Ironia pós-colonial A "Operação Triunfo" consagrou, no serviço público de TV, uma denominação inaugurada pela TVI aquando do Big Brother: tratar os telespectadores por "Os Portugueses". Já o cientista social Benedict Anderson havia referido que as nações são em grande medida "comunidades imaginadas", sobretudo desde o surgimento da imprensa escrita numa língua normativizada, gerando assim a sensação de se partilhar algo com pessoas que nunca conheceremos na vida, apenas porque o universo-alvo do jornal é o país e este é endereçado no mesmo código linguístico. Mas esta coisa de tratar as pessoas por "portugueses" vai mais longe, porque imagina uma comunidade onde toda a gente se sente portuguesa e parte do princípio de que essa é a definição mais importante da sua identidade (na realidade, o que une as pessoas que vêem um programa de TV é verem um programa de TV...). A RTP decidiu alienar todos os não-portugueses (e são centenas de milhar) que vivem neste Estado. Bravo! Mas ontem houve uma curiosa e paradoxal vingança. Como já se previa que a concorrente de origem assumidamente caboverdiana iria ficar no podium, a RTP tratou de garantir uma ligação à Praia. Lá, tanto a repórter local, como os seus entrevistados, deram incessantemente os parabéns à Sofia (a concorrente de origem caboverdiana) e ao Filipe (outro dos vencedore, juntamente com Joana). Falta de educação à parte (a branca e loira Joana foi totalmente excluída dos comentários caboverdianos), acontece que um curioso caso de "racialização" aconteceu ali. É que Filipe é fenotipicamente (i.e., na aparência exterior, cor da pele, etc) alguém que dá a entender ter alguma origem negra. É um facto: é filho de um senhor de pele escura, de origem moçambicana, e de uma senhora de pele branca, portuguesa. Quanto a Cabo Verde na história da família...népia, como sói dizer-se. Esta inversão pós-colonial das categorias coloniais de classificação "racial" mostra como estamos todos prisioneiros do mesmo sistema idiota. Em Cabo Verde partiram do princípio que também o Filipe seria caboverdiano. Na "vingança" do abuso da expressão "Os Portugueses", os Caboverdianos abusaram ao contrário. (Outra história seria dissertar sobre as questões de poder em causa, isto é, a "vingança" do emigrante que se vê a ganhar aos do país de acolhimento - o mesmo que foi potência colonial e que "acolheu" os caboverdianos nos anos 70 como perigosos violadores armados de facas...)
Abuso Geral II Pois é. Pode o Presidente da República apelar à serenidade e à confiança, como aliás deve. Só que ninguém se sente sereno e confiante. Podem os magistrados insistir - aliás, com alguma soberba - na sua independência. Só que niguém acredita mesmo. Podem ministras absolutamente improváveis como Cardona usar o discurso de Estado, que ninguém acredita (desde quando a extrema direita no poder - e não eleita para tal - pode dar lições de democracia, quando o seu projecto é todo ele anti-democrático e pela restrição das liberdades?). Até mesmo o discurso de alguns dirigentes do PS assusta, pois a ideia de que existe uma cabala contribui mais para o medo do que para o esclarecimento. Creio que, neste momento, quem tem obrigação ética e cívica de esclarecer-nos é o poder judicial. Esclarecer a opinião pública. Fazê-lo não significa abdicar da sua independência nem quebrar "segredos" (grandes segredos, a julgar pelo que a comunicação social faz com eles!), significa ser decente e ponto. No meio desta sensação de mais do mesmo (Portugal no seu "melhor"), honra seja feita ao artigo de Augusto Santos Silva no "Público" de ontem.
