OS TEMPOS QUE CORREM. Miguel Vale de Almeida


29.9.03  

Português


Este aviso vinha dentro de um maço de Português Suave. Quer isto dizer que agora já nem "suaves" podemos ser. Apenas Portugueses. E como os maços vão ter aqueles avisos terríveis, no caso desta marca ficaremos avisados de que "Português... mata" ou "prejudica gravemente a saúde". Boa. Podiam era ter mudado o nome da marca para "Governo" ou "Comissão Europeia".

mva | 16:34|


28.9.03  

Rabidantes



A minha amiga e colega Marzia Grassi lançou o seu livro "Rabidantes: Comércio Expontâneo Transnacional em Cabo Verde". Fala das mulheres que viajam constantemente entre CV, Brasil, Portugal, Estados Unidos, Senegal, etc, para comprarem produtos para revenda nos mercados. Como não pude estar no lançamento, encomendei flores para serem entregues na livraria. Desloquei-me à florista (porque o site na net não funciona como deve ser - aliás, nenhum dos sites de flores portugueses funciona como deve ser...), encomendei e paguei. Aparentemente não foram entregues. Alguém me explica uma coisa: quando é que a economia de mercado começa a funcionar de vez por estas bandas? Já que temos capitalismo, não podemos ao menos ter um capitalismo que funcione? Não tarda nada, o melhor mesmo é pedirmos às rabidantes para tomarem conta da coisa...

mva | 19:13|
 

Marcha branca

Não estive cá quando foi a marcha branca. Mas não teria ido. Vejo agora nos jornais que não se referiu a presença de várias organizações lgbt. Concordo que os meus amigos e amigas tenham ido marcar presença e posição. Mas eu não conseguiria engolir uma manifestação daquelas, pois tremo com tudo o que envolva um possível (note-se: possível) justiceirismo em torno de crianças. Sobretudo quando há décadas que as crianças são abusadas em famílias e instituições, sem qualquer intervenção real das mesmas ou das autoridades. O abuso sexual de menores é um nojo. Mas igualmente nojenta é a hipocrisia dominante, o jogo político-judiciário-mediático que se está a fazer e o moralismo descabido e prossecutório contra pessoas e identidades que não estão necessariamente ligadas ao abuso sexual. A angelização dá sempre em demonização de alguém. Protestar contra o abuso sexual, neste momento e em Portugal, só faz sentido se for também um protesto contra aqueles aspectos. E participar ou não numa marcha destas não é nem pode ser o padrão de medida da atitude ética e política sobre o assunto.

mva | 18:50|
 

Home's where the heart is

De regresso da Suécia. Um universo de pessoas hirtas e aflitas, sem dúvida. Mas limpo, organizado, decente. No caminho de Goteburgo para o aeroporto, os lagos largam o "fumo" da geada evaporando. Três dias duma feira do livro apinhada de gente ouvindo seminários sobre tudo e mais alguma coisa, muitas delas as mesmas pessoas que enchiam o estádio ao lado (moral da história: pode-se ter uma sociedade onde cultura e divertimento vão de mãos dadas). Ao chegar a Lisboa, a feiura absoluta do percurso aeroporto-segunda circular- eixo norte-sul, etc. A incivilidade geral, a começar pelos taxistas. No aeroporto, quatro rapazes de 20 anos da empresa dos carrinhos para bagagens; um inglês pede-lhes uma informação qualquer. Nenhum deles sabe uma palavra de inglês. Em trinta anos de democracia, que fizemos com a educação para isto acontecer? Mais: em trinta anos de democracia que fizemos para alterar a estrutura de classes? Para uma pergunta ingénua, uma resposta ingénua: garantimos que o sistema educativo fosse suficientemente merdoso para reproduzir a velha estrutura de classes...

Só quando volto do chamado "terceiro mundo" é que sinto algum alívio por estar em Lisboa. Quando volto do "primeiro" a sensação é deprimente. Fecho os olhos, conto até três, e penso em chegar a casa e abraçar quem amo. Neste "segundo mundo" só se sobrevive justificando-o com o célebre ditado inglês...

mva | 18:41|


23.9.03  

Conceitos genéricos

Na farmácia. Peço paracetamol genérico. "Não há", diz o empregado, "não dá lucro às empresas". Protesto um pouco, dizendo que remédios e saúde não é o mesmo que rebuçados e ele admoesta-me dizendo que vivemos numa "sociedade de mercado, não numa... numa... de...". Não quis que ele passasse pela vergonha de dizer "democracia" e interpelei-o: "Economia de mercado, ainda vai, agora sociedade de mercado...".

