nos termos, mas enfim...) são actos propositados de exclusão e perseguição. Graças a d..., parece que a UC vai deixar de receber dinheiro do Estado e de participar no Conselho de Reitores. Será verdade?

PS: Do mesmo universo anti-escolha deste congresso,Telmo Correia do CDS diz que as mulheres não devem ser julgadas por aborto. Ao mesmo tempo elas estão a ser julgadas por aborto (em Aveiro, neste momento, por exemplo). Das duas uma: ou os anti-escolha se assumem e exigem que a lei seja cumprida (caso contrário estão a apelar ao seu não cumprimento), ou aceitam que o aborto não pode ser crime. Mas é claro que passar por uma gravidez e ter uma criança quando não se pode ou não se deseja deve ser para eles uma daquelas situações em que sexo e amor se unem harmoniosamente para manter a "estruturação básica da sociedade"....

PPS: Só para não esquecer algumas coisas simples e básicas: um embrião é um embrião, um feto é um feto, um ser humano é um ser humano.

mva | 18:42|
 

Bragança


(do livro Máscaras Portuguesas, de Benjamim Pereira)

Faz por esta altura vinte e tal anos estava eu debaixo de neve em Bragança. Fazíamos, eu e muitos colegas de licenciatura, umas pequenas pesquisas sobre as Festas dos Rapazes e as Festas de mascarados em geral, que acontecem nas aldeias ali à volta no período do Inverno. Como em todos os rituais de inversão, de tipo carnavalesco, em sociedades mais "tradicionais", a desordem parece ter o seu calendário bem certinho, como se aquilo que se louvasse fosse, afinal, o regresso à ordem. Mas a verdade é que, naqueles momentos rituais, as pessoas explicitam muito bem o que vai mal com as classificações que usam para se dividirem, hierarquizarem, etc. Gosto de pensar que é como se dissessem que "outro mundo é possível", para usar um slogan do campo oposto, a sociedade global.

Décadas depois, oiço falar de Bragança a propósito das mães da dita e das moças de alterne brasileiras. Por razões profissionais (mas, desta feita, por causa da pesquisa no Alentejo sobre masculinidade) sei muito bem o que são casas de alterne. E sei muito bem (ou julgo saber) o que sentem as mulheres que nelas trabalham (basicamente, são exploradas, têm que aturar homens muito pouco interessantes lá dentro e, na rua, mulheres que as tratam como aberrações).

Meses depois da globalização das mães de Bragança via Time, temos agora, como diz o Público de hoje, os "pais de Bragança" protestando contra a entrada de uma turma de ciganos numa escola local. O argumento, embora com alguns elementos específicos (por ex., a idade mais avançada dos "miúdos"), vai dar no mesmo que noutros casos: "não somos racistas, só não os queremos aqui". Subentende-se: não queremos os problemas que podem surgir. No limite, isto é compreensível, pois a exclusão gera comportamentos de desordem, de facto. Mas o que importa realçar é que o racismo é, na prática da vida em sociedade, isso mesmo - a existência de dois mundos, um de inclusão e um de exclusão. O racismo não é mera inclinação psicológica, defeito de carácter ou um conjunto de atitudes baseado apenas no preconceito "racial". Ele é o conjunto de relações sociais que perpetuam aquele esquema dual, numa escala hierárquica.

Soluções? Não sei. Experimente-se; aprenda-se com outras experiências. Mas quando me lembro dos rapazes envergando as suas máscaras nas aldeias ali à volta, não consigo deixar de pensar como seria engraçado que um dia Bragança experimentasse outras inversões. Por exemplo, que pudesse vir a ter uma presidente da Câmara brasileira, de profissão alternista, e um director de escola cigano, de profissão feirante.

PS: As mães de Bragança com certeza usam batôn e pintam o cabelo de loiro, se bem que tudo coroado com um cachecol Burberry's de padrão escocês beige, castanho e cinzento. Os pais de Bragança com certeza compraram o cachecol numa feira a um cigano, pois o produto original é demasiado caro. O cachecol foi presente de Natal. Nesse dia, a cinco km de distância, os rapazes duma aldeia correm atrás das moças vestidos de diabos. Depois da consoada, os pais de Bragança vão à casa de alterne. A rapariga brasileira dança com um deles, mas pensa no presente que mandou para a mãe em Cumuruxutiba do Sul. Um cigano tirita de frio no seu apartamento do bairro social. Não há-de uma pessoa de vez em quando resvalar para o neo-realismo...

mva | 18:19|


3.12.03  

Para quem pense (mesmo depois da Maia) que a lei anti-aborto não se aplica na prática...

"Fomos hoje surpreeendidas por uma notícia da SIC Notícias de um julgamento que está a decorrer em Aveiro, cujos réus são 1 médico, uma irmã do médico e a sua empregada e 7 mulheres acusadas de aborto e 7 familiares próximos dessas mulheres. Na última 6ª feira foram presas mais 2 parteiras em Oeiras, que foram levadas para a prisão de Tires, a juntar às 3 que já tinham sido detidas em Agosto passado. Em todas as situações foram também notificadas mulheres." (dum mail recebido hoje).

mva | 22:15|
 

Por um novo referendo sobre o aborto

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Este agora é "a sério" (o da Espanha era "a brincar", como tudo o que tenha a ver com nações e nacionalismos...). Nunca é demais lembrar: está a circular uma petição para um novo referendo sobre o aborto. Já se recolheram muitas assinaturas, mas há que crescer, crescer, crescer. Aqui estão as folhas para cada um/uma recolher assinaturas junto dos seus e suas

mva | 15:19|
 

Prémios Arco-íris

A ILGA-Portugal atribuiu prémios a duas figuras dos media: Ana Marques e Gabriela Moita. Aqui está o texto. Premiar pela positiva é extremamente importante - pelas razões que o texto explica. Talvez um dia se comece também a "Premiar pela negativa". O pior é que as candidaturas aos Globos de Ouro (de Ferro Enferrujado?) da Homofobia serão tantas e por razões tão horrendas, que o júri morrerá de overdose...

mva | 15:16|


1.12.03  

Petição para um referendo do 1º de Dezembro

Petición / petição /petició / eskatuta

- ¿Quiere ud. una federación, con regimen republicano y autonómico, entre Portugal y España?
- Quer uma federação, com regime republicano e autonómico, entre Portugal e Espanha?
- Voleu una federació, amb règim republican i autonòmic, entre Portugal i Espanya?
- (Peço desculpa, mas não faço ideia como se diz em basco...)



mva | 14:11|