Um pouco de fantasia Um número largo de portugueses pronuncia várias vezes por semana a expressão "quem me dera viver noutro sítio" ou, pior ainda, "porque raio me calhou na sorte nascer aqui?". De facto, há algo de estranho nesta coisa da nacionalidade. Se até mesmo, por exemplo, nascer homem ou mulher, sendo um dado da natureza, não significa nada quanto ao modelo de masculinidade ou feminilidade que se desenvolve, menos "natural" ainda é ser português ou inglês ou swahili. Toda a gente devia nascer com a nacionalidade "suspensa e provisória" até à idade de escolher. Mas,na realidade, não se escolheria a nacionalidade - pois aí toda a gente escolheria a que trouxesse mais vantagens. Não. A nacionalidade poderia ser como um emprego, ao qual se concorria. Os Estados necessitariam de todo o tipo de gente, mas Estados melhores escolheriam pessoas "melhores", isto é, capazes de cumprir os requisitos da "job description", neste caso o exercício dos deveres (e direitos) de cidadania. Claro que, em última instância, isto acabaria com os Estados-Nação, pois seriam "contratadas" pessoas com diferentes línguas e culturas. Mas isso seria delicioso. Acabar com as nações, isto é. E pelo caminho construir Estados (no sentido emancipatório de colectividades regidas por um contrato social) mais justos. Right. Keep dreaming, baby.
Abuso Geral Será ainda possível dizer "serenamente" (como agora se usa) que se deve confiar na justiça e nas instituições, esperando que "toda a verdade" venha ao de cima, que os "responsáveis" sejam punidos e o país volte a uma qualquer normalidade? Dizê-lo, é possível. Desejá-lo, ainda mais. Mas a sensação desagradável que assalta muita gente é a de que o país está de rastos. Já não se trata apenas do espanto sentido ao descobrir os casos de abuso sexual, a existência de redes e - a meu ver, o maior dos problemas nesta história toda - a irresponsabilidade criminosa das instituições e de quem tutelou e tutela a Casa Pia. Agora é o espanto perante a fragilidade de tudo: da justiça, da ética política, da ética jornalística, das fugas de informação, do clima de caça às bruxas e, sobretudo, perante a confirmação de que a "sociedade" é bem mais hipócrita do que aquilo que tanta gente sempre disse. Duvido muito que o sistema político e judiciário, numa democracia recente e frágil como a nossa, "amparada" por um povo pouco letrado e pouco cívico, sobreviva a isto tudo. Mais do que "mãos limpas", temo que comecem a surgir apelos de desinfecção e desinfestação geral. De quarentena. Não que não seja preciso. O medo é que, quando essa necessidade surge, ela é a situação ideal para todas as tentações totalitárias e purificadoras. A coisa está preta. E nós começamos a sentir-nos como aqueles miúdos abusados que, mais ainda do que a sua autonomia sexual, deverão ter perdido a confiança nos outros e nas instituições. Pela parte que me toca, dou por mim a desconfiar de tudo o que oiço e leio. E essa é uma das piores sensações. Dos miúdos da Casa Pia, ao modelo português de prisão preventiva; do "segredo de justiça" à "obrigação jornalística de informar"; dos apelos à "serenidade" dos bonzos do governo às suspeitas sobre as escutas telefónicas - tudo são sinais de abuso generalizado das gentes.
Da varanda do Bar Entretanto, no hotel do Chiado, disfruta-se de uma vista fabulosa de Lisboa. Tudo parece bater certo: a harmonia da arquitectura, a cor do rio, a luz, o ar. Dir-se-ia que, ali em baixo na Baixa (!), qualquer coisa de civilizado, cuidadoso e atento se mexe. A certa altura o telemóvel toca e uma amiga diz que está a ver-me. Viro-me e lá está ela, a acenar de umas águas furtadas da Baixa. Até nisto as coisas parecem estar bem: intimidade e comunicação no meio de uma cidade. Mas, afinal, isto é um postal. A razão porque estava naquele bar era para ouvir um amigo contar-me os problemas que tem tido com a realização do Festival de Cinema Gay e Lésbico de Lisboa. A Câmara retirou o apoio financeiro. Lá fora, nas capitais onde festivais congéneres fazem parte indissociável do panorama cultural e turístico, a perplexidade foi total, pois o festival lisboeta já começava a ser falado. Como o racismo no Brasil (e por cá também...) a homofobia em Portugal faz-se de silêncios e silenciamentos, quando não de culpabilizações das vítimas ("para que se mexem vocês, porque falam tanto do assunto, as coisas não estão bem como estão, não se trata de uma questão de vida privada em que ninguém se mete"?). Não, não se trata de uma questão de vida privada. Poder aceder a imagens e representações da alteridade, através do cinema e do audio-visual é, hoje, a forma primeira de ajudar a criar identidades sólidas e de ajudar a sociedade toda a criar, não tolerância, mas gosto genuíno pela diversidade. A imagem de postal de Lisboa que se tem daquela varanda poderia, afinal, ter sido obtida nos anos quarenta, quando as mulheres nem aos cafés podiam ir.