Há dias, em Itália, comprei uma caixa de n carteiras de Nimesulide (um anti-inflamatório) genérico por 2 euros. Quanto custará por cá?

mva | 12:55|
 

Divirtam-se com os cartoons do Mark Fiore!

mva | 00:30|


22.9.03  

Ó tempo, volta pra trás

O nome da activista lésbica Fabíola Cardoso foi proposto para representar Portugal na parte lgbt do próximo Fórum Social Europeu, em Paris. Como as decisões do Fórum Social Português são tomadas por consenso (um absurdo utópico, mas isso é outra história...), o nome acabou por não ser aceite porque uma pessoa vetou-o. Essa pessoa foi o dirigente de uma associação lgbt, a Opus Gay. A justificação para o veto foi que não houve busca de consenso entre as outras organizações e a Opus Gay. Mas muita da argumentação sugere que essa falta de comunicação e o nome da Fabíola confirmariam a tentativa de manipulação do movimento lgbt por parte do Bloco de Esquerda.

O que esta situação absurda e patética confirma é o caos desagradável que já se vivera no FSP: "movimentos sociais" obcecados com os partidos, vendo em todo o lado o perigo da manipulação partidária, numa obsessão mais própria do populismo demagógico anti-político do que da área da emancipação; e partidos políticos e seus satélites (sobretudo na área do PC) preocupadíssimos em como não deixar os movimentos sociais ganharem dinâmicas desafectadas das cartilhas ideológicas. Ao contrário de algum wishful thinking o FSP não deu nada de muito novo à política portuguesa com p grande nem promete nada de especial (eu não sei o que é a alter-globalização proposta porque nunca ninguém me disse se ela está do lado da regulação ou da revolução, ou de qualquer outra coisa acabada em ão). Os movimentos sociais são uma joke e os partidos da esquerda são tristes grupos enquistados (como o PC) ou nebulosas titubeantes, como o PS.

Claro que sou suspeito na minha opinião: acho que, neste panorama, o BE ainda promete qualquer coisa de interessante, e acho que o movimento social lgbt deu um salto qualitativo no FSP. É sintomático, pois, que seja o BE o papão para certos sectores, assim como é sintomático que seja o movimento lgbt o mais atingido por estratégias divisionistas e paranóicas.

Acabem com o BE e com o movimento lgbt e poderemos todos regressar, descansados, ao remanso do país podre e patriarcal, onde então nos poderemos dedicar à queixa constante.

Bem haja, Opus Dei, perdão, Opus Gay.

mva | 16:53|
 

O deserto e o esgoto

Uma das consequências da cultura católica profunda em que navegamos é a estética (e a ética...) dos extremos. Isso é mais evidente na sexualidade e nos afectos, até entre as sexualidades ditas alternativas. Ao longo de anos vi os mesmos padrões repetirem-se na maioria das pessoas: ou vivem as paixões e as relações como autênticas experiências místicas e transcendentes, ou vivem a promiscuidade como uma espécie de iconoclástica descida aos infernos. Ou fazem a travessia do deserto, a velha técnica purificadora dos místicos, ou afundam-se nos esgotos do que (elas) vêem como sendo sujo. O mesmo sistema dicotómico se aplica a apreciações da literatura e da arte, ao mundo da fantasia, à religiosidade, à sexualidade, etc., em suma, ao universo vasto da experiência sensorial e sensível. No campo do machismo isto tem a expressão clássica no duplo padrão da Mãe e da Puta, ficando tudo o resto remetido para a sensaboria e o desinteresse. No universo gay isto exprime-se na dicotomia entre o êxtase da paixão pura, dilacerante e incumprida (o insuportável "Morte em Veneza") ou as masmorras escuras e húmidas da promiscuidade anónima do sexo rápido. Tudo o que fica pelo meio é visto como uma sensaboria de casal. As pessoas sentem-se espartilhadas entre expectativas de paixões mais fortes e mais verdadeiras do que as dos outros, e incitamentos a muito sexo, com muita gente, com muitos orgasmos.