O que os actuais poderes de direita desejam é simplesmente isto: conciliar velhos maus-hábitos de silenciamento de tudo o que não seja a norma, com formas neo-liberais de poder fazer dinheiro fácil sem responsabilidade social. O projecto neo-conservador em Portugal quer modernidade e liberdade absoluta nos negócios, sem modernização nas liberdades ou na justiça social. Se isto se aplica à questão sexual, aplica-se também à questão da imigração e do multiculturalismo, ao trabalho e aos serviços públicos, ao ambiente e à comunicação social. Se não tomamos cuidado, teremos em breve as cidades e o país geridos por homens de cabelo repuxado a gel, assessorados por um batalhão de falsas louras, julgando que vivem numa modernidade que medem pelo telemóvel e pelo jeep quando, de facto, eles são apenas as marionetas de um jogo decidido por empreiteiros, futeboleiros e evasores de impostos. E esta espécie não consegue respirar num ambiente de liberdades, porque o segredo do jogo está na duplicidade e na capacidade de chantagear os outros. Capitalismo sem modernidade, é o lema deles (e delas).
O Novo Colonialismo II Ainda a propósito do novo colonialismo no Iraque. Outra característica colonial - especificamente britânica - pode ser reencontrada na estratégia americana. Tinham os ingleses uma política chamada de indirect rule, isto é, delegavam em elites ou grupos da colónia, a tarefa de administrá-la. Conseguiam assim duas coisas: administrar com mais eficácia (os locais conheciam o terreno) e legitimar a ocupação. Para tal era muito importante jogar com as divisões étnicas e/ou religiosas da colónia. E uma série de políticas retrógradas podiam ser implementadas com a justificação de que se estaria a respeitar "tradições" locais. No que se vai ouvindo sobre o Iraque e a implantação da civilização (perdão, da "democracia") é confrangedor verificar os parâmetros de inclusão/exclusão usados e as variáveis privilegiadas na classificação de grupos e pessoas. Por um lado, as mulheres estão a ser postas de lado; por outro, há uma confusão entre grupos étnicos e religiosos. Quem parece estar ausente de tudo isto são os grupos socio-económicos (que, lá, não coincidem com grupos étnicos) e a noção mesma de cidadão/cidadã, que estará na base da democracia. Os especialistas no mundo árabe saberão mais do que eu sobre isto, mas é bem possível que, ao escamotear a estrutura "tribal" ou linhageira do Iraque (reforçando mais os grandes grupos étnico-religiosos) se esteja a construir esses mesmos grupos; para mais com uma certa inclinação para lhes dar território. Nation building é como eles gostam de chamar a isto. Olhem para a África ex-colonizada (no sentido estrito...) e vejam no que deu. O Iraque estava sob o jugo de um ditador inqualificável e de um sistema de partido único. Mas a verdade é que um efeito colateral disso foi a relativa laicização da sociedade, o surgimento de classes médias, de uma burocracia de serviço público e, sobretudo, de uma considerável emancipação feminina. A reificação de "sunitas" e "xiitas" - já para não falar de curdos - não fará tudo isto regredir?
Só para chatear alguns marialvas provincianos que ficam histéricos (sim, como as "gajas" e os "maricas"...) quando se começa a falar de adopção também por casais do mesmo sexo. Estas imagens fazem parte de um de muitos livros infantis disponíveis nos EUA (e não só) dirigidos às crianças de famílias menos convencionais. Thanks to Bobbie Combs, Desiree Keane, Brian Rappa, authors of "ABC, A Family Alphabet Book", published by Two Lives Publishing ("Creating books for children in alternative families"): I hope you understand that this breach in copyright ethics is for the good cause of providing Portuguese bloggers with civic and educational materials that are totally unavailable in Portugal...
De repente, a opinião pública portuguesa acha maioritariamente que a Guerra contra o Iraque valeu a pena. Já era de esperar, terminada a fase de invasão da guerra e revelados os crimes de Saddam. Mas acontece que nem a guerra acabou nem a violência desaparece com o calar dos canhões. Estamos a assitir no Iraque ao regresso do colonialismo. Não se trata de uma típica intervenção americana nem de uma guerra declarada por ambas as partes. Trata-se de outra coisa. Faça-se uma breve comparação entre as características do colonialismo moderno (séculos 19 e 20) e o que se passa no Iraque hoje. O colonialismo baseava-se na ocupação militar e administrativa de um território; o mesmo acontece no Iraque. O colonialismo tinha uma forte motivação económica, em torno, por exemplo, do controlo das matérias primas; o mesmo acontece no Iraque com o petróleo. O colonialismo servia ideologicamente para glorificar a superioridade do colonizador; o Iraque serve para mostrar o poder unipolar dos EUA. O colonialismo usava a retórica da necessidade de civilizar os selvagens ou qualquer outra "missão"; os EUA vão levar a "democracia" ao Iraque. O colonialismo construía narrativas sobre os colonizados que os definiam - contraditoriamente, aliás - como "crianças", "atrasados", "perigosos" e "irracionais"; veja-se o discurso actual sobre os iraquianos, árabes e muçulmanos em geral. Por fim, os colonialismos rivalizavam uns com os outros no domínio do mundo e na construção de imagens de superioridade de cada "nação" colonizadora; veja-se o que, no fundo, está na base da disputa entre os EUA e a França. A única coisa em que parece haver diferença é na noção de soberania, algo que os EUA não reclamam em relação ao Iraque. Chamemos-lhe, então, Novo Colonialismo. Agora admirem-se se começar a haver movimentos de libertação no Iraque, massacres de colonos ou o surgimento de discursos racistas (ou, na versão do Novo Colonialismo, fundamentalistas) de sinal contrário.Daqui a 20 anos, a opinião pública portuguesa perceberá o que é que valeu a pena...
Parece que Francisco Assis foi corrido de Felgueiras a murro e pontapé. Não quero parecer o Pulido Valente, mas de facto estes incidentes mostram como nada mudou. Não desde a adesão à UE, ou desde o 25 de Abril. Desde o século 19! Fátima Felgueiras foge à Justiça e o "Povo" aclama. É acusada de crimes graves e o "povo" acha que foram cometidos em nome dele. Mas este é o mesmo "povo" que desdenha a classe política e a própria política. O mesmo que é capaz de dizer sem vergonha que preferiria ter um ditador. Acontece que são as Fátimas Felgueiras que criam, com os seus actos, as condições para que, depois, o "povo" ache que a política é uma coisa desprezível. É este o mecanismo perverso do populismo e do caciquismo: incitar as massas contra um poder que o próprio incitador está a exercer, só que (supostamente) de forma "abnegada", como "um bom pai (ou mãe...)", e não como os "outros". Trinta anos de democracia, não-sei-quantos de fundos comunitários, e não se conseguiu criar neste país uma massa educada e com consciência cívica. Reproduziu-se apenas, num outro plano, o regionalismo caciquista, o paternalismo e as relações de clientela. Disto tudo, só espero raivosamente três coisas: que Fátima Felgueiras seja apanhada e julgada, que os agressores de Assis (e quem os incitou) sejam indiciados e punidos, e que o PS, já agora, reflicta sobre tudo o que aconteceu em Felgueiras nos últimos anos e não apenas nos últimos dias.