Atrever-me ia a dizer que esta lógica (?) profunda se manifesta também na política e visões do mundo: os desejos utópicos ou de manutenção absoluta da tradição e bons costumes, por um lado, ou da revolução absoluta para construir o mundo de novo são absolutamente irracionais e, em última instância, perigosas e violentas. Pelo meio, vota-se ao desprezo das coisas moles quem fale em reformismo, bom-senso, gradualismo, social-democracia ou semelhantes.

Que tristeza termos que viver com este "catolicismo" disseminado. Onde ficam, no meio disto, as obras de arte, as relações, as emoções e os projectos colectivos leves, simples, alegres, e divertidos onde se possa ser simplesmente humano e não uma personagem bíblica, um homem novo, um superhomem ou um nietzschiano?

mva | 15:46|
 

Fumar mata, ou o triunfo da magia

Pronto, já está. Os maços de tabaco em Portugal já ostentam, a letras gordas e em estilo obituário, o aviso "Fumar mata". Proponho que todos os fumadores passem a usar cigarreiras ou aqueles estojos onde se coloca o maço. Não podemos permitir que esta campanha terrorista surta efeito. Para mais, é uma campanha mentirosa, pois dizer, assim, que "Fumar mata" é uma mentira do ponto de vista científico. Só deveremos aceitar estes avisos quando também colocarem nos carros que respirar escapes mata, ou avisarem, nos restaurantes, que até a carne grelhada é cancerígena.

Aliás, esta coisa do tabaco tem muito que se lhe diga. A maior parte das pessoas adere e aceita este tipo de campanha. Ela ajuda a criar o ambiente de pensamento mágico e irracional em que vivemos cada vez mais. Senão, vejamos: o pensamento mágico precisa de acções ritualísticas que supostamente têm um efeito esperado. Assim, deixar de fumar seria equivalente a evitar um cancro (o que é uma mentira, apenas diminui as probabilidades); o pensamento mágico precisa de relaçãos causa-efeito simplistas, com um só agente; o cigarro está a ser transformado nesse agente. E o pensamento mágico precisa de moralizar sobre comportamentos específicos das pessoas, condenando-se, neste caso, o fumar como uma imoralidade suja. Por fim, o pensamento mágico propicia a criação de bodes expiatórios: daqui a pouco o fumador é, ele mesmo, o agente causador do mal. Isto já aconteceu nos EUA e não seria mau, neste caso, um pouco de anti-americanismo entre nós...

Tudo isto é feito e publicitado e reproduzido com a alegria e a energia própria dos patetas ignorantes. É assim, por exemplo, que a TV dá tempo de antena às barbaridades místicas de uma Alexandra Solnado, que pretende que as pessoas se podem curar de doenças ascendendo ao Céu (what?!), recebendo energias e outras tontices que são transmitidas como factualidades e não como (o que mesmo assim seria inaceitável) metáforas. São transmitidas como técnicas, não como crenças.

A classe médica, entretanto, resiste a formas de medicina alternativa que têm a mesma base da medicina oficial, como a homeopatia. Deveria concentrar as suas energias em combater a irracionalidade que por aí anda. Só que não pode: porque teria que renegar todo o apoio que tem dado ao pensamento mágico do anti-tabagismo.