Pois é, o livro do Frederico Lourenço chama-se "Pode um DESEJO imenso" e não um "coração imenso". Devo ter sido "contaminado" pela imagem da capa do livro do Daniel. A propósito, ontem à noite uma sessão no Centro Comunitário Gay e Lésbico contou com quase cem pessoas discutindo literatura gay e lésbica. Se tivessem estado presentes, as pessoas que se preocupam em dizer aos gays que eles deveriam deixar de falar do assunto porque ele é irrelevante, talvez tivessem percebido o que é debater e construir em colectivo identidades pessoais directamente relacionadas com questões sociais "grandes" como a definição e regulação da sexualidade e do género. Às vezes há menos paciência para os "tranquilos de esquerda" que querem impingir-nos a sua acomodação do que para os marialvas homofóbicos, como os que comentam anónima, cobarde e violentamente, a notícia no "Público" sobre adopções por casais do mesmo sexo.
Li "Olhos de Cão" do (suponho) luso-norueguês Daniel Skramesto (o "a" tem uma bolinha por cima e lê-se "o", o "o" tem um traço por cima e lê-se como um o com trema...). Nos últimos tempos as editoras "conceituadas" começaram a prestar atenção à literatura de temática gay em português. O último que li dentro do género foi o excelente "Pode um Coração Imenso" de Frederico Lourenço, na Cotovia. Ambos os autores fazem o que lhes compete: escrever a partir das realidades que conhecem. Para nós - público e sociedade - é pena que os universos retratados sejam tão intelectuais e universitários, quando a orientação sexual é atravessada, entre outras coisas, pela classe (sim, há gays operários, rurais, pobres, and so on). Talvez menos conseguido de um outro ponto de vista que aprecio - uma novela com uma narrativa em que as personagens se apresentam complexas e sujeitas a mudanças -, "Olhos de Cão" foi, todavia, escrito com uma agilidade, veracidade e economia notáveis. Vale a pena, e "que mil ficções gay floresçam".
Já agora, qual a intenção ao ter escolhido este título para esta página? "Os Tempos que Correm" é o título de um livro que publiquei, coligindo crónicas que saíram no "Público" nos anos noventa do século passado. Quis recuperar o título, pois acho que tem tudo a ver com formas de comunicar e disponibilizar opinião que não precisam de esperar pelo papel e a livraria. Aquelas crónicas - e depois as da minha homepage e, agora, este "diário" - já denotavam a prisão em que me vejo e a liberdade em que me revejo, nas fronteiras pouco claras entre ser antropólogo, cronista, militante e activista e até mesmo ficcionista amador. "Diário de campo" é a expressão que se usa na minha profissão para referir as notas pormenorizadas e densas que o antropólogo vai tomando durante o trabalho de campo (a sua vivência com os grupos ou pessoas cuja cultura estuda). Nada me leva a crer que o sítio onde vivo e as pessoas e forças que me rodeiam sejam menos exóticas do que aquelas a milhas de distância daqui. Como, além disso, sou cidadão desta República, posso fazer das observações acções. Deixo de ter que ser "neutro" e passo a ser "interveniente". A maneira melhor de o fazer num contexto que não é científico é manifestando o que se acha mesmo, ao arrepio de sensos comuns de todo o tipo. A essa atitude gosto de chamar "terrorismo cultural". Ela vem "explicada" em duas crónicas de 2002 e 2003. Aqui não surgirão textos "científicos" (a não ser referências a eles) nem acções políticas concertadas com as gentes do meu partido, nem com as do movimento social em que sou activo Finalmente, esta página não foi pensada exactamente com a ideia de ser um fórum de discussão gerido por mim, mas mais como um diário em aberto, um "livro" em construção permanente, onde os comentários e a discussão dos assuntos abordados são bem-vindos. Ah, mais uma coisa: o co-título em inglês não é pedantismo: por vezes escreverei em inglês, ou porque essa língua é mais expressiva para certas coisas, ou por querer "atingir" pessoas que não percebem português.
Bem sei, bem sei, o sorriso na foto é um pouco estranho, mas é do que a casa gasta... Apenas quis que vissem a cara por detrás das palavras (Comentário possível: "vocês na esquerda são muito colectivistas mas, no fundo, não resistem ao individualismo..."). Sobretudo, quis que vissem o que é estar numa rua onde a bandeira do arco-íris marca uma zona "libertada" (um dos efeitos benéficos do "politicamente correcto"). A cidade é São Francisco e o bairro o Castro. E a bandeira é a bandeira do movimento gay (mais exactamente: queer) e NÃO a dos pacifistas italianos que vimos nas manifs anti-guerra (bem sei que eles adicionaram a cor branca, mas mesmo assim deveriam pagar direitos). Já agora, um comentário sobre a questão do individualismo e da autoria: recentemente ouvi uma mulher dirigir-se a uma plateia num congresso político usando a expressão "Bom dia, pessoas!"; explicou, então, que não queria usar nem "companheiros", nem "amigos" ("camaradas" parecia estar fora de questão por outras razões...), mas a única expressão que, sendo neutra no género, se apresenta como feminina. Descobri depois que a expressão é boa por outra razão: é que permite conciliar o colectivo a que se dirige e o facto de os colectivos serem (também) constituídos por indivíduos. A diversidade e a individualidade devem ser contempladas no pensamento e na prática da esquerda. Trata-se, afinal, da teoria da "estrelinha com cabeça".
Segundo o "Público" de hoje, a Nova Democracia de Manuel Monteiro posiciona-se contra o pensamento "politicamente correcto". Chegou, pois, aos estatutos de um partido, a atitude bizarra de denegrimento do "pc". Não há criatura hoje em dia em Portugal que não diga "agora vou ser politicamente incorrecto" ou "não tenho paciência para o politicamente correcto". Como se vivessemos num país fantástico, cheio de liberdades cívicas e igualdade de direitos, onde já se pudesse começar a manifestar algum enfado com exigências antigas em torno dos mesmos. Por outro lado, a expressão "pc" está a ser usada entre nós para querer dizer "moralista", "puritano", "subserviente ao pensamento dominante". Convém explicar a coisa: a expressão nasceu nos EUA há uma data de anos para descrever propostas de alteração na linguagem oficial (e do quotidiano, por arrasto), de modo a promover o reconhecimento de identidades marginalizadas, excluídas ou minoritárias. Esta postura reconhecia a importância da linguagem na formatação do mundo. Pense-se, por exemplo, em como é positivo que as crianças sejam ensinadas a achar feio chamar "maricas" ou "escarumba" a um gay ou a um preto/negro (consoante o termo que os próprios queiram atribuir-se). É claro que a militância em torno de propostas novas leva a algum cansaço, típico dos períodos de habituação. Por isso, auto-ironicamente, se publicaram os famosos contos de fadas politicamente correctos, em que a Branca de Neve era a "jovem mulher desafiada em melanina". Mas com que direito (e lata!) as pessoas de um país retrógrado como o nosso imitam a gozação com uma coisa que não chegou sequer a instalar-se entre nós? É que ao fazerem-no estão a abortar qualquer hipótese de se alterarem os nossos hábitos linguísticos - que são, de facto, parte constituinte da criação de representações e categorias. São "discurso". Por tudo isto não admira que seja na Nova Direita (perdão, democracia) que a coisa ganha foros de letra de lei (já agora, também lá diz que são contra o "pensamento único". Meus caros novos democratas: "pensamento único" usa-se para descrever a cartilha neo-liberal. A direita é óptima a canibalizar as ideias da esquerda, regurgitando-as como o seu contrário...).
Há já algum tempo que ando a escrever crónicas na minha homepage (http://valedealmeida.no.sapo.pt). No entanto, a correria dos tempos nem sempre ajuda a parar para pensar e escrever textos bem estruturados. Como complemento, resolvi abrir este blog, para os comentários e os desabafos de (quase) todos os dias. Vamo-nos encontrando por aqui?