mva | 15:22|
 

Anjos e demónios

O empregado do café onde vou - homem atento e inteligente - pergunta-me se li o editorial Saraiviano no "Expresso". Lá lhe expliquei que não compro o pasquim há muito tempo e que não percebo como ele sobrevive e lhe é dado crédito. Ele estava chocado porque aparentemente o editorial referia, a propósito do "caso do Parque" que, se havia figuras públicas "com desvios" envolvidas, era caso para saber onde andam agora e que consequências tem na governação a sua "tara". Daqui ao estado policial-moral são dois passos. Que eu saiba o caso do Parque tem a ver com prostituição. É altura de acabar com estas insinuações constantes de que a homossexualidade é um defeito e a "verdadeira" raiz de casos Casa Pia, etc. A pergunta que se impõe é: se Casas Pias, Parques, etc, tivessem a ver com relações heterossexuais, teriam a gravidade e a publicidade que têm? Claro que não. E isso é tremendamente assustador: pelo que revela de machismo e desprezo pelas mulheres, pelo que revela de homofobia e ignorância. Já está claríssimo que a condenação moral e social no caso Casa Pia passa sobretudo pela homossexualidade, com a "desculpa" da pedofilia e do abuso sexual de menores. Um dia destes, juízes, PJ, jornalistas, etc., deveriam ser confrontados com a coisa abjecta que estão a fazer ou a permitir que se faça: o incitamento ao ódio e à discriminação. Fazem-no com tanto mais despudor quanto usam as crianças como arma de arremesso, angelizando-as ao extremo. Para criar demónios é preciso inventar anjos. Acontece que nem uns nem outros existem. Apenas existem pessoas preconceituosas, ignorantes e/ou mal-formadas: e elas estão across the board, entre acusados e acusadores. Por fim, só num país bárbaro é que existe uma lei que especifica "actos homossexuais" como uma categoria punível e agravante. A UE já disse que essa barbaridade deve sair da lei. Para quando, então, o saneamento? É que, entretanto, é ela que permite que a homossexualidade seja livremente referida como incriminante. E não apenas, como deveria ser, o abuso sexual - seja de quem for.

mva | 15:12|


21.9.03  

Apostasia

Estão fartos de contribuir para a estatística pouco fiável do número de católicos (em Portugal ou no mundo)? Irrita-vos saber que há um papelinho algures numa paróquia dizendo que foram baptizados na Igreja Católica? A vossa inteligência não aceita já o conteúdo do ritual a que foram submetidos (look it up...)? Há uma maneira de dar a volta a isso que não passa por um simples encolher de ombros acompanhado da frase "fui baptizado, mas não sou católico". Em muitos casos o baptismo foi o resultado de uma inércia cultural, de um hábito, de pressões familiares, de desejo de cumprir convenções (e, em todos os casos, foi uma decisão de pais e familiares). Isto percebe-se perfeitamente, mas não justifica que, chegados à idade da razão, não façamos algo para repor as coisas num pé que corresponda à nossa visão do mundo. Isso é não só possível no seio da Igreja Católica, como é, obviamente, um direito humano e de cidadania inalienável. Basta escrever uma carta à Diocese declarando "Apostasia". Há um site que ajuda a fazê-lo.

mva | 12:00|


11.9.03  

Em Italia, sem acentos

Ha varios dias que nao blogo e agora faço-o muito rapidamente, apenas para dar sinais de vida. Faço-o sem acentos, porque o teclado ee italiano. O desabafo ee simples e nao requer grande acentuaçao: viajar estaa a tornar-se uma chatice. Cansa. Ee complicado. E jaa nada parece muito novo. Os simples de espirito diriam que isso tem a ver com a idade. Nao tem. Tem a ver com a descoberta lenta - e com muita repetiçao de erros pelo meio - de como ee facil uma viagem ser uma maçada e como ee dificil ser um sucesso. Jaa viajei de interail e mochila, com e sem dinheiro, jaa fiquei em hoteis excelentes e pensoes duvidosas, jaa andei centenas de kms a pee e atravessei n fusos horarios, jaa estive horrivelmente sozinho e jaa estive maravilhosamente sozinho, jaa estive com amigos maravilhosos e jaa estive com amigos que deixaram de o ser . Tanta quilometragem e modalidade de viagem permitem-me concluir que so gosto de dois tipos de viagem: aquela em que se fica em casa de amigos de quem se gosta mesmo, conhecendo a sua vida, de preferencia numa agradavel cidade cosmopolita; e aquela em que se aluga uma casa, com livros, net e praia. Tudo o resto estaa a tornar-se numa canseira: aeroportos, carros de aluguer, linguas e habitos estrangeiros, locais supostamente charmosos mas que sao buracos de sujeira e pobreza, paisagens supostamente lindas mas alergogeenicas, horas a procurar estradas e sitios que nao existem (e quanod existem era melhor que nao existissem), turistas e respectivas armadilhas para, e mesmo as viagens de congressos, com a histeria de ouvir tudo e a depressao de nao ser ouvido. Para chatices e trabalhos em lugares remotos jaa me basta a profissao de antropologo....
Agora, basta: vou planear meticulosamente as proximas ferias de modo a encontrar uma bela casa confortavel aa beira-mar, a curta distancia de uma boa cidade com livrarias, cinemas com filmes legendados e sem pobreza aa volta. Dicas?

mva | 16:56|